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terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Vasculhando (e registrando) a memória

Minha ação primeira nestes dias finais do ano têm sido escrever o Memorial de SINFONIA SONHO. Ele é o apanhado descritivo do processo de criação que preciso entregar até início de janeiro para concluir a disciplina Projeto Experimental em Teatro.

A memória de fato está sobre a mesa. E o saldo, para além do memorial, é também o desenho do que possa ser um processo de direção. Está sendo importante refletir sobre coisas que nasceram de súbito durante os meses de processo.

Por enquanto, é isso.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

o filho mais novo

tem quase sempre a razão.

SINFONIA SONHO ÚLTIMA APRESENTAÇÃO

fizemos nossas três primeiras apresentações dentro da XI MOSTRA DE TEATRO DA UFRJ. foi amazing, grace.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

XI MOSTRA DE TEATRO DA UFRJ

SINFONIA SONHO

Apenas três apresentações! Integrando a Mostra de Teatro da UFRJ.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

(in)ação física

se a ação não vai mudar nada ela é ainda assim uma ação?

pergunta boba. talvez seja. mas eu fiquei com a imagem de eva com a cadeira erguida. eva com a faca erguida. a cadeira é a faca? não. a cadeira é a cadeira. o desejo dela é aquele ali, daquele tamanho, naquela imediatez. ela diz ao frank isso não é uma faca. e não é. é uma cadeira. mas ele completa que para pessoas ambiciosas como ela, aquilo ali é mais arma do que outra coisa (do que cadeira ou talher). ela sobrevive ali, sob o peso de seu abuso, sob o peso de sua ambição. ela grita baixo (é possível) o nome do marido, mas ele já se foi. calçou os sapatos e partiu.

então resta moira e corley na inação mais agitada do espetáculo. cinto de segurança all the time. todos que passam por moira vão ter que contê-la. moira quer se erguer, quer gritar, quer morrer. não que ela não soubesse. não que ela não fosse prever (a morte do filho). mas é só que agora virou coisa concreta. a repórter mexeu no corpo do filho dela. a repórter anunciou tudo e tudo diz respeito a algo tão íntimo, tão familiar, mas que agora está completamente avassalado.

o cinto de segurança em moira é o mesmo cinto que falta a kevin, quando ele está sobre a cadeira tremendo o íntimo e expressando o seu pavor, a sua ira, o seu ódio a tudo aquilo. kevin está puto (ainda bem que célia dorme). como nunca antes ele está pegando fogo. injustiça: eles não podem fazer isso com a gente. comigo. eles não podem. e o pior, kev, é que eles sempre podem. os pais podem tudo. infelizmente eles acham que podem. e vão arruinar o destino de tudo. a não ser que o destino arruine tudo antes do que viria.

kevin treme sobre a cadeira. ele treme a cadeira. sua ação inação acontece plena e não quer ser linda. é só para esquentar o corpo e começar a dar o texto. quer dizer, agitar o íntimo, a pele, a temperatura para cuspir as palavras com um ódio genuíno e legítimo. kevin tem razão. ele bola os planos mais absurdos para se convencer de que será possível fazer tudo voltar ao normal.

ele acredita nisso. ele tem que acreditar. ele se move para dentro de seu quarto. ele se retira do mundo um segundo para poder voltar ao mesmo, porém, mais fortalecido.

quando ele volta, porém, é tarde.

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quinta-feira, 10 de novembro de 2011

separação e cegueira

é o tom dos últimos atos. na verdade, a divisão deles não é assim pá e pronto, começou um novo ato e uma nova configuração de cena já se instala. as coisas tão mexidas e misturadas. uma cena do segundo antecipa algo do terceiro ato. as cadeiras se separam assim como as personagens.

paragens. uns numa ponta, outros na outra, um outro só. no canto. o centro da cena convida a todos e a todas, porém, para o desmontar-se. as repórteres entraram. tem personagem implorando pra sair. e sai.

o palco vai se esvaziando e o desamparo acontece pleno. que horrível tudo isso. beleza. é horrível mesmo. franklin pela primeira vez calça os sapatos e parte. parte mesmo. menos um. logo ele. partiu. as crianças congeladas frente ao televisor. as repórteres são mais família do que outra coisa. estão coladas. são invasivas e perniciosas.

joana bravo e carolina wellerson. eva segura a cadeira no alto. é o peso da sua faca. é o peso que nem ela consegue sustentar, coitada.

corley cria raíz sobre o túmulo de tomas. tomas perde, enfim, todo aquele movimento. não há vento, mas talvez exista um ventilador ali.

kevin perde o movimento também. a cabeça pesa e dói como nunca antes. o desejo de virar música começa a empalidecer o espírito. o consome.

o cara das rubricas fica sozinho. bem feito. ele merece. moira congela mesmo. vira estátua. mas é só para nos enganar. na hora precisa ela vai dar o bote e enfim, todos nós sabemos para onde a coisa vai.

o centro não é mais centro. porque ele atira para todos os lados. o centro virá o famoso furacão, dentro do qual e por conta do qual as coisas todas são obrigadas a bailar desespero.

o desenho disso tudo está aqui comigo. vamos juntos, montá-lo. juntos vamos vivê-lo.

ui. medo e delírio.

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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

como dramaturgia

o ponto de vista como dramaturgia. estive pensando, de que maneira acontecer o terceiro ato do espetáculo? é um ato decisivo, que intensifica e instaura de vez a batida violenta da tragédia. logo, como dar conta dessa agilidade, dessa voracidade que o trágico parece necessitar para acontecer?

pensei nas repórteres que aparecem no telejornal. pensei no verbo sensacionalizar. não sou repórter, sou sensacionalista. as palavras que digo não dependem da verdade, elas agem direta sobre a sua sensibilidade. são ficção e dramaturgia. nem tanto fato, quiçá retrato. as minhas palavras são a minha incapacidade plena de tocar no fato – por vezes, simples – como pedras.

então pensei: não seriam elas, essas vedetes da microfonia? não seriam elas aquelas que levariam a história adiante? até o ponto em que da ficção suspeitamos, por ser tão absurda, por ser tão dolorosa? não seriam elas, as repórteres, o filtro disso tudo?

pensei pelo olhar delas. que pelo ponto de vista delas, a dramaturgia escrita se reescreve em cena. pensei que será engraçado. depois achei ser mordaz. depois tive ódio por ser exatamente isso que me afeta. como há uma montagem sobre-fatos que torna os fatos acontecimentos, eventos, estreias e muito menos o acontecimento em si.

sobre como se perde a coisa contando a coisa com esse teor violento e enrubecido. eu gosto. acho que por enquanto só eu entendo tudo isso. na minha cabeça. mas vai rolar. são duas. são elas. joana bravo e carolina wellerson.

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segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Cronograma de Ensaios

Semana 6/7

Ensaio #41 – Segunda – 07 de novembro – 17h30/22h – Colégio Andrews

Andrêas e Laura – 17h30
Elenco Completo – 19h

Ensaio #42 – Terça – 08 de novembro

14h/16h – Sala Vianinha (UFRJ)
19h/22h – Colégio Andrews

Ensaio #43 – Quarta – 09 de novembro – 18h/22h – Colégio Andrews

Ensaio #44 – Quinta – 10 de novembro – 18h/22h – Colégio Andrews

Laura ausente

Ensaio #45 – Sexta – 11 de novembro – 18h/22h – Colégio Andrews

Gunnar presente

Ensaio #46 – Sábado – 12 de novembro – 10h/20h – Cia. dos Atores

Laura chega 11h – Laura sai 17h
Gunnar chega 14h
Andrêas chega 16h30
Dan sai 15h/16h

Ensaio #47 – Domingo – 13 de novembro – 09h/17h – Cia. dos Atores


Semana 7/7

Ensaio #48 – Segunda – 14 de novembro – 17h30/22h – Colégio Andrews

Andrêas e Laura – 17h30
Elenco Completo – 19h

Ensaio #49 – Terça – 15 de novembro – 14h/22h – Cia. dos Atores

Laura chega 16h.

Ensaio #50 – Quarta – 16 de novembro – 18h/22h – Colégio Andrews

Ensaio #51 – Quinta – 17 de novembro – 18h/22h – Colégio Andrews

Estreia – Sexta – 18 de novembro – A partir de 16h, na Sala Vianinha (UFRJ)

sábado, 5 de novembro de 2011

processo caminho percurso trajeto desdobramento

como não entregar o que virá lá na frente?

não podemos confundir. a leitura das rubricas em cena, de alguma forma, nos faz acompanhar a sequência dos acontecimentos, tal qual prevista no texto. ela nos informa o que acontece para além das falas, do que é dito entre as personagens. mas, nós atores, criadores, sabemos do percurso todo. (nós já lemos o texto, nós já decoramos as falas, nós sabemos também aquilo que queremos dizer e que não está claramente explícito no texto).

sendo assim, corremos o risco de dizer mais onde a princípio haveria apenas uma única coisa. é neste ponto – exato – que devemos segurar o processo, segurar os desdobramentos, as dobras. e ir com calma e atenciosidade revelando o desconhecido. pois para o espectador, se trata disso apenas. do desconhecido, da neblina, da confusão, da surpresa e da revelação.

pensar o percurso das personagens talvez seja ver o momento primeiro em que a percebemos e o momento final antes das cortinas fecharem. quer dizer: que entre é esse? esse entre é tudo. é a peça. construí-lo é algo realmente artificioso e por vezes, eu creio, impossível.

mas, é preciso paciência e escuta. para não deixar escorrer pelos olhos todas as lágrimas, não deixar estremecer o corpo todas as iras. vamos com calma, com dosagem. DIMMER. vamos dosar as intensidades. se trata disso, de dosagem.

vamos descobrir o prazer da revelação. do saber que se constrói passo-a-passo. não vamos dar tudo de antemão. porque isso seria o mesmo que jogar o tudo no lixo. ninguém aguentaria receber toda a nossa informação de súbito, sem processo, sem selar – primeiro das mãos – vamos encontrar primeiro (como é o liquidificador de célia dentro do carro no início do espetáculo), depois a gente faz outra coisa com essa comunhão conquistada.

depois, a gente engole o espectador para dentro de outras confissões. e faz, junto a ele, escuridão.

mas com calma. grosseria é o que não falta aqui onde estamos. com calma e elegância, o jogo vai se aproximando e colando.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

chairs

A partir de imagens enviadas pelo cenógrafo, Leandro, seguem minhas sugestões para a cadeira de cada personagem. Uma mescla de formas mais contemporâneas com formas mais antigas.

O que acham?

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CORLEY

corley

EVA

eva

FRANKLIN

franklin

CÉLIA

célia

KEVIN

kevin

MOIRA

moira

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33 \\

30 de outubro, UNIRIO, 13h/18h.
Thaís, Andrêas, Laura, Adassa, Márcio, Dan, Virgínia, Gunnar e Diogo.

Comentários sobre o Ensaio + Passadão

tomas observa ao mesmo tempo em que segura a mãe.

ele respira e moira o intercepta.

ele dá um passo e moira o intercepta.

talvez o movimento dele seja para cima. ou seria para baixo?

ELES ALI NAS CADEIRAS [CINTO DE SEGURANÇA]

tomas anda com o peito adiante. é quase rarefeito (seja lá o que isso significa).

célia parece uma mulher entediada com o fato de ter virado mulher.

kevin está longe, distante, pensando sempre no futuro.

corley vencido.

moira na espreita.

franklin regusrgitando pequenas iras.

eva sentada a espera de um exame qualquer.

PASSADÃO 15H37

SINFONIA SONHO

FESTA CÉLIA

dan – atenção as falas da primeira cena.

kevin! de eva chamando atenção pode ser mais por causa do shopping center e menos pela bronca.

então pode tirar o enfeitinho… entrada mais imediata.

tomas é uma [escultura viva]

tempo da cena FESTA CÉLIA é mais ágil, as respostas são mais imediatas.

OS VIZINHOS

eles se olham, moira e tomas.

a mão de moira quase toca o cabelo de tomas.

VENTILADOR LIGADO?

atenção ao texto – fechar injúrias moira e corley (é mentira, estou grávida, é mentira…)

tomas chora enquanto moira fala do estar grávida, tomas é quase um móbile de berço

moira você precisa descansar é mais imediato

a cinza do cigarro de franklin ainda se produz, intacta e de pé

a mão de moira bate na cabeça de tomas? eles se encostam? tenho a sensação de que se ela esbarrar nele, nunca mais vai largá-lo por medo de perdê-lo novamente

franklin não precisa fumar o restinho do cigarro. franklin não é fumante, está apenas ocioso.

ótima posição de moira com as duas pernas sobre a cadeira. (que se desmanchou no exato instante em que escrevi isso)

texto de corley e frank é mais batidão. animado. divertido. jovial – tá pesado e não precisa – jogar a conversa fora, papo de maridos, de homens…

não acredito no puxa, que delícia de frank sobre o filho de corley

corley – assim que soube da gravidez, moira comprou mesmo o shopping? o que corley está querendo dizer? que ela foi ao shopping comprar brinquedos para o filho ou que a casa tá cheia de brinquedo (do filho sumido) ou que…?

kevin olha tomas. bastante. talvez ele tenha nojo. talvez inveja. kevin já sabe que um tal de tomas não virá mais a escola porque sumiu, fugiu, se mudou com sua família. quando é que kevin realiza tudo isso? quando ouve o nome de tomas?…

mamãe não vai chegar para o jantar…

tomas toca a barriga de moira. bizarro.

kevin, acrescentar “ais” _ ai, a minha cabeça tá doendo… ai, a célia tem razão…

o liquidificador de célia só começa depois que a rubrica termina com acende um abajur

O PRONUNCIAMENTO

célia acorda kevin.

o diálogo todo é muito mais ágil.

kevin confere se fez a irmã chorar. isso é bom.

não há tanto balançar de cabeça. entre os dois.

ótima cara de kevin ao ter o pé pisado por célia.

corley assiste a cena de célia e kevin, mas tem a atenção também movida para tomas.

eva está muito mais calma com a fala e isso é ótimo.

o diálogo entre eva e frank é também super mais ágil, flui, um fala e o outro devolve e vice-e-versa – não há tanto respirar entre as palavras de uma mesma fala.

eva dizer apenas “sinto falta de seus beijos”, com estas palavras

kevin estranha tomas se aproximando da mãe

célia observa kevin vendo tomas

o kevin pôs aquelas vitaminas… começa logo depois da rubrica, como fosse fofoca de célia

kevin reversão sensível em quase toda essa cena que antecede o pronunciamento do virar música.

ótimo, frank – silencia o choro de célia para que a cena continue

célia pode entrar logo com o que é mertáfora?

obrigado, pai, eu não sei o que seria de mim sem você > REVERSÃO SENSÍVEL AQUI!

franklin com as falas muito sonolentas os vizinhos estão comemorando que vão ter um filho…

meninos (corley e frank), deixem o diálogo acontecer, não o prendam, deixem as palavras sair e deixem também que elas levem vocês adiante

precisamos ir ao médico de corley – é uma decisão

não hesitar com o tapa, moira, já falamos sobre isso

eva – p.29 – e ao mesmo tempo diferentes? ao invés de completamente diferentes

SINFONIA SONHO

frank e eva falando sobre o jantar pode ser mais ágil também

eva pode super sofrer com a fala do mesmo assim eu gostaria muitíssimo de oferecer – efeito pêra caramelada

franklin resmunga inteiro, sem pausas para lasanha isso ou aquilo é inteiro

tomas abaixa e se ergue de novo (foi um balão que estourou). tomas responde fisicamente a tudo o que lhe acontece lá no céu? tomas está no céu durante estes minutos de peça? tomas ainda está consciente? quando isso acaba? ele morre ao bater no chão ou morre lá em cima?

as crianças voltam da aula de teatro – gosto do caminhar que é quase uma brincadeira

moira - se chama tomas ao invés de vai se chamar tomas (já se chama, não vai se chamar, é o tomas que sumiu)

tomas é movido para baixo e para cima com os balões, vertiginoso

eva, no jantar, pode ser minimamente mais ágil na explicação de suas teorias – é mais do mesmo!

frank, suas caras de reprovação no jantar são incríveis (pois sutis)

genial eva sentar e mirar corley (quase acho que eles vão se pegar!)

célia se senta de costas, também ótimo, assim como tomas, com a cabeça para o céu

MASSACRE LOCAL

o texto de corley foi bastante automático, cansado, ausente

tomas sopra os cabelos da mãe e faz música. tomas faz música, kevin. ele também sabe o que é isso do espírito da música.

ótimo o tom de célia – aquela barriga é falsa? eu sabia – sem grandes exaltações, mais certa do que surpresa – mulher!

respiração de tomas super aparente.

17h03 >>>

o nosso passadão durou uma hora e vinte e quatro minutos. conforme eu disse, não há preocupação quanto a isso. o importante é haver jogo. precisamos otimizar o jogo, não o tempo. isso será consequência. peguem essas considerações acima e aquelas já feitas ontem e vamos trabalhar sobre elas.

estudo do texto. estudo do texto. finjam que o dramaturgo não sou eu. tenham certa devoção ao texto. justamente para descobrirmos algo para além dele, para sairmos da superfície e para descobrirmos nossa intenção, nossa leitura dessa coisa toda.

muito trabalho adiante.

vamos juntos.

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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

verde limão

vetores. traços. fluxos. tiras. esparadrapos.

a cena é uma equação matemática. diz respeito a pontos de partida e de chegada. mas ali, sublinhado em verde radioativo, há o percurso, o processo, o meio do caminho.

seriam pedras? se dilatando e se confinando? seriam estas personagens essa dureza buscando mobilidade? será besteira tudo isso?

como faz para bancar o drama dessas personagens? começamos com esta pergunta. existe um drama? isto é um drama?

como faz para bancar essas personagens? começamos de novo. é preciso bancar? ter que bancar não é excessivo, não é demais?

como faz essas personagens? recomeço. são personagens? realmente? são personagens?

como faz? doing.

entra e faz. sai. volta. faz. sai. entra e faz. entra e traz. entra e fica. e corta. e pula. e salta. e adeus. nunca mais. simples desse jeito. o drama não somos nós quem fazemos. a personagem é uma leitura exterior. eu não ando pela rua dizendo que eu sou diogo liberano. eu ando. certas coisas não são ditas, certas coisas são leitura externa do acontecimento ali acontecendo.

vamos nos ausentar de algumas exigências. vamos ficar mais tranquilos. o drama do mundo não somos nós quem fazemos. o drama do mundo está no olhar de quem vê. não em quem faz. a gente estrutura uma situação – uma cena – uma composição – e quando o olhar do cara cair sobre aquilo, pronto, nasce poesia.

não nos preocupemos. não existe um problema. metade do mundo é pseudo-questão. sem conspiração. sem perseguição. é leve, seguro e divertido. é maldade porque te faz voltar-se contra si próprio. é maldade porque te exige o auto-sacrifício. porque te exige se ver e se analisar. é maldade porque abre em ti um silêncio que você não vai conseguir verbalizar.

parece bobeirinha. parece mentirinha. parece poesia, enfim.

tudo bem. deixemos parecer. o mundo comporta em si mais do que podemos comportar em nós.

por isso ele é grande. e foge. e assusta.

por que eu estou escrevendo isso?

“nem sei” dirá tomas.

nem sei, tomas. mas deu vontade. e isso é só o que importa.

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terça-feira, 25 de outubro de 2011

“Células tumorais expostas à ‘Quinta Sinfonia’, de Beethoven, perderam tamanho ou morreram”

RIO - Mesmo quem não costuma escutar música clássica já ouviu, numerosas vezes, o primeiro movimento da "Quinta Sinfonia" de Ludwig van Beethoven. O "pam-pam-pam-pam" que abre uma das mais famosas composições da História, descobriu-se agora, seria capaz de matar células tumorais - em testes de laboratório. Uma pesquisa do Programa de Oncobiologia da UFRJ expôs uma cultura de células MCF-7, ligadas ao câncer de mama, à meia hora da obra. Um em cada cinco delas morreu, numa experiência que abre um nova frente contra a doença, por meio de timbres e frequências.

A estratégia, que parece estranha à primeira vista, busca encontrar formas mais eficientes e menos tóxicas de combater o câncer: em vez de radioterapia, um dia seria possível pensar no uso de frequências sonoras. O estudo inovou ao usar a musicoterapia fora do tratamento de distúrbios emocionais.

- Esta terapia costuma ser adotada em doenças ligadas a problemas psicológicos, situações que envolvam um componente emocional. Mostramos que, além disso, a música produz um efeito direto sobre as células do nosso organismo - ressalta Márcia Capella, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, coordenadora do estudo.

Clique aqui para ouvir a Quinta Sinfonia

Como as MCF-7 duplicam-se a cada 30 horas, Márcia esperou dois dias entre a sessão musical e o teste dos seus efeitos. Neste prazo, 20% da amostragem morreu. Entre as células sobreviventes, muitas perderam tamanho e granulosidade.

O resultado da pesquisa é enigmático até mesmo para Márcia. A composição "Atmosphères", do húngaro György Ligeti, provocou efeitos semelhantes àqueles registrados com Beethoven. Mas a "Sonata para 2 pianos em ré maior", de Wolfgang Amadeus Mozart, uma das mais populares em musicoterapia, não teve efeito.

- Foi estranho, porque esta sonata provoca algo conhecido como o "efeito Mozart", um aumento temporário do raciocínio espaço-temporal - pondera a pesquisadora. - Mas ficamos felizes com o resultado. Acreditávamos que as sinfonias provocariam apenas alterações metabólicas, não a morte de células cancerígenas.

"Atmosphères", diferentemente da "Quinta Sinfonia", é uma composição contemporânea, caracterizada pela ausência de uma linha melódica. Por que, então, duas músicas tão diferentes provocaram o mesmo efeito?

Aliada a uma equipe que inclui um professor da Escola de Música Villa-Lobos, Márcia, agora, procura esta resposta dividindo as músicas em partes. Pode ser que o efeito tenha vindo não do conjunto da obra, mas especificamente de um ritmo, um timbre ou intensidade.

Em abril, exposição a samba e funk

Quando conseguir identificar o que matou as células, o passo seguinte será a construção de uma sequência sonora especial para o tratamento de tumores. O caminho até esta melodia passará por outros gêneros musicais. A partir do mês que vem, os pesquisadores testarão o efeito do samba e do funk sobre as células tumorais.

- Ainda não sabemos que música e qual compositor vamos usar. A quantidade de combinações sonoras que podemos estudar é imensa - diz a pesquisadora.

Outra via de pesquisa é investigar se as sinfonias provocaram outro tipo de efeito no organismo. Por enquanto, apenas células renais e tumorais foram expostas à música. Só no segundo grupo foi registrada alguma alteração.

A pesquisa também possibilitou uma conclusão alheia às culturas de células. Como ficou provado que o efeito das músicas extrapola o componente emocional, é possível que haja uma diferença entre ouví-la com som ambiente ou fone de ouvido.

- Os resultados parciais sugerem que, com o fone de ouvido, estamos nos beneficiando dos efeitos emocionais e desprezando as consequências diretas, como estas observadas com o experimento - revela Márcia.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/ciencia/mat/2011/03/29/celulas-tumorais-expostas-quinta-sinfonia-de-beethoven-perderam-tamanho-ou-morreram-924114082.asp#ixzz1blwOxpvH

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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

semana 4/7

CRONOGRAMA DE ENSAIOS

segunda_24.OUT_19h/22h_andrews
ausente: virgínia

dan = BLOCOS 04 + 12
andrêas + laura = BLOCO 18
adassa + márcio = BLOCO 16
adassa + márcio + laura + andrêas = BLOCO 17

terça_25.OUT_19h/22h_andrews
ausentes: diogo e virgínia

andrêas + dan = BLOCOS 06 + 13
adassa + márcio = BLOCO 16
adassa + márcio + laura (+ andrêas) = BLOCO 17
andrêas + laura = BLOCO 18
dan = BLOCOS 04 + 12

quarta_26.OUT_19h/22h_andrews
ausentes: diogo e virgínia

andrêas + laura = BLOCO 23
adassa + dan (+ márcio) = BLOCO 24
márcio = BLOCOS 08 + 20 + 22

quinta_27.OUT_19h/22h_andrews

dan + virgínia = BLOCOS 15 + 26
adassa + andrêas + márcio = BLOCO 25

sexta_28.OUT_19h/22h_andrews

dan + virgínia + adassa + márcio = BLOCO 19
laura + andrêas = BLOCOS 18 + 23

sábado_29.OUT_13h/20h_A CONFIRMAR

andrêas + laura = BLOCO 23
adassa + dan + márcio = BLOCO 24

domingo_30.OUT_13h/20h_A CONFIRMAR

elenco completo = BLOCO 21
passadão de todas as cenas + costura
leitura da cena NÃO-DIVISÃO CELULAR

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seguem abaixo indicações para a criação dos blocos desta semana:

BLOCO 15 > DE REPENTE

> sentados (frontalidade): adassa + andrêas + laura + márcio
> de pé (livres no espaço): dan + virgínia

BLOCO 16 > CACHORRO GENTE

> sentados (frontalidade): dan + virgínia + andrêas + laura
> de pé (livres no espaço): adassa + márcio

BLOCO 17 > OLHAR DESGRENHADO

> sentados (frontalidade): dan + virgínia
> de pé (livres no espaço): adassa + márcio + andrêas + laura
> andrêas só entra no fim da cena, portanto, não participa da criação deste bloco, entrando – de fato – de supetão no que foi criado por adassa, laura e márcio

BLOCO 18 > VAMOS ENTRAR

> sentados (frontalidade): adassa + dan + márcio + virgínia
> de pé (livres no espaço): andrêas + laura

BLOCO 19 > KEVIN PIGARREIA

> sentados (frontalidade): andrêas + laura
> de pé (livres no espaço): adassa + dan + márcio + virgínia

BLOCO 20 > E SE

> sentados (frontalidade): adassa + andrêas + dan + laura + virgínia
> de pé (livre no espaço): márcio

BLOCO 21 > SINFONIA SONHO

> CRIAREMOS JUNTOS.

BLOCO 22 > SONHO LIQUIDIFICADOR

> sentados (frontalidade): adassa + andrêas + dan + laura + virgínia
> de pé (livre no espaço): márcio

BLOCO 23 > BRUSCO EMPURRÃO

> sentados (frontalidade): adassa + dan + márcio + virgínia
> de pé (livres no espaço): andrêas + laura

BLOCO 24 > TAMBÉM MORREU

> sentados (frontalidade): andrêas + laura + virgínia
> de pé (livres no espaço): adassa + dan + márcio

BLOCO 25 > MOMENTO DELICADO

> sentados (frontalidade): dan + laura + virgínia
> de pé (livres no espaço): adassa + andrêas + márcio

BLOCO 26 > UM SUSTO

> sentados (frontalidade): adassa + andrêas + márcio + laura
> de pé (livres no espaço): dan + virgínia

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RUBRiCAS

deixem por minha conta.
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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

sobre as personagens

bom, como não cessamos ainda a busca pelo tom de cada personagem, pela forma como cada personagem se manifesta, penso que pode ser útil escrever um pouco sobre cada um deles, na tentativa de me apropriar um pouco mais de quem eles são e de deixar ainda mais claro a vocês alguns lugares imprescindíveis para este jogo dramatúrgico.

corley andrêas

tentando manter os pés no chão. literalmente, pois o desejo de evaporar é gigantesco. o desejo de sumir e dar um ponto final ao desespero é imenso. mas (e há sempre um “mas”), ainda resta em corley o amor pela mulher, pela família, pela vida etc e tal. a questão é até quando é possível aguentar? o que estamos construindo, esse lugar do corley de sempre estar fazendo frente aos problemas, batendo de frente mesmo quando ele já sabe não existir solução, este lugar é ótimo. coloca ele em ação, o tempo todo, ou tentando segurar a mulher, ou tentando se segurar. corley é de fato muito altruísta. mas a situação na qual ele se encontra deturpa um pouco suas ações. ele tende a violência, ao aprisionamento, ao controle. ele mente não como quem quer mentir para enganar, ele mente para tentar se convencer de que a realidade não é esse absurdo que parece ser.

eva virgínia

cada vez mais nojenta. desculpe a franqueza, mas eva está no auge do equívoco. completamente ambiciosa, sem ficar sublinhando isso, ela age sempre movida pelo adiante. o que vou ganhar, o que vou conquistar. tenho a sensação de que eva não está muito no presente. ela só está no presente para planejar o amanhã. o futuro, o espaço e o tempo onde tudo será ainda melhor e maior para ela (e sua família). a escuta dela está com defeito, a vista está viciada. eva não vê as coisas sempre como se apresentam, ela vê as coisas como é preciso vê-las para seguir escrevendo a sua história. as crianças são as crianças, o marido é o marido. ela se coloca muito facilmente no pedestal. ela usa escadas. e isso é genuíno. não há problema. ela lutou por tudo isso e está colhendo os frutos, mas com uma voracidade tamanha que quase fere o redor. que quase mata a própria colheita. eva vai apanhar muito.

franklin dan

dificílimo, né? tudo bem. a questão do franklin é que ele está descobrindo não haver muitas questões. ou: descobre aos poucos que as questões são menos importantes. a vida nos impõe seus lugares. e ele tá vendo isso. ele tá sabendo disso. o pai morto. vencido por um câncer. o pai é seu exemplo de falência múltipla dos órgãos. não há para onde correr em determinados momentos. e franklin está percebendo isso, entre um cigarro e outro. mas, essa inevitabilidade não o reduz, não o rende. ele sela o encontro com essa certeza irrevogável. e essa certeza irrevogável é a morte. ele era meio criança. a morte do pai o inaugurou algum lugar assim absurdo. ele não sabia lidar com isso. mas ele segue de pé, vivo, sorrindo, falando, sonhando e percebendo que a vida é isso mesmo. acho que ao contrário de eva, franklin está surpreso por existir neste tempo, nestes segundos, neste momento. sua ânsia é a de consumir os segundos e neles sentir-se indo. franklin seria um filósofo depois disso tudo. passada a saúde do corpo, como cuidar da saúde espiritual? ele um dia talvez pense nisso.

célia adassa

criança. tranquila. terrível. oito e oitenta. e no meio disso um oceano de partituras. um oceano de tentativas. célia consome o tempo. ela anda nele. sobre ele. célia não tem um olho mas tem sinapses acontecendo entre os fios de cabelo. é material explosivo sem placa sinalizadora ou cerca de segurança. ela solta faísca e é cheia de farpas. é criança, gente. célia é certa sendo errada. ela é genuína porque se alguém não lhe disser que não faça, ela vai seguir fazendo. é exatamente isso que ela está apreendendo. a sensação de maturidade se locomove também dentro de limites. poder e não poder. ser e não ser. ela descobriu que há limites. e se diverte em transitar entre tais portas. sistema nervoso. célia é um sistema nervoso exposto. é pura resposta kinestética. é aluna da linguagem. está descobrindo o que a linguagem pode fazer neste agora. ela está maravilhada (mas só quem tem consciência disso somos nós, criadores). porque ela segue sem freio nem tino. o segundo para célia é o mundo inteiro com ela interagindo. ela é terrível. ela é ela.

kevin márcio

kevin sabe não pertencer aquilo que ele não deseja pertencer. kevin sabe como agradecer e sair a francesa. kevin tem vergonha, às vezes. sabe ser mala, sabe ser maldoso. tem uma cobaia. a irmã. kevin judia dela, mas tudo com carinho. não é que ele odeie, não é que ele desrespeite, mas é só que é legal. não é? célia nunca conseguiu montar nada com o lego quando brincava com o irmão. porque ele exigia dela que procurasse as peças que ele queria usar. e isso é genuíno. kevin mudou de cidade. ele está intranquilo. ele está tomado pela possibilidade de aparecer, de ser iluminado, de usar a própria voz e o próprio corpo para ser uma coisa inventada. ele gosta de inventar. histórias, situações, climas e jogos. e já domina melhor a linguagem. ele estuda a linguagem. kevin quer saber o que é metáfora. então ele vai, e sabe. pronto. não quer dizer ser certo ou errado. quer dizer ser. verbo intransitivo. eu sou. ponto. eu estou. ponto. eu. é uma criança, não podemos esquecer. tem suas manias, birras e faltas de noção. a questão é que ele está começando a saber disso. ele está começando a saber que se falar tal coisa talvez provoque outra. ele está testando a sua capacidade de ser gente grande, afinal, é o próximo passo. esse, de virar mocinho.

moira laura

moira não acredita no fato consumado. tá tudo escrito, explícito, desenhado registrado e decorado. mas sua força se move no sentido contrário. é como se o seu subtexto fosse o tempo inteiro não posso acreditar nisso porque se o fizer nem sei o que vai ser de mim. ela perdeu. ela está fodida. moira não tem para onde ir, está desamparada. o céu roubou seu filho. ou foi ela que o perdeu? será que foi o marido? não importa, importa apenas não acreditar. como se fazendo força para não acreditar, se tornasse possível reverter a situação. moira tenta. dissimula. ela sabe que é mentira. mas não custa tentar. não lhe sobrou outra alternativa a não ser fingir que o filho partido pudesse estar aqui de novo, pudesse ter se escondido e tudo não passasse de uma mera brincadeira. não há tempo de processamento. não há cura ou solução. não há delegacia médico bombeiro nem religião. a força dela é para não pegar fogo e evaporar. ela mente não porque é mentirosa, mas porque não é mesmo possível acreditar. a mentira é tranquila, ajuda, amortece, apazigua, desenlouquece. a mentira é a forma que ela encontrou para converter desespero em prece, sabe? é auto-punição. é crença que o amanhã será menos árido que o dia de hoje.

tomas gunnar

morto. enquanto tudo está acontecendo tomas vai morrendo. que horror. morrer em câmera lenta. pesava pouco com seus oito anos. peso suficientemente leve para ser erguido por oito balões gigantes cheios de hélio. balões caros e opacos. que os pais compraram para testar os preparativos para seu aniversário. tomas comemora a sua morte em grande estilo: rodeado de estrelas, de pássaros com bicos pontiagudos, perfurado por fome frio e medo. sem mãe nem pai. sem vela nem parabéns. tomas descobriu muito rápido que não era mais brincadeira. porque o pai virou formiga. a mãe virou formiga. a casa virou maquete escolar. o bairro engoliu sua tranquilidade e virou brinquedo. as ruas viraram linhas. as luzes dos postes viraram vagalumes. meu deus, ele deve ter pensado, eu cresci muito porque o mundo fez justamente o contrário. e tão logo voou perdeu o primeiro balão. restam agora – no início da peça – apenas sete. um para cada ano completado de sua vida. o oitavo balão voou porque tomas não chegará para a festa de seu aniversário. sete balões para sete dias de vôo. o corpo de tomas vai rachar no encontro firme com o solo.

se essas palavras não ajudam, paciência, buscaremos outras. mas seu intuito é apenas desbravar, aumentar, dinamitar. vamos fazer analogias e criar relações. tá tudo no texto, só falta escolhermos o que é de fato a expressão mais potente.

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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

sobre a importância de mudar o ponto de vista

este processo de criação está sendo único. nunca antes eu tinha trabalhado dessa maneira e ao mesmo tempo em que ela tem nos rendido grandes descobertas, por vezes é nítido que chegamos a um ponto em que ela perde a graça e nos faz ter vontade de ir pra outro lugar.

eu quero dizer: temos algumas cenas, que foram divididas em blocos. vocês, atores, partem pro trabalho de levantamento de tais blocos, começam a montar um esboço, um primeiro chegar, algum corpo para uma dada sequência de acontecimentos. isso tem nos gerado quase sempre blocos muito distintos, alimentando a noção de bricolagem que permeia nosso espetáculo – ou seja – o nosso espetáculo virá a ser de fato uma colcha com muitos pedaços, muitas linguagens e formas. isso é ótimo. mas,

o que acontece quando dois atores que já fizeram um dado bloco se dão por satisfeitos?

isso está acontecendo porque dentro do nosso planejamento de ensaios vocês estão em pleno curso, sem atraso ou adiantamento. eu pergunto isso porque vários de vocês já terminaram seus blocos e mesmo assim seguem sendo exigidos em sala de ensaio. eu não posso me incomodar com essa exigência. eu não posso solicitar menos a vocês. há vários motivos: vocês estão em cena o tempo todo. não estando ali, em pleno diálogo ou ação, então se posicionem nas cadeiras. vocês não vão ficar parados assistindo a peça quando estiverem nas cadeiras. há muito a ser feito e vocês precisam ser completamente íntimos de tudo isso. ao solicitar a vocês que permaneçam, o que significa isso, uma mera exigência do diretor do espetáculo?

não, obviamente. isso significa que vocês esgotaram uma forma de ver o tal bloco já erguido. mas existem outras. poxa, estamos trabalhando com pontos de vista. se vocês pararem para analisar os blocos pelos mais variados pontos de vistas que temos, cada hora descobrirão uma nova coisa. e é essa a questão: o que a mudança do olhar traz para a cena? se pensarmos que cada espectador lança ao nosso trabalho um ponto de vista diferente… talvez tenhamos desejo e preocupação de fazer uma grande vistoria em nossa peça, filtrando-a por inúmeros pontos de vista.

escrevo estas palavras por saber o que vocês estão passando. mas não é nada excepcional, é o seu ofício. sobretudo, quando eu não estou em sala de ensaio, eu os convido a percorrer outro olhar sobre o mesmo. mas essa guinada no olhar cabe a vocês também. não dá pra ficar no mesmo e se chatear porque tá no mesmo. muda. redescobre. refaz.

o que acontece quando dois atores já fizeram um dado bloco e se dão por satisfeitos?

creio que eles descobrem uma maneira para assegurar a sua constante insatisfação com o trabalho. vocês não estão aqui/ai pra ficarem confortáveis e seguros. não vamos buscar por essas coisas. elas são de mentira. e o nosso trabalho, vale mais que isso.

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terça-feira, 18 de outubro de 2011

semana 3/7

CRONOGRAMA DE ENSAIOS

segunda_17.OUT_19h/22h_andrews
ausente: virgínia

andrêas + dan = CRIAÇÃO DO BLOCO 06
andrêas + laura = AJUSTES BLOCO 05 + 14
adassa + dan + márcio = AJUSTES BLOCO 07
adassa + márcio = AJUSTES BLOCO 09
márcio = AJUSTES BLOCO 08
dan = CRIAÇÃO DO BLOCO 04

terça_18.OUT_19h/22h_andrews
ausentes: diogo e virgínia

dan = AJUSTES BLOCO 04
dan = CRIAÇÃO DO BLOCO 12
andrêas + laura = AJUSTES BLOCO 05 + 14
andrêas + dan = CRIAÇÃO DO BLOCO 13
adassa + márcio = AJUSTES BLOCO 09
márcio = AJUSTES BLOCO 08
laura = CRIAÇÃO DA POSTURA SOBRE A CADEIRA PARA OS BLOCOS 01 + 02 + 03

quarta_19.OUT_19h/22h_andrews
ausente: adassa e diogo

andrêas + dan = AJUSTES BLOCOS 06 + 13
andrêas + laura = AJUSTES BLOCOS 05 + 14
dan + virgínia = AJUSTES BLOCO 10
márcio + virgínia = AJUSTES DIÁLOGO BLOCO 03
márcio = AJUSTES BLOCO 08

quinta_20.OUT_19h/22h_andrews

trama geral das três primeiras cenas (DECORAR RUBRICAS)
leitura das cenas três SINFONIA SONHO + quatro MASSACRE LOCAL + cinco NÃO-DIVISÃO CELULAR

sexta_21.OUT_19h/22h_andrews

continuação da trama geral das três primeiras cenas (DECORAR RUBRICAS)
estudo das cenas três SINFONIA SONHO + quatro MASSACRE LOCAL + cinco NÃO-DIVISÃO CELULAR

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seguem abaixo indicações para a criação dos blocos restantes:

BLOCO 04 > FRIO APODRECER

> sentados (frontalidade): adassa + andrêas + laura + márcio + virgínia
> de pé (livres no espaço): dan
> leitura das rubricas (ANDRÊAS)

BLOCO 08 > UM LEITMOTIV

> sentados (frontalidade): adassa + dan + virgínia + andrêas + laura
> de pé (livres no espaço): márcio
> leitura das rubricas (ANDRÊAS)

BLOCO 12 > CESSAR DÚVIDAS

> sentados (frontalidade): adassa + márcio + virgínia + andrêas + laura
> de pé (livres no espaço): dan
> leitura das rubricas (ANDRÊAS)

BLOCO 13 > SER PAI

> sentados (frontalidade): adassa + laura + márcio + virgínia
> de pé (livres no espaço): andrêas + dan
> leitura das rubricas (ANDRÊAS/DAN)

16 \\

07 de outubro, Colégio Andrews, 19h/22h.
Thaís, Andrêas, Laura, Adassa, Márcio, Dan, Virgínia, Diogo e Helena Cantídio.

helena puxou uma preparação com os meninos. levou um óleo e partiu de uma auto-massagem corporal. puxou um excelente trabalho sobre a musculatura do olho. sobre a inteligência da musculatura. em seguida, retomei alguns jogos que há tempos não fazíamos. alvo, cinto de segurança. pensamos o PV de cada personagem a partir de palavras que fui tirando do texto (recebido no dia anterior):

domingo + olho + amanhã + aniversário + cuidado + escuro + espera + cansado + dinossauro + raciocínio + surpresa + carro + ajustes. depois fizemos uma leitura das cenas. apostei que franklin leria as rubricas sobre a família de corley e corley aquelas que descrevessem as ações da família de franklin. foi super curioso. por último, fizemos uma improvisação do prólogo FESTA CÉLIA.

as figurinistas e o cenógrafo fizeram uma primeira apresentação das ideias. tudo simples, mas lugares que haviam sido intuídos e que pareceram a eles potentes de se desbravar. por último, apenas um pedido: decorar o texto.

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15 \\

06 de outubro, Colégio Andrews, 19h/22h.
Thaís, Andrêas, Laura, Adassa, Márcio, Dan, Virgínia, Diogo, Helena Cantídio, Philippe Baptiste, Gunnar Borges, Isadhora Müller, Leandro Ribeiro e Marina Dalgalarrondo.

ensaio com todos do elenco e mais figurinistas (isadhora e marina), cenógrafo (leandro), diretor musical (philippe), produtor/ator (gunnar) e diretora de movimento (helena cantídio).

entreguei as primeiras cenas. prólogo FESTA CÉLIA + cena um OS VIZINHOS + cena dois O PRONUNCIAMENTO. fizemos uma leitura e conversamos um pouco. na verdade, não falamos muito. tenho a sensação de que o texto chegou e deu uma silenciada ao invés de promover o diálogo. nesse mesmo dia, antes do ensaio, estive numa reunião de quase quatro horas com a eleonora, orientadora de direção.

nesta reunião, lemos as cenas e fomos tramando possibilidades. eleonora me falou da simultaneidade, do refrão de kevin (que na mesma hora eu nomeei de leitmotiv). focou sua fala no uso das rubricas, o que me fez pensar que os vizinhos dão as rubricas da família ao lado da sua. me indicou que lesse novamente senhora dos afogados, do nelson rodrigues. e tocou no assunto inversão de valores. algo como infantilização e adultização. sobre educação.

butoh. psicofísico.

a possibilidade da rubrica, a lista de personagens (descrição de cada um). tudo isso é texto e serve apenas para deslocar o leitor do centro da história, para fazê-lo ver tudo de fora. analisar. refletir. pensar sobre e não se extasiar com aquilo ali contado, encenado. passei a ela tudo que havia recebido das figurinistas e do cenógrafo. o preto e branco do figurino, o uso das cadeiras e eletrodomésticos. eleonora disse que o nosso chão era verde. e eu fiquei semanas pensando nisso. chegamos ao malevich, enfim…

tocamos no assunto esquizofrenia. desmedida e ambiguidade. disse que era nesse ponto onde o trágico emergia. ela me falou da idade de alice – os sete anos – também de célia. a mudança da dentição. a sensação de amadurecimento que o aniversário provoca. trouxe indagações sobre o furar do olho de célia. me perguntou se tinha sido realmente um acidente. falou da selvageria natural das crianças. e que tal ato – o furar do olho da irmã – deveria ter custado ao kevin alguma coisa.

muitas coisas que desde então estão se movendo e testando. um flerte sem fim entre muitos lugares, ou seja, pura pura pura bricolagem. não há sentido prévio. estamos construindo no passar dos dias.

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14 \\

05 de outubro, Colégio Andrews, 19h/22h.
Thaís, Andrêas, Laura e Diogo

ensaio apenas com corley e moira.

assim como nos anteriores, entreguei um capítulo do livro O PENSAMENTO SELVAGEM, do Claude Lévi-Strauss, sobre bricolagem. discutimos sobre o título do espetáculo: sinfonia sonho. também conversamos sobre calendário, datas, prazos. informei a nossa data de estreia e marquei datas na agenda quando realizaria a entrega das cenas do texto (em três momentos).

sugeri uma improvisação dificílima. queria que eles criassem a situação imediatamente anterior a primeira cena do espetáculo. ou seja, eles deveriam estar presentes segundos após o filho ter sido levado por um balão. semanas depois eu descobriria se tratar de balões de gás hélio e não de um balão conforme acreditávamos. me preocupou bastante pedir essa improvisação porque desde o início ela me sugeria encrenca. como dar conta disso? os meninos deram.

laura abriu a porta e gritava com andrêas vai buscar nosso filho, batendo nele e ele completamente parado, sem saber como dar conta daquela exigência. a improvisação teve cerca de quarenta minutos, nos quais pouco foi dito, mas muito foi dito sem palavra, escorrendo pelos olhares e gestos. precisão versus imprecisão, um desespero lento consumindo os dois. batidas de cabeça de corley contra a parede. moira parada durante minutos a espera de um ruído para esbravejar seu horror. foi intenso. foi sério. ali descobrimos muito sobre os dois.

descobrimos essa agilidade de moira capaz de descongelar só com o olhar um iceberg inteiro. descobrimos como corley para além do afeto e amor sabe também ser violento e impositor. ficamos nesse entre onde a dor de perder um filho justifica ações que não se justificam. o tempo passa de fato em pouco tempo. o filho voou e não deu tempo de retroceder. não deu tempo de segurá-lo. ele se foi. era final de noite, ele partiu e acabou. muito silêncio. muita pausa. muita coisa, ao mesmo tempo, NADA.

excelente ponto de partida, que os meninos estão desbravando mais a cada ensaio.

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13 \\

04 de outubro, Colégio Andrews, 19h/22h.
Thaís, Dan, Virgínia e Diogo

ensaio apenas com eva e franklin.

assim como no anterior, entreguei a eles um capítulo do livro O PENSAMENTO SELVAGEM, do Claude Lévi-Strauss, no qual há um bom apanhado sobre bricolagem. sugeri que fizessem uma improvisação de uma situação imediatamente anterior a primeira cena do espetáculo (que viria dali a alguns dias).

na improvisação. uma conversa franca entre os dois. eva se msotrando como aquela a frente de tudo, somente a espera do resultado do concurso para colocar as coisas na mala e partir. franklin, talvez por conta da morte do paz, letárgico, nem isso, lento apenas, sem grandes vontades nem grandes desejos. maleável, capaz de fazer tudo o que lhe for pedido, mas no seu tempo.

discutimos sobre o título do espetáculo: peça de formatura ou sinfonia sonho? ficamos com o segundo. conversamos – assim como no ensaio anterior - sobre calendário, datas, prazos. informei a nossa data de estreia e marquei datas na agenda quando realizaria a entrega das cenas do texto (em três momentos).

eva e franklin são personagens difíceis. não pelos atores, não isso, mas por sua constitução mesmo. como escrevê-los? quem são eles? neste ensaio, observei que eva talvez estivesse um grau descolada da realidade. tão tomada pelo desejo de sucesso, tão movido a isso que acabava por se fazer meio out, meio fora de órbita. franklin, talvez – mais uma vez – pelo luto do pai, não seria alguém depressivo, mas apenas alguém meio ao meio, semo vigor completo. alguém que já se aproxima da consciência da própria morte por conta da proximidade com a morte do outro.

descobrimos fisicamente um jogo interessante para eva. ela talvez mova mais as pernas do que os braços. talvez ande e fale sem parar. mas apenas ande e fale, sem gesticular muito. semanas depois, as duas figurinistas viriam a propor um figurino que num dado momento justamente corta os movimentos da perna, exigindo de eva quase uma imobilidade. ao passo que o figurino de franklin, totalmente solto e flamejante, como se ele tivesse encolhido dentro de si mesmo, como se tivesse se resguardado.

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12 \\

27 de setembro, Colégio Andrews, 19h/22h.
Thaís, Marcio, Adassa, Diogo e Janaína Dórea

ensaio apenas com célia e kevin.

entreguei um capítulo do livro O PENSAMENTO SELVAGEM, do Claude Lévi-Strauss, no qual há um bom apanhado sobre bricolagem. conversamos sobre isso e sobre o sistema nervoso dessas crianças. psicofísico ao invés de mimesis. presença e experiência ao invés de reprodução. sinto os meninos meio perdidos e duvidosos. sei que eles fazem bem a coisa de representar as crianças. mas não é isso. não é.

sugiro uma improvisação. uma conversa entre célia e kevin sobre o fim das aulas, sobre a suspeita de que a família vai se mudar para outra cidade. um chateamento entre os irmãos que se equaliza e troca. eles parecem ser um corpo só e diferente. busquei orientá-los no sentido de uma voz mais neutra, sem afetações visando representar crianças.

discutimos sobre o título do espetáculo: peça de formatura ou sinfonia sonho? ganhou o que temos até agora. neste ensaio, a aluna-jornalista da ufrj, janaína dórea, esteve presente para ver nosso ensaio. ele deveria entregar em alguns dias um texto chamado impressões, buscando informar ao leitor da revista da XI Mostra de Teatro da UFRJ o que ele iria assistir. coitada, não tinha muito a ser visto exceto especulações e tentativas.

conversamos sobre calendário, datas, prazos. informei a nossa data de estreia e marquei datas na agenda quando realizaria a entrega das cenas do texto (em três momentos).

na improvisação, os meninos trouxeram as mochilas e o diálogo entre eles é fluido e interessante. descobrimos que célia está em relação constante com o mundo e suas coisas, ao passo que kevin faz o mesmo porém de maneira mais concentrada. enquanto ela toca em tudo, kevin repete o toque no zíper do próprio casaco. mas ambos, com predisposição (genética?) ao impossível.

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11 \\

09 de setembro, UFRJ – Sala Vianinha, 20h30/22h.
Thaís, Dan, Virgínia, Laura, Andrêas, Marcio, Adassa, Diogo e Eleonora Fabião

os atores apresentaram a composição geral que havia sido solicitada ensaios atrás. tanto eu como eleonora estávamos vendo aquilo ali pela primeira vez. eu sabia das composições, mas não sabia da costura, da montagem que os meninos fizeram.

hoje escrevendo esse relatório, tento visualizar nessa composição algum resquício da cena que estamos erguendo. pontuarei assim alguns lugares que se mostraram interessantes e potentes ao desbravar.

CONSTELÇÃO > a cena se esparrama pelo espaço, trabalha com pontos, a dramaturgia logo assim pode também ser pensada como pontos nodais que se ligam e formam imagens, tudo quebrado;

ITALIANO > o senso comum, a tipologia espacial para igualar os lugares e espelhar o público, não é bem isso, mas pode-se pensar o que fazer com esse espaço. se quebra? se ultrapassa? se atravessa?

CINTO DE SEGURANÇA > é sem dúvida alguma o eixo do espetáculo, o jogo-centro do qual tudo parte. cria um estado, uma atenção, uma tensão e relação entre os atores que vale o todo que vier depois.

CRIANÇAS > há duas criações distintas. uma feita por márcio (kevin) e outra por adassa (célia). é preciso descobrir como as duas se equalizam. por um lado um jogo com mimesis, uma tentativa de reproduzir o que é ser criança. por outro lado, uma tentativa mais sinestésica, de fato envolvendo o sistema nervoso. essa, lança à experiência o ato de ser criança. esta última é mais bricolagem. mais interessante, pois não fecha (abre, apenas).

eleonora me pontuou que são personagens exaustas, deprimidas, tristes… e voltou ao tema que julga ser central, da violência a criança. pensar nisso.

COMPOSIÇÃO > a composição apresentada foi uma mistura de composições individuais. foi especial. durou cerca de quase 50 minutos. foi especial porque eram os seis atores em jogo constante, sobre cadeiras ou de pé, se ajudando e escorando, fazendo e tentando. foi bom assistir. a sensação de que a peça já acontecia ali. enfim, novas descobertas. novos lugares. eles pararam a composição no momento em que o massacre da escola acontece.

aqui estamos nós.

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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

distanciamento

estou pensando em brecht. não que eu saiba de alguma coisa. sei apenas do que ele cavou em mim. sei da minha compreensão acerca de alguma fagulha de seu universo. penso em distanciamento. penso em não iludir, mas te fazer cair dentro por via outra, mais essencial, mais especial. afinal, é sabido que estamos fazendo uma peça. logo, o que pode haver de saldo maior a partir desta certeza? o que gostaríamos que você soubesse mas que é preciso decifrar?

quero dizer que a história ali sendo encenada não interessa exceto por aquilo que ela pode fazer brotar aqui em nós que a assistimos. é uma sensação quase inédita essa. eu aqui confundindo os diálogos e me vendo sentado ante aos atores. eu pensando como posso fazer para receber tudo aquilo como se fosse a primeira vez. eu me esforçando como nunca antes para ser espectador, de profissão.

as referências todas morreram. o que estamos construindo vem por pernas próprias. bem, pode ser que sejam semelhantes ao concreto que dá solidez ao mundo, mas são pernas autônomas e que respiram por si só. eu aqui escrevendo hipérboles quando dentro de mim uma hipérbole maior me consome. a forma, meu deus, a forma. ela está gritando, ela está dizendo e eu esperando?! como pode?

ponto parágrafo.

eu preciso escrever a cena massacre local. creio que nela reside o epicentro disso que me angustia. esta cena me faz estar frente a frente com aquilo que me aterroriza. com tudo o que me endoidece e machuca. tenho a sensação que tudo foi escrito para que se chegasse a este momento. imagina, cara, o seu filho sendo alvejado por um qualquer. imagina a sua criança, de banho tomado, cabelo penteado, indo feliz para mais um dia de aula e simplesmente ela não voltar. não pode. o mundo tá muito errado. alguém precisa falar disso.

eu não sei se sou eu quem deve falar. mas sem dúvida estarei tentando. é preciso. é menos mensagem e mais necessidade. é abrir o corpo sobre o jornal de cada dia e ver em qual manchete ele cola. sobre quais corpos ele se enrijece e depois chora. eu não sei. eu estou procurando algum distanciamento para colar sua atenção nesta coisa. pra colar sua dispersão na minha.

distanciamento para ver melhor, é? então tenta colar aqui. o que será que veremos? que o sangue escorre invisível e incolor.

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DRAM_ATOR_GIA

só mesmo escrevendo para se chegar a algum lugar. hoje não consegui escrever absolutamente nada das novas cenas que precisava ter escrito. não sei o que me deu. não quero aceitar nem acreditar que tenha sido falta de inspiração. não gosto de inspiração. gosto de trabalho, ofício, mentira, eu tô perdido.

eu aqui escrevendo isto apenas para reduzir um pouco da dificuldade. eu pensando que essa peça se contrói em três momentos. eu poderia até dizer que são três atos. e estes se dão por um jogo de diferença. no primeiro ato (prólogo + cena um + cena dois) as crianças são diferentes dos adultos. no segundo ato (cena três + cena quatro + cena cinco) as crianças meio que se igualam aos adultos. e no terceiro ato (cena seis + cena sete) os adultos se infantilizam de uma forma tal que as crianças soam mais adultas do que nunca.

não sei exatamente o que isso significa. sei. na verdade, eu sei. eu tô querendo propor a dramaturgia um jogo pelo qual possamos ver (ou reconhecer) certo movimento dentro do qual as crianças hoje em dia parecem arredadas. movimento este no qual os pais se ausentam de suas responsabilidades e cabe as crianças a sensação de serem responsáveis por seus próprios pés. eu quero dizer: esta peça talvez esteja falando de seres selvagens. do selvagem que é a criança. selvagem concentrado. e também dessa selvageria ensaiada, despropositada, desse ser humano que desamadurece no correr dos anos.

eu não sei. acho que sei, percebo que não sei. tudo bem. vai ser assim durante muito tempo. não tem problema. eu estou pensando em muitas coisas ao mesmo tempo. sobretudo em eletrodomésticos. sobretudo em bricolagem. eu pensando em como ser intransigente com certas coisas que se anunciam. sim, é preciso saber se impor. não digo em relação aos atores, não. isso não. eles estão plenos e radiantes. criando. experimentando. indo lá longe onde eu sinto que talvez nunca tenham estado. eles estão escrevendo a coisa. e isso é incrível. isso é incrível. de fato.

mas falo da força que é preciso fazer para convencer o mundo a nos receber. a força que é feita para que se faça da forma como se pode e se deve fazer. os assuntos se misturam. eu aqui escrevendo como se estivesse falando. ansioso por não ter escrito quase nada e por mesmo assim estar inteiro aqui como se soubesse como fazê-lo. o cara aqui tá em crise. mas vai dormir e amanhecer. é o tempo que me dou para me enganar e retomar as tentativas.

por hoje, apenas estas sinceridades. deus. semana 3 de sete. tá chegando.

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terça-feira, 11 de outubro de 2011

O muro que divide você do seu vizinho.






Mertáfora, metáfora.
Algumas sensações novas. Essas imagens do Chagall cabem o que agora (e a vontade que tudo se modifique no encontro) me fazem observar linhas, leveza, salto, nuvem, queda e o perigo de não saber para onde vão as pessoas depois que tudo acaba, tudo mesmo. Pode ser mínimo, pode ser um gesto.
É tempo e é dele a responsabilidade de gerar suspensões no espaço. Talvez haja alguma coisa que se pense ou cante no momento da queda, reverberações abruptas de perigo e liberdade.
Pensei em desenho do Tomas, pensei Moira e Corley.


.movimento circular
.detalhe em tempo longo
.passagem de foco
.respiração
.uma imagem boba
.balões de gás helio

Lembrei de uma fala da Lola Arias:
Você acha que os bebês podem cometer suicídio?

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Referências de Indumentária




Seguem possíveis referências para os figurinos dos personagens Thomas e Moira. Ambas de Hussein Chalayan.

domingo, 9 de outubro de 2011

semana 2/7

CRONOGRAMA DE ENSAIOS

segunda_10.OUT_19h/22h_andrews
ausente: virgínia

andrêas + laura = CRIAÇÃO DO BLOCO 05
adassa + dan + márcio = CRIAÇÃO DO BLOCO 07

terça_11.OUT_19h/22h_andrews
ausentes: diogo e virgínia

andrêas + dan = CRIAÇÃO DO BLOCO 06
adassa + márcio = CRIAÇÃO DO BLOCO 09
laura = CRIAÇÃO DOS BLOCOS 01, 02 e 03

quarta_12.OUT_18h/22h_casa da laura
ausente: diogo

andrêas + laura = CRIAÇÃO DO BLOCO 05
adassa + dan + márcio + virgínia = CRIAÇÃO DO BLOCO 11

quinta_13.OUT_19h/22h_andrews

andrêas + laura = CRIAÇÃO DO BLOCO 14
adassa + dan + márcio = CRIAÇÃO DOS BLOCOS 01, 02 e 03

sexta_14.OUT_19h/22h_andrews
ausente: adassa

andrêas + laura = CRIAÇÃO DO BLOCO 14
dan + virgínia = CRIAÇÃO DO BLOCO 10
márcio = CRIAÇÃO DO BLOCO 08

sábado_15.OUT_19h50_estação sesc ipanema
convido todos vocês para assistirmos ao filme WE NEED TO TALK ABOUT KEVIN, no horário/cinema descrito acima (precisamos comprar com antecedência, eu creio).

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seguem abaixo indicações para a criação de cada um dos blocos previstos para esta segunda semana (atenção, não há todos os blocos, apenas os solicitados acima):

BLOCO 01 > NO CARRO

> cinto de segurança
> todos sentados
> frontalidade
> leitura das rubricas (LAURA)

BLOCO 02 > CURATIVO CÉLIA

> sentados (frontalidade): andrêas + laura + márcio
> de pé (livres no espaço): adassa + dan + virgínia
> leitura das rubricas (LAURA)

BLOCO 03 > KEVIN EMUDECE

> sentados (frontalidade): adassa + andrêas + dan + laura
> de pé (livres no espaço): márcio + virgínia
> leitura das rubricas (LAURA)

BLOCO 05 > NÃO MINTA

> sentados (frontalidade): adassa + márcio + virgínia
> de pé (livres no espaço): andrêas + dan + laura
> leitura das rubricas (DAN)

BLOCO 06 > PERDÃO PRAZER

> sentados (frontalidade): adassa + laura + márcio + virgínia
> de pé (livres no espaço): andrêas + dan
> leitura das rubricas (ANDRÊAS/DAN)

BLOCO 07 > AS MOCHILAS

> sentados (frontalidade): andrêas + laura + virgínia
> de pé (livres no espaço): adassa + dan + márcio
> leitura das rubricas (LAURA)

BLOCO 09 > MAIS MADURA

> sentados (frontalidade): andrêas + laura
> de pé (livres no espaço): adassa + dan + márcio + virgínia
> leitura das rubricas (LAURA)

BLOCO 11 > BOM DIA

> sentados (frontalidade): andrêas + laura
> de pé (livres no espaço): adassa + dan + márcio + virgínia
> leitura das rubricas (ANDRÊAS/LAURA)

BLOCO 14 > MENTIRA TOMAS

> sentados (frontalidade): adassa + dan + márcio + virgínia
> de pé (livres no espaço): andrêas + laura
> leitura das rubricas (DAN)

cinto de segurança

Virgínia + Laura + Márcio + Andrêas + Adassa + Dan

PV_T O P O G R A F I A


PONTO DE VISTA ESPACIAL

TOPOGRAFIA
O panorama (a vista), o padrão de piso, o design que criamos em movimento pelo espaço. Na definição da vista, por exemplo, podemos decidir que a área mais baixa do palco tem grande densidade, o que dificulta o movimento através dela, enquanto a área de cima tem uma densidade menor e, portanto, envolve maior fluidez e tempos mais rápidos. Para entender o padrão de piso, imagine que o fundo dos seus pés estão pintados de vermelho; assim que você se movimento pelo espaço, a imagem que se forma no chão é o padrão de piso que evolui no correr do tempo. Em adição, uma encenação ou marcação de uma performance sempre envolve escolhas sobre o tamanhoe a forma do espaço em que trabalhamos. Por exemplo, nós podemos escolher trabalhar em uma faixa estreita de três pés por toda a área baixa do palco ou numa enorme forma triangular que cobre todo o chão, etc.

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BOGART, Anne; LANDAU, Tina. The Viewpoints Book – A Pratical Guide to Viewpoints and Composition. Tradução de Diogo Liberano. New York: Theatre Communications Group, 2005, p. 11-12.

PV_R E L A Ç Ã O_E S P A C I A L


PONTO DE VISTA ESPACIAL

RELAÇÃO ESPACIAL
A distância entre coisas no palco, especialmente (1) um corpo para outro; (2) um corpo (ou corpos) para um grupo de corpos; (3) o corpo para a arquitetura.

Qual é a gama total de possibilidades de distâncias entre coisas no palco? Que tipos de agrupamentos nos permitem ver com maior clareza uma imagem no palco? Quais agrupamentos sugerem um acontecimento ou emoção, expressam uma dinâmica? Tanto na vida real como no palco, nós tendemos a nos posicionar a dois ou três pés de distância de quem estamos conversando. Quando começamos a atentar para a possibilidade expressiva da RELAÇÃO ESPACIAL sobre o palco, começamos também a trabalhar com menos educação, porém, com distâncias mais dinâmicas de extrema aproximação ou extremo afastamento.

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BOGART, Anne; LANDAU, Tina. The Viewpoints Book – A Pratical Guide to Viewpoints and Composition. Tradução de Diogo Liberano. New York: Theatre Communications Group, 2005, p. 11.

PV_A R Q U I T E T U R A


PONTO DE VISTA ESPACIAL

ARQUITETURA
O ambiente físico no qual você está trabalhando e como a consciência dele afeta o seu movimento. Quantas vezes assistimos à peças em que há um cenário suntuoso e intricado cobrindo todo o palco e os atores, ainda assim, permanecem com dificuldade na exploração da arquitetura que os envolve? No trabalho da ARQUITETURA como ponto de vista, nós aprendemos a dançar com o espaço, a estar em diálogo com a sala, a deixar o movimento (especialmente FORMA e GESTO) evoluir para fora de nosso próprio espaço. ARQUITETURA é dividida em:

  1. MASSA SÓLIDA. Paredes, chãos, tetos, mobiliário, janelas, portas, etc;

  2. TEXTURA. Se a massa sólida é de madeira ou metal ou tecido modifica o tipo de movimento que criamos em relação com ela;

  3. LUZ. As fontes de luz na sala, as sombras que fazemos em relação a estas fontes, etc;

  4. COR. Criando movimento a partir das cores no espaço, como uma cadeira vermelha entre inúmeras outras pretas afetaria a nossa coreografia em relação a ela;

  5. SOM. Som criado pela arquitetura e a partir dela, o som dos pés no chão, o ranger de uma porta, etc.

No trabalho com ARQUITETURA nós criamos metáforas espaciais, dando forma a sentimentos como “eu estou contra a parede”, “preso entre as rachaduras”, “preso”, “perdido no espaço”, “no limiar”, “alto como uma pipa”, etc.

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BOGART, Anne; LANDAU, Tina. The Viewpoints Book – A Pratical Guide to Viewpoints and Composition. Tradução de Diogo Liberano. New York: Theatre Communications Group, 2005, p. 10-11.

PV_G E S T O


PONTO DE VISTA ESPACIAL

GESTO
Um movimento envolvendo uma parte ou partes do corpo; GESTO é FORMA com início, meio e fim. GESTOS podem ser feitos com as mãos, os braços, a cabeça, a boca, os olhos, os pés, o estômago, ou qualquer outra parte ou combinação de partes que possam ser isoladas. O ponto de vista GESTO é dividido em:

1. GESTO COMPORTAMENTAL. Pertence ao concreto, ao mundo físico do comportamento humano da forma como observamos em nosso dia-a-dia. É o tipo de gesto que você vê num supermercado ou metrô: alguém riscando um papel, apontando, cheirando um alimento, cumprimentando outro alguém, fazendo uma saudação. Um GESTO COMPORTAMENTAL pode dar informações sobre o caráter, sobre uma época, saúde física, uma circunstância específica, clima, roupas, etc. Geralmente é definido pelo caráter de uma pessoa ou pela época e local nos quais ela vive. Também pode ter um pensamento ou intenção por trás. Um GESTO COMPORTAMENTAL pode ser dividido e trabalhado em GESTO PRIVADO e GESTO PÚBLICO, distinguidos por ações que são feitas quando sozinho ou quando sob atenção ou proximidade de outros.

2. GESTO EXPRESSIVO. Expressa um estado interior, uma emoção, um desejo, uma ideia ou valor. É abstrato e simbólico em vez de representativo. É universal e atemporal e não é algo que você veria alguém fazendo normalmente num mercado ou metrô. Por exemplo, um GESTO EXPRESSIVO deve ser expressivo de, ou capaz de veicular, emoções como “alegria”, “dor” ou “raiva”. Ou deve expressar a essência interior de Hamlet como um dado ator a sente. Ou, numa produção de Tchékhov, você pode criar e trabalhar com GESTOS EXPRESSIVOS do tempo ou para expressar “tempo”, “memória” ou “Moscou”.

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BOGART, Anne; LANDAU, Tina. The Viewpoints Book – A Pratical Guide to Viewpoints and Composition. Tradução de Diogo Liberano. New York: Theatre Communications Group, 2005, p. 9-10.

PV_F O R M A


PONTO DE VISTA ESPACIAL

FORMA
O contorno que o corpo (ou corpos) faz(em) no espaço. Toda FORMA pode ser dividida em FORMA com (1) linhas; (2) curvas; (3) uma combinação de linhas e curvas.

Portanto, no treinamento com PONTOS DE VISTA, nós podemos criar FORMAS que são arredondadas, formas que são angulares e formas que são uma mistura dessas duas.

Somado a isso, uma FORMA também pode ser (1) sem movimento; (2) em movimento (pelo espaço).

Por último, FORMA pode ser feita por uma das três maneiras: (1) com o corpo no espaço; (2) com o corpo em relação com à arquitetura (criando FORMAS); (3) o corpo em relação com outros corpos (criando FORMAS).

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BOGART, Anne; LANDAU, Tina. The Viewpoints Book – A Pratical Guide to Viewpoints and Composition. Tradução de Diogo Liberano. New York: Theatre Communications Group, 2005, p. 9.

PV_R E P E T I Ç Ã O


PONTO DE VISTA TEMPORAL

REPETIÇÃO
REPETIÇÃO de algo no palco. REPETIÇÃO inclui (1) REPETIÇÃO INTERNA (repetindo um movimento dentro do seu próprio corpo); (2) REPETIÇÃO EXTERNA (REPETIÇÃO da forma, andamento, gesto, etc., de algo que se dá fora do seu próprio corpo).

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BOGART, Anne; LANDAU, Tina. The Viewpoints Book – A Pratical Guide to Viewpoints and Composition. Tradução de Diogo Liberano. New York: Theatre Communications Group, 2005, p. 9.

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PONTO DE VISTA TEMPORAL

RESPOSTA KINESTÉTICA
Reação espontânea ao movimento que ocorre fora de você; o tempo dentro do qual você responde a eventos externos de movimento ou som; o movimento impulsivo que acontece a partir de uma estimulação dos sentidos. Exemplo: alguém alguém bate uma palma na frente de seus olhos e você pisca em resposta, ou alguém bate uma porta e você impulsivamente se levanta da sua cadeira.

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BOGART, Anne; LANDAU, Tina. The Viewpoints Book – A Pratical Guide to Viewpoints and Composition. Tradução de Diogo Liberano. New York: Theatre Communications Group, 2005, p. 8.

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PONTO DE VISTA TEMPORAL

DURAÇÃO
Quanto tempo um movimento ou seqüência de movimentos age. DURAÇÃO, em termos do trabalho com pontos de vista, está especificamente relacionada a quanto tempo um grupo de pessoas trabalhando juntas permanece dentro uma determinada seção de movimento antes que este se modifique.

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BOGART, Anne; LANDAU, Tina. The Viewpoints Book – A Pratical Guide to Viewpoints and Composition. Tradução de Diogo Liberano. New York: Theatre Communications Group, 2005, p. 8.

PV_A N D A M E N T O


PONTO DE VISTA TEMPORAL

ANDAMENTO
A taxa de velocidade em que um movimento ocorre; quão rápido ou lento algo acontece no palco.

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BOGART, Anne; LANDAU, Tina. The Viewpoints Book – A Pratical Guide to Viewpoints and Composition. Tradução de Diogo Liberano. New York: Theatre Communications Group, 2005, p. 8.

sobre PONTOS DE VISTA [ viewpoints ]

gatônitos,

as próximas postagens serão traduções diretas do livrvo THE VIEWPOINTS BOOK – A Pratical Guide to Viewpoints and Composition, de Anne Bogart e Tina Landau. a partir destas leituras, creio que vocês terão contato – superficial – com a coisa. mas é o start para o trabalho em sala de ensaio.

no entanto, cabe pontuar algumas coisas sobre o uso desta ferramenta em nosso processo: como o próprio nome diz, Pontos de Vista (ou Viewpoints), nada mais são do que maneiras de se olhar para um dado objeto, corpo ou situação. ou seja, eu posso decidir olhar para a leitura que fazemos das cenas e, mesmo sem ter pedido a vocês, decidir olhá-los pelo filtro da REPETIÇÃO (que é um dos PV). assim, ao tomar consciência de que devo jogar com resposta kinestética, por exemplo, eu não tenho como privar meu corpo, talvez, de construir formas, gestos, andamentos, relações espaciais, arquiteturas e outros PV variados.

a questão do PONTO DE VISTA está no olhar (e na consciência do olhar). eu posso ver um determinado PV em qualquer situação, basta querer vê-lo. para o ator em cena, ou em jogo, é possível desdobrar ações dentro de um campo específico (mas mesmo que ele se dedique apenas a jogar com FORMA, isso não me impedirá – como espectador – de ver gesto, resposta kinestética, duração, andamento, repetição… e por ai vai).

portanto, não se exijam este jogo da maneira errada. é apenas uma forma de ver. e quanto mais conseguirmos trabalhar nosso corpo para que ele comporte leituras possíveis, melhor para a nossa dramaturgia cênica.

de acordo com Borgart e Landau, os PV se dividem em duas categorias: TEMPO e ESPAÇO. confiram nas próximas postagens.

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sábado, 8 de outubro de 2011

Corley fala sobre Tomas

1.

Um dia veio aflito e me pediu. Eu não vi absolutamente nenhum problema em dar-lhe uma. Afinal, já estava preocupado com a demora. Todos os outros, ou pelo menos a maioria, já haviam pedido e elas inclusive repousavam quebradas num canto qualquer da casa. Ao contrário do pequeno que me pedira no tempo de seu desejo, todos os outros já estavam na era da internet. Mas o tal em questão, não! Estava certo, na precisão de seu soletrar, queria porque queria uma "bic-icle-ta"!

2.

Quando ela chegou a primeira coisa que ele fez foi partir. Na velocidade em que conseguiu, vestido no pijama daquele amanhecer. Dali em diante, vivi noites fossem feito dias. Eu ali, acordado, pensando onde ele estaria. "Ele fugiu", eu repetia. Mas dessa vez não fora da cama para o berço. Quem perde um pequeno perde pelo braço e do braço para o mundo, foi num só passo.

3.

Eu envelheci. Não tanto a pele, nem a beleza. Envelheci por dentro, perdi em delicadeza. O tato foi ficando mais coberto. E sobre as mãos repousaram poeira do mundo, marcas das vãs tentativas de encontrá-lo. Amadureci. Toda manhã restava o café quente esperando. Mas ele não vinha, ele não veio. Os irmãos já ansiosos com o seu paradeiro. "Ele foi para longe?", um perguntava. O outro, mais distraído, dizia "de onde ele veio?". E eu, em apuros, contando a prole ali, ao meio.

4.

Se não morremos é porque estamos vivos. Morrer-se aos poucos ainda é viver. E nessa peleja de ser partido, um dia ouvi o barulho da bicicleta. Pude desenhá-la em meio ao vento para em seguida ouvir o estrépito acolhimento, que só as pedras da nossa rua aos nossos filhos davam. Desci o quintal correndo, o coração já na mão, caso fosse preciso dar-lhe ao meu pequeno.

5.

O rosto avermelhado. Dentro dele alguma força a se debater. Olhou-me sem graça, como tivesse feito coisa errada. E os filhos não sabem, mas os pais adoram suas coisas erradas. Os pais adoram essa culpa frustrada de não os ter educado direito; e mais um drama e sobe uma escada e veja se essa roupa é sua ou do seu irmão.

6.

Mas ele veio, enfim. Caído no chão, olhou primeiro a bicicleta suja e amassada. E como se nada tivesse acontecido, fez-me o segundo pedido: "tem como tirar a rodinha?". Olhou para mim. Eu duvidava sim, mas era desse excesso aqui dentro, não era do seu pedido. "Eu já sei andar sem rodinha. Eu caí por causa dela. Tira?".

7.

Eu não devia ensinar chantagens, mas era a rodinha em troca de um almoço e de um banho e abraço e o seu braço, face, nuca, pescoço. Filho sujo como estava mesmo assim eu bajulava. Correu meio mundo num segundo e eu ali, ao pé da escada. Subimos o quintal. Juntei-os todos e um deles gritou: "Coloca lá no blog que a gente já encontrou!". O outro saiu correndo e nisso, o pequeno se vendo numa tela de computador: "Sou eu?"

8.

Limpei seus machucados. Ele não teve paciência. Almoçou todo o prato que fiz e ainda ameaçou desobedecer, querendo mais do doce só por saliência. Penteei seus cabelos, limpei-lhe a face. Era meu filho voltado do mundo. Tinha nos olhos uma incompreensão que eu julguei ser absurdo. Tudo o que eu julgo absurdo é porque eu não sei compreender. Exceto os filhos meus, absurdamente conhecidos por essas mãos que os acenam um adeus invertido em meio a um vá reprimido.

Fonte: http://lendoarvoreseescrevendofilhos.blogspot.com/2008/03/eu-j-sei-andar-sem-rodinha.html

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

EXPRESSÃO

hoje passei o domingo por conta de nossa peça. escrevi várias cenas e também o texto que cada aluno-diretor escreve para a revista da mostra de teatro da ufrj.

esse projeto de fato ainda está começando. com a nossa estreia em novembro – estreia dentro da ufrj – percebo o quanto muito ficará por ser descoberto, descortinado. precisamos de algum tempo depois de tantos ensaios.

muito a pensar. eu saindo de um processo super intenso de criação dramatúrgica. como cavalgar um dragão demorou muitos meses para ser escrito. só neste domingo escrevi três cenas de sinfonia sonho. não escrevo isso para fazermos comparações. são espetáculos muito distintos. o que eu estou me exigindo é conseguir escrever o melhor para cada ator. escrever com clareza e potência essa trajetória que cada um haverá de percorrer.

é uma história triste esta que vamos contar. não é tranquila, nem sadia, nem para corações fracos. é a passionalidade inúmeros graus acima. aliás, hoje a janaina dorea (aluna-jornalista da escola de comunicação da ufrj, responsável por escrever suas “impressões” sobre nosso espetáculo) me enviou algumas perguntas por e-mail. lanço abaixo as respostas que dei. elas talvez nos ajudem a chegar mais perto de alguma coisa que por enquanto ainda recebe o nome de mistério:

1- De uma forma geral, que mensagem que você deseja passar com esta peça?

NÃO SOU MUITO FÃ DE PASSAR MENSAGENS. NÃO TENHO ESSA OBRIGAÇÃO ENQUANTO DIRETOR TEATRAL. CREIO QUE "SINFONIA SONHO" APRESENTE UMA SITUAÇÃO MULTIFACETADA, ALGUNS ESTADOS E SENSAÇÕES MUITO CONCENTRADAS, COM UMA SATURAÇÃO MUITO ACENTUADA. CREIO QUE O ESPETÁCULO, AINDA EM CONSTRUÇÃO, VENHA A TOCAR NOS EXTREMOS. TALVEZ, OLHANDO POR ESTE PONTO DE VISTA, A PEÇA TEMATIZE ALGUNS LUGARES EXTREMOS COMO A VIOLÊNCIA A CRIANÇA, LUGARES EXTREMOS COMO SÃO OS PRÓPRIOS EXTREMOS. É MUITO DIFÍCIL APOSTAR NO QUE ESTAMOS DIZENDO COM UM ESPETÁCULO. É UM ORGANISMO SENSÍVEL. CADA ESPECTADOR LÊ O MESMO DE UMA FORMA. NÃO QUERO DIZER QUE HÁ ALGUMA COISA A SER LIDA. QUERO SABER O QUE FOI QUE VOCÊ LEU AO ASSISTIR O ESPETÁCULO.

2 - Que tipo de impacto você deseja causar nos espectadores (se é que você tem esse desejo)?

TALVEZ EU TENHA SIM ALGUM DESEJO EM CAUSAR IMPACTO AO ESPECTADOR. NÃO QUE EU SAIBA ME JUSTIFICAR POR ISSO, MAS EU CREIO QUE A EXPERIÊNCIA TEATRAL SEJA UM TIRO DIRECIONADO A MIM MESMO E A QUEM ASSISTE A ENCENAÇÃO. NÃO É ALGO TRANQUILO, NÃO É ALGO QUE - EU CREIO - POSSA SAIR DE MIM COM TRANQUILIDADE E AGILIDADE. GOSTO DE PENSAR QUE É UM TIRO PORQUE ATRAVESSA E DEIXA MARCAS. TALVEZ EU QUEIRA QUE O ESPECTADOR POSSA SE PERGUNTAR AQUILO QUE SUAS RESPOSTAS JÁ TENHAM SILENCIADO. ADORARIA QUE O ESPETÁCULO PUDESSE TRAZER A TONA O QUE JÁ FOI RESOLVIDO, JUSTAMENTE POR INTUIR QUE CERTOS LUGARES COMUNS E RESOLVIDOS NÃO RESOLVERAM NADA, APENAS SILENCIARAM SUA COMPLEXIDADE. É MUITO AMBICIOSO FALAR SOBRE O QUE GOSTARIA DE CAUSAR, SOBRE IMPACTOS E AFINS. MAS, SE EU CONSEGUIR JUNTO AOS ATORES E A EQUIPE MANTER VOCÊ PRESO NO CORRER DOS MINUTOS QUE COMPÕEM NOSSA PEÇA: ENTÃO, ESTAREI MAIS PERTO DE ALGUMA COISA.

3 - As personagens da peça e os dramas que elas vivem se assemelham com o de pessoas comuns, com as quais convivemos diariamente?

NÃO. ESTAS PERSONAGENS VIVEM DRAMAS QUE, EU PODERIA DIZER, EXTRAPOLAM ALGUMA MEDIDA MAIS PLAUSÍVEL. NÃO QUER DIZER QUE AQUILO QUE ELAS VIVEM NÃO FAZ SENTIDO, É FALSO. NÃO É ISSO. QUER DIZER APENAS QUE O SEU SENTIR VEM NUMA MEDIDA QUE NOS SOA, PARA NÓS ESPECTADORES, ALGO MAIOR, ALÉM, OVER, FORA DA MEDIDA. ESSA É UMA CARACTERÍSTICA QUE APOSTO TAMBÉM COMO DRAMATURGO. ACREDITO QUE ESSA INTENSIFICAÇÃO NOS DISTANCIA DE ALGUMA FORMA DE TAIS PERSONAGENS. ISSO AS COLOCA NOUTRO LUGAR QUE NÃO O NOSSO. E O NOSSO ENCONTRO - DOS ESPECTADORES - COM TAIS PERSONAGENS VIRÁ POR CONTA DAQUILO QUE SENTIMOS. PODEMOS SENTIR TERROR E PIEDADE DE TAIS PERSONAGENS. POR ISSO SEUS DRAMAS PARECEM TÃO MAIORES. NO FINAL DAS CONTAS, ESTOU FALANDO DE DRAMAS MUITO HUMANOS, ELEVADOS, PORÉM, A UMA POTÊNCIA DESCONHECIDA, ARTIFICIAL, INVENTADA.

4 - Como se deu a escolhas dos atores? Já os conhecia de outros trabalhos?

DOIS ATORES (ADASSA MARTINS E DAN MARINS) FAZEM PARTE DO TEATRO INOMINÁVEL. COMPANHIA CRIADA DENTRO DA UFRJ, COM O PRIMEIRO ESPETÁCULO CURRICULAR QUE DIRIGI AQUI DENTRO. OS OUTROS SÃO CONVIDADOS. AMIGOS DE LONGA DATA QUE SEMPRE TIVE INTERESSE EM DIRIGIR. ELES VIERAM ANTES DA PEÇA, CABE PONTUAR. CONVIDEI OS ATORES. E ENTÃO, MEIO QUE JUNTOS, NUM JOGO DE TROCA E AFETAÇÃO, FOMOS DESCOBRINDO A HISTÓRIA QUE GOSTARÍAMOS DE CONTAR.

5 - Qual foi a importância da opinião dos atores para a criação do texto final?

O NOSSO PROJETO COMEÇOU COM UM CAPÍTULO DE UM TRATADO FILOSÓFICO. O LIVRO "O ANTI-ÉDIPO" DE GILLES DELEUZE E FÉLIX GUATARRI FOI O NOSSO PONTO DE PARTIDA. DURANTE O PRIMEIRO SEMESTRE DO ANO, FIZEMOS ENCONTROS PERIÓDICOS PARA DISCUTIR ALGUNS CONCEITOS E ESTREITARMOS ALGUMAS APOSTAS, IDEIAS, INTUIÇÕES. AOS POUCOS, FUI CONVERTENDO NOSSAS CONVERSAS EM PERSONAGENS, DRAMAS, SITUAÇÕES, CONFLITOS... NÃO POSSO DIZER QUE A PEÇA QUE APRESENTAMOS NESSA MOSTRA TENHA SIDO UMA CRIAÇÃO COLABORATIVA PORQUE NÃO TIVEMOS TEMPO PARA ISSO. NO ENTANTO, FOI ESCRITA PARA ESSES ATORES E ATRIZES. FOI FEITA POR CONTA DE TUDO O QUE CONVERSAMOS E TROCAMOS DURANTE ESTE ANO. É DELES, ENFIM.

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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

that's not my name


sinfonia
Significado de Sinfonia

s.f. Música Desde o séc. XVIII, composição musical para orquestra, em forma de sonata, dividida em três ou quatro partes (alegro, andante, scherzo ou minueto e final ou rondó). (Antigamente, o termo sinfonia designava uma composição para um conjunto de instrumentos.)
Concerto de instrumentos.
Fig. Toada harmoniosa, harmonia, melodia: uma sinfonia de cigarras.

sonho
Significado de Sonho

s.m. Associação de imagens, frequentemente desconexas ou confusas, que se formam no espírito da pessoa enquanto dorme.
Fig. Ilusão, fantasia, devaneio, utopia: o sonho acabou.
Coisa vã, fútil, que se esvai: a vida é um sonho.
Idéia acalentada, ideal: o sonho da liberdade.
Desejo intenso e vivo.
Visão sobrenatural.
Bolo de farinha e ovos, muito fofo, e revestido de açúcar.
Parecer um sonho, ser tão extraordinário que é difícil de acreditar.

sinfonia sonho

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

SINFONIA SONHO

Cosmogony

Björk

Heaven, heaven's bodies
Whirl around me
Make me wonder

And they say back then
Our universe was an empty sea
Until a silver fox and her cunning mate
Began to sing a song that became
The world we know

Heaven, heaven's bodies
Whirl around me
Make me wonder

And they say back then
Our universe was a coal-black egg
Until the god inside burst out
And from its shattered shell
He made what became
The world we know

Heaven, heaven's bodies
Whirl around me
Make me wonder

And they say back then
Our universe was an endless land
Until our ancestors woke up
And before they went back to sleep
They carved it up into
The world we know

Heaven, heaven's bodies
Whirl around me
Make me wonder

And they say back then
Our universe wasn't even there
Until a sudden bang
And then there was light, was sound
Was matter and it all became
The world we know

And heaven's bodies
Whirl around me
A dance eternal

 

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