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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

distanciamento

estou pensando em brecht. não que eu saiba de alguma coisa. sei apenas do que ele cavou em mim. sei da minha compreensão acerca de alguma fagulha de seu universo. penso em distanciamento. penso em não iludir, mas te fazer cair dentro por via outra, mais essencial, mais especial. afinal, é sabido que estamos fazendo uma peça. logo, o que pode haver de saldo maior a partir desta certeza? o que gostaríamos que você soubesse mas que é preciso decifrar?

quero dizer que a história ali sendo encenada não interessa exceto por aquilo que ela pode fazer brotar aqui em nós que a assistimos. é uma sensação quase inédita essa. eu aqui confundindo os diálogos e me vendo sentado ante aos atores. eu pensando como posso fazer para receber tudo aquilo como se fosse a primeira vez. eu me esforçando como nunca antes para ser espectador, de profissão.

as referências todas morreram. o que estamos construindo vem por pernas próprias. bem, pode ser que sejam semelhantes ao concreto que dá solidez ao mundo, mas são pernas autônomas e que respiram por si só. eu aqui escrevendo hipérboles quando dentro de mim uma hipérbole maior me consome. a forma, meu deus, a forma. ela está gritando, ela está dizendo e eu esperando?! como pode?

ponto parágrafo.

eu preciso escrever a cena massacre local. creio que nela reside o epicentro disso que me angustia. esta cena me faz estar frente a frente com aquilo que me aterroriza. com tudo o que me endoidece e machuca. tenho a sensação que tudo foi escrito para que se chegasse a este momento. imagina, cara, o seu filho sendo alvejado por um qualquer. imagina a sua criança, de banho tomado, cabelo penteado, indo feliz para mais um dia de aula e simplesmente ela não voltar. não pode. o mundo tá muito errado. alguém precisa falar disso.

eu não sei se sou eu quem deve falar. mas sem dúvida estarei tentando. é preciso. é menos mensagem e mais necessidade. é abrir o corpo sobre o jornal de cada dia e ver em qual manchete ele cola. sobre quais corpos ele se enrijece e depois chora. eu não sei. eu estou procurando algum distanciamento para colar sua atenção nesta coisa. pra colar sua dispersão na minha.

distanciamento para ver melhor, é? então tenta colar aqui. o que será que veremos? que o sangue escorre invisível e incolor.

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