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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

EXPRESSÃO

hoje passei o domingo por conta de nossa peça. escrevi várias cenas e também o texto que cada aluno-diretor escreve para a revista da mostra de teatro da ufrj.

esse projeto de fato ainda está começando. com a nossa estreia em novembro – estreia dentro da ufrj – percebo o quanto muito ficará por ser descoberto, descortinado. precisamos de algum tempo depois de tantos ensaios.

muito a pensar. eu saindo de um processo super intenso de criação dramatúrgica. como cavalgar um dragão demorou muitos meses para ser escrito. só neste domingo escrevi três cenas de sinfonia sonho. não escrevo isso para fazermos comparações. são espetáculos muito distintos. o que eu estou me exigindo é conseguir escrever o melhor para cada ator. escrever com clareza e potência essa trajetória que cada um haverá de percorrer.

é uma história triste esta que vamos contar. não é tranquila, nem sadia, nem para corações fracos. é a passionalidade inúmeros graus acima. aliás, hoje a janaina dorea (aluna-jornalista da escola de comunicação da ufrj, responsável por escrever suas “impressões” sobre nosso espetáculo) me enviou algumas perguntas por e-mail. lanço abaixo as respostas que dei. elas talvez nos ajudem a chegar mais perto de alguma coisa que por enquanto ainda recebe o nome de mistério:

1- De uma forma geral, que mensagem que você deseja passar com esta peça?

NÃO SOU MUITO FÃ DE PASSAR MENSAGENS. NÃO TENHO ESSA OBRIGAÇÃO ENQUANTO DIRETOR TEATRAL. CREIO QUE "SINFONIA SONHO" APRESENTE UMA SITUAÇÃO MULTIFACETADA, ALGUNS ESTADOS E SENSAÇÕES MUITO CONCENTRADAS, COM UMA SATURAÇÃO MUITO ACENTUADA. CREIO QUE O ESPETÁCULO, AINDA EM CONSTRUÇÃO, VENHA A TOCAR NOS EXTREMOS. TALVEZ, OLHANDO POR ESTE PONTO DE VISTA, A PEÇA TEMATIZE ALGUNS LUGARES EXTREMOS COMO A VIOLÊNCIA A CRIANÇA, LUGARES EXTREMOS COMO SÃO OS PRÓPRIOS EXTREMOS. É MUITO DIFÍCIL APOSTAR NO QUE ESTAMOS DIZENDO COM UM ESPETÁCULO. É UM ORGANISMO SENSÍVEL. CADA ESPECTADOR LÊ O MESMO DE UMA FORMA. NÃO QUERO DIZER QUE HÁ ALGUMA COISA A SER LIDA. QUERO SABER O QUE FOI QUE VOCÊ LEU AO ASSISTIR O ESPETÁCULO.

2 - Que tipo de impacto você deseja causar nos espectadores (se é que você tem esse desejo)?

TALVEZ EU TENHA SIM ALGUM DESEJO EM CAUSAR IMPACTO AO ESPECTADOR. NÃO QUE EU SAIBA ME JUSTIFICAR POR ISSO, MAS EU CREIO QUE A EXPERIÊNCIA TEATRAL SEJA UM TIRO DIRECIONADO A MIM MESMO E A QUEM ASSISTE A ENCENAÇÃO. NÃO É ALGO TRANQUILO, NÃO É ALGO QUE - EU CREIO - POSSA SAIR DE MIM COM TRANQUILIDADE E AGILIDADE. GOSTO DE PENSAR QUE É UM TIRO PORQUE ATRAVESSA E DEIXA MARCAS. TALVEZ EU QUEIRA QUE O ESPECTADOR POSSA SE PERGUNTAR AQUILO QUE SUAS RESPOSTAS JÁ TENHAM SILENCIADO. ADORARIA QUE O ESPETÁCULO PUDESSE TRAZER A TONA O QUE JÁ FOI RESOLVIDO, JUSTAMENTE POR INTUIR QUE CERTOS LUGARES COMUNS E RESOLVIDOS NÃO RESOLVERAM NADA, APENAS SILENCIARAM SUA COMPLEXIDADE. É MUITO AMBICIOSO FALAR SOBRE O QUE GOSTARIA DE CAUSAR, SOBRE IMPACTOS E AFINS. MAS, SE EU CONSEGUIR JUNTO AOS ATORES E A EQUIPE MANTER VOCÊ PRESO NO CORRER DOS MINUTOS QUE COMPÕEM NOSSA PEÇA: ENTÃO, ESTAREI MAIS PERTO DE ALGUMA COISA.

3 - As personagens da peça e os dramas que elas vivem se assemelham com o de pessoas comuns, com as quais convivemos diariamente?

NÃO. ESTAS PERSONAGENS VIVEM DRAMAS QUE, EU PODERIA DIZER, EXTRAPOLAM ALGUMA MEDIDA MAIS PLAUSÍVEL. NÃO QUER DIZER QUE AQUILO QUE ELAS VIVEM NÃO FAZ SENTIDO, É FALSO. NÃO É ISSO. QUER DIZER APENAS QUE O SEU SENTIR VEM NUMA MEDIDA QUE NOS SOA, PARA NÓS ESPECTADORES, ALGO MAIOR, ALÉM, OVER, FORA DA MEDIDA. ESSA É UMA CARACTERÍSTICA QUE APOSTO TAMBÉM COMO DRAMATURGO. ACREDITO QUE ESSA INTENSIFICAÇÃO NOS DISTANCIA DE ALGUMA FORMA DE TAIS PERSONAGENS. ISSO AS COLOCA NOUTRO LUGAR QUE NÃO O NOSSO. E O NOSSO ENCONTRO - DOS ESPECTADORES - COM TAIS PERSONAGENS VIRÁ POR CONTA DAQUILO QUE SENTIMOS. PODEMOS SENTIR TERROR E PIEDADE DE TAIS PERSONAGENS. POR ISSO SEUS DRAMAS PARECEM TÃO MAIORES. NO FINAL DAS CONTAS, ESTOU FALANDO DE DRAMAS MUITO HUMANOS, ELEVADOS, PORÉM, A UMA POTÊNCIA DESCONHECIDA, ARTIFICIAL, INVENTADA.

4 - Como se deu a escolhas dos atores? Já os conhecia de outros trabalhos?

DOIS ATORES (ADASSA MARTINS E DAN MARINS) FAZEM PARTE DO TEATRO INOMINÁVEL. COMPANHIA CRIADA DENTRO DA UFRJ, COM O PRIMEIRO ESPETÁCULO CURRICULAR QUE DIRIGI AQUI DENTRO. OS OUTROS SÃO CONVIDADOS. AMIGOS DE LONGA DATA QUE SEMPRE TIVE INTERESSE EM DIRIGIR. ELES VIERAM ANTES DA PEÇA, CABE PONTUAR. CONVIDEI OS ATORES. E ENTÃO, MEIO QUE JUNTOS, NUM JOGO DE TROCA E AFETAÇÃO, FOMOS DESCOBRINDO A HISTÓRIA QUE GOSTARÍAMOS DE CONTAR.

5 - Qual foi a importância da opinião dos atores para a criação do texto final?

O NOSSO PROJETO COMEÇOU COM UM CAPÍTULO DE UM TRATADO FILOSÓFICO. O LIVRO "O ANTI-ÉDIPO" DE GILLES DELEUZE E FÉLIX GUATARRI FOI O NOSSO PONTO DE PARTIDA. DURANTE O PRIMEIRO SEMESTRE DO ANO, FIZEMOS ENCONTROS PERIÓDICOS PARA DISCUTIR ALGUNS CONCEITOS E ESTREITARMOS ALGUMAS APOSTAS, IDEIAS, INTUIÇÕES. AOS POUCOS, FUI CONVERTENDO NOSSAS CONVERSAS EM PERSONAGENS, DRAMAS, SITUAÇÕES, CONFLITOS... NÃO POSSO DIZER QUE A PEÇA QUE APRESENTAMOS NESSA MOSTRA TENHA SIDO UMA CRIAÇÃO COLABORATIVA PORQUE NÃO TIVEMOS TEMPO PARA ISSO. NO ENTANTO, FOI ESCRITA PARA ESSES ATORES E ATRIZES. FOI FEITA POR CONTA DE TUDO O QUE CONVERSAMOS E TROCAMOS DURANTE ESTE ANO. É DELES, ENFIM.

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quarta-feira, 1 de junho de 2011

APRESENTAÇÃO. Dramaturgia: o processo.

 

O teor da próxima esquina, da próxima cena, próxima página, é sempre algo incapaz de se prever, de dizer, de desenhar, de assegurar a você. Por isso aleautorizamos o que vier. Pelo diferente nós tentaremos assegurar não aquilo que é, mas aquilo que possa ser.

Trecho de Autoria do Aleatório ou...

Plantar o livro para ver nascer ficção. O que este projeto de formatura deseja é dar corpo às metáforas. Trocar realidade por teatralidade. Ou, investir numa realidade que possa transcender à teatralidade: realidade outra na qual eu, espectador, me vejo sendo movido e talhado, realidade na qual eu me veja sendo refeito e aprimorado. Ou, ao menos, realidade contra a qual eu exija de mim alguma auto-análise. Certa auscultação.

Tem a ver com validar a poesia dentro do dia-a-dia. Mas não como quem valida para reconhecer seu valor e, sim, como quem o faz por necessitar. Logo ali, justamente no espaço onde ela nasce. Como tornar possível o que é da ordem do absurdo? Como dar corpo e voz ao não-plausível? Mais do que tornar possível, como tornar tudo isso um meio pelo qual eu seja capaz de purgar meu drama íntimo enquanto ser?

Deleuze e Guatarri nos brindam com a poesia da esquizofrenia, libertando sua potência ao invés de (re)colocá-la dentro do quadro patológico que a enclausurava. Corpos colonizados, vozes emudecidas, tudo o que é capaz de dilacerar nós aprendemos a chamar por nome tal que não falamos, pois contamina. O esquizofrênico que se usa de outros suportes que não somente o real, no entanto, a ele atado, agoniza e amarelece.

Estou falando, no entanto, de vida e ficção. Abarcar um esquizofrênico no dia-a-dia é outra questão. Mas que talvez não seja tão distinta do fazer artístico. Afinal, é o mesmo princípio: o treinamento da tolerância. Até que ponto toleramos o que nos difere? Talvez a intolerância tenha sido a resposta frente a tudo aquilo que desconhecemos. Ao medo respondemos com violência. Mas, por que não – salve a poesia – com amor?

Em O ANTI-ÉDIPO, a filosofia se potencializa por meio de certa poesia (como nos escritos de Antonin Artaud, eu sugiro). Ao propor outro tipo de relação familiar, os autores ultrapassam a somatização triangular edipiana (pai, mãe e eu) e criam um ponto de fuga que reside justamente na imaginação. É escapando para este ponto, sugere-se, que a realidade (familiar) pode ser revista e, nisso, reinventada.

Assim, neste projeto, escaparemos para este espaço onírico e sem definição prévia. Vamos fazer da imaginação o nosso principal campo de atuação. Faremos da encenação nosso sonho coletivo. E do blog LENDO ÁRVORES E ESCREVENDO FILHOS, retiraremos os principais estímulos para construção dramatúrgica: motes, personagens, metáforas, rimas, mentiras, verdades, relatos e tentativas (completadas ou não).

É criando ponto de fuga ao triângulo edipiano, é dando-lhe tridimensionalidade, que fazemos do triângulo uma pirâmide triangular. Acima das figuras pai filho e mãe, acima de sua relação, encontramos a ficção como potência para um reinventar-se. Este projeto quer, então, plantar o livro neste terreno da casa para ver nascer dele outra coisa que não mais palavras apenas.

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domingo, 8 de maio de 2011

tentativa zero um

PROJETO EXPERIMENTAL EM TEATRO
de Diogo Liberano

A satisfação do “bricoleur” quando consegue ligar qualquer coisa à corrente elétrica, quando consegue desviar uma conduta de água, não poderia ser explicada pelo jogo “papá-mamã” nem pelo prazer da transgressão[1].

Apresentação ou Aquilo que solicita atenção em mim

É chegado o momento da formatura. E ao contrário do previsto, eis que o aluno a redigir este projeto sente-se imensamente despreparado para tal ato. Talvez porque tenha vasculhado os anos de faculdade a procura de uma dramaturgia capaz de abarcar seu universo de questões e não tenha encontrado. Talvez porque tenha adaptado inúmeros romances e desistido de todos. Talvez por ter escrito dezenas de sinopses geniais e sem nenhuma ação. Talvez porque nada lhe afete mais – neste momento – do que o próprio momento no qual torna-se irrefutável a criação de sua pequena obra de conclusão.

Tudo bem, isso faz parte da criação, ele dirá a si mesmo. Esse momento de conclusão não seria muito diferente do que está sendo, pois o que ele aprendeu até agora foi apenas a dúvida, o saber-reciclável e as certezas-de-curta-duração. Para além do seu saber, o aluno apreendeu sempre um ruído imenso dentro do peito dizendo mais do que os seis anos de graduação. Uma intuição amorfa que cresceu dentro e virou peste. Assim, com certo tempo, é o artista também algum lampejo de sua obra. É sua obra também certa confissão de seu íntimo lacrado e febril.

Seria, então, esta peça de formatura a expressão nua e crua de sua própria criação? É cedo para dizer. Porque este projeto nasce e morre a cada dia. E isso já faz meses. Este projeto incontido dentro do criador quer outros meios para tornar reais suas rimas. É pura poesia que corre o risco de passar despercebida. É jóia rara carente por lapidação. Matéria bruta e improdutiva clamando por tradução. Monstro alado à procura de cavaleiro capaz de domá-lo. Ou seja: tem tudo para dar errado.

Pode ser que estas palavras até agora tenham conseguido mover um sorriso ou que tenham irritado toda uma tradição. É que nesta pré-apresentação (nome este que ele acabou de reconhecer), o autor se permitiu escrever apenas sobre aquilo cuja nomenclatura ele não pode oferecer. Logo adiante, será preciso esclarecer exatamente o que possa ser esta encenação. E mesmo que para isso ele precise mentir, a fim de conseguir sua aprovação, caro leitor, ele o fará. Porque ao mentir para ti, ele cria também para si a ilusão que alimentará todo o seu sonho, até que este possa, enfim, vir a ter contigo.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida[2].

Apresentação ou Aquilo que solicita atenção em mim (novamente)

É chegado o momento da formatura. E, desta vez, o aluno-diretor é também o autor da sua própria ficção. Mais que isso: ele deseja com sua peça de formatura investir numa dramaturgia colaborativa a ser escrita em processo de ensaios. Para a construção de sua pequena obra de conclusão eis que ele escolhe como tema-mote a própria criação.

Como trabalho de conclusão do curso de Direção Teatral da UFRJ, eu desejo investigar os meandros dramáticos de um processo de criação artística. Uma ficção cujo tema é justamente o criar. O que move uma criação? O que a alimenta? O que atravanca um processo criacional e o que o faz decolar? São questões que se colocam não por se querer respondê-las, mas unicamente porque falar delas me lança de imediato para dentro da própria vida (e o teatro é mesmo um bom veículo para reconexão com o real).

Falar de criação para rememorar minha formação, para pensar sobre meios modos e maneiras de se tocar numa obra, para relembrar diálogos travados dificuldades e pequenas descobertas no meio de todos os ensaios. Para se ver concluindo a infância e se despedindo de casa. Para olhar em direção ao pai e dar adeus, pois é preciso partir.

Saio então desta Universidade como alguém criado e por ela alimentado. Saio atrevido e ousado, potente e capaz. Saio feliz e estremecido porque se despedir de casa é se reconhecer em risco. Sorte a minha que o risco é mesmo o que traça a minha criação. Portanto, tendo aqui a criação como tema, intenciono dinamitar esta palavra para convertê-la em poesia e ação. Para convertê-la em dramaturgia textual e cênica. Para criar com um elenco de seis atores a ficção que ainda não desembrulhamos (mas que persiste em nós despedaçada).

Este projeto parte, então, do meu desejo em ficcionalizar a criação. O meu esforço é o de construir uma obra que não existiu para, por meio dela, firmar aquilo tudo que me parece essencial existir. Uma ficção não como aquilo inexistente, mas como aquilo que pulsa clamando por corpo e voz.

 


[1] O ANTI-ÉDIPO.
[2] “ANIVERSÁRIO” - FERNANDO PESSOA.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

A morte da metáfora

O contato com as reflexões e escritos de Antonin Artaud acentuam o quanto o material base da obra de arte diz respeito justamente a sua impossibilidade. E é precisamente na angústia criacional de algum impossível que se vislumbra o nascimento de algo capaz de dominar a instabilidade de um tempo.

O encontro com o presente parece ser, de fato, o único embate real de um artista. Com Artaud, a busca pela necessidade do teatro se estende também à busca pela necessidade da própria vida. Por meio de escritos metafóricos, como fosse poesia a teorizar sobre a experiência teatral, ele evoca a potência de um teatro que parece adormecido, que parece ter se esquecido de sua força. Por meio de uma escrita instigante e cheia de sons e imagens, ele nos prega certa busca pelo descobrimento do que é necessário, decretando fim ao adorno ou a qualquer outro enfeite capaz de amenizar alguma incongruência do real. 

Pois, para manter a sua metáfora viva, é a vida que deve estar mais pulsante do que nunca. Entre a palavra e a coisa, é preciso haver respiração e não somente algum sentido. Não quer dizer dar fim à metáfora. É justamente o contrário, pois com Artaud o mistério – o não–saber – ainda é precioso e necessário. Não quer dizer pôr fim aos sentidos figurados e às comparações inúmeras entre diferentes termos. Quer dizer apenas que para além de tornar algum sentido inteligível, é preciso antes torná-lo sensível. A metáfora morre quando o referencial “vida” se esgota. Mas, me sugere Artaud, o campo poético da encenação teatral é capaz de agir como uma espécie de desfibrilador sobre a realidade, acordando-a de súbito, superando-a em força e delicadeza. 

Artaud nos devolve, assim, a possibilidade da vida no rigor de sua instabilidade e do seu movimento e descortina uma resposta possível ao dilema de Hamlet. Já não se trata mais de cindir o homem em ser sido ou não sido. Ora, por que dividir o homem ao meio se dentro dele, em seu íntimo, já se é tudo isso, ao mesmo tempo? O ser, o não-ser e entre os dois um abismo que costura tudo e nos mantém de pé. Somos filhos da linguagem e não há possibilidade de encerrá-la porque tal fim se estenderia também a nós. O que nos resta é tão somente o que já está dado: o ser linguagem... E a nossa possibilidade – escolha – de reinventá-la. 

Esta curta reflexão me veio para visualizar como a linguagem da poética teatral vem se firmando e quebrando, sempre com intuito de se tornar novamente capaz de nos devolver um dado tempo a si próprio. A qual tempo eu pertenço agora? E o meu teatro? E o nosso?

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Diogo Liberano

terça-feira, 23 de novembro de 2010

fuga (do textocentrismo)


sem querer eu me vejo fugindo do texto. não porque queira evitá-lo ou porque artaud e seu teatro da crueldade me fizeram querer tentar outro tipo de palavra, de texto. não é isso. eu neste momento estou fugindo do texto porque não o tenho ainda. e porque também não estou a buscá-lo. assim, eu diria, é natural parecer que estou fugindo. é natural fazer parecer que não estou nem ai para um texto, dramaturgia ou punhado de palavras.

e indo assim nesse sentido, tenho redescoberto alguma necessidade real. tenho pensado no que há no texto que me seja essencial e que me faça querer tê-lo de novo outra vez. ao mesmo tempo (é terrível, eu sinto) todo o texto feito de palavras pode ser pelo corpo reescrito. são línguas diferentes que podem dizer a mesma coisa. variam-se os meios. será mesmo? ainda duvido.

faz uma ou mais semanas que não leio O ANTI-ÉDIPO. estou correndo com outro projeto do teatro inominável e acabei dando um pause. engraçado, porque no artigo que publiquei anteriormente (do carlos diegues e que havia sido pescado para esta outra peça do inominável), o autor faz referência a édipo, num ponto preciso que faz a melhor tradução até agora do O ANTI-ÉDIPO para termos concretos.

ele diz que se não tivessem contado a édipo que sua mãe é jocasta, eles teriam vivido felizes para sempre. remonto ao primeiro período da faculdade quando descobria que o conhecimento é capaz de levar ao sofrimento. era essa a coisa dos trágicos. o saber. o quanto o saber poderia trazer certo júbilo e inevitável tristeza. estamos falando então da necessidade de ser ignorante? não. parece simples demais. mas existe alguma coisa ai que me sugere algo ainda nem de perto vislumbrado.

a ignorância possui em si certa sabedoria que nós, seres do saber, não soubemos ainda desvendar. talvez porque sua imagem - e nome - nos afastem demasiadamente rápido.

enfim, ao invés de palavras tenho pensado em imagens. há alguma necessidade minha por concretude. esse nome está me tragando e tudo então passa a lhe fazer referência. imagino dois, três atores em cena. e o que os costura é a sua capacidade de ser concreto, de intervir um no respirar do outro e de instaurar o desespero ou a salvação. eles - os atores - sendo concretos, sendo inteiros e certeiros. menos espaços para especulações e sim, dessa vez, mais verdades. ser verdade não quer dizer deter razão. ser verdade dentro de um contexto específico onde se crê veementemente naquilo que se diz e faz. ainda que não se tenha crença, de fato (o ator sendo o personagem).

não quero por agora falar de ator e personagem. quero falar da agonia que me toma ao ler freud teorizando a vida de schreber. quero falar da agonia que freud me dá quando vem dar sentido único à poesia de uma vida. quando vem dar nome-doença às idiossincrasias. freud está me enojando. e a seu despeito, creio mais em metáforas do que em diagnósticos.

talvez por isso esteja pensado mais em imagens do que em palavras. mais em atores do quem em textos.

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Diogo Liberano

terça-feira, 9 de novembro de 2010

AS MÁQUINAS DESEJANTES, 03

CAPÍTULO I - AS MÁQUINAS DESEJANTES

I.1. A PRODUÇÃO DESEJANTE

I.1.5. PRODUÇÃO DO CORPO SEM ÓRGÃOS.

Dessa identidade produto-produzir surge um terceiro termo na série linear: ENORME OBJETO NÃO DIFERENCIADO.

Já que tudo se coagula e depois recomeça, seria melhor que nada funcionasse. Estando os fluxos de energia ainda muito ligados, assim também os objetos parciais são muito orgânicos. E dessa forma, um puro fluido em estado livre - sem cortes - está em vias de deslizar sobre um corpo pleno.
"As máquinas desejantes fazem de nós um organismo; mas, no seio dessa produção, em sua própria produção, o corpo sofre por estar assim organizado, por não ter organização outra ou organização nenhuma" (P.20)
O corpo pleno sem órgãos é, portanto, o improdutivo, o estéril, o inengendrado, o inconsumível. Artaud o descobriu, sem forma e sem figura. Tem por nome instinto de morte, logo a morte, aquela que não fica sem modelo.

Assim, é natural do desejo desejar a morte também. Alcançar o corpo pleno da morte é atingir a imobilidade do motor, é atingir a imobilidade da máquina, assim como deseja a vida.

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Diogo Liberano  

domingo, 17 de outubro de 2010

nenhum personagem possível

ainda. eu tenho pensado: desta vez quero construir como dizem que tem que ser. quero experimentar a tal construção do personagem, experimentar a humanidade posta em cena, concentrada. experimentar isso ao cúmulo até fazer explodir. ir por dentro, ganhando a confiança e depois, como um terrorista, estimular o corpo (do ator, personagem) a ir se doar à perdição, ao auto-consumo, à explosão.

sim, não vai ser seguro. mas parece inevitável. sei que ler isso aqui pode estar confuso, mas a confusão é hoje minha realidade. mesmo. não há horizonte dramatúrgico possível, não há nenhuma história, não há nada a ser dito, aparentemente. toda a fábula ainda se esconde e se revela, como cabeças de golfinho perfurando o mar. isso é do artaud. talvez possa artaud finalmente me ajudar. ele com quem tenho flertado já faz tanto tempo, mas cujo universo de meus assuntos foram mesquinhos demais para a sua atormentância.

em resumo: tudo o que estou lendo está vindo e esboçando destinos possíveis. esboçando já cenas, já vontades, por vezes só efeitos. tudo querendo se fazer peça, tudo querendo ganhar foco corpo e texto. mas é cedo. ou não é. é cedo e mesmo assim sinto ser tarde. é seguir perfurando os livros e feito traça ir comendo letra por letra.
pontos de partida:
  1. O ANTI-ÉDIPO de Gilles Deleuze e Félix Guatarri;
  2. VAN GOGH - O SUICIDADO DA SOCIEDADE de Antonin Artaud;
  3. FREUD - O CASO SCHREBER E OUTROS TEXTOS de Sigmund Freud.
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Diogo Liberano