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segunda-feira, 25 de junho de 2012

“Sinfonia Sonho”

A encenação deste espetáculo nasceu a partir de um jogo que foi praticado com os atores desde o primeiro ensaio. Chamado por mim de cinto de segurança, tal jogo consiste no posicionamento de todos os atores, cada qual sentado em sua cadeira, todos eles lado a lado. O olhar mirando a frente, sem quebrar a frontalidade. É um jogo de escuta, cujo objetivo é manter a inércia, individual e coletiva. Mas para isso, é preciso se mover, então os atores se levantam e vão adiante, porém, se um outro ator do seu lado o tocar (num simples toque), você precisa se sentar novamente, zerando o seu movimento que logo em seguida poderá reiniciar quando você quiser.

ELENCO - DIOGO LIBERANO

Ensaio – Jogo do cinto de segurança – Fotografia: Diogo Liberano

Começamos como num jogo de criança, onde as regras existem mas são burladas. Onde se quer trapacear para conseguir se mover sem ser pego. Descobrimos, porém, que o nosso jogo – cujo nome viria a ser Sinfonia Sonho – era um acordo das partes para tornar possível algo maior, no sentido de envolver a todos, no sentido de funcionar por meio da costura de cada uma das partes expressivas. Assim, logo o elenco descobriu que era um jogo que envolvia escuta e atenção, abertura e agilidade. Qualidades que se treinadas, acredito eu, colocam o ator num estado muito concentrado de presença e tônus. Presença. É o que o jogo do cinto de segurança deu ao elenco. A imagem dos atores sentados, ao fundo do palco, lado a lado, atentos para a frente, para o fora, me seduziu de imediato. Ali nascia a peça, independente do que viesse a seguir.

Foi uma encenação pensada em movimento. Não quis nem me senti muito capaz de ditar as ações e lógicas relacionais entre as personagens e as cenas. A cada nova cena trabalhada, os atores produziam a sua expressão daquele punhado de texto. O trabalho com viewpoints expandiu as maneiras de se mirar um dado objeto, por isso a criação do elenco ganhou contornos diversificados e expressivos e como, a princípio, o trabalho de criação da cena envolvia apenas os atores e o texto, não houve imposição alguma em relação a objetos, movimentos e intenções. As coisas vieram todas porque eram necessárias a execução, melhor, necessárias a expressão – dos atores – daquilo que se desejava expressar.

Naturalmente, houve um ensaio que os atores apresentaram uma primeira sequência de todas as cenas que haviam sido esboçadas. Utilizei-me dessa palavra para dizer a eles que eles estavam criando alguma coisa que em seguida eu iria finalizar. Não foi bem isso. A criação do elenco foi desde o início muito próxima a escritura final da encenação. Encontrei nessa jogada o que poderia haver de mais feliz enquanto diretor, que é justamente a sensação de, como atores, cada um deles também se sentir devidamente autor dos gestos, movimentos e intenções. Obviamente a minha direção se manifestou e em alguns casos coube a mim inventar toda uma nova configuração que desse conta, de maneira mais potente, daquilo que era necessário para o desenrolar da ação dramática. Mas acompanhá-los durante essa criação sem tanta interrupção minha, me fez entender um pouco mais das maneiras individuais de criação. Ao propor algo vindo de fora, no sentido de não ter sido criado diretamente por eles, tomei esse cuidado de trazer algo que já soubesse que eles eram capazes de brincar com.

Hoje analisando, Sinfonia Sonho é um jogo para atores. Estão eles sentados ao fundo do palco aguardando a hora de jogar sua cena em direção ao outro (seja o outro ator ou espectador). É um jogo de paciência e escuta, escrita e apagamento. São muitas relações que foram surgindo no decorrer, mas sem grandes pretensões. Havia uma história a ser contada. Antes de qualquer estilo, de qualquer rococó, sempre existiu algo muito simples que precisava chegar, cruzar o palco, e atingir a audiência. O trabalho com o andamento e a duração das cenas foi o mais importante. Naturalmente, foi por conta desse apuro que a dramaturgia se fez possível, afinal, quando a nossa fruição se perde, é de se esperar que a do espectador também se dissipe. Esse entendimento e busca, num primeiro momento não foi posto em questão. Mas logo virou um ponto de vista pelo qual eu pedia aos atores que olhassem suas próprias cenas, para que soubessem abrir mão de invenções e apostas que, mesmo interessantes e esteticamente inventivas, não serviam para o curso da peça como um todo.

Interesso-me pela sobriedade, pela limpeza e essencialidade. Tais lugares talvez tenham sido buscas desde o início. Mas aqui também ressalto pouca exigência quanto a isso. Num dado momento, a peça se revela com muita clareza e quando isso aconteceu – não saberia dizer exatamente quando – tais qualidades foram antes exigidas pela peça do que por nós intencionadas. Quero dizer que a sobriedade foi alimentando as ideias de cenografia e indumentária. A sobriedade foi limando os acordes e os momentos que haviam sido previstas utilização de trilha sonora. A sobriedade, de certa forma, limpou os momentos de luz, conferindo uma iluminação asséptica e saturada. Essa palavra, talvez, nos dê também muito sobre o espetáculo: saturação. Penso em saturação e chego a outra palavra: cegueira. Disse a orientadora de direção que são personagens tristes. São. Saturados. Vencidos. Falidos. Personagens desistidos. De alguma forma, essa sobriedade se borra com um ou outro excesso que, acredito, confere ao drama uma coloração mais abusada. Eu quero dizer, há alguma coisa que extrapola o limite tão intencionalmente limpo e preciso. Seja uma fala, um solilóquio, uma rubrica ou um gesto expressivo. Parece que a limpeza existiu apenas para que mostrássemos a nossa grande capacidade de ser ruído e destruição.

Como diretor e, sobretudo, como dramaturgo, acabei me somando a cena. Estou sentado em uma cadeira, assim como o elenco (com exceção do ator que interpreta Tomas, a criança morta já no início da peça). Sempre que escrevi novas cenas, eu e Eleonora líamos juntos folha a folha. E foi numa dessas leituras que ela me sugeriu que tais rubricas bem como os títulos das cenas precisavam ser ouvidos. Eleonora trouxe a tona a importância de sabermos, de vermos e sentirmos, quem era a pessoa que se destinava a falar de tais questões, a tocar em tais assuntos. Assim, depois de algumas especulações sobre como estar presente em cena e onde me posicionar, optei por estar da forma mais simples possível, da forma que amenizasse a minha presença e igualasse os lugares. Eu não podia me destacar e qualquer posicionamento diferenciado dos atores me daria um destaque. Assim, aceitei a sugestão de estar em cena optando por estar ali como o cara que lê as rubricas, que segue contando a história junto aos atores.

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Cenário de Leandro Ribeiro – Fotografia de Diogo Liberano

O cenário passou por muitas tentativas. Aliás, mais ideias do que tentativas. Ideias que não testadas, foram caindo rapidamente e perdendo o crédito. Para mim era muito claro a importância de não criar um problema, mas sim uma encenação. São muitos detalhes, muitas coisas, muitas relações em jogo (tanto ficcionais como profissionais) e é o meu papel zelar para que o diálogo sobrexista. Digo isso porque a cenografia teve que lidar desde o início com algumas circunstâncias dadas pelo texto. Eram muitos lugares onde as cenas aconteciam (escola, rua, quintal, sala, automóvel, cozinha, quarto, casas distintas, lugares indefinidos...). A dramaturgia não estava escrita, mas os espaços já haviam sido previstos. Optou-se logo por não criar uma cenografia que literalizasse tais lugares, mas um espaço de jogo. Eu costumava dizer que o texto nos dava o lugar com clareza e que não me interessava reproduzí-lo. Substituímos a reprodução fiel de um espaço, por exemplo um quarto, pelas cadeiras. Trocávamos a cenografia da ficção pela da atuação.

Num dado momento estivemos apenas com as cadeiras, um piso e uma série de eletrodomésticos. Os eletrodomésticos foram durante muitos meses uma busca sem expressão. Havia quase uma intuição de que os eletrodomésticos nos dariam a representação da casa, da família. Chamaríamos a atenção para as máquinas, para a sinfonia de seus barulhos. Mas tudo isso foi ficando muito grande quando, em sala de ensaio, a ação foi ficando muito aguda, muito precisa e pontual. Pouco antes da estreia, fechamos a cenografia: sete cadeiras (específicas para cada personagem, numa mistura de materiais e estilos) e um piso na cor verde limão (duas tiras compridas que sobrepostas marcam o chão do teatro com um “X” torto, que também consegue remeter a um “K”). Quanto ao uso dos objetos, é possível listá-los: um cigarro, um isqueiro; três tapa-olhos personalizados (um óculos, uma gravata e uma sola de sapato) e dois microfones. Por conta dessa, digamos, essencialidade, as cadeiras acabaram virando objetos quando não havia mais nada a ser usado como tal. A peça foi saindo de sua estabilidade ensaiada e evoluiu para uma desordem também ensaiada. A cena vai se desmanchando ante ao público. Ela precisa se desmanchar para que dentro dela, em seus desvãos, caiba de forma mais inteira o horror do outro (e também o nosso).

O diálogo com as figurinistas foi também longo e cheio de desdobramentos. Começamos a partir de uma análise da descrição de cada personagem, tentando identificar por tal sinopse quem era cada um. As primeiras propostas foram chegando e sendo imediatamente rebatidas, mas como num jogo, onde o meu questionamento visava apenas o aprofundar de cada proposta. Logo as figurinistas escolheram uma palheta de cores (entre o preto e o branco, passando por tons de cinza e chumbo). Especulamos conceitualmente o que seria virar música, especulamos sobre o caráter extremo da peça, sobre a violência, sobre a idade adulta e infância. Perguntamo-nos muito sobre como caracterizar um personagem que é criança, mas que é interpretado por um adulto. Assim como o diálogo com o cenógrafo, assimilamos que a dramaturgia nos dava o caráter da infância e que, inevitavelmente, a interpretação dos atores também o daria. Assim, a indumentária da peça sublinha muito pouco aquilo que a dramaturgia, em seu curso natural, acabará nos revelando de cada personagem.

São figurinos compostos por pouquíssimas roupas novas e criadas pelas figurinistas. Em sua quase totalidade, é um conjunto que foi sendo comprado em brechós pela cidade ou mesmo adquiridos por meio da doação dos atores e integrantes da equipe. Assim como as cadeiras eram cadeiras usadas, optamos por também agregar ao figurino certa espessura dada pelo tempo, pela vivência. São corpos marcados, riscados e já consumidos. Não são inéditos nem querem ser bonitos. São possíveis, “humanizados”. Nesse sentido, a encenação mais uma vez me soa sóbria, pouco chamativa no sentido mesmo de querer chamar atenção. As coisas todas estão ali, arranjadas numa composição. É o olhar do espectador que desdobra o que ali está presente. É o espectador que junta as partes e constrói sua lógica.

Para a criação tanto da cenografia quanto dos figurinos contei com uma equipe muito solícita e generosa. Criar um espetáculo é um trabalho que envolve escolhas, perdas e paciência. Nesse sentido, conseguimos administrar quereres e discernir aquilo que de fato era determinante ao espetáculo. Isso nos fortaleceu para lidar com eventuais exigências que a peça acabou por nos colocar. Por exemplo, duas semanas antes da estreia, trabalhando sobre o terceiro ato do espetáculo, surgiu a necessidade de agregar mais duas atrizes ao elenco, no papel de duas repórteres que apresentam o destino de cada personagem e da própria trama. Isso significou não apenas o trabalho dessas atrizes com o de todo o elenco, o trabalho para decorar o texto e interpretá-lo de forma proveitosa. Isso significou também novos figurinos, mais pessoas envolvidas e mais ânimos, inevitavelmente, exaltados por conta da estreia. Mas tudo corre bem quando cada par de pernas caminha querendo mover algo maior. E isso de fato aconteceu.

Sobre a trilha sonora, a composição de Philippe Baptiste me pareceu assustadoramente acertada. Conversamos muito, falei de muitas coisas, tentei apagar o peso da música num espetáculo chamado SINFONIA SONHO. A música seria mais um movimento nessa ação toda. Sobre a trilha não deveria pesar outra exigência que não fosse a de envolver e expressar aquilo ainda não dito. Sem sublinhar, mais uma vez. Acrescentando e desdobrando, conferindo a cena outro ponto de vista a partir do qual o espectador pudesse ver também aquilo que não está explícito em primeiro plano. Assim, o compositor foi se nutrindo de poucos ensaios e muitas conversas e, tão logo possível, enviou uma primeira música que me capturou pela sua diferença. Eu não conseguiria descrever tal composição, mas ela cheira a um profundo estranhamento. Ela é uma expressão que justamente não antecipa a tragédia. Ela é quase boba, sem deixar de ser composta e complexa. As faixas seguintes (outras duas) foram criadas a partir da primeira. Naturalmente, a utilização que fiz das faixas foi ligeiramente distinta daquela pensada a princípio. Optei por usar uma faixa em cada ato, livrando o espetáculo de certo excesso na trilha. Para que ficasse quase sugerido que tudo não passava de uma música de apresentação, transição e desfecho. Naturalmente, a música em SINFONIA SONHO me sugere muitos outros movimentos: penso em aproximação, penso em anti-ilusionismo, penso em drama e tragédia, sinto por fim que a trilha é quase um carinho na alma, mas que acaba sendo meio árido, acaba mais machucando do que apaziguando. Essa talvez seja a interpretação do som do espetáculo. É talvez o que eu desejo provocar com a música. Mas como falar do que a música abre ou encerra ao ser ouvida?

No meio do processo, uma integrante do Teatro Inominável acabou se somando a equipe para realizar a direção de movimento. Helena Cantidio, que mais tarde assumiu o papel da repórter Joana Bravo (apenas no terceiro ato), foi determinante para a limpeza e criação de certa lógica do movimento, por certo jogo entre atores e suas cadeiras. Seu olhar foi assistindo a cena como um quadro em movimento e junto aos atores, sobretudo individualmente, Cantidio foi assimilando a expressão corporal das personagens, propondo soluções para sua movimentação e organicidade. Este olhar de fora, também somado ao da assistente de direção, foi determinante quando me vi em cena, cumprindo a leitura das rubricas.

O trabalho dos atores foi muito solitário durante todo o processo. A eles foi exigido bastante no sentido de se reconhecerem como autores e menos como meros executores de algo por mim previsto. Nesse sentido, nas últimas semanas, com novas cenas e ajustes de inúmeros momentos do espetáculo, foi interessante observar como essa autonomia havia sido conquistada e como a dramaturgia individual de cada personagem era defendida por seus intérpretes. Havia a tal negociação invisível, havia um acordo que se efetuava nas coisas mais simples e nas mais complexas. O olhar, a escuta e a generosidade de um com outro. Nesse mesmo sentido, destaco todo o trabalho e diálogo com a assistente de direção. Convidei Thaís Barros no início de 2011 e estivemos juntos desde então, num diálogo ininterrupto sobre os conceitos, a dramaturgia, os atores e as proposições para cada ensaio realizado. Barros não se privou de expor suas opiniões e o encontro com sua maneira de olhar nosso trabalho foi determinante porque era sempre pautada numa busca incessante por maneiras mais eficientes e sensíveis de se expressar o que importava ser expressado ou de revelar o que precisava vir a tona. Barros esteve em sala de ensaio com os atores, guiando ensaios e propondo exercícios bem como esteve fora dos ensaios, junto a mim, desbravando possibilidades para a dramaturgia.

Desde o início, tive o cuidado de realizar reuniões coletivas com o cenógrafo (Leandro Ribeiro) e a dupla de figurinistas (Isadhora Müller e Marina Dalgalarrondo). Nestes encontros, conversávamos sobre O Anti-Édipo e trocávamos referências e impressões, especulando possibilidades e maneiras de expressar a dramaturgia ainda em criação. A orientação de cenografia e indumentária foi realizada sem a minha participação. Tanto cenógrafo quanto figurinistas levavam questões até seus orientadores e a partir desse diálogo realizavam novas apostas. Estiveram presentes em inúmeros ensaios e sempre trazendo consigo objetos e vestimentas que pudessem ser utilizadas pelo elenco. Para além da criação dos figurinos, Müller e Dalgalarrondo também se responsabilizaram pela criação e execução da caracterização das personagens. Naturalmente, todo o processo de concepção do visagismo começou a ser pensado depois que a dramaturgia começou a ser entregue.A seguir, teço alguns comentários sobre a caracterização (figurino e visagismo) de cada personagem:

CÉLIA [Adassa Martins]

Célia é uma criança com sete anos recém-completados. É também uma criança que perdeu o olho esquerdo, motivo pelo qual usa um tapa-olho. Todo o processo de criação desta personagem partiu do princípio de que ser criança não é imitar uma criança. Para nós, o importante era a atriz experienciar o jogo do ser criança, que realmente joga com o mundo e suas relações. Assim, não coube a indumentária – assim como não coube a atriz – imprimir uma lógica/visualidade infantil. Este dado, a saber, o de Célia ser uma criança, está presente desde o início do espetáculo. É uma informação defendida e desdobrada pelo própria discurso e ação da personagem no correr da história.

A aposta da indumentária foi um vestido inteiriço, longo e cinza. Tal proposta coloca a criança num lugar mais sóbrio e sem excessos, ao mesmo tempo que brinda a atriz com um caimento da vestimenta que ressalta o seu movimento (a base do vestido se abre quando a criança gira ao redor do próprio eixo). O cabelo da atriz estava maior durante o processo de criação. As figurinistas optaram por cortar uns dedos, revelando o rosto de Adassa por completo para, em seguida, marcar alguns fios, trazendo também ao cabelo um pouco de ondulação e movimento.

CORLEY [Andrêas Gatto]

A peça começa no exato instante em que Corley perde o seu filho, Tomas, também com sete anos. Corley sempre nos sugeriu um lugar muito asseado, sem barba ou com a mesma bem desenhada. As figurinistas trouxeram um figurino mais justo ao corpo, por interpretarem este personagem como um homem de família só porque cresceu, conservando um espírito infantil muito acentuado. Assim, a calça é bem justa ao corpo, como a camisa social. As meias aparecem quase por completo e nos joelhos, vemos marcas do ajoelhar ao chão (provavelmente para brincar com o falecido filho).

A barba grande traz a sensação de descuido, natural por ter perdido seu filho. É um dado explicitamente “exagerado” e que não faz sentido na cronologia do espetáculo. Toda a peça se desdobra em apenas sete dias. A barba do ator estar propositalmente muito grande é unicamente para instaurar – de imediato – certa desordem no estado desse pai. Ao fim do espetáculo, esta desordem é ainda maior, em virtude do jogo cênico com outros atores (sobretudo sua esposa – Moira – e o espírito de seu filho – Tomas).

EVA [Virgínia Maria]

Para compor Eva, recém-nomeada diretora de uma escola municipal, as figurinistas partiram do próprio ar que a personagem transpira. Eva é uma mulher ambiciosa e que pouco se importa com opiniões divergentes da sua. Ela está vivendo um momento de grande reconhecimento profissional, sendo ainda mais intolerável e autosuficiente.

Assim, o figurino é uma roupa social, com uma saia que no correr da peça vai sendo cada vez mais apertada ao corpo, limitando os movimentos da atriz. O cabelo recebeu um cuidado especial: há um aplique sobre a cabeça que cria um coque. Eva utiliza pequenos brincos e também sapatos mais altos (que marcam com o som cada um de seus passos).

FRANKLIN [Dan Marins]

Franklin é um oncologista, especializado no tratamento de tumores. Toda a criação desta personagem partiu certa assepsia, ou melhor, de um cuidado com o corpo (unhas, cabelos, pêlos...). O ator teve sua barba e cabelos completamente raspados. Sua cabeça recebe a luz dos refletores como uma página em branco e isso reflete bastante o espírito desta personagem que acabou de perder o pai, vítima de câncer.

A aposta do figurino foi para o branco. Aliás, toda a indumentária do espetáculo foi criada num entre preto e branco, com escalas de cinza, chumbo e gelo. O figurino de Franklin é justamente o contrário do outro pai da peça, Corley. Enquanto este possui uma vestimenta mais apertada, com Franklin vemos um homem de família, médico e pai, com um espírito cansado, querendo alforria de si mesmo. O figurino maior, quase frouxo – com mangas compridas para além das mãos – ressalta essa sensação de inadequação que Franklin parece estar sentindo em relação a si próprio e ao mundo.

KEVIN [Márcio Machado]

Protagonista desta tragédia, Kevin é uma criança de nove anos. Assim como o trabalho realizado na criação de Célia, também aqui o ser criança é fruto mais da experiência vivida pelo ator do que pela imitação de uma criança. Kevin é a personagem que é tomada por um desejo que a consome, tão logo a peça começa. Ele pede a mãe em poucos minutos de espetáculo: mãe, quero virar música. É a partir do seu desejo – por conta da peça teatral que começa a ensaiar na nova escola – que a ação da peça se desdobra e acontece plena.

No entanto, o destino de Kevin já está escrito. Ele não sabe, mas nós – criadores – sabemos que no término da peça Kevin será protagonista de um assassinato. Há aqui uma escolha muito diferenciada quanto a composição do seu figurino. Nos espetáculos anteriores, sempre me vi pensando como não antecipar aquilo que vai acontecer lá na frente. Mas aqui, neste, Kevin é desde os inícios essa criança já de luto. Seu figurino – o mais simples, na minha opinião – é todo preto. Uma camisa basica, uma calça com as pernas enroladas, formando uma bermuda somada a meias e sapatos pretos.

Caso a interpretação do ator, o discurso da personagem e suas ações sugerissem luto, introspecção e solidão, talvez a escolha do figurino se revelasse inadequada ou mesmo literal. A questão é que, ainda vestido dessa forma, Kevin é apenas uma criança e se move pelos diversos lugares que o ser criança costuma se mover. Há cenas em que está irritado, outras em que está feliz e mesmo engraçado. Há um gráfico dramatúrgico que lança a personagem em diversos lugares e que, por conta desse movimento, amenizam uma leitura que se completa apenas no fim do espetáculo: a de que, talvez, nós adultos estejamos expropriando a infância de nossas crianças, trazendo consternação a corpos que, a princípio, se destinam primeiro ao jogo.

MOIRA [Laura Nielsen]

Moira, como Corley, também acabou de perder o filho (levado aos céus por balões de gás). Sua caracterização é a mais complexa, recheada de camadas, assim como a personagem, movida por dissimulações e mentiras. Durante a criação, as figurinistas chegaram a propor uma espécie de sobretudo preto e feito com uma série de sobreposições de tecidos sintéticos, criando uma espécie de capa que insinuava certa maldade a personagem. Optamos, por fim, em não rotulá-la dessa maneira: Moira é apenas uma mãe desesperada, que acabou de perder o filho.

Assim, um simples vestido, cinza (mais escuro que o de Célia) e sapatos baixos. Porém dentro, uma barriga falsa, recheada com uma espécie de varal no qual se costuram roupas de criança (provavelmente roupas de Tomas, seu filho morto). Este simples figurino é, no entanto, espaço propício para que a atriz desdobre o horror da personagem. Nada em Moira se antecipa ou chega atrasado: desde o início ela é aquilo que vai ser até o fim, quando morre assassinada por Kevin.

Para o visagismo, uma elaboração maior foi feita a partir do que o texto nos fornecia: o fato de Moira estar parada sobre o telhado de sua casa, desde o segundo em que seu filho subiu aos céus. Por conta desta estagnação que consome a personagem, as figurinistas propuseram uma maquiagem que estivesse se perdendo no correr do tempo. Há na boca um resquício de batom, que sobrevive apenas como um contorno dos lábios. Há no olhar uma maquiagem preta borrada (pelo choro ou pela chuva) e Moira, como presente na dramaturgia, surge com os cabelos desgrenhados.

TOMAS [Gunnar Borges]

Tomas é a última criança da peça, que surge apenas para dar o seu relato de morte. Diferentemente do processo de criação das duas outras crianças (Célia e Kevin), aqui apostamos num lugar mais comum para a composição da criança: o ator usa um pijama de criança que, naturalmente, fica menor em seu corpo, expressando a possibilidade dessa criança ter crescido para além do permitido.

Em questão se coloca a educação dada aos nossos filhos. A mãe de Tomas, Moira, sem dúvida alguma é mãe cheia de paparicos e que excede a medida da educação, fazendo de seu filho uma criança que não se renova nem atualiza. As roupas todas que ela coloca em sua barriga para simular uma gravidez são também menores do que aquelas que poderíamos julgar caber numa criança de sete anos. A imposição de que o filho é sempre nosso filho, neste espetáculo, é visto como um agravante na relação familiar.

Para fechar o visagismo, encontramos no ar (ou no céu) o elemento capaz de expressar o horror desta situação de estar preso a balões vagando solitário e perdido. Assim, o penteado realizado no ator permite que vejamos o seu cabelo quase sempre num comportamento muito aéreo, se movendo quando o ator se move, em plena respiração.

Ao mantermos a barba e os pêlos do corpo sugerimos que as crianças estão crescendo. Também de forma explicitamente exagerada – ou seria expressiva? – os pelos traduzem o crescimento que os pais querem acreditar não ter chegado: pois depois que o filho cresce, é natural e inevitável que vá querer partir de casa.

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Capítulo 9 do Memorial do Espetáculo, entregue como conclusão da disciplina Projeto Experimental em Teatro

segunda-feira, 16 de abril de 2012

“Dramatorgia”

Foi no primeiro semestre de 2011 que aconteceu no Rio de Janeiro, em Realengo, o primeiro massacre de crianças em ambiente escolar. No romance Precisamos falar sobre Kevin, um dos principais motes dramáticos era justamente o fato do filho de Eva, Kevin, ter assassinado quase duas dezenas de colegas no colégio em que estudava. Por conta dessa coincidência, desisti rapidamente de encenar essa obra e comecei a refletir se aquilo que eu viria a colocar em cena não poderia ser justamente uma resposta ao real, ao invés de simplesmente uma reprodução de suas mazelas. Depois de alguma busca, percebi que eu deveria assumir a criação da dramaturgia, caso ela pretendesse fazer diferença ao que nossa sociedade havia estabelecido como possibilidade. Comecei a me nutrir das discussões junto aos atores e segui especulando a dramaturgia. No início de junho, assumidamente, a dramaturgia ganhou contornos mais precisos depois de tantas tentativas. Por meio de uma colagem de partes variadas das inúmeras referências que cruzaram nosso caminho, junto ao projeto anexei os seguintes materiais: 1) a descrição das personagens; 2) a sinopse do drama; e 3) uma escaleta com um planejamento da sequência das cenas. A seguir, coloco cada um desses materiais seguidos de uma análise com considerações que julgo relevantes de se pontuar.

Personagens

Célia (Adassa Martins) – Filha de Eva e Franklin, irmã de Kevin. Tem sete anos de idade e aos seis, durante um jantar, teve um dos olhos perfurados pelo irmão e, desde então, usa um tapa-olho. Na nova cidade, sofre com a quantidade imensa de cachorros e moradores de rua.

Corley (Andrêas Gatto) – Esposo de Moira e novo vizinho da família de Eva e Franklin. Ignorando por completo o fato de seu casamento estar em crise, Corley presenteia a esposa todos os dias e segue em busca de alguém para dar o presente mais especial de todos: um cão.

Eva (Virgínia Maria) – Esposa de Franklin, mãe de Kevin e Célia. Recém-nomeada diretora da Escola Municipal Ensino Fundamental, Eva acredita estar vivendo um dos momentos mais felizes de sua vida, por todo o reconhecimento profissional que está obtendo.

Franklin (Dan Marins) – Esposo de Eva, pai de Kevin e Célia. Oncologista, especializado no tratamento de tumores, está desempregado. Relutante, se muda com a família para outra cidade em virtude da promoção da esposa. Sofre o fato de seu pai ter sido comido por um câncer.

Kevin (Márcio Machado) – Filho de Eva e Franklin, irmão de Célia. Tem nove anos de idade e num dia, de súbito, acorda convencido de que é preciso virar música. Obstinado em sua busca, transtorna a relação familiar na concretização de seu desejo, que o consome.

Moira (Laura Nielsen) – Esposa de Corley e nova vizinha da família de Eva e Franklin. Vive a crise de seu matrimônio acreditando veementemente que é preciso ter um novo filho. Com a chegada dos novos vizinhos, desenvolve um apego desmedido por Célia e Kevin.

Começo pela escolha dos nomes. A família principal (Eva, Franklin, Kevin e Célia) teve seus nomes retirados diretamente do romance Precisamos falar sobre Kevin. Também do romance eu mantenho a situação do olho perfurado de Célia, algo que na dramaturgia acaba sendo recriado e colocado noutra situação. A família vizinha (Corley, Moira e Tomas) tem seus nomes de lugares mais diversos: Corley vem do sobrenome de uma personagem do romance; Moira surge dos estudos que fiz sobre as tragédias gregas e Tomas foi o primeiro nome que surgiu ao pensar sobre qual nome dar ao filho de Corley e Moira.

Sobre as idades, apenas me importou definir a faixa etária das crianças. De alguma forma são elas as protagonistas da história: Célia, Tomas e Kevin, respectivamente com seus oito, nove e dez anos de idade. Célia e Kevin tem as mesmas idades que dois dos meus quatro sobrinhos. Em processo, a orientadora de direção me pontuou coisas específicas sobre a idade de Célia (7 anos), sobretudo o fato de ser nesta idade – também a de Alice – que a dentição da criança começa a mudar vertiginosamente, mudando também seu comportamento. A partir dessa observação, tentei desenhar uma personagem que começa a se descobrir enquanto pessoa, num movimento de apropriação da linguagem e de seus próprios desejos.

Quanto a distribuição dos papéis, o critério foi também variado. Quanto as crianças e seus respectivos pais, de cara a diferença nas estaturas dos atores me pareceu um dado interessante a ser explorado, sobretudo no caso de Kevin (Márcio Machado) para com Eva (Virgínia Maria) e Franklin (Dan Marins). Márcio é o ator mais alto do elenco e foi a partir desde dado físico que comecei a pensar sobre uma possível engrenagem interessante para a dramaturgia: a de que as personagens infantis iam se adultizando e os adultos se infantilizando. Ao término do espetáculo, a altura de Kevin não me parece tão despropositada, bem como a de sua mãe, que por ser bem menor que ele, me dá por inteiro o caráter pusilânime de tal personagem. Sobre Tomas, ressalto o fato curioso de ter percebido a necessidade desta personagem somente após ter escrito a sinopse e escaleta das cenas.

TOMAS (Gunnar Borges) Filho de Corley e Moira. Tinha sete anos quando, durante os preparativos para seu aniversário, acabou subindo aos céus levado por balões. O corpo de Tomas é encontrado uma semana depois que os novos vizinhos chegam a sua nova casa, explodindo a realidade dentro da qual as duas famílias tentavam se equilibrar.

Tomas, a princípio, seria apenas citado como o filho morto de Corley e Moira. Em discussão com a orientadora, a infância foi se revelando o cerne do espetáculo. Por isso Tomas ganhou corpo físico e dramatúrgico, para que possibilitasse mais desdobramentos sobre a infância. Célia, Tomas e Kevin são alvos da violência e inconsequência humana. Mais que isso: não sofrem abusos diretos nem agressões premeditadas de algum assassino. Em cena, são três crianças arrasadas pela indiferença e pela inconsequência, pela falta de responsabilidade e humanidade. Mais do que temas como pedofilia, por exemplo, me interessou desbravar a criança como propagadora da violência. A criança como ser que é lançado em situações que não deveriam lhe ser dadas e que diante ao horror desse encontro, age a violência como forma de assegurar sua sobrevivência. Talvez pior que a violência sobre uma criança seja a violência realizada por ela mesma. Talvez pior do que uma criança que propaga inconscientemente a violência, é pensar que esta consciência possa estar sendo criada por ela e que o ato violento possa ser intencional e arquitetado.

Cada personagem tem uma ou outra característica retirada do e-mail resposta que cada ator me enviou quando solicitei a eles uma lista de seus desejos mais desejados. Exemplos: sofre com a quantidade imensa de cachorros e moradores de rua; e segue em busca de alguém para dar o presente mais especial de todos: um cão. Ao transitar entre as personagens tais buscas, acreditei ser possível humanizá-los ainda mais, dotando-os de desejos possíveis ou, ao menos, reconhecíveis. Os dois exemplos citados acima se perderam no decorrer do processo, porém, até serem abandonados serviram como mote para a criação das personagens. Volto ao cuidado de não intencionalizar excessivamente as vontades criativas. Essa foi a maneira encontrada para lidar com os desejos enviados pelos atores. Eles estão muito presentes no espetáculo, porém, de maneiras por vezes sugeridas, quase invisíveis. Uns viraram discurso direto das personagens, outros desejos viraram intenção ou mesmo tema de alguma cena.

Sinopse

Tudo acontece em uma semana. Da noite de um domingo à noite do domingo seguinte. Eva e Franklin acabam de chegar a sua nova casa, alugada. Eva foi promovida a diretoria da Escola Municipal Ensino Fundamental e no domingo em que chegam nesta nova casa, é aniversário de Célia, filha mais nova do casal.

No correr da semana, Eva mantém-se presa ao trabalho enquanto seu marido, Franklin, passa os dias levando os filhos à escola e os buscando, incapaz de abrir as caixas da mudança. É durante a semana que os vizinhos se conhecem. Corley e Moira, família vizinha, convidam Célia e Kevin para brincar em sua casa, no fim de semana.

Numa manhã de terça-feira, Kevin, o filho mais velho de Eva e Franklin, acorda convencido de que é preciso virar música. De noite, com a família reunida para o jantar, ele faz seu pronunciamento: mãe, quero ser música. Eva trata de pôr fim a sua brincadeira e naquela noite Kevin não consegue dormir, com olhos abertos, sonha em ser sinfonia.

Passamos, então, a acompanhar as tentativas de Kevin para efetivar o desejo que o consome. Nos dias posteriores, ele consegue convencer o próprio pai e a irmã de que é preciso ser música. Enquanto Eva trabalha desesperadamente na resolução do massacre que assolou sua Escola, as crianças cada vez mais adentram a casa dos vizinhos, entretidos com o quarto cheio de brinquedos do filho deles que nunca viram.

Final de semana. Todos em suas respectivas casas. Hora do noticiário. Descobre-se o paradeiro do filho de Moira e Corley que até então, imaginava-se, estar por vir. Moira não está grávida. E o desejo de Kevin não é mera brincadeira de criança. As paredes tremem e a intimidade se converte em sutura. Kevin, no meio do furacão, vira, enfim, música.

A sinopse entregue junto ao projeto tentava, de alguma forma, propor espaços que pudessem ser dinamitados no processo de criação textual. Foram muitos lugares mais sugeridos do que determinados. Por exemplo, por conta do estudo sobre as tragédias gregas (sobretudo a partir de Édipo Rei de Sófocles), optei que a dramaturgia sustentasse uma sucessão muito acelerada de acontecimentos. Por meio dessa vertiginosidade eu acreditava ser possível o trágico poderia emergir. Assim, desenhei uma sequência de cenas que aconteciam durante uma semana, ou seja, durante pouco tempo todas as mudanças de sorte aconteceriam. Ao mesmo tempo, alguns personagens tiverem seu percurso simplificado a uma única ação, por exemplo, Eva (sempre atarefada com as coisas de seu novo emprego) e Franklin (amortecido pela morte do pai). Detalhes como o aniversário de Célia serviram, sobretudo, para dar a dramaturgia espaço para construir jogos que evidenciassem melhor a relação entre as personagens. Pensei que não fazia sentido apresentar uma personagem, mas sim mostrá-la quando em situação, quando em ação dentro de um dado acontecimento.

O encontro das duas famílias foi construído de maneira muito diferente do que a sinopse sugeriu. Muito cedo, Andrêas e Laura (respectivamente, intérpretes de Corley e Moira) desdobraram o horror de suas personagens para um grau até então não previsto em nenhum planejamento do drama. Foi preciso acompanhar sua guinada, portanto, hoje analisando a peça escrita, percebe-se como esta família vizinha esteve mais fechada – quase de luto – e como sua abertura foi sendo aos poucos realizada. É Corley quem conhece o vizinho Franklin, enquanto Moira espia as crianças vizinhas indo para a escola. Eva e Franklin, por exemplo, nem chegam a conhecer Moira. Conforme escrito no capítulo Projeto de Encenação, muitas coisas foram abandonadas, porém outras serviram imensamente. Como exemplo deste aproveitamento, cito o pedido de Kevin (mãe, quero virar música) e a consequente bronca que Eva dá em seu filho. É por conta dessa reação da mãe que Kevin adormece e acaba, em seu sono, tendo um pesadelo. Neste pesadelo, eu pensei, por que não tornar possível algo que em vida Kevin parece não conseguir dar conta? Voltando ao projeto, o sonho de Kevin age como exemplo direto do quarto vértice no triângulo familiar e oxigena a sua existência.

Conforme escrito anteriormente, durante nosso processo aconteceu em Realengo um primeiro massacre de crianças em ambiente escolar. Na época eu tentei não dar muito atenção ao fato em virtude do horror que o mesmo fez emergir. Eu me lembro de ter recortado todos os jornais que pude, incapaz de assistir a vídeos e reportagens. Isso ficou durante um bom tempo dentro de um envelope, ao lado da minha cama. E ao escrever a sinopse, eu percebi que precisava de um bom motivo para que as crianças – Célia e Kevin – pudessem cada vez mais adentrar a casa dos vizinhos (já que intuia que Moira seria a detonadora de alguma tragédia final). Foi neste ponto em que o massacre me deu motivo para colocar as crianças de férias. Porém, eu descobriria adiante, mais que isso: o massacre deu toda a tônica da dramaturgia e a encenação (e isso tudo, apenas porque no princípio, o massacre pôde ser apenas um detalhe e não o centro das atenções).

De maneira diferente, o virar música de Kevin sempre foi um mote e um problema. No projeto eu digo algo como ser essa a busca não só da personagem como também de toda a equipe de criação. Durante os primeiros ensaios, fizemos seminários a partir do tema O que é virar música? Especulamos muitas possibilidades, das mais fantasiosas as mais científicas. Mas foi depois de um sonho que tive que a coisa amanhaceu esclarecida: não cabia tanto investir na metáfora do virar música. Isso deveria ser algum desdobramento e não a coisa em si. Quero dizer: é óbvio que virar música é um chamariz poético da peça, mas para Kevin – uma criança de nove anos – isso seria melhor enquanto jogo e não feito metáfora. Foi por conta do título Peça de Formatura, imaginado durante a feitura do projeto de encenação, que eu comecei a desbravar que, na verdade, todo esse desejo de Kevin – o de virar música – havia sido criado por conta de uma peça teatral que ele começou a ensaiar em sua nova escola. De acordo com a postagem sobre o título [1], destaco:

[...] eu não sei. penso em PEÇA DE FORMATURA e algum gesto delicado se anuncia. quer dizer, todo o drama, toda a coisa parte por conta disso. vamos por parte: célia se matricula numa nova escola e das coisas todas que mais chamam a sua atenção está esta: qual peça de formatura faremos para encerrar o ano letivo? kevin da mesma forma aguarda ansioso, porém discreto, por saber qual teatro encerrará seu ano letivo. e o que fará nele? a presença do teatro como ferramenta de construção e criação não somente da ficção mas da própria vida. um mundo, país, comunidade na qual esta experiência tivesse força e mais que isso, já fizesse parte da ousadia que é o virar dos dias. [...]

A escrita vai se escrevendo e por vezes só precisa das suas mãos para aparecer. Você digita e digita e as palavras vão saltando ansiosas por expressão. Engraçado que durante a escritura da sinopse, as palavras sinfonia e sonho apareceram e só mais tarde vieram a se transformar no título do espetáculo. Foram muitas tentativas: Mãe, quero ser música; Peça de formatura e, por fim, Sinfonia Sonho. Na sinopse, é previsto que a dramaturgia acompanhe o movimento de Kevin na tentativa de virar música, porém, tal como a dramaturgia se configurou, o que temos é uma espécie de refrão (conforme identificado pela orientadora de direção) – um leitmotiv – pelo qual Kevin, sempre trancado em seu quarto, se questiona sobre tudo aquilo que o atormenta e impede de contemplar seu desejo: o de virar música.

Escaleta Primária

Domingo – FESTA CÉLIA

Noite de domingo. Eva e Franklin acabam de chegar a sua nova casa, alugada. É aniversário de Célia, filha mais nova do casal. Eles improvisam uma festa para a filha, ainda enjoada da longa viagem que tiveram de carro. Todos colocam tapa-olho, como fosse o tapa-olha uma espécie de chapeuzinho. Mas a festa de Célia não dá certo mesmo assim. Recém-mudados para uma nova cidade, a família não tem a quem convidar, o aparelho musical não funciona e a festa acaba sem música. Célia faz pirraça enquanto Kevin a observa, atento e desolado.

Segunda – OS VIZINHOS

Manhã de segunda-feira. Eva foi promovida à diretoria da Escola Municipal Ensino Fundamental e por isso parte veloz para o trabalho. Franklin leva os filhos à mesma escola e os busca, horas depois, incapaz de abrir as caixas da mudança. Nesta tarde, Franklin, conhece os vizinhos, que convidam Célia e Kevin para brincar em sua casa, no fim de semana.

Terça – O PRONUNCIAMENTO

Manhã de terça-feira. Kevin, o filho mais velho de Eva e Franklin, acorda convencido de que é preciso virar música. Vaga o dia tramando sua ação. Sem rumo, já de noite, com a família reunida para o jantar, ele faz seu pronunciamento: mãe, quero ser música.

Quarta – SINFONIA SONHO

Noite de quarta-feira. Kevin segue sem compreender, mas caminha repleto do seu desejo. Ele nele persiste. Mas Eva, após o jantar, trata de pôr fim a brincadeira de seu filho e naquela noite Kevin não consegue dormir. Com olhos abertos, ele sonha em ser sinfonia. No sonho, o desejo de Kevin dança trepidante sobre a impossibilidade determinada pela mãe.

Quinta – MASSACRE LOCAL

Manhã de quinta-feira. Massacre na Escola Municipal Ensino Fundamental. Eva enlouquece. As aulas são interrompidas e Franklin volta para casa, com as crianças, sôfregas de horror. Certos impossíveis são mais possíveis do que imaginamos, Kevin talvez venha a pensar. Passamos então a acompanhar as tentativas de Kevin para efetivar o desejo que agora, ainda mais, o consome. Kevin convence Célia de que precisa virar música. Célia se empolga com a possibilidade do irmão ser famoso.

Sexta – NÃO-DIVISÃO CELULAR

Manhã de sexta-feira. Kevin convence o próprio pai de que é preciso virar música. Enquanto Eva trabalha desesperadamente na resolução da tragédia que assolou sua escola, as crianças cada vez mais adentram a casa dos vizinhos, entretidos com o quarto cheio de brinquedos do filho deles que nunca viram.

Sábado – O BALÃO

Noite de sábado. Todos em suas respectivas casas. Hora do noticiário. Para além da tragédia na Escola, outra criança é encontrada morta. É o filho de Moira e Corley que até então, imaginava-se, estar por vir. Moira não está grávida. E o desejo de Kevin se enerva até o limite.

Domingo – DEUS EX-MACHINA

EVA – É um desejo de morte, filho?

KEVIN – Não, mãe, é só de eternidade.

EVA – Mas não é possível ser eterno, eu já lhe falei. Nem é possível ser música.

KEVIN – Mas, veja: eu estou sendo. Olha, eu tô sendo música.

Kevin, no meio do furacão, vira, enfim, música.

A criação desta escaleta foi determinante para que a dramaturgia pudesse florescer. Eu, de fato, me guiei por essa estrutura primária. Naturalmente, a cada cena escrita as coisas se modificavam e desdobravam aquilo previsto no modelo acima. Algumas cenas foram completamente novas e pouco se serviram do que fora previsto. Isso nunca foi um problema porque o propósito da escaleta foi sobretudo o de criar um encadeamento dos acontecimentos, provocando analogias entre as partes do espetáculo e um desenho firme de cada personagem, de cada trajetória.

No início, a dramaturgia foi prevista para ser criada em processo colaborativo. Isso não chegou a acontecer. Comecei a escrever o texto após cerca de doze ensaios com o elenco. Nestes primeiros ensaios, tudo o que produzimos já foi a partir dessa primeira estruturação dramatúrgica entregue junto ao projeto. Nesses ensaios, fomos alargando as personagens e abandonando algumas características em troca de outras, novas. O corpo dos atores – de fato, a sua fisicalidade – foi essencial para tornar essas figuras mais humanas. Alguns dramas previstos no papel eram menores quando postos em cena, ou nem isso, alguns dramas eram mais cômicos do que trágicos. Todo esse movimento foi me afetando enormemente, mesmo que não houvesse uma consciência disso.

Sem saber ao certo explicar o porquê, o texto de Sinfonia Sonho foi escrito em apenas um mês, outubro de 2011. Entreguei as três primeiras cenas (Festa Célia + Os Vizinhos + O Pronunciamento) no ensaio da quinta-feira 06 de outubro e neste mesmo dia, agendei a data das próximas entregas de texto. Na quinta-feira 20 de outubro entreguei mais duas cenas (Sinfonia Sonho + Massacre Local), ao contrário das três que haviam sido planejadas. E no ensaio da quinta-feira 03 de outubro, terminei de entregar as cenas pendentes (Não-Divisão Celular + O Balão + Deus Ex-Machina). No meio dessas entregas, também entreguei páginas que organizavam as cenas em três atos (sugestão da orientadora de direção).

Creio ter sido importante estabelecer tais prazos para que toda a equipe pudesse se guiar. Assim como os atores tinham novos textos para decorar, todos tínhamos novas cenas para estruturar. Tais prazos me obrigaram a sentar e escrever e quase todas as cenas foram escritas com quase nenhuma antecedência. Sempre houve um medo meu de encarar a escritura, sobretudo quando as ideias daquilo que era preciso constar em cada cena iam se clareando de maneira irrevogável. Quer dizer: quanto mais eu demorava a escrever, mais a cena se escrevia sozinha em minha cabeça.

Alguns dogmas, se é que assim podem ser chamados, tornaram a criação da dramaturgia de fato um jogo a ser jogado. Destaco duas regras que me obriguei a seguir: 1) cada cena teria um título composto por duas palavras; e 2) as falas das personagens sempre que possível deveriam ter o tamanho máximo de uma linha quando digitadas. Tais regras, respectivamente, me deram um olhar mais amplo sobre as temáticas em jogo, sobre aquilo que de fato configurava o núcleo da cena e, por último, me permitiram certa fluidez do texto, certo andamento determinante a uma dramaturgia que se quisesse vertiginosa.

Em se falando de gênero, conforme já exposto, encaro Sinfonia Sonho como uma tragédia dita contemporânea. Há uma série de insinuações a certa lógica trágica que não tenho plena consciência, mas que se manifestam independente da minha vontade. Intencionalmente, assino a vertigem dos acontecimentos, numa sucessão muito rápida de eventos: a chegada na nova cidade, apresentação das personagens, os vizinhos, o pronunciamento de Kevin, o seu pesadelo, o massacre na escola, o encontro de Moira com as crianças, a pira de Eva, a morte de Tomas, a partida de Franklin, o sequestro de Célia e a morte de Moira. Ao mesmo tempo, é divertido brincar com a cegueira de Célia porque ela, inevitavelmente, sugere alguma ou qualquer relação com o mito de Édipo.

Sobre esta personagem, Célia, a irmã de Kevin, há um detalhe especial: desde o início me pareceu necessário provocar uma identificação imediata com o público. Talvez porque soubesse que o final da peça fosse explodir por sobre as crianças. Estas sim sairiam da peça destruídas, violadas. Assim, Célia se tornou uma personagem divertida e autêntica e quando vemos a peça engolir tal personagem para dentro de uma sequência de acontecimentos trágicos, o que sentimos tem a ver com a tal catarse desenhada por Aristóteles em sua Arte Poética. Por meio dessa personagem e da tragédia que a arrasta, sentimos terror e piedade, num movimento que purga em nós essas energias. Obviamente que isso não está dado. Aqui desenho em palavras apostas e buscas que ainda não cessaram de acontecer, de se testar e desdobrar em novas tentativas e possibilidades.

Pontuo estes vários pedaços porque foi por meio dessa bricolagem, eu digo, desse somatório de pequenas partes, pequenas tramas e desejos, que a dramaturgia pôde enfim nascer, marcada por uma riqueza de temas e discussões, uma dramaturgia que eu julgo marcada pela diferença. Durante o processo, recortei muitas notícias de jornais. Ao criar as cenas, retomei o estudo de algumas, tais como a notícia do tratamento de células cancerígenas com a frequência da sinfonia de Beethoveen e como os depoimentos obtidos após o massacre em Realengo. Essa diferença dos discursos, talvez, me faça acreditar num possível motivo que explique o grande alcance que o texto pareceu ter nas três apresentações dentro da XI Mostra de Teatro da UFRJ. Ao reunir os temas, as situações e questões vividas por cada personagem, damos conta de uma parcela muito grande de indagações que também, imagino, os mais diversos espectadores podem se questionar. Afinal, é de se esperar que nossos espectadores saibam o que é isso de filho, pai e mãe. O que é isso de infância e idade adulta. Eles sabem o que é isso de violência e morte. São temas universais tratados num contexto específico. A dramaturgia como encadeamento que nos traz de volta a nós mesmos, porém por caminhos ficcionais.

Em termos conceituais da dramaturgia, estive o tempo inteiro – quase em silêncio – flertando com o conceito de corpo sem órgãos, proposto em O Anti-Édipo. Durante o início de 2011, ainda quando em pesquisa junto aos atores, chegamos a um sério questionamento: seria a experiência teatral ela mesma um corpo sem órgãos? Se sim, apresentamos nesse sentido uma realidade inóspita e ligeiramente impraticável. Em cena, temos uma realidade improdutiva sem, no entanto, deixar de ser, de estar e existir. Uma realidade que funciona por si própria e esmaga a ação das personagens que nela tentam se mover. De forma sutil, acredito que o espetáculo proponha uma experiência que nos chama de volta ao absurdo da existência, no sentido de sua cegueira e automatização contínua, que retira de nós o controle e a vivência de nossos atos e relações. O exemplo maior de tal aposta talvez resida na presença das rubricas no último ato do espetáculo e, sem dúvida alguma, da forma construída para sua expressão. São rubricas que desenrolam a ação de forma violenta e vertiginosa, de forma quase cega e espetacularizada. Para isso, duas repórteres assumem as rubricas, narrando ao público a vertigem de eventos vividos pelas personagens que nem mesmo elas próprias parecem acompanhar. Cria-se algo impraticável, uma ação que nos devolve – de alguma forma – certa falência relacional das partes que componhem aquela realidade ali compartilhada. Assim creio, Sinfonia Sonho preocupa-se em abrir este reconhecimento trágico da realidade contemporânea, não para reproduzí-lo, mas para denunciá-lo, para trazer a discussão seus protagonistas e seus respectivos alvos. Esse improdutivo oferecido ao público, esse final desfórico do espetáculo, me parece querer afirmar que a absurdidão da nossa existência não somente existe como por vezes é fruto da nossa inconsequência.

Por fim, chamo de dramatorgia uma busca que se dá além do texto dramático. Neste neologismo, junto as palavras dramaturgia + ator + orgia para tentar dar conta de um jogo que se contrói a muitas mãos. Quero dizer: a dramaturgia – como a vejo – é um emaranhado de vozes, discursos e tentativas. É uma orgia no sentido caótico do encontro das diferenças. É também o ator, concentrado e multiplicado. Dramatorgia no sentido de tê-los – os atores – em mim reunidos, de pensar a cena para suas vozes e corpos, de querer colocá-los em situações que me pareçam interessantes de colocá-los, para multiplicar sua potência em expressão. A dramatorgia como percurso da fruição nossa e do espectador. Como materialidade feita de corpos e não somente de palavras.


[1] http://oantiedipo.blogspot.com/2011/09/sobre-o-titulo.html;

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Capítulo 7 do Memorial do Espetáculo, entregue como conclusão da disciplina Projeto Experimental em Teatro

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

(in)ação física

se a ação não vai mudar nada ela é ainda assim uma ação?

pergunta boba. talvez seja. mas eu fiquei com a imagem de eva com a cadeira erguida. eva com a faca erguida. a cadeira é a faca? não. a cadeira é a cadeira. o desejo dela é aquele ali, daquele tamanho, naquela imediatez. ela diz ao frank isso não é uma faca. e não é. é uma cadeira. mas ele completa que para pessoas ambiciosas como ela, aquilo ali é mais arma do que outra coisa (do que cadeira ou talher). ela sobrevive ali, sob o peso de seu abuso, sob o peso de sua ambição. ela grita baixo (é possível) o nome do marido, mas ele já se foi. calçou os sapatos e partiu.

então resta moira e corley na inação mais agitada do espetáculo. cinto de segurança all the time. todos que passam por moira vão ter que contê-la. moira quer se erguer, quer gritar, quer morrer. não que ela não soubesse. não que ela não fosse prever (a morte do filho). mas é só que agora virou coisa concreta. a repórter mexeu no corpo do filho dela. a repórter anunciou tudo e tudo diz respeito a algo tão íntimo, tão familiar, mas que agora está completamente avassalado.

o cinto de segurança em moira é o mesmo cinto que falta a kevin, quando ele está sobre a cadeira tremendo o íntimo e expressando o seu pavor, a sua ira, o seu ódio a tudo aquilo. kevin está puto (ainda bem que célia dorme). como nunca antes ele está pegando fogo. injustiça: eles não podem fazer isso com a gente. comigo. eles não podem. e o pior, kev, é que eles sempre podem. os pais podem tudo. infelizmente eles acham que podem. e vão arruinar o destino de tudo. a não ser que o destino arruine tudo antes do que viria.

kevin treme sobre a cadeira. ele treme a cadeira. sua ação inação acontece plena e não quer ser linda. é só para esquentar o corpo e começar a dar o texto. quer dizer, agitar o íntimo, a pele, a temperatura para cuspir as palavras com um ódio genuíno e legítimo. kevin tem razão. ele bola os planos mais absurdos para se convencer de que será possível fazer tudo voltar ao normal.

ele acredita nisso. ele tem que acreditar. ele se move para dentro de seu quarto. ele se retira do mundo um segundo para poder voltar ao mesmo, porém, mais fortalecido.

quando ele volta, porém, é tarde.

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quinta-feira, 10 de novembro de 2011

separação e cegueira

é o tom dos últimos atos. na verdade, a divisão deles não é assim pá e pronto, começou um novo ato e uma nova configuração de cena já se instala. as coisas tão mexidas e misturadas. uma cena do segundo antecipa algo do terceiro ato. as cadeiras se separam assim como as personagens.

paragens. uns numa ponta, outros na outra, um outro só. no canto. o centro da cena convida a todos e a todas, porém, para o desmontar-se. as repórteres entraram. tem personagem implorando pra sair. e sai.

o palco vai se esvaziando e o desamparo acontece pleno. que horrível tudo isso. beleza. é horrível mesmo. franklin pela primeira vez calça os sapatos e parte. parte mesmo. menos um. logo ele. partiu. as crianças congeladas frente ao televisor. as repórteres são mais família do que outra coisa. estão coladas. são invasivas e perniciosas.

joana bravo e carolina wellerson. eva segura a cadeira no alto. é o peso da sua faca. é o peso que nem ela consegue sustentar, coitada.

corley cria raíz sobre o túmulo de tomas. tomas perde, enfim, todo aquele movimento. não há vento, mas talvez exista um ventilador ali.

kevin perde o movimento também. a cabeça pesa e dói como nunca antes. o desejo de virar música começa a empalidecer o espírito. o consome.

o cara das rubricas fica sozinho. bem feito. ele merece. moira congela mesmo. vira estátua. mas é só para nos enganar. na hora precisa ela vai dar o bote e enfim, todos nós sabemos para onde a coisa vai.

o centro não é mais centro. porque ele atira para todos os lados. o centro virá o famoso furacão, dentro do qual e por conta do qual as coisas todas são obrigadas a bailar desespero.

o desenho disso tudo está aqui comigo. vamos juntos, montá-lo. juntos vamos vivê-lo.

ui. medo e delírio.

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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

chairs

A partir de imagens enviadas pelo cenógrafo, Leandro, seguem minhas sugestões para a cadeira de cada personagem. Uma mescla de formas mais contemporâneas com formas mais antigas.

O que acham?

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CORLEY

corley

EVA

eva

FRANKLIN

franklin

CÉLIA

célia

KEVIN

kevin

MOIRA

moira

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33 \\

30 de outubro, UNIRIO, 13h/18h.
Thaís, Andrêas, Laura, Adassa, Márcio, Dan, Virgínia, Gunnar e Diogo.

Comentários sobre o Ensaio + Passadão

tomas observa ao mesmo tempo em que segura a mãe.

ele respira e moira o intercepta.

ele dá um passo e moira o intercepta.

talvez o movimento dele seja para cima. ou seria para baixo?

ELES ALI NAS CADEIRAS [CINTO DE SEGURANÇA]

tomas anda com o peito adiante. é quase rarefeito (seja lá o que isso significa).

célia parece uma mulher entediada com o fato de ter virado mulher.

kevin está longe, distante, pensando sempre no futuro.

corley vencido.

moira na espreita.

franklin regusrgitando pequenas iras.

eva sentada a espera de um exame qualquer.

PASSADÃO 15H37

SINFONIA SONHO

FESTA CÉLIA

dan – atenção as falas da primeira cena.

kevin! de eva chamando atenção pode ser mais por causa do shopping center e menos pela bronca.

então pode tirar o enfeitinho… entrada mais imediata.

tomas é uma [escultura viva]

tempo da cena FESTA CÉLIA é mais ágil, as respostas são mais imediatas.

OS VIZINHOS

eles se olham, moira e tomas.

a mão de moira quase toca o cabelo de tomas.

VENTILADOR LIGADO?

atenção ao texto – fechar injúrias moira e corley (é mentira, estou grávida, é mentira…)

tomas chora enquanto moira fala do estar grávida, tomas é quase um móbile de berço

moira você precisa descansar é mais imediato

a cinza do cigarro de franklin ainda se produz, intacta e de pé

a mão de moira bate na cabeça de tomas? eles se encostam? tenho a sensação de que se ela esbarrar nele, nunca mais vai largá-lo por medo de perdê-lo novamente

franklin não precisa fumar o restinho do cigarro. franklin não é fumante, está apenas ocioso.

ótima posição de moira com as duas pernas sobre a cadeira. (que se desmanchou no exato instante em que escrevi isso)

texto de corley e frank é mais batidão. animado. divertido. jovial – tá pesado e não precisa – jogar a conversa fora, papo de maridos, de homens…

não acredito no puxa, que delícia de frank sobre o filho de corley

corley – assim que soube da gravidez, moira comprou mesmo o shopping? o que corley está querendo dizer? que ela foi ao shopping comprar brinquedos para o filho ou que a casa tá cheia de brinquedo (do filho sumido) ou que…?

kevin olha tomas. bastante. talvez ele tenha nojo. talvez inveja. kevin já sabe que um tal de tomas não virá mais a escola porque sumiu, fugiu, se mudou com sua família. quando é que kevin realiza tudo isso? quando ouve o nome de tomas?…

mamãe não vai chegar para o jantar…

tomas toca a barriga de moira. bizarro.

kevin, acrescentar “ais” _ ai, a minha cabeça tá doendo… ai, a célia tem razão…

o liquidificador de célia só começa depois que a rubrica termina com acende um abajur

O PRONUNCIAMENTO

célia acorda kevin.

o diálogo todo é muito mais ágil.

kevin confere se fez a irmã chorar. isso é bom.

não há tanto balançar de cabeça. entre os dois.

ótima cara de kevin ao ter o pé pisado por célia.

corley assiste a cena de célia e kevin, mas tem a atenção também movida para tomas.

eva está muito mais calma com a fala e isso é ótimo.

o diálogo entre eva e frank é também super mais ágil, flui, um fala e o outro devolve e vice-e-versa – não há tanto respirar entre as palavras de uma mesma fala.

eva dizer apenas “sinto falta de seus beijos”, com estas palavras

kevin estranha tomas se aproximando da mãe

célia observa kevin vendo tomas

o kevin pôs aquelas vitaminas… começa logo depois da rubrica, como fosse fofoca de célia

kevin reversão sensível em quase toda essa cena que antecede o pronunciamento do virar música.

ótimo, frank – silencia o choro de célia para que a cena continue

célia pode entrar logo com o que é mertáfora?

obrigado, pai, eu não sei o que seria de mim sem você > REVERSÃO SENSÍVEL AQUI!

franklin com as falas muito sonolentas os vizinhos estão comemorando que vão ter um filho…

meninos (corley e frank), deixem o diálogo acontecer, não o prendam, deixem as palavras sair e deixem também que elas levem vocês adiante

precisamos ir ao médico de corley – é uma decisão

não hesitar com o tapa, moira, já falamos sobre isso

eva – p.29 – e ao mesmo tempo diferentes? ao invés de completamente diferentes

SINFONIA SONHO

frank e eva falando sobre o jantar pode ser mais ágil também

eva pode super sofrer com a fala do mesmo assim eu gostaria muitíssimo de oferecer – efeito pêra caramelada

franklin resmunga inteiro, sem pausas para lasanha isso ou aquilo é inteiro

tomas abaixa e se ergue de novo (foi um balão que estourou). tomas responde fisicamente a tudo o que lhe acontece lá no céu? tomas está no céu durante estes minutos de peça? tomas ainda está consciente? quando isso acaba? ele morre ao bater no chão ou morre lá em cima?

as crianças voltam da aula de teatro – gosto do caminhar que é quase uma brincadeira

moira - se chama tomas ao invés de vai se chamar tomas (já se chama, não vai se chamar, é o tomas que sumiu)

tomas é movido para baixo e para cima com os balões, vertiginoso

eva, no jantar, pode ser minimamente mais ágil na explicação de suas teorias – é mais do mesmo!

frank, suas caras de reprovação no jantar são incríveis (pois sutis)

genial eva sentar e mirar corley (quase acho que eles vão se pegar!)

célia se senta de costas, também ótimo, assim como tomas, com a cabeça para o céu

MASSACRE LOCAL

o texto de corley foi bastante automático, cansado, ausente

tomas sopra os cabelos da mãe e faz música. tomas faz música, kevin. ele também sabe o que é isso do espírito da música.

ótimo o tom de célia – aquela barriga é falsa? eu sabia – sem grandes exaltações, mais certa do que surpresa – mulher!

respiração de tomas super aparente.

17h03 >>>

o nosso passadão durou uma hora e vinte e quatro minutos. conforme eu disse, não há preocupação quanto a isso. o importante é haver jogo. precisamos otimizar o jogo, não o tempo. isso será consequência. peguem essas considerações acima e aquelas já feitas ontem e vamos trabalhar sobre elas.

estudo do texto. estudo do texto. finjam que o dramaturgo não sou eu. tenham certa devoção ao texto. justamente para descobrirmos algo para além dele, para sairmos da superfície e para descobrirmos nossa intenção, nossa leitura dessa coisa toda.

muito trabalho adiante.

vamos juntos.

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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

sobre as personagens

bom, como não cessamos ainda a busca pelo tom de cada personagem, pela forma como cada personagem se manifesta, penso que pode ser útil escrever um pouco sobre cada um deles, na tentativa de me apropriar um pouco mais de quem eles são e de deixar ainda mais claro a vocês alguns lugares imprescindíveis para este jogo dramatúrgico.

corley andrêas

tentando manter os pés no chão. literalmente, pois o desejo de evaporar é gigantesco. o desejo de sumir e dar um ponto final ao desespero é imenso. mas (e há sempre um “mas”), ainda resta em corley o amor pela mulher, pela família, pela vida etc e tal. a questão é até quando é possível aguentar? o que estamos construindo, esse lugar do corley de sempre estar fazendo frente aos problemas, batendo de frente mesmo quando ele já sabe não existir solução, este lugar é ótimo. coloca ele em ação, o tempo todo, ou tentando segurar a mulher, ou tentando se segurar. corley é de fato muito altruísta. mas a situação na qual ele se encontra deturpa um pouco suas ações. ele tende a violência, ao aprisionamento, ao controle. ele mente não como quem quer mentir para enganar, ele mente para tentar se convencer de que a realidade não é esse absurdo que parece ser.

eva virgínia

cada vez mais nojenta. desculpe a franqueza, mas eva está no auge do equívoco. completamente ambiciosa, sem ficar sublinhando isso, ela age sempre movida pelo adiante. o que vou ganhar, o que vou conquistar. tenho a sensação de que eva não está muito no presente. ela só está no presente para planejar o amanhã. o futuro, o espaço e o tempo onde tudo será ainda melhor e maior para ela (e sua família). a escuta dela está com defeito, a vista está viciada. eva não vê as coisas sempre como se apresentam, ela vê as coisas como é preciso vê-las para seguir escrevendo a sua história. as crianças são as crianças, o marido é o marido. ela se coloca muito facilmente no pedestal. ela usa escadas. e isso é genuíno. não há problema. ela lutou por tudo isso e está colhendo os frutos, mas com uma voracidade tamanha que quase fere o redor. que quase mata a própria colheita. eva vai apanhar muito.

franklin dan

dificílimo, né? tudo bem. a questão do franklin é que ele está descobrindo não haver muitas questões. ou: descobre aos poucos que as questões são menos importantes. a vida nos impõe seus lugares. e ele tá vendo isso. ele tá sabendo disso. o pai morto. vencido por um câncer. o pai é seu exemplo de falência múltipla dos órgãos. não há para onde correr em determinados momentos. e franklin está percebendo isso, entre um cigarro e outro. mas, essa inevitabilidade não o reduz, não o rende. ele sela o encontro com essa certeza irrevogável. e essa certeza irrevogável é a morte. ele era meio criança. a morte do pai o inaugurou algum lugar assim absurdo. ele não sabia lidar com isso. mas ele segue de pé, vivo, sorrindo, falando, sonhando e percebendo que a vida é isso mesmo. acho que ao contrário de eva, franklin está surpreso por existir neste tempo, nestes segundos, neste momento. sua ânsia é a de consumir os segundos e neles sentir-se indo. franklin seria um filósofo depois disso tudo. passada a saúde do corpo, como cuidar da saúde espiritual? ele um dia talvez pense nisso.

célia adassa

criança. tranquila. terrível. oito e oitenta. e no meio disso um oceano de partituras. um oceano de tentativas. célia consome o tempo. ela anda nele. sobre ele. célia não tem um olho mas tem sinapses acontecendo entre os fios de cabelo. é material explosivo sem placa sinalizadora ou cerca de segurança. ela solta faísca e é cheia de farpas. é criança, gente. célia é certa sendo errada. ela é genuína porque se alguém não lhe disser que não faça, ela vai seguir fazendo. é exatamente isso que ela está apreendendo. a sensação de maturidade se locomove também dentro de limites. poder e não poder. ser e não ser. ela descobriu que há limites. e se diverte em transitar entre tais portas. sistema nervoso. célia é um sistema nervoso exposto. é pura resposta kinestética. é aluna da linguagem. está descobrindo o que a linguagem pode fazer neste agora. ela está maravilhada (mas só quem tem consciência disso somos nós, criadores). porque ela segue sem freio nem tino. o segundo para célia é o mundo inteiro com ela interagindo. ela é terrível. ela é ela.

kevin márcio

kevin sabe não pertencer aquilo que ele não deseja pertencer. kevin sabe como agradecer e sair a francesa. kevin tem vergonha, às vezes. sabe ser mala, sabe ser maldoso. tem uma cobaia. a irmã. kevin judia dela, mas tudo com carinho. não é que ele odeie, não é que ele desrespeite, mas é só que é legal. não é? célia nunca conseguiu montar nada com o lego quando brincava com o irmão. porque ele exigia dela que procurasse as peças que ele queria usar. e isso é genuíno. kevin mudou de cidade. ele está intranquilo. ele está tomado pela possibilidade de aparecer, de ser iluminado, de usar a própria voz e o próprio corpo para ser uma coisa inventada. ele gosta de inventar. histórias, situações, climas e jogos. e já domina melhor a linguagem. ele estuda a linguagem. kevin quer saber o que é metáfora. então ele vai, e sabe. pronto. não quer dizer ser certo ou errado. quer dizer ser. verbo intransitivo. eu sou. ponto. eu estou. ponto. eu. é uma criança, não podemos esquecer. tem suas manias, birras e faltas de noção. a questão é que ele está começando a saber disso. ele está começando a saber que se falar tal coisa talvez provoque outra. ele está testando a sua capacidade de ser gente grande, afinal, é o próximo passo. esse, de virar mocinho.

moira laura

moira não acredita no fato consumado. tá tudo escrito, explícito, desenhado registrado e decorado. mas sua força se move no sentido contrário. é como se o seu subtexto fosse o tempo inteiro não posso acreditar nisso porque se o fizer nem sei o que vai ser de mim. ela perdeu. ela está fodida. moira não tem para onde ir, está desamparada. o céu roubou seu filho. ou foi ela que o perdeu? será que foi o marido? não importa, importa apenas não acreditar. como se fazendo força para não acreditar, se tornasse possível reverter a situação. moira tenta. dissimula. ela sabe que é mentira. mas não custa tentar. não lhe sobrou outra alternativa a não ser fingir que o filho partido pudesse estar aqui de novo, pudesse ter se escondido e tudo não passasse de uma mera brincadeira. não há tempo de processamento. não há cura ou solução. não há delegacia médico bombeiro nem religião. a força dela é para não pegar fogo e evaporar. ela mente não porque é mentirosa, mas porque não é mesmo possível acreditar. a mentira é tranquila, ajuda, amortece, apazigua, desenlouquece. a mentira é a forma que ela encontrou para converter desespero em prece, sabe? é auto-punição. é crença que o amanhã será menos árido que o dia de hoje.

tomas gunnar

morto. enquanto tudo está acontecendo tomas vai morrendo. que horror. morrer em câmera lenta. pesava pouco com seus oito anos. peso suficientemente leve para ser erguido por oito balões gigantes cheios de hélio. balões caros e opacos. que os pais compraram para testar os preparativos para seu aniversário. tomas comemora a sua morte em grande estilo: rodeado de estrelas, de pássaros com bicos pontiagudos, perfurado por fome frio e medo. sem mãe nem pai. sem vela nem parabéns. tomas descobriu muito rápido que não era mais brincadeira. porque o pai virou formiga. a mãe virou formiga. a casa virou maquete escolar. o bairro engoliu sua tranquilidade e virou brinquedo. as ruas viraram linhas. as luzes dos postes viraram vagalumes. meu deus, ele deve ter pensado, eu cresci muito porque o mundo fez justamente o contrário. e tão logo voou perdeu o primeiro balão. restam agora – no início da peça – apenas sete. um para cada ano completado de sua vida. o oitavo balão voou porque tomas não chegará para a festa de seu aniversário. sete balões para sete dias de vôo. o corpo de tomas vai rachar no encontro firme com o solo.

se essas palavras não ajudam, paciência, buscaremos outras. mas seu intuito é apenas desbravar, aumentar, dinamitar. vamos fazer analogias e criar relações. tá tudo no texto, só falta escolhermos o que é de fato a expressão mais potente.

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terça-feira, 18 de outubro de 2011

14 \\

05 de outubro, Colégio Andrews, 19h/22h.
Thaís, Andrêas, Laura e Diogo

ensaio apenas com corley e moira.

assim como nos anteriores, entreguei um capítulo do livro O PENSAMENTO SELVAGEM, do Claude Lévi-Strauss, sobre bricolagem. discutimos sobre o título do espetáculo: sinfonia sonho. também conversamos sobre calendário, datas, prazos. informei a nossa data de estreia e marquei datas na agenda quando realizaria a entrega das cenas do texto (em três momentos).

sugeri uma improvisação dificílima. queria que eles criassem a situação imediatamente anterior a primeira cena do espetáculo. ou seja, eles deveriam estar presentes segundos após o filho ter sido levado por um balão. semanas depois eu descobriria se tratar de balões de gás hélio e não de um balão conforme acreditávamos. me preocupou bastante pedir essa improvisação porque desde o início ela me sugeria encrenca. como dar conta disso? os meninos deram.

laura abriu a porta e gritava com andrêas vai buscar nosso filho, batendo nele e ele completamente parado, sem saber como dar conta daquela exigência. a improvisação teve cerca de quarenta minutos, nos quais pouco foi dito, mas muito foi dito sem palavra, escorrendo pelos olhares e gestos. precisão versus imprecisão, um desespero lento consumindo os dois. batidas de cabeça de corley contra a parede. moira parada durante minutos a espera de um ruído para esbravejar seu horror. foi intenso. foi sério. ali descobrimos muito sobre os dois.

descobrimos essa agilidade de moira capaz de descongelar só com o olhar um iceberg inteiro. descobrimos como corley para além do afeto e amor sabe também ser violento e impositor. ficamos nesse entre onde a dor de perder um filho justifica ações que não se justificam. o tempo passa de fato em pouco tempo. o filho voou e não deu tempo de retroceder. não deu tempo de segurá-lo. ele se foi. era final de noite, ele partiu e acabou. muito silêncio. muita pausa. muita coisa, ao mesmo tempo, NADA.

excelente ponto de partida, que os meninos estão desbravando mais a cada ensaio.

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domingo, 9 de outubro de 2011

semana 2/7

CRONOGRAMA DE ENSAIOS

segunda_10.OUT_19h/22h_andrews
ausente: virgínia

andrêas + laura = CRIAÇÃO DO BLOCO 05
adassa + dan + márcio = CRIAÇÃO DO BLOCO 07

terça_11.OUT_19h/22h_andrews
ausentes: diogo e virgínia

andrêas + dan = CRIAÇÃO DO BLOCO 06
adassa + márcio = CRIAÇÃO DO BLOCO 09
laura = CRIAÇÃO DOS BLOCOS 01, 02 e 03

quarta_12.OUT_18h/22h_casa da laura
ausente: diogo

andrêas + laura = CRIAÇÃO DO BLOCO 05
adassa + dan + márcio + virgínia = CRIAÇÃO DO BLOCO 11

quinta_13.OUT_19h/22h_andrews

andrêas + laura = CRIAÇÃO DO BLOCO 14
adassa + dan + márcio = CRIAÇÃO DOS BLOCOS 01, 02 e 03

sexta_14.OUT_19h/22h_andrews
ausente: adassa

andrêas + laura = CRIAÇÃO DO BLOCO 14
dan + virgínia = CRIAÇÃO DO BLOCO 10
márcio = CRIAÇÃO DO BLOCO 08

sábado_15.OUT_19h50_estação sesc ipanema
convido todos vocês para assistirmos ao filme WE NEED TO TALK ABOUT KEVIN, no horário/cinema descrito acima (precisamos comprar com antecedência, eu creio).

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seguem abaixo indicações para a criação de cada um dos blocos previstos para esta segunda semana (atenção, não há todos os blocos, apenas os solicitados acima):

BLOCO 01 > NO CARRO

> cinto de segurança
> todos sentados
> frontalidade
> leitura das rubricas (LAURA)

BLOCO 02 > CURATIVO CÉLIA

> sentados (frontalidade): andrêas + laura + márcio
> de pé (livres no espaço): adassa + dan + virgínia
> leitura das rubricas (LAURA)

BLOCO 03 > KEVIN EMUDECE

> sentados (frontalidade): adassa + andrêas + dan + laura
> de pé (livres no espaço): márcio + virgínia
> leitura das rubricas (LAURA)

BLOCO 05 > NÃO MINTA

> sentados (frontalidade): adassa + márcio + virgínia
> de pé (livres no espaço): andrêas + dan + laura
> leitura das rubricas (DAN)

BLOCO 06 > PERDÃO PRAZER

> sentados (frontalidade): adassa + laura + márcio + virgínia
> de pé (livres no espaço): andrêas + dan
> leitura das rubricas (ANDRÊAS/DAN)

BLOCO 07 > AS MOCHILAS

> sentados (frontalidade): andrêas + laura + virgínia
> de pé (livres no espaço): adassa + dan + márcio
> leitura das rubricas (LAURA)

BLOCO 09 > MAIS MADURA

> sentados (frontalidade): andrêas + laura
> de pé (livres no espaço): adassa + dan + márcio + virgínia
> leitura das rubricas (LAURA)

BLOCO 11 > BOM DIA

> sentados (frontalidade): andrêas + laura
> de pé (livres no espaço): adassa + dan + márcio + virgínia
> leitura das rubricas (ANDRÊAS/LAURA)

BLOCO 14 > MENTIRA TOMAS

> sentados (frontalidade): adassa + dan + márcio + virgínia
> de pé (livres no espaço): andrêas + laura
> leitura das rubricas (DAN)

sábado, 8 de outubro de 2011

Corley fala sobre Tomas

1.

Um dia veio aflito e me pediu. Eu não vi absolutamente nenhum problema em dar-lhe uma. Afinal, já estava preocupado com a demora. Todos os outros, ou pelo menos a maioria, já haviam pedido e elas inclusive repousavam quebradas num canto qualquer da casa. Ao contrário do pequeno que me pedira no tempo de seu desejo, todos os outros já estavam na era da internet. Mas o tal em questão, não! Estava certo, na precisão de seu soletrar, queria porque queria uma "bic-icle-ta"!

2.

Quando ela chegou a primeira coisa que ele fez foi partir. Na velocidade em que conseguiu, vestido no pijama daquele amanhecer. Dali em diante, vivi noites fossem feito dias. Eu ali, acordado, pensando onde ele estaria. "Ele fugiu", eu repetia. Mas dessa vez não fora da cama para o berço. Quem perde um pequeno perde pelo braço e do braço para o mundo, foi num só passo.

3.

Eu envelheci. Não tanto a pele, nem a beleza. Envelheci por dentro, perdi em delicadeza. O tato foi ficando mais coberto. E sobre as mãos repousaram poeira do mundo, marcas das vãs tentativas de encontrá-lo. Amadureci. Toda manhã restava o café quente esperando. Mas ele não vinha, ele não veio. Os irmãos já ansiosos com o seu paradeiro. "Ele foi para longe?", um perguntava. O outro, mais distraído, dizia "de onde ele veio?". E eu, em apuros, contando a prole ali, ao meio.

4.

Se não morremos é porque estamos vivos. Morrer-se aos poucos ainda é viver. E nessa peleja de ser partido, um dia ouvi o barulho da bicicleta. Pude desenhá-la em meio ao vento para em seguida ouvir o estrépito acolhimento, que só as pedras da nossa rua aos nossos filhos davam. Desci o quintal correndo, o coração já na mão, caso fosse preciso dar-lhe ao meu pequeno.

5.

O rosto avermelhado. Dentro dele alguma força a se debater. Olhou-me sem graça, como tivesse feito coisa errada. E os filhos não sabem, mas os pais adoram suas coisas erradas. Os pais adoram essa culpa frustrada de não os ter educado direito; e mais um drama e sobe uma escada e veja se essa roupa é sua ou do seu irmão.

6.

Mas ele veio, enfim. Caído no chão, olhou primeiro a bicicleta suja e amassada. E como se nada tivesse acontecido, fez-me o segundo pedido: "tem como tirar a rodinha?". Olhou para mim. Eu duvidava sim, mas era desse excesso aqui dentro, não era do seu pedido. "Eu já sei andar sem rodinha. Eu caí por causa dela. Tira?".

7.

Eu não devia ensinar chantagens, mas era a rodinha em troca de um almoço e de um banho e abraço e o seu braço, face, nuca, pescoço. Filho sujo como estava mesmo assim eu bajulava. Correu meio mundo num segundo e eu ali, ao pé da escada. Subimos o quintal. Juntei-os todos e um deles gritou: "Coloca lá no blog que a gente já encontrou!". O outro saiu correndo e nisso, o pequeno se vendo numa tela de computador: "Sou eu?"

8.

Limpei seus machucados. Ele não teve paciência. Almoçou todo o prato que fiz e ainda ameaçou desobedecer, querendo mais do doce só por saliência. Penteei seus cabelos, limpei-lhe a face. Era meu filho voltado do mundo. Tinha nos olhos uma incompreensão que eu julguei ser absurdo. Tudo o que eu julgo absurdo é porque eu não sei compreender. Exceto os filhos meus, absurdamente conhecidos por essas mãos que os acenam um adeus invertido em meio a um vá reprimido.

Fonte: http://lendoarvoreseescrevendofilhos.blogspot.com/2008/03/eu-j-sei-andar-sem-rodinha.html

terça-feira, 6 de setembro de 2011

ROTEIRO GERAL PARA COMPOSIÇÃO A SER APRESENTADA SEXTA-FEIRA (09 DE SETEMBRO) ÀS 21h NA SALA VIANINHA


01. CÉLIA 04 + KEVIN 01
02. KEVIN 04
03. FRANKLIN 03 + EVA 03
04. MOIRA 03 + CORLEY 03
05. EVA 04 + FRANKLIN 04
06. CÉLIA 03 + CORLEY 04
07. MOIRA 04
08. KEVIN 03
09. DISCURSOS VERBAIS (todos) ARTICULADOS

Segue abaixo descrição dos pontos, para mim, determinantes de cada composição listada acima:

01. CÉLIA 04 (a brincadeira, a colagem de papéis, jogos, falas, discursos) + KEVIN 01 (o diálogo com cristina, a morte de cristina)

02. KEVIN 04 (o jogo entre célia e kevin, o parecer sobre os pais, a relação entre os irmãos)

03. FRANKLIN 03 (o descontentamento com a cidade, a coisa toda com a comida, o diálogo truncado com eva, alguma irritação mais contida e explícita nas palavras e não no corpo) + EVA 03 (a relação com o marido, o uso do marido para lidar com as exigências do trabalho, a metalinguagem do curso seminário palestra sobre boa relação familiar);

04. MOIRA 03 (o desespero na tentativa de estar grávida, de suprir a falta de tomas, o estar sozinha tramando tentativas) + CORLEY 03 (a surpresa de corley ao tentar tirar a esposa da fossa na qual se encontra, a sedução, o amor dos dois em crise pela dor da perda, o acaso do vestido que não cabe);

05. EVA 04 (a ação paralela de eva se sentir vencedora enquanto ao lado, no quarto ao lado, na mesma casa, o marido está definhando) + FRANKLIN 04 (a incompreensão ou talvez, a incapacidade de aceitar o câncer que engoliu o pai, o sentir-se menor e reduzido, o câncer que é a falta, que é a presença irrevogável da morte);

06. CÉLIA 03 (o auto-convencimento de que ser diferente é tranquilo, a coisa do tapa-olho, a aceitação do irmão daquela condição, a tentativa de se sentir tranquila sendo aquilo que se é e a aparição do vizinho) + CORLEY 04 (que atrai as crianças para um jogo, para um contato possível, para um amenizar da realidade pela relação leve lúdica e criativa);

07. MOIRA 04 (e o ato não-pensado ou desesperado ou ao mesmo tempo milimetricamente calculado de se aproximar do filho dos outros, kevin);

08. KEVIN 03 (o recolhimento, o seu mundo, o quarto, as impressões e a janela, o ter medo e o não ter, o menino vizinho que pede a ele que toque um piano);

09. DISCURSOS VERBAIS (todos) ARTICULADOS (um somatório indefinido do massacre na escola, das ações, dos pormenores, do filho que se foi num balão e do fim da composição geral, proporcionado pelo discurso verbal de Célia sobre o sentimento estranho e sem nome por conta da percepção de Célia sobre o irmão, Kevin).

>>

Esta composição deve começar com os seis sentados nas cadeiras, como no jogo CINTO DE SEGURANÇA. A combinação de duas composições formatará uma nova, resultante da soma das duas individuais. É preciso estar atento ao tempo e realizar escolhas, efetuar cortes e intencionar as durações. Não quer dizer colocar tudo. Quer dizer refletir e optar por escolhas que expressem essa sequência de acontecimentos, de estados, de ânimos e ritmos.

A duração mínima é de 20 minutos. A duração máxima é de 40 minutos.

Vocês tem os ensaios 09 \\ (quarta, 20h/22h, colégio andrews) e 10 \\ (quinta, 20h/22h, colégio andrews) para trabalharem juntos. Eu não estarei presente em nenhum destes. Nos vemos apenas no ensaio 11 \\ (sexta, 20h/22h, UFRJ – sala vianinha).

Neste ensaio (11 \\), apresentaremos a composição a orientadora Eleonora Fabião.

Divirtam-se.

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sábado, 3 de setembro de 2011

8 \\

30 de agosto, Colégio Andrews, 18h/22h
Diogo, Thaís, Andrêas, Adassa, Dan, Márcio, Laura e Virgínia

ANDAMENTO ESPAÇO
a forma nem sempre tem a ver com a batida. pode-se ter várias maneiras de andar em que o batimento é o mesmo;
é incrível ver os corpos parados esperando pelo andamento da música que começa lentamente e em fade in;
próxima etapa: descobrir maneiras distintas de marcar um mesmo andamento;

ALVO
como ocupar o espaço do outro e não um espaço próximo ao do outro?;
o jogo precisa restar com um “nicho” vazio, que pode ser preenchido a qualquer momento se quisermos;
dizer ao alvo o nome do alvo;
dizer ao alvo o seu nome próprio;
dizer ao alvo o nome de outro personagem (que não o seu, que não o do alvo);
de que maneira tornar o jogo possível? os atores não ousaram mudar o andamento para uma batida menos intenso (que permitiria que tivessem mais tempo para entenderem o próximo alvo);

PROPORÇÃO KINESTÉTICA
1 no cabelo: 4 andando
1 no cabelo: 1 na camisa: 3 andando
1 no cabelo: 1 na camisa: 1 na calça: 2 andando
1 no cabelo: 1 na camisa: 1 na calça: 1 no braço: 1 andando
que estratégias usar para deixar claro sua ação?
como não dar pistas falsas?

CINTO
moira rabo de cavalo alto;
eva cansada;
célia dispersa e em todos concentrada;
kevin olhando de lado, pés tortos;
célia é grossa com a mãe;
célia sibila coisas;
célia e kevin se divertem;
corley assiste tv;
kevin rói as unhas diante da tv;

NOTÍCIA DE JORNAL + INTERLOCUTOR + VP

CÉLIA >>> KEVIN (relação espacial)

célia - uma coisa: jornal. o globo. quinta-feira. eles não sabem escrever nenhuma palavra. só porque a palavra é russa.

kevin – você sabe russo?

célia – a primeira vez que ela aparece

samba orkut

samokutiaievi

é um nome russo. ele aparece algumas vezes, entendeu?

kevin – célia, eu não tô entendendo nada que ce tá falando.

célia não pode não ter acento, porque tem. sendo que no final da reportagem não dá pra saber o nome da pessoa. cosmonauta. astronauto.

tchau! (e sai)

KEVIN >>> EVA (repetição)

kevin apaga a luz sem querer, vem esfregando a mão na parede

kevin – que que é molécula, mãe?
eva – molécula é uma forma celular.
kevin – celular?
eva – não.
kevin – sabia que essa caixa que a gente trouxe tá cheia de poluente? cheia de poluição?
eva – folhinha moída, poeira das coisas, tem a poeira que pegou na estrada, mofo da roupa, tem coisa. pára. mãe, sabia que na roça pode ter mais poluente que na cidade. quando queima canaviaval. fuligem.

GESTO > entraentraentra…pulmão.

vc tá chata! SAI CHAMANDO POR CÉLIA.

EVA > FRANKLIN (resposta kinestética)

franklin - que foi, amor?
eva - vc viu a noticinha de jornal que tava aqui?
franklin – uma tirinha de papel
eva – eu recortei, eu ri, eu gostei, eu tô ficando louca, não foi você
franklin – tô dizendo
eva – eu tô ficando louca?
franklin – louca louca louca louca não!

FRANKLIN > MOIRA (duração)

franklin – tá frio, né? o que realmente mais me impressionou foi o tratamento que a imprensa deu.
moira – como é que a gente sabe desse negócio
franklin – eu tô rindo porque é engraçado, é trágico.
moira – eu tava com uma tosse. será que eu tô com esse negócio?
franklin – alguns casos de linfoma começam com tosse.

MOIRA > CORLEY (arquitetura)

pela portinhola, moira olha corley
moira (entrando) – oi. que foi? posso te fazer uma pergunta? você vai responder mesmo? posso? posso perguntar? mas só vale se você responder mesmo. se você quisesse muito mesmo, se você quisesse muito uma coisa, mesmo muito, o que que você seria capaz de fazer pra conseguir aquilo que você quer?
corley – não sei. responde.
moira – responde você.
corley – o máximo que eu puder. desde que ue não mate ninguém.
moira – eu tô te perguntando, eu li, no jornal, que tem um indiano, que resolveu fazer greve de fome, ele resolveu parar de comer pra conseguir que, era pra, pra acabar a corrupção no país dele
corley – bonito. um monte de gente passou fome pra conseguir
moira – ele diz inclusive na reportagem que ele é capaz de morrer. e ele só vai comer quando ele, sei lá, porque tem uma multidão, centenas de pessoas que estão paradas no lugar que ele tá, ele não come há dez dias
corley – mas por que você perguntou? eu passaria fome sim.
moira – pra quê?

silêncio.

moira - mentira não acredito. também não.

CORLEY > CÉLIA (gesto)

meu filho tá viajando.
pra onde?
gesto expressivo
tomas. 7.
27?
7.
que que você gosta de fazer pra se divertir?
gesto expressivo
eu gosto de brincar de mímica.
jogando o pêlo pra trás é pelo contrário
você precisa saber comparar as coisas.
e esse daqui é muito pelo contrário.
eu trabalho num lugar, trabalhava, que tinha muito assaltante
na delegacia?
no senado. adivinha.
num banco?
eu trabalho num lugar, trabalhava, a gente emmpresta dinheiro mas pede coisa em troca.
numa venda.
mais ou menos. é um banco, mas não é um banco. a gente empresta dinheiro
qual é o seu nome?
corley!
ah! corley?!
tchau! estridente!

FLUXO TEXTUAL + DEPOIMENTO + VP

CÉLIA

tem um quê de desafiadora. gesto. chora. nem sei. o que dizer. deus. imerso, kevin impressiona a irmã com o seu relato sobre virar música. ela mistura os assuntos. do professor mais bonito. do que sente. do que kevin sente. depois fala de como dormiu.

KEVIN

entra lento e desconfiado. tem um quê de auto-desafiador. repetição, talvez. cabeça que marca os movimentos. sublinhar de palavras. mãos ao longo do corpo. enfim. dormiu pesadamente.

EVA

lenta, olha a porta. a fecha com calma. eu gosto dessa voz mais grave. eu lembro. arquitetura. sons da sala ao lado, ou acima, tornam a coisa ainda mais interessante. acoada. rastejante.

FRANKLIN

mais ágil. fecha a porta de costas. duração. é disso que eu me lembro, desse dia. estático, no centro. gestos largos, para fora do corpo. coça o nariz. torna-se quase um suspeito ao falar que não se lembra da esposa, de ter apenas saído da escola com as crianças.

MOIRA

desejo nenhum pelo presente. queda no chão. riso. silêncio. dedos. mãos. gestos expressivos. mudança de plano. agilidade com que troca de um espaço sutil e evolui para um brusco. meu filho. repetição. dos gestos. não há dor escorrendo. tá concentrada. eu queria entender o que tava acontecendo de verdade. eu acho.

CORLEY

estático. mãos no centro do corpo, fechadas em si. silêncio, longas pausas, longa duração entre tudo. não me lembro mais, ele afirma. narra o acontecimento com total controle e calma. mas nos silêncios algo se esconde. como fazer esse algo escorrer para fora?

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