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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

“A necessidade da ficção”

O início do processo foi apenas leitura, levantamento e abandono de referências. Cuidei de ler repetidas vezes o capítulo eleito referência inaugural. Trata-se de um texto filosófico repleto de referências externas as quais, em sua maioria, eu não conhecia. De setembro a dezembro de 2010, As Máquinas Desejantes foi comigo para todos os lados. A leitura se repetia mais pela minha incompreensão do que por outro motivo. Como é possível essa obra me prender nela mesma se eu nem sequer a compreendo? Eu me fazia essa pergunta, porque fazia tempo que eu não tinha essa relação com outra obra, qualquer que fosse. E então eu segui lendo e me lançando por sobre todas as referências que O Anti-Édipo me apresentava. Destas, destaco aquelas que foram determinantes: a obra O Pensamento Selvagem, de Claude Levi-Strauss e a obra Memórias de um doente dos nervos, de Daniel Paul Schreber. Com a obra de Levi-Strauss, o conceito de bricolagem se apresentou e, de imediato, se mostrou determinante ao processo. Naquele momento, bricolagem se resumia ao jogo de colar partes distintas e não necessariamente combinantes. Pensar este conceito me estimulava a seguir juntando elementos que, mesmo distintos, me capturavam a atenção. Da mesma forma eu juntei este conceito ao processo e acreditei que ele pudesse revelar sua serventia no decorrer da criação. Já pela obra de Schreber, Deleuze e Guattari evidenciam um caso agudo de esquizofrenia, tema presente no subtítulo de O Anti-Édipo – Capitalismo e Esquizofrenia 1. Schreber foi a pessoa/personagem a partir da qual os dois filósofos desenharam a lógica do homem como alguém naturalmente esquizofrênico, ou seja, como aquele que está em profunda relação com tudo ao seu redor.

Em outubro de 2010 eu criei o blog do espetáculo[1], visando juntar nele tais referências e as primeiras reflexões a partir destes encontros. Ao mesmo tempo em que lia tais livros, estive também atento aos jornais, recortando notícias que me parecessem interessantes e prenhes de dramaturgia. Era dezembro de 2010 quando numa outra livraria, me percebi segurando livros muito pesados (em todos os sentidos). Tinha uma obra de Freud, outra de Carl Gustav Jung, outra de Friedrich Nietzsche e, por último, outro livro de Deleuze. Lembro-me que apoiei os livros numa bancada e ali os abandonei, exigindo-me comprar um romance, para ler outra coisa que não mais conceitos e filosofia. Foi então que me lembrei da capa de um livro que eu sequer lembrava o título. Revirando prateleiras encontrei perdido um único exemplar do romance Precisamos falar sobre o Kevin, da escritora norte-americana Lionel Shriver. A capa, gravada em minha memória, apresenta a imagem de uma criança de pé numa estrada de terra, vestida numa calça jeans com camisa de manga comprida e tênis. Por sobre o seu rosto, porém, ao invés de um gesto infantil há a face de um lobo. Essa imagem, durante anos, me instigou sem que eu nem soubesse do que se tratava o romance.

Precisamos falar sobre o Kevin é um romance que reúne cartas de uma mãe, Eva, a seu marido, Franklin. Eva é mãe de Kevin, mais velho e Célia, nascida depois. Um pouco antes de completar 16 anos, Kevin comete um massacre em sua escola, assassinando cerca de duas dezenas de pessoas, entre amigos de classe, funcionários da escola e professores. O romance parte da seguinte premissa: é possível odiar o próprio filho? Num misto de fatos reais e ficção, Shriver traz a tona temas e questões que, tão logo eu li, rapidamente soube que não teria mais como deles me ausentar. Comprei o livro e junto ao O Anti-Édipo passei o fim de ano entre uma obra e outra. E eis que o tal romance rebateu durante todo o momento aquilo que eu vinha lendo na obra de Deleuze e Guattari. Era como se o romance, por inteiro, fosse um exemplo claro dos conceitos criados pelos dois outros autores (sobretudo “máquinas desejantes” e “corpo sem órgãos”).

Ainda era dezembro e eu já me percebendo ansioso para encontrar alguma dramaturgia na qual aportar. As ideias se multiplicavam dia após dia e no blog eu registrava o nascimento e a morte de inúmeras certezas. Em uma semana, antes mesmo do fim do ano, eu já havia convertido todo o romance em dramaturgia. Foi um ótimo exercício de escrita: subtraí algumas tramas, mesclei personagens, fiz um grande corte e propûs novas costuras. No papel, eu já conseguia vislumbrar uma sequência muito interessante de estados e intensidades pelas quais em breve eu planejava me lançar. Ainda no papel, um jogo a ser jogado com bons atores ia se discernindo. Mas, eu sabia, era necessário ter bons atores. Sem eles não daria para brincar aquele tipo de brincadeira. Por isso, antes mesmo do ano acabar, eu já havia convidado cinco atores. Eu dizia apenas que estava em busca do que seria, mas que partiria de uma obra de Félix Guattari e Gilles Deleuze. Em todos os convites feitos, era claro um desejo mútuo de compartilhar o ofício teatral.

Muito tempo depois eu parei para refletir que havia convidado um elenco sem saber qual seria a peça. Não que eu não soubesse, mas o que estava se anuncia era uma espécie de inversão do processo. Geralmente se escolhe uma obra para, em seguida, escolher os atores para encená-la. Com Sinfonia Sonho, primeiro vieram os atores. Conscientemente ou não, hoje posso dizer que desde sempre esteve em jogo uma tentativa tremenda para resignificar os lugares de direção e atuação. Pareceu-me extremamente necessário retirar da figura do diretor a ciência de todos os fatos, bem como tirar o ator da função de quem apenas aguarda paciente pelo desenho preciso de sua ação. Essa aposta – sem nome – seria um dos pilares da criação.

Terminado o ano de 2010, eu havia realizado inúmeras leituras do capítulo As Máquinas Desejantes, havia feito uma adaptação dramatúrgica do romance Precisamos falar sobre o Kevin, convidado um elenco composto por dois atores e três atrizes e criado um blog, no qual a postagem de referências e reflexões foram se tornando exercícios diários de escrita e criação. Eu havia decidido que contaria uma história. Tal história o romance contemplava. Eu acreditando, pela primeira vez, que talvez pudesse ser bom ir ao teatro para acompanhar alguma história ser contada. Para além da forma, para além da crise do conteúdo e da linguagem, eu decidi que era necessário – dentro da minha trajetória acadêmica – narrar um acontecimento dentro do qual as personagens espelhassem a vida. Esta seria, de fato, a minha tal parcela “clássica”. Mas, a encenação seria provavelmente um filtro que transtornaria a fidelidade deste espelho. Se viria a distorcer ou aumentar ou intensificar os traços, não me importou saber nem dizer. Ainda não era o momento para isso. Neste ponto do processo, me lembro, a minha grande questão era transitar entre paciência e ansiedade, compreendendo ao mesmo tempo em que aceitando que o processo, por vezes, teria um tempo muito próprio. E que caberia a mim entender seu movimento para decidir qual seria o momento mais apropriado para agir.

 
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Capítulo 3 do Memorial do Espetáculo, entregue como conclusão da disciplina Projeto Experimental em Teatro.

sábado, 28 de maio de 2011

Análise das Máquinas > 03/06

CAPÍTULO 1
AS MÁQUINAS DESEJANTES

O gozo e o sujeito

Máquina Celibatária. A terceira síntese: síntese conjuntiva ou produção de consumo. Afinal... <

A produção de registro é produzida pela produção de produção. A produção de consumo (produzida pela produção de registro e na produção de registro) segue ao registro. Há na superfície de inscrição algo da ordem de um sujeito que nasce e renasce dos estados que ele próprio consome: “Afinal sou eu, afinal pertenço-me...”.

Toda a produção desejante é imediatamente consumo e destruição, logo “volúpia”. Tal como parte da libido como energia de produção se transformou em energia de registro (Numen), há uma parte desta que se transforma em energia de consumo (Voluptas). Esta energia residual anima a terceira síntese do inconsciente: a produção de consumo ou síntese conjuntiva do “afinal...”.

A repulsão do corpo sem órgãos às máquinas desejantes, tal como na máquina paranóica do recalcamento originário, deu lugar a uma atração na máquina miraculante. Mas entre atração e repulsão a oposição persiste fazendo necessária nova máquina à reconciliação (ao “retorno do recalcado”). Freud sublinha a viragem de Schreber que após sua transformação em mulher envereda para uma auto-cura que o leva à identidade Natureza = Produção (produção de uma humanidade nova).

Chamemos “máquina celibatária” a que sucede à paranóica e à miraculante. Como nova aliança entre as máquinas desejantes e o corpo sem órgãos. O sujeito é produzido como resto, ao lado das máquinas desejantes, ou ele próprio se confunde com esta terceira máquina e com a reconciliação residual que ela opera: síntese conjuntiva de consumo, sob a forma maravilhosa de um “Afinal era isto!”. A máquina celibatária manifesta um poder solar, um prazer auto-erótico onde se celebra uma nova aliança como se o erotismo maquinal libertasse outros poderes ilimitados.

Matéria, ovo e intensidades: sinto <<

O que se produz através da máquina celibatária? Quantidades intensivas em estado puro a um ponto quase insuportável (numa experiência esquizofrênica). Fala-se de alucinações e delírio, mas o alucinatório (vejo, ouço) e o delirante (penso...) pressupõem um Sinto mais profundo.

Estas intensidades vêm da repulsão e atração e da sua oposição. São positivas a partir da intensidade = 0 (que designa o CSO), produzindo uma série de elementos intensivos que exprimem um número ilimitado de estados estacionários por que passa um sujeito. Essas quantidades preenchem a matéria sem vazio em graus diversos.

O CSO é um ovo atravessado por eixos e limiares, latitudes, longitudes, geodésicas r gradientes que marcam transformações, passagens e destinos do que nele se desenvolve. Nada nele é representativo, tudo é vida e vivido. Experiência dilacerante, demasiado comovente, que torna o esquizo o ser mais próximo de um centro intenso e vivo da matéria.

Como foi possível dar ao esquizo a figura desse estado de um CSO morto? O esquizo (que se instala nesse ponto insuportável em que o espírito toca a matéria, e vive, consome cada uma das suas intensidades) foi reduzido pela psicanálise a um neurótico que consome eternamente o papá-mamã.

Os nomes da história <<<

O consumo de intensidades puras é estranho às figuras familiares. Podemos dizer que sobre o CSO os pontos de disjunção formam círculos de convergência em torno das máquinas desejantes; então o sujeito (produzido como resíduo ao lado da máquina, apêndice ou peça adjacente à máquina) passa por todos os estados do círculo e de um círculo ao outro.

O próprio sujeito não está no centro, ocupado pela máquina, mas nos contornos, sem identidade fixa. Ou mais complexo: através da máquina paranóica e da máquina miraculante, as proporções de repulsão e de atração sobre o CSO produzem na máquina celibatária uma série de estados a partir de 0; e o sujeito nasce e renasce (o estado vivido é o primeiro em relação ao sujeito que o vive).

O sujeito, cujo eu desertou do centro, estende-se por todo o contorno do círculo. No centro a máquina celibatária (do desejo) do eterno retorno. Não a identificação com pessoas, mas a identificação dos nomes da história com zonas de intensidade sobre o CSO; e o sujeito grita sempre “Afinal sou eu!”. Nunca ninguém fez tanta história como o esquizo que consome de uma só vez a história universal. Começamos por defini-lo como Homo natura, e ei-lo, agora, Homo historia.

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Diogo Liberano

sábado, 16 de abril de 2011

Análise das Máquinas > 02/06

CAPÍTULO 1
AS MÁQUINAS DESEJANTES
O corpo sem órgãos

A anti-produção <

O respirar das máquinas desejantes é insuportável ao corpo sem órgãos. É como se a ação primeira das máquinas fosse organizar o corpo. Por isso, o corpo sem órgãos oferece às máquinas desejantes um forte contraponto. A elas, ele oferece sua indiferença, a sua inarticulação, sua improdutividade.

Repulsão e máquina paranóica <<

Talvez seja esse o sentido do recalcamento dito originário: a repulsão que o corpo sem órgãos tem em relação às máquinas desejantes, o movimento de não responder às solicitações desejantes.

Assim, a máquina paranóica nasce justamente dessa reação repulsiva do corpo sem órgãos às máquinas desejantes (tidas como aparelho de perseguição). A máquina paranóica nasce na oposição ao processo de produção das máquinas desejantes. A máquina paranóica é portanto uma transformação das máquinas desejantes resultante da impossibilidade de o corpo sem órgãos suportar as máquinas.

Produção desejante e produção social: como é que a anti-produção se apropria das forças produtivas <<<

A produção social também gera seu corpo sem órgãos, seu improdutivo, um elemento de anti-produção ligado ao processo, um corpo pleno denominado como socius. Pode ser o corpo da terra, o corpo despótico ou o próprio capital. (Marx afirma que o capital não é o produto do trabalho, mas se revela como se fosse seu pressuposto natural e divino). O capital se constitui como uma superfície sobre a qual todos os agentes de produção são rebatidos, de modo que se apropria do sobreproduto e atribui a si próprio o conjunto e as partes do processo, que parecem emanar dele. Forças e agentes (de produção) parecem ser miraculados pelo capital.

No mesmo sentido, o socius se articula como corpo pleno no qual toda a produção é registrada e do qual toda a produção parece emanar. A sociedade constrói o seu próprio delírio. O capital é o corpo sem órgãos do ser capitalista. E é no capital que se engatam as máquinas e agentes de produção, de modo que seu funcionamento é miraculado por ele. Tudo enquanto quase-causa ­do capital. O uso do capital como corpo pleno para formar a superfície de inscrição ou de registro... um movimento objetivo aparente, um mundo perverso enfeitiçado fetichista, pertencem a todos os tipos de sociedade como constante da reprodução social.

Apropriação ou atração, e máquina miraculante <<<

Uma máquina de atração pode suceder uma máquina repulsiva. Ou seja, do conflito repulsivo entre máquinas desejantes e corpo sem órgãos, pode haver uma atração. Uma máquina de atração (máquina miraculante) depois da máquina repulsiva (máquina paranóica).

As duas coexistem, porque o corpo sem órgãos serve de superfície para o registro de qualquer processo de produção do desejo. O corpo sem órgãos como superfície encantada de inscrição ou de registro que se atribui a si próprio todas as forças produtivas e os órgãos de produção.

A segunda síntese: síntese disjuntiva ou produção de registro. Quer... quer. Genealogia esquizofrênica <<<<<

Quando as conexões produtivas passam das máquinas ao corpo sem órgãos (como do trabalho ao capital), elas são submetidas a uma lei que exprime uma distribuição em relação ao elemento não produtivo enquanto “pressuposto natural ou divino”. O “quer... quer” esquizofrênico transformar-se no “e depois”. A maneira como os órgãos estão engatados ao corpo sem órgãos deve ser tal que todas as sínteses disjuntivas entre os dois conduzam ao mesmo sobre a superfície deslizante.

A síntese disjuntiva de registro oculta, portanto, as sínteses conectivas de produção. Se chamamos libido ao conectivo da produção desejante, devemos dizer que uma parte dessa energia se transforma em energia de inscrição disjuntiva (Numen). Transformação energética. Freud acentua a importância dessas sínteses disjuntivas nos delírios gerais e nos de Schreber: “Tal divisão é característica das psicoses paranóicas. Estas dividem, enquanto que a histeria condensa. Ou antes, estas psicoses resolvem de novo, nos seus elementos, as condensações e as identificações realizadas na imaginação inconsciente”.

As disjunções são a forma da genealogia desejante; mas será esta genealogia edipiana, deverá esta genealogia se inscrever na triangulação de Édipo? Não será o Édipo uma exigência ou uma consequência da reprodução social, enquanto esta pretende domesticar uma matéria e uma forma genealógicas, que lhe escapa completamente?

A produção desejante forma um sistema linear-binário. O corpo pleno sem órgãos entra nesta série como um terceiro termo (produzido como anti-produção e em constante recusa a qualquer tentativa de triangulação que implique uma produção familiar). É sobre o corpo sem órgãos que o Numen se distribui e onde se estabelecem disjunções independentemente de qualquer projeção.

É certo que o esquizofrênico é um interpelado nos códigos vigentes. O esquizofrênico por vezes entra no jogo psicanalítico e o faz estourar por dentro (sim, é minha mãe, mas a minha mãe é precisamente a Virgem). O esquizo dispõe de modos muito próprios de referência, dispõe de um código de registro particular que não coincide com o código social ou que só coincide com ele para parodiá-lo. O código delirante ou desejante apresenta uma fluidez extraordinária. Dir-se-ia que o esquizofrênico passa de um código a outro, que baralha todos os códigos, num deslizar veloz, conforme as questões que lhe são postas, não dando nunca duas vezes seguidas a mesma explicação, não invocando nunca a mesma genealogia, não registrando nunca do mesmo modo o mesmo acontecimento.

É assim que os agentes de produção se colocam sobre o corpo de Schreber, se suspendem nele, tal como os raios do céu que ele atrai e que contêm milhares de pequenos espermatozóides. Raios, aves, vozes, nervos, estabelecem relações permutáveis de genealogia complexa com Deus, com as formas divididas de Deus. Mas é no corpo sem órgãos que tudo se passa e se registra como os piolhos na juba do leão.

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Diogo Liberano

Encontro Três

Livraria Prefácio
Diogo, Thaís, Andrêas, Laura, Adassa, Márcio, Virgínia e Daniel.

- o corpo sem órgãos
- o corpo pleno sem órgãos
- máquinas desejantes, dialéticas, esquizofrênicas, dialógicas…
- produção desejante/delirante
- não há mocinho nem vilão (o cso e as máquinas desejantes estão agindo a todo o momento – para ler o anti-édipo é preciso sair da esfera de causação)
- segunda síntese: síntese disjuntiva ou produção de registro
- o quarto ponto – ficção – nesse triângulo
- dia 30 de abril – 17h – 3. o sujeito e o gozo
- “algo assim, melhor do que eu”
- mãe, quero ser música
- hipoglicemia
- sistema digestivo e seus órgãos
- deus como o cso do clérigo
- estamos exemplificando tudo (começar talvez a se acostumar com abstrações)
        

domingo, 27 de março de 2011

Encontro Dois

Café Doce Momento - Copacabana

- sensorialidade;
- responder ao fluxo;
- somos diferentes uns dos outros da mesma forma que somos iguais;
- corte é quando você interrompe um fluxo?;
- corte como registro;
- o corte é uma extração de fluxos;
- interpretar o mundo a partir de seu próprio fluxo;
- “entrar em contato”;
- Lavoisier (“nada se cria tudo se transforma”);
- automatismo, alienação,
- o enorme objeto não identificado é o corpo sem órgãos?;

- […]

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

sonho

Márcio, Virgínia, Daniel, Laura e Adassa,

O que eu tenho para contar a vocês é o meu sonho. Eu diria o meu filho. Eu acabei de acordar, é sério. É muito estranho. Eu estou diante do computador. Tem uma caneca com leite muito gelado. Um pote com biscoitos de damasco sem açúcar e três passatempos (eu comi já um) recheados. Estou hipoglicêmico (acabei de medir a minha glicemia, sou diabético, deu 46). Ou seja, estou trêmulo e nervoso, porque não sei se consigo acreditar em tudo o que aconteceu em menos de cinco minutos. E seria bom que eu conseguisse acreditar, porque aconteceu.

Aos poucos escrevendo, eu acho que vou perdendo o incrível da coisa. Mas é que eu sonhei com a gente. E estar hipoglicêmico faz com que as coisas não se distinguam muito. Por isso a sensação de ainda estar sonhando. Eu acordei com essa frase na cabeça "Márcio, Virgínia, Daniel, Laura e Adassa, o que eu tenho para contar pra vocês é o meu filho". Caralho, e eu ali deitado pensando (gente, será que eu não vou errar os nomes. e os nomes de vocês vindo corretos, sem medo).

Gente, eu tô muito assustado. Não se assustem. Mas tive um sonho. Ou sei lá. Logo eu, que fui dormir para descansar a cabeça e esquecer um pouco do excesso de responsabilidades. Eu fiquei preso no sonho e tudo então parece ter feito sentido para a nossa ficção, para a nossa peça, para a nossa história. Não há erros. O que conto acabou de acontecer. Eu me assusto porque está durando e eu aqui já escrevi tudo isso sem me esquecer de nada.

O ventilador. Eu confesso, estava dormindo nu, sob o vento. E então (e isso acontece), o meu corpo vai me acordando quando está hipoglicêmico, como se quisesse se proteger e dizer (ei, vai acordando cara, você vai morrer se continuar dormindo, vai acordando...). E me acorda. Só que eu havia posto o celular para despertar às 23h, exatamente. Só que acordei e já são 00h18 da segunda-feira dia 14 de fevereiro de 2011 e nada do despertador ter tocado. Não há sinal de que tocou (eu não ouvi) e mexi ingenuamente nele e ele está apático, como se nada tivesse acontecido.

O tempo quis me enganar. Não tocou, não gritou. Nem fez nada. Por um segundo, no sonho, quando vocês me vieram, pareceu que tudo o que eu tinha sonhado era tudo o que eu tinha para contar a vocês, para dividir. Mas dai a lembrar o sonho de fato eu não vou conseguir. Estou aqui pensando, será que todo esse escândalo que eu estou fazendo é para nada, será que tudo isso foi dito enquanto pensava? Sim, de fato, agora me convenço rapidamente de que sim, foi pensamento e não simplesmente sonho. Mas,

e sempre haverá um "mas". Eu não posso negar a energia do meu corpo hipoglicêmico (e um pouco sem pâncreas) ao me agitar tudo isso para em seguida ainda me permitir fazer teoria sobre. Meu deus, me sinto um pouco Schreber. Que terror. Meu estômago dói. Eu vou parar. Eu estou assustando vocês. Enfim,

Durante a medição da glicemia, quando eu devo perfurar um dedo para que saia sangue, eu furei meus dedos seis vezes até que saísse sangue. Na quarta, eu pensei, será que vou ter que furar mais um dedo até dar cinco furos, um para cada ator? Na quinta, quando eu furei e não saiu nenhum sangue (como nas anteriores), eu pensei: bom, acho que estarei em cena novamente. Furei o dedo e saiu o sangue. Enfim, eu estava no auge da minha tremedeira. Não reparem.

Obrigado pelo encontro. Um lindo filho se anuncia adiante
e é nosso,

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Diogo Liberano

terça-feira, 23 de novembro de 2010

fuga (do textocentrismo)


sem querer eu me vejo fugindo do texto. não porque queira evitá-lo ou porque artaud e seu teatro da crueldade me fizeram querer tentar outro tipo de palavra, de texto. não é isso. eu neste momento estou fugindo do texto porque não o tenho ainda. e porque também não estou a buscá-lo. assim, eu diria, é natural parecer que estou fugindo. é natural fazer parecer que não estou nem ai para um texto, dramaturgia ou punhado de palavras.

e indo assim nesse sentido, tenho redescoberto alguma necessidade real. tenho pensado no que há no texto que me seja essencial e que me faça querer tê-lo de novo outra vez. ao mesmo tempo (é terrível, eu sinto) todo o texto feito de palavras pode ser pelo corpo reescrito. são línguas diferentes que podem dizer a mesma coisa. variam-se os meios. será mesmo? ainda duvido.

faz uma ou mais semanas que não leio O ANTI-ÉDIPO. estou correndo com outro projeto do teatro inominável e acabei dando um pause. engraçado, porque no artigo que publiquei anteriormente (do carlos diegues e que havia sido pescado para esta outra peça do inominável), o autor faz referência a édipo, num ponto preciso que faz a melhor tradução até agora do O ANTI-ÉDIPO para termos concretos.

ele diz que se não tivessem contado a édipo que sua mãe é jocasta, eles teriam vivido felizes para sempre. remonto ao primeiro período da faculdade quando descobria que o conhecimento é capaz de levar ao sofrimento. era essa a coisa dos trágicos. o saber. o quanto o saber poderia trazer certo júbilo e inevitável tristeza. estamos falando então da necessidade de ser ignorante? não. parece simples demais. mas existe alguma coisa ai que me sugere algo ainda nem de perto vislumbrado.

a ignorância possui em si certa sabedoria que nós, seres do saber, não soubemos ainda desvendar. talvez porque sua imagem - e nome - nos afastem demasiadamente rápido.

enfim, ao invés de palavras tenho pensado em imagens. há alguma necessidade minha por concretude. esse nome está me tragando e tudo então passa a lhe fazer referência. imagino dois, três atores em cena. e o que os costura é a sua capacidade de ser concreto, de intervir um no respirar do outro e de instaurar o desespero ou a salvação. eles - os atores - sendo concretos, sendo inteiros e certeiros. menos espaços para especulações e sim, dessa vez, mais verdades. ser verdade não quer dizer deter razão. ser verdade dentro de um contexto específico onde se crê veementemente naquilo que se diz e faz. ainda que não se tenha crença, de fato (o ator sendo o personagem).

não quero por agora falar de ator e personagem. quero falar da agonia que me toma ao ler freud teorizando a vida de schreber. quero falar da agonia que freud me dá quando vem dar sentido único à poesia de uma vida. quando vem dar nome-doença às idiossincrasias. freud está me enojando. e a seu despeito, creio mais em metáforas do que em diagnósticos.

talvez por isso esteja pensado mais em imagens do que em palavras. mais em atores do quem em textos.

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Diogo Liberano

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

história-destino

caramba. é realmente uma criação sobre chão móvel. nada está seguro e não vejo segurança no horizonte. portanto, é patinar. dançar sobre o escorregadio e escorregar, fluir para dentro de certas covas que não se sabe para onde serão capazes de levar.

falo de dramaturgia. falo da tal história. sem mais delongas, ponho hoje em dúvida: é um novo texto que irei escrever?; é uma dramaturgia contemporânea que ainda não conheci?; é um texto mais clássico sobre o qual vou me lançar?; é um texto clássico que vou reescrever para este instante em que aqui estou especulando?...

pode ser muita coisa. a abertura é dez vezes maior. por isso, calma. calma para ir tramando com calma aquilo que não pode ser pressa, posto exija amor, sobretudo, amar. sendo assim, registro essa pequena angústia que serve. que pontua com clareza exata o porquê de seu aportar.

que história é essa se já estou decidido que se trata de uma história para contar? deleuze e guatarri me alimentam na busca. na forma pela qual consigo agora enxergar o mesmo e dele fazer saltar aquilo ali que estava adormecido, amortecido, fantasiado, incapaz de fuder, de magoar...

acabamos de fazer quatro apresentações de NÃO DOIS e em dezembro uma temporada de seis apresentações de VAZIO É O QUE NÃO FALTA, MIRANDA. a leitura de MEMÓRIAS DE UM DOENTE DOS NERVOS está acabando comigo. é incrível demais. preciso dizer, ainda que sem nem entender o porquê - mas sinto - estou começando a implicar com freud.

falo de concreto. não mais metáforas. desejo duro e preciso. não mais sonhos. o último sonho será por fim desenhado e terá por nome encenação. por hoje é isso. amanhã mudamos tudo outra vez.

por último, estou fechando um elenco para uma peça que não sei qual será. de repente eu deva me reunir com eles e aumentar, assim, nosso campo de especulação. será?

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Diogo Liberano

domingo, 17 de outubro de 2010

nenhum personagem possível

ainda. eu tenho pensado: desta vez quero construir como dizem que tem que ser. quero experimentar a tal construção do personagem, experimentar a humanidade posta em cena, concentrada. experimentar isso ao cúmulo até fazer explodir. ir por dentro, ganhando a confiança e depois, como um terrorista, estimular o corpo (do ator, personagem) a ir se doar à perdição, ao auto-consumo, à explosão.

sim, não vai ser seguro. mas parece inevitável. sei que ler isso aqui pode estar confuso, mas a confusão é hoje minha realidade. mesmo. não há horizonte dramatúrgico possível, não há nenhuma história, não há nada a ser dito, aparentemente. toda a fábula ainda se esconde e se revela, como cabeças de golfinho perfurando o mar. isso é do artaud. talvez possa artaud finalmente me ajudar. ele com quem tenho flertado já faz tanto tempo, mas cujo universo de meus assuntos foram mesquinhos demais para a sua atormentância.

em resumo: tudo o que estou lendo está vindo e esboçando destinos possíveis. esboçando já cenas, já vontades, por vezes só efeitos. tudo querendo se fazer peça, tudo querendo ganhar foco corpo e texto. mas é cedo. ou não é. é cedo e mesmo assim sinto ser tarde. é seguir perfurando os livros e feito traça ir comendo letra por letra.
pontos de partida:
  1. O ANTI-ÉDIPO de Gilles Deleuze e Félix Guatarri;
  2. VAN GOGH - O SUICIDADO DA SOCIEDADE de Antonin Artaud;
  3. FREUD - O CASO SCHREBER E OUTROS TEXTOS de Sigmund Freud.
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Diogo Liberano