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quarta-feira, 29 de junho de 2011

a coisa da tragédia


sabe quando você fala uma coisa sem saber se é, mas mesmo assim, fala, porque sente que é seguro ir naquele som, naquela palavra, quase como fosse a tal palavra um mantra, uma coisa profética que vai dar exatamente onde a coisa toda vai dar?

pois então, ei-la: TRAGÉDIA,

sim, sou ignorante a isso. apesar dos anos de faculdade, não sei com propriedade sobre o assunto. estou aqui revirando os cadernos, comprando os livros que até então eram folhas xerocadas. caramba, eu sinto, eu sei, eu quero a tal da tragédia.

lendo O NASCIMENTO DA TRAGÉDIA, disse-me uma professora hoje: cuidado com isso. que bom ouvir isso. que bom. que preciso e necessário um toque desse pode ser. me deu a desconfiança necessária para confiar em mim e não no nietzsche, com quem tenho um caso meio assim assim não explicado.

a história de kevin beira a tragédia, o trágico, tem teor da tragicidade, é tudo isso e mais um outro. uma outra coisa. que eu ainda não sei, mas que não vejo a hora de desbravar dramaturgicamente.

este processo não será mais uma dramaturgia colaborativa. este processo em breve terá seu texto escrito e impresso. encadernado. eu escreverei essa ficção pelo prazer imenso que vai ser tê-la encenada num palco.

eu quero pirar na batatinha. eu tô com vontade de escrever essa parada. solto enfim algumas palavras para dinamitar aquilo que dentro, se move, feito fosse vento:

balão televisor vizinho fondue água espeto música travesseiro ventilador cortina irmã irmão mãe pai bolo tapa-olho festa som notícia jornal susto viagem guinada trovão mistério impossível poesia quântico

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terça-feira, 28 de junho de 2011

Encontro Seis

Espaço Unibanco de Cinema – Botafogo – 27/06/11
Diogo, Andrêas, Virgínia, Laura, Márcio, Adassa e Daniel.

- consertar e-mail adassa;
- centro cultural calaouste > espaço para ensaio;
- colégio andrews > espaço para ensaio;
- cia dos atores > espaço para ensaio;

o anti-édipo é o ser que quer ser música, disse adassa, semi-lacrimejante;
o complexo edipiano é um efeito de castração que destituem a criança de sua potência de vida;

agendamos 38 ensaio – sim, eu conto – até o início de outubro, quando tomamos para nós que pode vir a ser a nossa estreia.

contei a sinopse a eles, desbravei personagens etc e tal. sinto-me estranho. a parada toda tá fazendo muito sentido. tenho medo. enfim,

segunda-feira, 27 de junho de 2011

viagem

saí de são bernardo do campo no ônibus de 22h, cheguei faz pouco tempo. são 06h23 e ao contrário do que ditam as normas, não consegui ir dormir. culpa deste projeto. minha cabeça não dormiu a viagem inteira e ainda ressoa, repetitiva, tudo o que quer dar jeito. eu não sei se isso vai dar certo. mas, vamos lá. meu corpo tá aqui pra isso mesmo. no final das contas, é só o que me consome.

mudanças homéricas operando dentro da cabeça e no arquivo PROJETO SEM TÍTULO DOIS – Diogo Liberano.docx. o arquivo número um já perdeu a validade, mas deixa ele lá enquanto eu me divirto em criar outra coisa nesse aqui. eis um nome (não para a peça, nem para nada, apenas um nome): POR UM SIMBÓLICO QUE DÊ CONTA DESTA VIDA [http://lendoarvoreseescrevendofilhos.blogspot.com/2009/05/por-um-simbolico-que-de-conta-desta.html].

humm… como vocês, atores, nem sequer comentaram a primeira sinopse. me dei ao direito de ficar insatisfeito e buscar outra possibilidade. e eis que encontro. mas, ao mesmo tempo, também não vou sair entregando porque tá custando caro fazer filho hoje em dia. vou com calma.

ao meu lado, contrário a toda e qualquer calma, resta o parceiro de aventuras frederich nietzsche, com a origem da tragédia – proveniente do espírito da música. já há bastante informação nesta postagem. preciso me calar.

mas, sublinho algumas palavras: tragédia e música.

vou passar um café e escrever. até mais tarde.

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sábado, 25 de junho de 2011

a concepção de utopia

A principal razão pela qual vem a ser tão difícil localizar a utopia num futuro ligado de maneira crível ao presente por meio de uma transformação viável reside no fato de nossas imagens do presente não identificarem agente nem processos de mudança. O resultado é que a utopia entra ainda mais nos domínios da fantasia. Embora isso tenha a vantagem de libertar a imaginação da restrição daquilo que se pode imaginar como possível - e de estimular a utopia a exigir o impossível -, apresenta a desvantagem de separar a utopia do processo de mudança social, bem como de separar a mudança social do estímulo de imagens concorrente da utopia.

trecho de LEVITAS, R., 1990. The Concept of Utopia. London, citado em HARVEY, D. Espaços de Esperança. Tradução de Adail Ubirajara Sobral e Maria Stela Gonçalves. 4ª ed. São Paulo: Loyola, 2011. P. 250.

significante sem referente

O que o abandono de todo discurso da Utopia no campo da esquerda tem provocado é deixar em suspenso a questão da autoridade válida e legítima (ou, mais exatamente, deixá-la nas garras dos moralismos dos conservadores - tanto na variedade neoliberal como da religiosa). Essa renúncia deixou o conceito de Utopia, na observação de Marin, como um puro significante sem referente que faça sentido no mundo material. E para muitos teóricos contemporâneos - incluindo Unger - é nessa condição que o conceito pode e deve permanecer: como puro significante de esperança destinado a jamais adquirir referente material. O problema é no entanto o de que, sem uma visão de Utopia, não há como definir para que porto poderíamos querer rumar.

HARVEY, D. Espaços de Esperança. Tradução de Adail Ubirajara Sobral e Maria Stela Gonçalves. 4ª ed. São Paulo: Loyola, 2011. P. 248.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

"A profanação como crítica da ideologia"

Por Vladimir Safatle


Novo livro de Giorgio Agamben procura ser um tratado teológico-político às avessas


Há tempos, Giorgio Agamben vem construindo uma obra extensa que visa dar conta, entre outras coisas, da configuração contemporânea dos desafios próprios à ação política. Responsável pela edição italiana das obras completas de Walter Benjamin, ex-aluno de Heidegger, autor, juntamente com Deleuze, de trabalhos sobre teoria literária e filosofia, este professor da Universidade de Verona, nascido em 1942, é atualmente um dos filósofos mais relevantes de sua geração.
Uma das razões para tanto é exatamente sua capacidade em fornecer um quadro de análises para a situação sociojurídica que marca a política contemporânea. No entanto, esse quadro de análises foi acrescido de um pequeno livro responsável pelo esboço do que poderíamos chamar de “estratégias de crítica” que visariam desativar os dispositivos de poder na contemporaneidade.
Trata-se de “Profanações”, uma pequena coletânea de ensaios aparentemente díspares sobre temas “menores” como: a paródia, a pornografia, a etimologia da palavra latina genius, entre outros. A minoridade de seus temas é, entretanto, apenas aparente; ela é uma nuvem de fumaça que se dissipa quando inserimos “Profanações” em um espaço mais amplo composto pelas obras imediatamente anteriores de Agamben.


Biopoder e exceção


Durante muito tempo, Agamben foi visto, principalmente, como um filósofo capaz de articular reflexão estética, pesquisa historiográfica e um certo heideggero-hegelianismo a fim de dar conta de problemas maiores vinculados à linguagem em sua relação com a subjetividade. Mas, a partir dos anos 90, o filósofo italiano começa um longo movimento de desenvolvimento de outro campo de pesquisas. Partindo das vias abertas por Michel Foucault por meio das análises dos mecanismos de normatização da vida na sociedade contemporânea, Agamben colocou diante de si a tarefa de articular um amplo estudo sobre os desdobramentos dos dispositivos do poder.
Este é o objeto da série “Homo Sacer”. Dois livros desta série já estão disponíveis ao leitor brasileiro: “Homo sacer – O Poder Soberano e a Vida Nua” e “Estado de Exceção”. Há ainda um terceiro, “O Que Resta de Auschwitz”, que espera tradução. No cerne de tal projeto está a compreensão de que a política contemporânea é, necessariamente, uma biopolítica.
De fato, Foucault cunhara tal termo a fim de dar conta da centralidade, na consolidação do poder na modernidade, daquilo que o filósofo chama de “administração dos corpos” e de “gestão calculista da vida”. Uma perspectiva de análise do poder que encontrava raízes nas pesquisas foucaultianas a respeito do saber médico e dos dispositivos clínicos enquanto espaço privilegiado de operação de uma racionalização da vida que se invertia em dispositivo de dominação.
Mas, aos poucos, Foucault irá ampliar suas considerações. Tratava-se de sair do regime de economia restrita própria à reflexão sobre o saber clínico, isto a fim de alcançar a generalização de uma verdadeira genealogia do poder capaz expor a lógica de inversão da razão em dominação nas várias esferas de valores da modernidade. Isto foi feito, principalmente, a partir dos anos 70.
Seguindo os passos de Foucault, Agamben insistirá no fato de que tal transformação da vida humana em objeto do poder soberano implicou em sua redução à condição de pura vida biológica, vida pronta para ser administrada pelos dispositivos ordenadores do poder ou, ainda, “vida nua”.
Neste sentido, a contribuição mais importante de Agamben no interior do debate sobre as estruturas do biopoder consiste em mostrar como a vida nua vai progressivamente coincidindo com a integralidade do espaço político, no sentido de ela ser posta como a figura hegemônica da vida que pode aparecer no interior do espaço político. Agamben pensa, entre outras coisas, nas políticas de vitimização (baseadas na dissociação entre os direitos do homem e os direitos do cidadão) e em situações contemporâneas nas quais sujeitos são, cada vez mais, jogados em zonas de anomia.
No entanto, tal análise estaria incompleta se ela não se transformasse em uma reflexão sobre a configuração contemporânea do campo do jurídico. Pois um dos problemas que fica consiste em compreender qual a estrutura jurídica capaz de legitimar um poder que reduz a vida à condição de mera vida biológica. É neste ponto que se articulam os livros “Homo Sacer” e “Estado de Exceção”.
“Estado de Exceção” é um livro ousado sob vários aspectos. Um deles está na defesa da centralidade do estado de exceção enquanto paradigma de funcionamento das estruturas jurídicas que procuram normatizar o campo da política e da ação social.
Criada, em 1791, pela tradição democrático-revolucionária da Assembléia Constituinte francesa sob o nome de “estado de sítio”, a figura de um quadro legal para a suspensão da ordem jurídica em “casos extremos” aplicava-se inicialmente apenas às praças-fortes e portos militares. Em 1811, com Napoleão, o estado de sítio podia ser declarado pelo imperador a despeito da situação efetiva de uma cidade estar sitiada ou ameaçada militarmente.
A partir de então, vemos um progressivo desenvolvimento de dispositivos jurídicos semelhantes na Alemanha, Suíça, Itália, Reino Unido e EUA, que serão aplicados, durante os séculos 19 e 20, em situações variadas de emergência política ou econômica. O caso mais recente desta lógica de generalização do estado de exceção foi obra do governo francês que, no ano passado, como resposta às manifestações de descontentamento social nas periferias das grandes cidades, colocou o país sob situação de emergência.
Giorgio Agamben compreende tal desenvolvimento como a manifestação de um processo de generalização dos dispositivos governamentais de exceção. Processo este que teria sido o motor invisível das democracias ocidentais (o que Agamben tenta salientar ao aproximar a lógica da exceção e o problema do lugar do soberano nas teorias clássicas da filosofia política). Que o espectro da “suspensão legal” da lei, que este reconhecimento da lei que pode conviver com sua própria suspensão seja o “motor invisível” das democracias contemporâneas: eis algo que Benjamin indicara, mas que Agamben soube explorar como ninguém antes dele. Pois o esforço de Agamben consistiu em mostrar como o espectro da suspensão legal da lei é a contrapartida jurídica da transformação da política em uma zona de anomia no interior da qual os sujeitos não aparecem mais como sujeitos políticos, agentes de ações políticas de transformação.


A paródia como crítica da razão biopolítica?


Dessa forma, todo o esforço de Agamben consiste em mostrar como a centralidade da “suspensão legal da lei” na compreensão da estrutura jurídico-política da modernidade não é apenas um fenômeno localizado. O que ele tem em mente é, na verdade, a crítica a uma tendência hegemônica na modernidade em vincular razão e norma, racionalidade e normatização da vida. Ou seja, trata-se fundamentalmente de criticar uma noção de razão vinculada à crença de que racionalizar é assegurar a vida por meio da posição de critérios normativos de justificação intersubjetivamente partilhados.
Neste ponto, o trabalho de Agamben aparece como um desdobramento das reflexões de Michel Foucault sobre os modos de coincidência entre a norma racional e o seu outro. Com isto, abre-se um amplo quadro de questões vinculadas à reorientação das expectativas da razão moderna e de seus modos de racionalização da vida.
Que o verdadeiro alvo de Agamben seja a crítica a tendência moderna em vincular razão e norma, isto ficou claro à ocasião de uma entrevista à “Folha de S. Paulo”, no ano passado. “O que está realmente em questão”, disse Agamben, “é, na verdade, a possibilidade de uma ação humana que se situe fora de toda relação com o direito, ação que não ponha, que não execute ou que não transgrida simplesmente o direito. Trata-se do que os franciscanos tinham em mente quando, em sua luta contra a hierarquia eclesiástica, reivindicavam a possibilidade de um uso de coisas que nunca advém direito, que nunca advém propriedade. E talvez ‘política’ seja o nome desta dimensão que se abre a partir de tal perspectiva, o nome de livre uso do mundo. Mas tal uso não é algo como uma condição natural originária que se trata de restaurar. Ela está mais perto de algo de novo, algo que é resultado de um corpo-a-corpo com os dispositivos do poder que procuram subjetivar, no direito, as ações humanas. Por isto, tenho trabalhado recentemente sobre o conceito de ‘profanação’, que, no direito romano, indicava o ato por meio do qual o que havia sido separado na esfera da religião e do sagrado voltava a ser restituído ao livre uso do homem”1.
Assim, fica claro que “Profanações” é um livro sobre ação política. Talvez ele seja o livro possível para a ação política em uma época em que a crítica se depara com um poder que não procura mais esconder seu núcleo de irracionalidade, mas que apresenta o irracional (“a suspensão da norma”) como momento mesmo da estrutura normativa “racional”. Poder que, como dizia Peter Sloterdjik, age de maneira cínica por legitimar aquilo que suspende sua própria legalidade. Poder que, por isso, não esconde nada e aparece como imune a qualquer procedimento de desvelamento de suas “reais intenções”.
Com “Profanações”, Agamben coloca em circulação uma estratégia peculiar que consiste em recorrer a esquemas fornecidos pela tradição da ação religiosa a fim de pensar novas categorias para o político. Novas categorias não mais dependentes, por exemplo, da noção de transgressão da norma ou de posição de novas normas, mas simplesmente da anulação do potencial normativo da norma. Um ato de anulação que Agamben chama de: desativar a norma.
Não deixa de ser interessante como Agamben parece trazer, para o campo do político, um dispositivo de crítica em operação, de maneira cada vez mais hegemônica, na estética contemporânea. Ele consiste em não tentar mais transgredir ou fornecer novas normas, mas em simplesmente mimetizar a norma de maneira tal, agir “normalmente” de forma tal que ela perca sua capacidade organizadora. Neste sentido, o ensaio de nosso livro intitulado “Paródia” é extremamente significativo.
Agamben lembra que há dois traços canônicos na paródia: a dependência em relação a um modelo existente e a conservação de elementos formais de tal modelo em meio a conteúdos ou contextos incongruentes. Ou seja, trata-se de uma maneira de seguir um modelo, assumir uma norma, mas de forma tal que a força ordenadora do modelo e da norma são “desativados” devido ao fato deles serem repetidos de maneira irônica. Agamben lembra como o termo paródia era usado inicialmente para designar uma separação entre canto e palavra, entre melos e logos, que produzia situações nas quais se cantava para ten oden, a contra-canto ou fora do canto. Maneira de desativar o logos devido à inadequação do melos que o acompanhava.
Este esquema da paródia é o que Agamben procura implementar através da sua noção de profanação. Através da paródia, o filósofo procura construir um conceito de profanação capaz de nos colocar diante de uma ação que não executa ou transgride a norma, mas que a desativa. Usando a idéia de que profanar é restituir as coisas (outrora separadas na dimensão do sagrado) ao livre uso dos homens, trata-se de pensar uma ação que instaure esse livre uso através da paródia ou da ironização do que antes estava separado e sacralizado.
Um uso irônico que, ao mimetizar o sacralizado, anula o vínculo seguro entre coisas, regras e sentido que toda noção de sagrado visa garantir. Como dirá Agamben: “O comportamento assim liberado reproduz e mimetiza as formas da atividade da qual ele se emancipou mas, ao esvaziar seu sentido e sua relação necessária a um fim, ele permite que elas se disponham a um novo uso”. No fundo, com este conceito de profanação, Agamben não parece muito distante de Deleuze com sua noção de humor enquanto o que impede a indexação segura entre norma e caso, como o que inverte o uso da norma ao fazê-la adequar-se a casos nos quais ela, normalmente, não poderia ser aplicada².
Como exemplo privilegiado aqui, o filósofo italiano nos fala de uma atriz pornô, Chloé de Lysses, famosa por seus livros de “porn art”, nos quais ela se deixa fotografar nas cenas mais tórridas com um rosto de leve enfado e indiferença impessoal. Essa seria uma forma de desativar o dispositivo fascinante da pornografia através de uma ação que mimetiza as formas próprias à linguagem pornográfica, mas de uma maneira tal que um certo “distanciamento irônico”, uma certa auto-derrisão é encenada, provocando com isto o estranhamento lá onde esperávamos apenas a repetição fantasmática. Ela age como se estivesse totalmente presa aos códigos da pornografia, mas seu rosto apático nos lembra que ela não está absorta no que faz. Daí a noção de profanação como agir paródico, agir daqueles que fazem aquilo que, no fundo, procuram destruir.
Que, de fato, tal estrutura da ação tenha uma força política explosiva, como quer Agamben, eis algo que, infelizmente, não é totalmente certo. De qualquer forma, há alguém que tentou algo simetricamente semelhante: Judith Butler com sua idéia de que a ação política por excelência estaria no embaralhamento das diferenças sexuais naturalizadas, isto através da performance de gêneros que aparecem como crítica paródica da reificação dos gêneros (Butler pensa especialmente em drag-queens). Ou seja, há uma tendência contemporânea em transformar a paródia como força política.
Mas há um ponto que merece um destaque especial aqui. É fundamental notar que tais perspectivas só podem se colocar como dotadas de forte potencial político por pressuporem uma Lei normativa que procura naturalizar seus modos de aplicação reificando aquilo que ela enuncia, Lei que esconde seu modo de separação entre a coisa e seu regime de aparição na sociedade submetida à lógica da mercadoria, Lei que, por sua vez, teria como correlato a posição de falsas consciências marcadas pelo desconhecimento ideológico. Como se estivéssemos ainda às voltas como figuras da ideologia dependentes das temáticas da reificação, da falsa consciência e da alienação na dimensão da aparência.
No entanto, nada disto é certo atualmente. É bem provável que a contemporaneidade esteja diante de uma situação histórica na qual a própria Lei normativa tenda a funcionar de maneira paródica e auto-derrisória. Este fato está vinculado a uma modificação maior nos modos de operação da ideologia já diagnosticado desde Adorno: a ironização absoluta dos modos de vida e condutas. Ironização que nos coloca diante daquilo que Peter Sloterdijk um dia chamou de ideologia reflexiva, posição ideológica que porta em si mesma a negação dos conteúdos que ela apresenta. Maneira astuta de perpetuá-los mesmo em situações históricas nas quais eles não podem mais esperar enraizamento substancial algum.
Se este for realmente o caso, o que dizer então de práticas políticas que procuram tirar sua força subversiva da paródia em contextos socioculturais nos quais o poder já ri das suas próprias injunções? Não seria o próprio Agamben quem melhor nos mostrou esta auto-derrisão do poder através da compreensão da centralidade da lógica da exceção enquanto suspensão legal da Lei, como se a Lei já trouxesse em si mesma o embaralhamento de seus modos de aplicação? Ele mesmo parece compreender o caráter arriscado de sua aposta, ao reconhecer que “os dispositivos de poder sempre são duplos: eles resultam, de um lado, de um comportamento individual de subjetivação, de outro, da captura deste comportamento no interior de uma esfera separada”. No entanto, o que fazer quando os dispositivos de poder parecem mimetizar nossas próprias ações profanadoras?


Vladimir Safatle
É professor do departamento de filosofia da USP e encarregado de cursos no Colégio Internacional de Filosofia – Paris


1 - "Folha de S. Paulo", 18/10/2005.
2 - Ver os capítulo de "Lógica do Sentido" dedicados à distinção entre ironia, humor e sarcasmo.


FONTE: http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/2754,1.shl

sinopse zero um

Eva e Franklin são pais de Celia e Kevin, recém-mudados para uma nova cidade após a promoção de Eva, nomeada à diretoria da Escola Municipal Ensino Fundamental. Uma nova cidade traz consigo seus novos vizinhos, assim, Eva e Franklin passam a dividir fronteira com a família de Moira e Corley, pais do Desconhecido. Aos poucos, os vizinhos começam a se frequentar e com certo tempo a intimidade entre eles faz florescer certo abismo entre as famílias, que tentam a todo custo ser terreno para a diferença que as afasta e aproxima.

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relações físicas (possíveis)


Estudando a Nova Cibernética, demandada a partir da presença de Mariko Mori no meu dia-a-dia, eis que me deparo com a situação de viewpoints entre tudo e todos,

“Sujeito e perspectiva: os dois blocos básicos da nova cibernética. De acordo com o pesquisador estadunidense Stuart A. Umpleby, a perspectiva depende da biografia e repertório (sinônimos de alma?) do sujeito observador. Para analisar com mais desprendimento o fenômeno da perspectiva, talvez seja coerente promover o fictício Senhor Palomar (CALVINO, Ítalo, 1983) de algumas experiências de pensamento. O personagem de Calvino é um observador atento, mas por mais que direcione suas formulações sobre o mundo ao seu redor, aspectos mundanos são impostos impiedosamente sobre suas distinções.

[Apresentemos] um sujeito real: o xamã amazônico. Para alguns povos indígenas ameríndios, a subjetividade não é exclusividade do sujeito, podendo transbordar para o mundo dito inanimado. Ao centrifugar a perspectiva para um ponto de vista interno, o personagem de Calvino opera num plano fechado, como se estivesse monopolizando um ponto de vista. No ‘perspectivismo’ ameríndio, cada unidade da natureza se vê como os humanos se enxergam, em outras palavras, haveria um ponto de vista único, que, devido à multiplicidade de objetos inanimados (porém munidos com pontos de vista) e corpos animados, provocaria a diferenciação de perspectivas.

O xamã amazônico opera uma espécie de gestalt switch, transferindo o ponto de vista, teoricamente exclusivo de apenas um sentido, para o plano do corpo. Ao considerar uma subjetividade latente em todas as coisas, passível de ser compartilhada se corretamente anulada a diferenciação que acomete os agentes do mundo a todo momento, o xamã torna-se um co-sujeito polisensorial. Ele é literalmente interativo, e não reativo aos estímulos.”

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Inferência

Recentemente eu entendi o porquê da minha ligeira (e evidente) irritação com as tais referências. Hoje em dia, sobretudo dentro de um universo universitário (mais não somente nele), o trabalho com referências no momento da criação de um projeto é algo extremamente importante. Quer dizer: ao esboçar ideias e desejos junto ao seu projeto, é natural que também se queira saber quais outras obras atiram numa direção que a sua também parece (querer) atirar.

Dessa forma, antes mesmo de saber o que se quer, você já consegue reunir numa listinha aqueles filmes, quadros, livros, materiais diversos que conseguem (sob algum ponto de vista) dar uma espécie de tom ou teor daquela sua obra que ainda não passa de um projeto, por vezes, de uma intuição.

Certo. Isso é importante. Te faz buscar aquilo que você não tem mas que precisa encontrar. Ao mesmo tempo, te clareia, pela análise de obras distintas, aquilo que você busca por vezes sem saber ao certo o que é. Em suma, o trabalho com referências serve para clarear aquilo que se deseja.

No entanto, tenho estado incomodado com tal movimento. Tenho cansado rápido das referências e meu desinteresse sobre elas está cada vez maior. Tenho pensado como as referências por vezes parecem antecipar o meu contato com a coisa. Tenho pensado como é importante não saber aquilo que virá, como é importante eu estar preso somente no meu não-saber exato sobre o que estou buscando.

Assim, viram as referências neblina nessa busca. E eu fico com a vista cansada. E eu começo a me perguntar se interessa mesmo saber o que foi que fulano achou sobre isto que eu estou fazendo agora (e que pode, ali na frente, ser o mesmo que trocentos outros já descobriram), mas não é questão de originalidade. A questão aqui em jogo é justamente a de se permitir se encontrar com seu desejo e dar a ele (e a si próprio) a possibilidade real do encontro (sem muitas interferências).

Quer dizer: eu posso ser um ignorante sobre ÉDIPO REI de Sófocles, mas nada me importa mais neste instante do que o meu encontro com a obra. Do que o contágio mútuo que um ao outro é capaz de provocar. Eu não ligo se a minha opinião é velha ou pouco original ou fora de moda. Eu me importo apenas que ela seja sincera e deseje de mim se despregar.

Cada vez mais as referências me cansam e pode ser que elas venham a fazer sentido sim, porém, só lá na frente, quando aquilo ainda frágil aqui comigo venha a se fortalecer e a se manifestar.

Não é indiferença. É apenas cuidado. Depois de nove meses, a gente vê o resultado.
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terça-feira, 21 de junho de 2011

metodologia do drama

que nome pomposo. mas a coisa em si é simples. ou pelo menos eu consigo entendê-la. a questão agora é desbravar e tornar possível. a minha última aposta para a criação dramatúrgica é ambígua. porque é última no sentido de ter sido a última que me veio à cabeça. e última porque não quero que seja outra. o tempo corre – sim –, mas isso não me obriga a reconhecer importância naquilo que não tem.

porque no caso: tem importância. acredito no que estou esboçando como trabalho para criação da dramaturgia. vamos discorrer sobre porque é nesse exercício que a azia se converte em possibilidade. em tentativa posta em tentação. (hoje eu tô chato com as palavras).

uma sinopse me veio faz alguns dias. já contei aos atores (presentes no último encontro) e aos amigos. contei à eleonora. contei à thaís. contei a mim mesmo e ainda – confesso – não sentei para desenvolver a tal sinopse.

não é o caso agora.

quero dizer: tenho uma sinopse. nesta, uma situação simples é dada. nesta, desbravo seis personagens (um para cada ator) e tais personagens possuem uma série de características que lhes dão uma persona, digamos assim.

beleza. sinopse. personagens. contornos precisos mas não fechados. contornos dados, diretrizes, caminhos a serem erguidos e preenchidos. ou seja: falta tudo. ou – quase – tudo.

encontro então aparentemente perdido neste processo o blog suporte dramatúrgico. o meu blog pessoal lendo árvores e escrevendo filhos. deste, cada ator aos poucos vai acumulando um número cada vez mais de postagens (sorteadas aleatoriamente). assim, acredito eu, em algumas semanas, cada ator terá um universo de textos, situações, cenas, poemas, vídeos, fotos, em resumo: um arsenal de referências das quais – eu desejo – criarão a essência de sua personagem até então fixa num contorno apenas.

ou seja, o blog servirá para que dele os atores tirem questões, relatos, opiniões, discursos, palavras, sonhos, mentiras, depoimentos, desejos, vontades, corpo, rima, memória, traumas, acontecimentos… para compor a sua personagem (que a princípio encontra-se esvaziada).

em seguida, todo esse preenchimento que os atores darão aos personagens, entrarão em ação. serão testados em cenas e postos em jogos, em criação, em situações pré-estabelecidas por mim e que serão justamente experienciadas pelos atores a fim do desbravar dramatúrgico da cena e da própria dramaturgia.

bom, talvez esse texto não tenha deixado nada claro. para mim basta. em seguida eu vou clareando e tornando a coisa toda mais possível.

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O Homem ao Lado - Trailer legendado

Película Argentina nos cinemas!

A tranquilidade da família de Leonardo (Rafael Spreguelburd), um profissional bem-sucedido que mora numa casa luxuosa de Buenos Aires, é ameaçada quando seu vizinho (Daniel Aráoz) decide abrir uma janela com vista para sua casa.

Diretor: Mariano Cohn, Daniel Aráoz)
Elenco: Rafael Spregelburd, Eugenia Alonso, Inés Budassi, Daniel Aráoz)
País de Produção: Argentina (2009)


domingo, 19 de junho de 2011

Encontro Cinco

Café Doce Momento
19/06/11 - De 13h30 até 17h30
Diogo, Andrêas, Márcio, Daniel e Virgínia.

- trabalho intensivo e periódico em JULHO;
- 27 de junho às 20h > encontro para fechamento do cronograma de ensaios;
- contato da moça regina com o daniel;
- stand-by das máquinas desejantes;
- o que é essa questão do blog? será que a pessoa que escreve quer comunicar, quer aparecer?;
- perfil FAKE é como um vírus, diz virgínia;
- fragmentação;
- interlocução (se está sempre se dirigindo a alguém);
- relações amorosas;
- necessidade, busca (procurar sem parar);
- completar a forma original (aquilo que se completa deseja morrer);
- comunicar e solidão (para o artista);

FLUXOS + COLISÕES + PARAGENS

Para desautomatizar fluxos, relocar colisões e gerir paragens \\

- precisamos ler A MORTE DO AUTOR, do Barthes >>> cliquem aqui;
- aleautoria + bricolagem > METODOLOGIA;
- fizemos a separação das postagens do LENDO ÁRVORE do ano de 2009;

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terça-feira, 7 de junho de 2011

“A essência da literatura segundo Blanchot”

Trechos de uma matéria de Karl Erik Schollhammer, publicada no caderno PROSA & VERSO do jornal O GLOBO no dia 4 de junho de 2010.

“A escrita literária não é resultado da vontade do autor, da sua intenção ou da sua sensibilidade. Pelo contrário, a dinâmica neutra da escrita conduz ao apagamento da figura do autor, do anonimato necessário, à solidão essencial e ao estranhamento anti-lírico diante do mundo. Neste sentido, Blanchot é um precursor do anti-humanismo de Foucault e da ideia da ‘morte do autor’ desenvolvida por Roland Barthes que, até os últimos cursos de 1978 e 1979, persegua a determinação neutra que se impõe na emergência da literatura”.

“Para Blanchot, a poesia é um movimento de transgressão que subverte as fronteiras da linguagem comum e referencial bem como das formas convencionais sustentadas pela instituição literária, ou pela lei do gênero, na formulação de Derrida no livro de ensaio - ‘Parages’ (1986) – dedicado a Blanchot”.

“Blanchot não se interessa por um tipo de literatura narrativa e imaginosa que discute os problemas do mundo ou cria uma ficção de fantasia alternativa para ele. Não se satisfaz com a negação dialética do mundo e sua substituição pela ficção. Sempre procura uma literatura que interrompe o movimento da negação na afirmação de sua própria existência fora desse mundo”.

“Encontramos aqui um elemento fundamental na reflexão de Blanchot: por um lado registra o poder mortal da linguagem, que reduz o ser da coisa falada ao não-ser abstrato do seu conceito na palavra, e, por outro lado, articula à literatura a procura da realidade que foi perdida. Sua possibilidade está na materialidade da palavra, no seu aspecto físico: ‘o ritmo, o peso, a massa, a figura e, depois, o papel sobre o qual escrevemos o traço de tinta, o livro’”.

“A literatura emerge em sua independência, não mais uma expressão do escritor, não mais uma representação do mundo, mas um ‘bolo concreto de existência’, no espaço entre a linguagem e o mundo, o que ele denomina o ‘espaço literário’”.

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sexta-feira, 3 de junho de 2011

Semceito

É mais ou menos o que eu sinto que vai acontecer. Aliás, é bem minha busca, algo que já está indo, sem freio. Digerindo conceitos e fazendo escolhas, tomando ações. Concretizando vontades e nada assim fica velado em fórmulas nem em nomes, tudo retorna de maneira possível ao corpo.

Então, nisso, as três postagens anteriores ruíram. Não sobrevivem, pois de fato os conceitos estão morrendo. Daqui a pouco eu hei de postar uma nova apresentação do projeto e nesse jogo de tentativas a coisa toda vai ficando bem mais clara, e não mais teorizada.

Descobri que a justificativa está em mim, na minha própria vida, na minha história (sim, eu a tenho em mim). Descobri que não é preciso teórico ou artigo, que basta refletir e rememorar sobre aquilo que tenho aqui: meus desejos, enfim, minhas intuições.

O caminho fica nebuloso e depois de estar nisso investido, a coisa começa a se anunciar. Os conceitos muitas vezes viram frases prontas que a gente não consegue acessar. Conceitos para os quais não temos corpo. Não dá. Não deveriam servir para isso.

O que fazer então? Quebrar o conceito.

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quarta-feira, 1 de junho de 2011

APRESENTAÇÃO. Dramaturgia: o processo.

 

O teor da próxima esquina, da próxima cena, próxima página, é sempre algo incapaz de se prever, de dizer, de desenhar, de assegurar a você. Por isso aleautorizamos o que vier. Pelo diferente nós tentaremos assegurar não aquilo que é, mas aquilo que possa ser.

Trecho de Autoria do Aleatório ou...

Plantar o livro para ver nascer ficção. O que este projeto de formatura deseja é dar corpo às metáforas. Trocar realidade por teatralidade. Ou, investir numa realidade que possa transcender à teatralidade: realidade outra na qual eu, espectador, me vejo sendo movido e talhado, realidade na qual eu me veja sendo refeito e aprimorado. Ou, ao menos, realidade contra a qual eu exija de mim alguma auto-análise. Certa auscultação.

Tem a ver com validar a poesia dentro do dia-a-dia. Mas não como quem valida para reconhecer seu valor e, sim, como quem o faz por necessitar. Logo ali, justamente no espaço onde ela nasce. Como tornar possível o que é da ordem do absurdo? Como dar corpo e voz ao não-plausível? Mais do que tornar possível, como tornar tudo isso um meio pelo qual eu seja capaz de purgar meu drama íntimo enquanto ser?

Deleuze e Guatarri nos brindam com a poesia da esquizofrenia, libertando sua potência ao invés de (re)colocá-la dentro do quadro patológico que a enclausurava. Corpos colonizados, vozes emudecidas, tudo o que é capaz de dilacerar nós aprendemos a chamar por nome tal que não falamos, pois contamina. O esquizofrênico que se usa de outros suportes que não somente o real, no entanto, a ele atado, agoniza e amarelece.

Estou falando, no entanto, de vida e ficção. Abarcar um esquizofrênico no dia-a-dia é outra questão. Mas que talvez não seja tão distinta do fazer artístico. Afinal, é o mesmo princípio: o treinamento da tolerância. Até que ponto toleramos o que nos difere? Talvez a intolerância tenha sido a resposta frente a tudo aquilo que desconhecemos. Ao medo respondemos com violência. Mas, por que não – salve a poesia – com amor?

Em O ANTI-ÉDIPO, a filosofia se potencializa por meio de certa poesia (como nos escritos de Antonin Artaud, eu sugiro). Ao propor outro tipo de relação familiar, os autores ultrapassam a somatização triangular edipiana (pai, mãe e eu) e criam um ponto de fuga que reside justamente na imaginação. É escapando para este ponto, sugere-se, que a realidade (familiar) pode ser revista e, nisso, reinventada.

Assim, neste projeto, escaparemos para este espaço onírico e sem definição prévia. Vamos fazer da imaginação o nosso principal campo de atuação. Faremos da encenação nosso sonho coletivo. E do blog LENDO ÁRVORES E ESCREVENDO FILHOS, retiraremos os principais estímulos para construção dramatúrgica: motes, personagens, metáforas, rimas, mentiras, verdades, relatos e tentativas (completadas ou não).

É criando ponto de fuga ao triângulo edipiano, é dando-lhe tridimensionalidade, que fazemos do triângulo uma pirâmide triangular. Acima das figuras pai filho e mãe, acima de sua relação, encontramos a ficção como potência para um reinventar-se. Este projeto quer, então, plantar o livro neste terreno da casa para ver nascer dele outra coisa que não mais palavras apenas.

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APRESENTAÇÃO. Princípio imanente: o desejo

 

Em mim cabe todo o mundo.

Não me peça, porém, que o reduza aos meus pés.

Deixe-me lançar ao impossível
E caso assim não seja,
Deixe-me, como a xícara suja sobre a mesa

Corpo usado
Esquecido
Mas borrado
a desejo.

Trecho de Borrado a desejo.

Em 2010, durante o processo de montagem do espetáculo ESPERANDO GODOT, para a disciplina Direção VI, entrei em contato com o livro O ANTI-ÉDIPO de Félix Guatarri e Gilles Deleuze. Por meio desta obra, toda uma estrutura familiar é posta em cheque com intuito de libertar a potência revolucionária que é o desejo. Para o presente projeto, eu parto deste livro visando endossar conceitualmente a minha busca.

Pois como validar seus desejos e aceitá-los sem restrição? Durante os meus seis anos de graduação, foram inúmeros os momentos em que me peguei pensando sobre como tornar um desejo algo estético, algo dramático, algo capaz de se estender de mim até você. Eu pensando sobre como estender a você aquilo que também me sensibilizava ou fazia doer. Eu pensando no desejo feito ponte e não como muro.

Para mim, versar sobre o desejo é também brincar com intuições, crendo em possibilidades outras que não somente a do saber. Diz respeito ao corpo, à descoberta feita em jogo, em movimento e flerte com o mundo. Num primeiro momento, O ANTI-ÉDIPO diz respeito justamente a isso, a esse libertar e desbravar do desejo não como sintoma de algo a ser entendido ou resolvido, mas como condição básica de existência.

Assim, da obra de Deleuze e Guattari, escolho apenas o capítulo inicial, intitulado AS MÁQUINAS DESEJANTES, por ser ele aquele que me descortinou a condição humana do ser que deseja. Utilizo-me deste capítulo para estimular a emergência de uma dramaturgia a ser construída em processo, tendo os atores também como autores desta construção.

Pois, ao mesmo tempo, persiste na obra de Deleuze e Guatarri uma validação do utópico não como sonho, mas feito possibilidade. Um olhar que não teme assegurar o impossível porque o impossível torna-se, ao lado de tudo, só mais uma opção. E é neste ponto que reside a minha principal questão: como tornar possível aquilo que não se tem como possibilidade?

A poesia vem então como meio de fuga para a cilada que se tornou o real. Para sair das linhas já marcadas, para colorir com outras cores e noutras intenções, pulam-se linhas e movem-se versos a fim de trazer ao corpo a sensação ainda não todo nomeada. Pois o corpo clama por indefinição. Clama por arrepio capaz de o aniquilar. O corpo clama por todo o mistério que nós matamos ao nomear.

E para além de alguma forma, para além da crise do conteúdo e da linguagem, eu agora paro para narrar uma fábula, um acontecimento dentro do qual as personagens espelham a vida. A nossa encenação, no final das contas, será este filtro capaz de transtornar a fidelidade deste espelho. Para que possamos, enfim, descobrir na complexidade da própria vida o real prazer de se estar vivo e operante: a sua poesia,

Ou tudo aquilo que não cabe (somente) em palavras.

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APRESENTAÇÃO. Ou aquilo que não me sai do olhar

ao meu redor
o mundo diz ser o mesmo
o meu olhar porém
menos conformado
teima olhar diferente:
vê sangue onde flora perfume
e morte onde havia
seu eufemismo
solene eufemismo
do morrer-se um pouco a cada dia.

Trecho de O que há de novo ao meu redor.

Em 2007, estava com um amigo numa livraria e ele me perguntou algo como você nunca ouviu isso, que antes de morrer é preciso escrever um livro ter um filho e plantar uma árvore? Acho que eu nunca tinha ouvido aquilo ou talvez tenha, mas acabei esquecendo por não concordar com tal sentença. Lembro-me apenas de ter dito a ele que achava melhor ler árvores e escrever filhos. E fui para casa com aquilo na cabeça.

Quando cheguei ao meu apartamento, escrevi um longo poema composto por outros dois: o primeiro, intitulado LENDO ÁRVORES E ESCREVENDO FILHOS termina com um verso-título do seguinte, ALGO ASSIM, MELHOR DO QUE EU. Uma poesia nascida no pular das próprias linhas. Naquele dia, e só hoje o percebo, eu escrevi uma busca que venho empreendendo desde então.

Depois de ler o poema, o mesmo amigo que tinha trazido a tal sentença me escreveu: só existe um problema: quem vai plantar o livro? Eu não dei importância a sua divagação. Logo no início de 2008, criei o blog LENDO ÁRVORES E ESCREVENDO FILHOS (lendoarvoreseescrevendofilhos.blogspot.com). Um espaço que floresceu e que hoje acumula mais de 880 postagens, dentre imagens vídeos e poesias escritas por mim.

Como se deduz do próprio nome, neste blog eu leio a vida para refazê-la em versos – mas sem a exigência de fidelidade. Minhas obras são filhos que a vida fez nascer em mim. Parece poesia: e é. Amor, família, solidão, fome, morte, suicídio, sexo, dor, metalinguagem, música, teatro, desejo, distância... Ingredientes que a própria existência a mim descortinou: tudo ali reunido e livre, em plena movimentação e cruzamento.

E eis que agora, para a feitura deste projeto, a fala daquele amigo me voltou ainda mais afiada e cortante: quem vai plantar o livro? Este projeto de formatura deseja justamente executar tal ação: plantar o livro para ver nascer ficção. Eu desejo apostar no tema criação para fazê-lo germinar e dele retirar uma ficção possível. Apostar na criação por vislumbrar nela o meio pelo qual me foi – e ainda é – possível lidar com a vida.

Um dia eu supus que para dar conta da minha própria existência seria preciso dançar sua instabilidade. Portanto, escrever sobre ela própria me fez dinamitar sentidos fixos e abrir outras saídas possíveis, revelando suas fendas e abismos. A vida escreve a sua poesia, no entanto, cabe a nos a façanha de desvendá-la. O criar, então, me veio como ação primordial do ser artista que refaz em ação a vida como potência e transformação.

Esta peça visa partir do tema criação para explodir o espaço do verbo-ação criar. Verbo transitivo é carente de complemento. O criar aqui se instaura como o jogo essencial desta encenação. O criar como ambiguidade intencional e desejada: pois assim como o artista cria a sua obra, o pai também cria seu filho. Mas, quando uma coisa com outra se confunde, o que fazer? Vida ou poesia?

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sens.oCo.mum

Como escapar?