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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

o filho mais novo

tem quase sempre a razão.

SINFONIA SONHO ÚLTIMA APRESENTAÇÃO

fizemos nossas três primeiras apresentações dentro da XI MOSTRA DE TEATRO DA UFRJ. foi amazing, grace.

Um comentário:

Daniel Carfa disse...

Sinfonia pra Ver-de novo

Senti a necessidade de escrever para vocês.
Geralmente não faço isso. Não gosto. Acho que é desinteressante!
“Sinfonia Sonho”.
A gente entra no teatro e já se depara com uma imagem forte, bonita, estranha, reta, das famílias em suas cadeiras. Vemos aquele quadro no fundo. As famílias “enfrentam” o espectador. A guerra já está declarada. Algo já está acontecendo.
Um xis verde corta o chão, duas linhas se cruzam. Dois corredores. Verde. (Aquela cor que amadurece até ficar vermelha).
Depois entra o diretor (uma espécie de Deus) ali na estória. Lendo as rubricas-texto, tentando controlar, manter a ordem. (Thomas, Deus existe sim!).
E o que vemos numa noite é uma grande orquestra tocando a sua música. Numa casa que não tem parede. Apenas chão e cadeiras. Poucos móveis.
É uma grande faca cortando nosso chão, nos tirando da cadeira.
Só consegui dormir às quatro da manhã.
Imagens da peça pipocam na minha cabeça e desaparecem que nem criança. Elas vão e voltam.
Fui embora sozinho pra casa depois, me sentindo meio estranho, meio cruel com as pessoas, com a vida, com o mundo.
Eu me vi ali, sentado naquelas cadeiras, porque a gente tem uma certa violência, a gente convive com ela. Ela está na mesa de várias famílias, das nossas, ela convive. Desde a forma como você passa o sal na mesa até um assassinato em série. A gente convive com a falta de carinho. A gente é bruto.
Existem as guerras dentro da gente e fora. No mundo.
“Sinfonia Sonho” é uma grande metáfora das nossas famílias despedaçadas e das nossas micro-utopias e ao mesmo tempo do nosso mundo, cidade, despedaçado e degradado.
Pessoas que não percebem o que estão acontecendo com elas.
Sinfonia é aquele fio de música no final, aquele fio que vai sumindo e que é cortante, que incomoda os ouvidos, que fura.
Sinfonia é absurdo, é uma peça do absurdo social, situacional e comunicacional. Pra mim é. E daí?
Sinfonia é pra dançar (a movimentação dos atores é linda, a simultaneidade está presente quase que numa espécie de coreografia, o corpo está ali de uma forma macia, fluida, severa, escorrendo feito um sangue). Polifonia da mais pura poesia. Famílias onde quase ninguém se encosta.
Sinfonia são fantasmas do mundo que nos cercam, que nos vigiam.
Sinfonia é a nossa sociedade sendo espetacularizada.
É sensacionalista (as repórteres numa espécie de coro grego) narrando as nossas tragédias, brincando com o nosso mundo.
Sinfonia é Thomas, que cerca a casa, que corta a cena, que se enrosca nos móveis, no quintal, feito um gato ou um cachorro. Um animal de estimação que fica em cima do telhado.
Sinfonia é Nelson, é Almodóvar, é Babenco, é Liberano, é Maria, é Martins, é Gato, é Nilsen, é Machado.
Sinfonia é um sonho que a gente sabe muito bem como é. Pois é mais pura realidade.
Sinfonia é o “nosso pé de maracujá” que precisa ser curado. Tomar remédio.
Sinfonia é a falta de carinho: “pega esse dinheiro e compra um jantar”.
Sinfonia é desejo: “como é que a gente faz pra ser aquilo que a gente quer?”.
Sinfonia é dissimulação: “sejam bem vindos, os vizinhos são sempre a família que mora ao lado”.
Sinfonia é dor: “tudo que termina em dor rima com tumor”.
Sinfonia é fé: “Deus não existe”.
Sinfonia é crueldade: “Kevin furou os meus olhos”.
Sinfonia é perturbação: “Não existe filho nenhum”.
Sinfonia mostra diante desses dramas que precisamos crescer. Amadurecer. Ser gente. E que sente.
“Sinfonia Sonho” graças a “Deus” não é uma estandape comédia, mas sim, o que o teatro pode produzir de melhor para a sabedoria humana ao desvendar seus conflitos afetivos, moral, político. A direção do Diogo é seca, direta, por isso um primor de direção. Ada, Laurinha, Vic, Márcio, Andrêas, Dan e Gunar são os "Prometeus" que conduzem o fogo da sabedoria desse texto para nós mortais com muita sensibilidade e sabedoria em suas interpretações. Amei. Chorei. Beijos. O sonho virou realidade. E a Sinfonia vai ficar no “repeat” por muito tempo, vocês vão ver.

Daniel Carfa- ator