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segunda-feira, 26 de março de 2012

“Honestidade Radical”

O meu ingresso no curso, no primeiro semestre de 2006, foi sem dúvida alguma um momento dos mais especiais da minha vida. De fato houve um encontro muito sensível entre os alunos que compunham a turma e a própria instituição de ensino (incluindo, naturalmente, os professores). Foi somente no primeiro semestre de 2007 que tivemos uma primeira disciplina ministrada pela professora Eleonora Fabião. No seu curso, intitulado Cena Experimental Pós-Guerra, entramos em contato com diversas referências que se tornaram determinantes nos anos seguintes da graduação. Para mim, aquele curso revelou de maneira impecável a imensidão do universo no qual eu estava me lançando. Ao mesmo tempo, exigiu de mim um constante vasculhar-se para dar conta de validar as minhas impressões sobre o mundo e suas engrenagens. Eu estava no terceiro período quando comecei a intuir que fazer teatro talvez tivesse mais a ver com a vida do que com qualquer outra coisa. Que tinha mais a ver com corpo do que com imitação. Performance. Um turbilhão de coisas. Uma maravilha e um desespero: num enovelamento constante. Em 2008, dois novos cursos com Fabião me trouxeram de novo ao aqui e agora: Espetáculo: Ator III e Dramaturgias do Corpo. Em ambos, as reflexões e criações foram sempre fortemente rebatidas por sobre o corpo, por sobre a sensibilidade e expressividade nele contida. Nessa época, o famoso Constantin Stanislavski veio a fazer sentido, veio a causar arrepio. Também nesse ano, eu experimentava a possibilidade de multiplicar até o outro as coisas e sentimentos que mantia guardado em mim. Nada escapava de uma aguda reflexão sobre os porquês, sobre os motivos e as escolhas. Eu desbravei um pouco mais da palavra-enigma: dramaturgia. E tudo isso de maneira límpida e precisa. Precisão. Necessidade. E a maior força de todas, chamada honestidade radical.

Assim, ao convidar Fabião para ser a orientadora de direção do meu projeto de formatura, na verdade, eu queria apenas convidá-la a assumir, oficialmente, a função que ela desempenhou durante esse tempo todo. Foi quando Fabião se ausentou por alguns anos do Brasil (durante os anos de 2009 e 2010), que eu me percebi tentando me guiar da maneira como intuia que ela me guiaria. Eu passei a pensar, criticar e produzir dramaturgia. Em relação ao trabalho com atores, era sempre seus corpos que primeiro algo diziam. Um apuro visual, uma clareza irrevogável e intencional sobre o exercício da encenação. Um bom time de referências. Organização e estudo. Disciplina. Algumas dessas coisas, em sua maioria, ganharam consistência e importância depois que cursei as tais disciplinas citadas acima.

Movido por algumas dessas preocupações, comecei o ano de 2011 pensando em como guiar o elenco. Como estimular sua pesquisa e dinamitar sua dedicação? São tarefas que competem a mim. O meu trabalho como diretor é trabalho de pura sedução. Sem maldades. Sem cinismo. Mas com devoção e jogo. Com jogo e movimento, eu preciso guiar meus atores para que ajam, indiretamente, na inteireza de sua criação. Mas não basta se exigir resultados. É preciso conhecer cada um dos corpos, para não solicitar aquilo que não se pode ter. É um jogo sensível e de extrema confiança. Em janeiro, enviei a cada um dos atores um e-mail intitulado “desejo”. Neste, eu pedia que cada um me respondesse, com toda sinceridade, quais eram os seus desejos mais intensos. Aquela vontade que, como nenhuma outra, era capaz de consumí-los. Em alguns dias eu recebi suas respostas e cruzando-as fui, aos poucos, percebendo que o nosso espetáculo precisaria, minimamente, girar em torno de tais desejos. Ou nem isso. Eu juntei suas respostas ciente de que, assim que possível, eu as colocaria em jogo para que a nossa obra desde o início fosse catalisada por nossa própria vida e pelo corpo – nosso – de cada um.

Era o segundo dia do ano 2011 quando também enviei a professora Eleonora Fabião um e-mail, convidando-a para ser a orientadora de direção do meu projeto de formatura. Neste e-mail, eu dizia aquilo que durante muito tempo foi o projeto: um espetáculo a ser criado a partir do capítulo inicial da obra O Anti-Édipo. Em poucos dias, Fabião já havia me respondido, sugerindo uma reunião para meados de março, quando as atividades acadêmicas já teriam começado. Era isso. O convite havia sido feito. Mas, para mim, era nítida a certeza de que seria necessário, até o primeiro encontro, estudar bastante visando clarear e aprofundar ainda mais os meus desejos e intuições quanto ao projeto.

É difícil escrever sobre esta orientação de direção sem soar meloso ou desmedidamente apaixonado. Não sem querer intitulei este trecho do memorial de Honestidade radical, porque é bem isso. O encontro com Eleonora me formou um diretor teatral. Não tivemos dúvidas nem certezas, tivemos ação e diálogo mútuo, linha cruzada e fala simultânea (como ela mesma comentou durante a banca de avaliação de Sinfonia Sonho). Eleonora, bem como as professoras orientadoras de Esperando Godot, Gabriela Lírio e Livia Flores, esteve atenta durante todo o tempo aos meus anseios criativos. Não quer dizer que não tenha me oferecido uma série de contrapontos e questionamentos. Sempre que necessário ela o fez. Quer dizer apenas que foi parceira. Essa é a palavra chave de sua postura enquanto orientadora de direção: parceria. Sinfonia Sonho é tão de Fabião quanto de Liberano. Ela também assina a dramaturgia. Dela também é a encenação, bem como o detalhe quase imperceptível do corte da barra do vestido de uma das personagens. Falo da preocupação com minúcias e grandes questões. Registro aqui a importância que foi ouvir dela que para alguns assuntos e questões, era ela quem estava ali para resolver. Quer dizer: a essa postura eu hoje retorno pensando se terei condição de seguir me orientando depois dessa orientação. Afinal, se estou numa escola de direção e o professor orientador visa me instruir no meu ofício, é de fato determinante pensar neste depois.

Portanto, gasto aqui neste memorial o caminho percorrido e escrevo sobre ele para clarear a potência do que até então foi-me plena satisfação. Tento traduzir em outras falas a força do olhar, do toque e da palavra. Meu arsenal como profissional tende a tudo isso, portanto ouso levar comigo a exigência de não se furtar de certas questões; o olhar atento e generoso ao outro que me alimenta; a obstinação da busca; o valor dos sonhos; o saber abandonar; o saber deter; e, sobretudo, a elegância feroz de alguma irredutibilidade. Em um dado momento, achei que Eleonora sabia exatamente o que era o espetáculo que eu ainda não tinha a consciência. A ela, sou grato pela espera. Por ter me permitido buscar “sozinho” quais caminhos tomar, quais ações escrever e quais palavras usar.

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Capítulo 5 do Memorial do Espetáculo, entregue como conclusão da disciplina Projeto Experimental em Teatro.

quarta-feira, 14 de março de 2012

“Projeto de encenação”

Nesse percurso acadêmico, o que diferencia enormemente a progressão criativa dos exercícios de encenação montados, é o momento em que se realiza a disciplina Projeto de Encenação. Geralmente cursada no semestre anterior a montagem do Projeto Experimental em Teatro, nesta disciplina o aluno é orientado na criação de um projeto de encenação que, na maioria dos casos, será o seu projeto de formatura. De alguma forma, em um dado momento da pesquisa é muito fácil se perder, em virtude das inúmeras referências e ideias. Como a presença do orientador de direção surge apenas após a entrega dos projetos e a definição de orientação, durante bom tempo o aluno está sozinho, dentro da própria dinâmica criada por si próprio. Mas nesta última montagem, estar inscrito – um semestre antes – na disciplina Projeto tornou tudo mais proveitoso. A periodicidade – uma aula por semana – me fez cumprir tarefas curriculares ao mesmo tempo em que estudei o meu projeto constantemente, ganhando com isso maior entendimento e domínio sobre as, até então chamadas, intuições.

Eu cursei a disciplina Projeto de Encenação no primeiro semestre de 2011 com a professora Gabriela Lírio, que havia sido a orientadora de direção de Esperando Godot. Tenho a sensação de que tudo passou rápido demais até o momento em que me vi esboçando objetivos, justificativas e propostas de encenação. O diálogo com Lírio partia sempre de uma busca por algum contorno mais preciso, sobretudo em se tratando dos projetos que flertavam mais com filosofia do que com dramaturgia – como o meu. Travei um grande e proveitoso embate em sala de aula porque costumava dizer que estava naquele curso para inventar “mentiras”. Mentiras que eu precisava não somente criar, mas também acreditar. Era brincando de dizer aquilo que seria a peça, com a maior precisão que me fosse possível, que eu começava a vislumbrar lugares de fato interessantes para a criação. Eu dizia mentira porque não havia nada de antemão. Alguns lugares – como a própria encenação, eu imaginava – viriam de forma muito natural, seriam desdobrados e não inventados. Assim, alguns esboços durante a aula de Projeto foram pura invenção, pura “mentira”, que me fizeram ganhar o projeto em inúmeros sentidos.

Nesta disciplina, seguindo as solicitações da professora, busquei terminar o semestre não somente com um projeto que fosse expressão dos meus interesses, mas sobretudo com um bom desenho da dramaturgia (que viria a ser criada). Mesmo que as ideias postas no papel viessem a ser abandonadas, esse próprio movimento de abandono só aconteceria caso houvesse um desenho anterior que pudesse ser abandonado em processo. Cursar a disciplina foi um ato propulsor na criação de Sinfonia Sonho. Ainda que muitas ideias tenham sido potencialmente distintas, hoje percebo que a peça criada é fruto direto dos anseios descritos no projeto. A seguir, destaco algumas anotações feitas em meu computador durante as aulas:

Projeto: Quais questões me interessam em As Máquinas Desejantes? Que recorte é esse? Que desejo é esse?

Apresentação ou Aquilo que solicita atenção em mim.

Muitas perguntas. Gabi me disse que eu precico aprender a desconfiar das minhas intuições.

Estou acumulando muitos rascunhos de projeto. Seriam muitas peças distintas querendo nascer?

Objetivos – Justificativa (como relevância acadêmica)

Não se assentar tanto sobre Deleuze e Guattari para não ter que cair profundamente em sua obra (?).

Metodologia: o autor do projeto gesticula e gesticula como se pudesse traduzir seu íntimo por meio de idas e voltas das mãos tensas cortando o ar.

Cronograma de Atividades (elas já começaram)

Referências Visuais: Alejandro Almanza Pereda + Banks Violette + Chema Madoz + Kilian Rüthemann + Sebastian Wickeroth

Referências Filmográficas: ELEFANTE (Gus van Sant) + FELICIDADE (Todd Solondz) + FESTA DE FAMÍLIA (Thomas Vintenberg) + OS IDIOTAS (Lars von Trier)

Why referências?

Importância das referências para nivelar um chão sobre o qual construiremos algo ou a partir do qual se dará alguma criação. Novas referências sugeridas por parte da Gabi.

É chegado o momento da formatura. E ao contrário do previsto, eis que o aluno a redigir este projeto sente-se imensamente despreparado para tal ato.

Uma intuição amorfa que cresceu dentro e virou peste. Assim, com certo tempo, é o artista também algum lampejo de sua obra? Seria a sua obra também certa confissão de seu íntimo lacrado e febril?

Seria, então, esta peça de formatura a expressão nua e crua de sua própria criação? É cedo para dizer. Porque este projeto nasce e morre a cada dia. E isso já faz meses. Este projeto é pura poesia que corre o risco de passar despercebida. É jóia rara carente por lapidação. Matéria bruta e improdutiva clamando por tradução. Monstro alado a procura de cavaleiro capaz de domá-lo. Ou seja: tem tudo para dar errado.

Logo adiante, será preciso esclarecer exatamente o que possa ser esta encenação. E mesmo que para isso ele precise mentir, a fim de conseguir sua aprovação, caro leitor, ele o fará. Porque ao mentir para ti, ele cria também para si a ilusão que alimentará todo o seu sonho, até que este possa, enfim, vir a ter contigo.

Frente a exigência de escrever o projeto, me incomodou bastante ter que pensar em “invenção”. Sempre busquei identificar na minha própria vida e trajetória aquilo que pudesse justificar uma criação artística. Assim, num dado momento, foi inevitável não buscar na minha própria vida algum contraponto real para as invenções da dramaturgia. Isso aconteceu quando me percebi vasculhando a minha produção poética (registrada desde 2008 no blog Lendo Árvores e Escrevendo Filhos[1]). Tal busca nasceu por conta de uma leitura mais clara que comecei a conquistar sobre O Anti-Édipo. Era como se compreendendo as questões abordadas pelos dois autores, eu pudesse buscar sua ressonância sobre fatos reais, sobre a vida. Segue um trecho da introdução do projeto:

Escrita sob o fervor dos eventos ocorridos em maio de 1968 na França e lançada em 1972, tal obra visa liberar a potência revolucionária do desejo ao problematizar a forma pela qual a psiquiatria e a psicanálise o enquadra. O mito de Édipo, por sua vez, apenas evidencia como é possível atravancar o fluxo produtivo do inconsciente quando se tenta remetê-lo unicamente a uma lógica familiar: toda a produção desejante é então esmagada, submetida às imagens familiares, (...). O inconsciente desconhece as pessoas. Os objetos parciais não são representantes das personagens familiares, nem suportes de relações familiares (...).

Foi a partir de tais reflexões que eu comecei a me indagar sobre contra quais parâmetros meus desejos se rebatiam. Por meio de discussões com os atores e estudos sobre a produção poética realizada por mim nos últimos anos, a poesia começou a se anunciar como uma potente ferramenta capaz de efetuar essa liberação do desejo, tal como defendida pelos autores de O ANTI-ÉDIPO. Será que o registro do desejo passa pelos termos edipianos? (...) Não será o Édipo uma experiência ou uma consequência da reprodução social, enquanto esta pretende domesticar uma matéria e uma forma genealógicas, que lhe escapa completamente?

Ao ser referir à estrutura familiar edipiana, os autores sugerem uma formação triangular estabelecida pelos vértices pai, mãe e filho (eu). É imprescindível reconhecer que tal figuração da família, nos dias de hoje, já se encontra profundamente abalada. No entanto, foi por dialogar sobre a asfixia dessa primeira estrutura, que remete o filho obrigatoriamente a seus pais, que eu pude vislumbrar maneiras outras para revigorar tais relações (unicamente familiares, a princípio).

Assim, a dramaturgia deste projeto visa somar um novo vértice a essa estrutura triangular da família. Por meio deste quarto vértice, acredita-se, a estrutura edipiana que lacra dentro de si tudo aquilo que também almeja abrir-se para um fora encontra um ponto de fuga para a saída e o distanciamento, encontra possibilidades outras para reinvenção e existência. Do triângulo evolui-se, então, a uma pirâmide triangular, um corpo tridimensional com quatro faces triangulares. Este último ponto, inventado, passa a ser justamente o vértice da imaginação, do sonho, da poesia e do movimento. Por meio dele, os desejos são convidados a bailar livres dentro do espaço da casa.

Foi essa a contribuição maior da obra escolhida como referência principal do projeto. De alguma forma, encontrando uma nova estrutura para o triângulo edipiano, me pareceu também possível desdobrar por meio da poesia alguns desenhos para uma encenação. É neste ponto que o meu blog se revelou como “contraponto” a criação, no sentido de que nele eu escrevo a minha vida e nisso a refaço, especulando possibilidades e reinventando suas tramas. O título do blog desenha essa ação: Lendo Árvores e Escrevendo Filhos como uma analogia entre artista e obra que se prolonga também para a relação pai e filho, explodindo outras acepções para a criação a partir das quais vida e arte se entrecruzam e produzem possibilidades inúmeras de significação. É pela poesia, sem dúvida alguma, que a minha existência se oxigena e refaz. É pela poesia que a vida continua. Foi essa a percepção explodida com O Anti-Édipo: a de que a falta suprema diz respeito a incapacidade do jogo com a própria existência.

Por fim, foi cursando Projeto que eu cheguei a uma pequena lista dos temas que vinham se mostrando recorrentes nas referências e discussões. São eles: criação, desejo, família, tragicidade e metalinguagem. Seria a partir destes temas que Sinfonia Sonho nasceria.


[1] http://lendoarvoreseescrevendofilhos.blogspot.com

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Capítulo 4 do Memorial do Espetáculo, entregue como conclusão da disciplina Projeto Experimental em Teatro.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

“A necessidade da ficção”

O início do processo foi apenas leitura, levantamento e abandono de referências. Cuidei de ler repetidas vezes o capítulo eleito referência inaugural. Trata-se de um texto filosófico repleto de referências externas as quais, em sua maioria, eu não conhecia. De setembro a dezembro de 2010, As Máquinas Desejantes foi comigo para todos os lados. A leitura se repetia mais pela minha incompreensão do que por outro motivo. Como é possível essa obra me prender nela mesma se eu nem sequer a compreendo? Eu me fazia essa pergunta, porque fazia tempo que eu não tinha essa relação com outra obra, qualquer que fosse. E então eu segui lendo e me lançando por sobre todas as referências que O Anti-Édipo me apresentava. Destas, destaco aquelas que foram determinantes: a obra O Pensamento Selvagem, de Claude Levi-Strauss e a obra Memórias de um doente dos nervos, de Daniel Paul Schreber. Com a obra de Levi-Strauss, o conceito de bricolagem se apresentou e, de imediato, se mostrou determinante ao processo. Naquele momento, bricolagem se resumia ao jogo de colar partes distintas e não necessariamente combinantes. Pensar este conceito me estimulava a seguir juntando elementos que, mesmo distintos, me capturavam a atenção. Da mesma forma eu juntei este conceito ao processo e acreditei que ele pudesse revelar sua serventia no decorrer da criação. Já pela obra de Schreber, Deleuze e Guattari evidenciam um caso agudo de esquizofrenia, tema presente no subtítulo de O Anti-Édipo – Capitalismo e Esquizofrenia 1. Schreber foi a pessoa/personagem a partir da qual os dois filósofos desenharam a lógica do homem como alguém naturalmente esquizofrênico, ou seja, como aquele que está em profunda relação com tudo ao seu redor.

Em outubro de 2010 eu criei o blog do espetáculo[1], visando juntar nele tais referências e as primeiras reflexões a partir destes encontros. Ao mesmo tempo em que lia tais livros, estive também atento aos jornais, recortando notícias que me parecessem interessantes e prenhes de dramaturgia. Era dezembro de 2010 quando numa outra livraria, me percebi segurando livros muito pesados (em todos os sentidos). Tinha uma obra de Freud, outra de Carl Gustav Jung, outra de Friedrich Nietzsche e, por último, outro livro de Deleuze. Lembro-me que apoiei os livros numa bancada e ali os abandonei, exigindo-me comprar um romance, para ler outra coisa que não mais conceitos e filosofia. Foi então que me lembrei da capa de um livro que eu sequer lembrava o título. Revirando prateleiras encontrei perdido um único exemplar do romance Precisamos falar sobre o Kevin, da escritora norte-americana Lionel Shriver. A capa, gravada em minha memória, apresenta a imagem de uma criança de pé numa estrada de terra, vestida numa calça jeans com camisa de manga comprida e tênis. Por sobre o seu rosto, porém, ao invés de um gesto infantil há a face de um lobo. Essa imagem, durante anos, me instigou sem que eu nem soubesse do que se tratava o romance.

Precisamos falar sobre o Kevin é um romance que reúne cartas de uma mãe, Eva, a seu marido, Franklin. Eva é mãe de Kevin, mais velho e Célia, nascida depois. Um pouco antes de completar 16 anos, Kevin comete um massacre em sua escola, assassinando cerca de duas dezenas de pessoas, entre amigos de classe, funcionários da escola e professores. O romance parte da seguinte premissa: é possível odiar o próprio filho? Num misto de fatos reais e ficção, Shriver traz a tona temas e questões que, tão logo eu li, rapidamente soube que não teria mais como deles me ausentar. Comprei o livro e junto ao O Anti-Édipo passei o fim de ano entre uma obra e outra. E eis que o tal romance rebateu durante todo o momento aquilo que eu vinha lendo na obra de Deleuze e Guattari. Era como se o romance, por inteiro, fosse um exemplo claro dos conceitos criados pelos dois outros autores (sobretudo “máquinas desejantes” e “corpo sem órgãos”).

Ainda era dezembro e eu já me percebendo ansioso para encontrar alguma dramaturgia na qual aportar. As ideias se multiplicavam dia após dia e no blog eu registrava o nascimento e a morte de inúmeras certezas. Em uma semana, antes mesmo do fim do ano, eu já havia convertido todo o romance em dramaturgia. Foi um ótimo exercício de escrita: subtraí algumas tramas, mesclei personagens, fiz um grande corte e propûs novas costuras. No papel, eu já conseguia vislumbrar uma sequência muito interessante de estados e intensidades pelas quais em breve eu planejava me lançar. Ainda no papel, um jogo a ser jogado com bons atores ia se discernindo. Mas, eu sabia, era necessário ter bons atores. Sem eles não daria para brincar aquele tipo de brincadeira. Por isso, antes mesmo do ano acabar, eu já havia convidado cinco atores. Eu dizia apenas que estava em busca do que seria, mas que partiria de uma obra de Félix Guattari e Gilles Deleuze. Em todos os convites feitos, era claro um desejo mútuo de compartilhar o ofício teatral.

Muito tempo depois eu parei para refletir que havia convidado um elenco sem saber qual seria a peça. Não que eu não soubesse, mas o que estava se anuncia era uma espécie de inversão do processo. Geralmente se escolhe uma obra para, em seguida, escolher os atores para encená-la. Com Sinfonia Sonho, primeiro vieram os atores. Conscientemente ou não, hoje posso dizer que desde sempre esteve em jogo uma tentativa tremenda para resignificar os lugares de direção e atuação. Pareceu-me extremamente necessário retirar da figura do diretor a ciência de todos os fatos, bem como tirar o ator da função de quem apenas aguarda paciente pelo desenho preciso de sua ação. Essa aposta – sem nome – seria um dos pilares da criação.

Terminado o ano de 2010, eu havia realizado inúmeras leituras do capítulo As Máquinas Desejantes, havia feito uma adaptação dramatúrgica do romance Precisamos falar sobre o Kevin, convidado um elenco composto por dois atores e três atrizes e criado um blog, no qual a postagem de referências e reflexões foram se tornando exercícios diários de escrita e criação. Eu havia decidido que contaria uma história. Tal história o romance contemplava. Eu acreditando, pela primeira vez, que talvez pudesse ser bom ir ao teatro para acompanhar alguma história ser contada. Para além da forma, para além da crise do conteúdo e da linguagem, eu decidi que era necessário – dentro da minha trajetória acadêmica – narrar um acontecimento dentro do qual as personagens espelhassem a vida. Esta seria, de fato, a minha tal parcela “clássica”. Mas, a encenação seria provavelmente um filtro que transtornaria a fidelidade deste espelho. Se viria a distorcer ou aumentar ou intensificar os traços, não me importou saber nem dizer. Ainda não era o momento para isso. Neste ponto do processo, me lembro, a minha grande questão era transitar entre paciência e ansiedade, compreendendo ao mesmo tempo em que aceitando que o processo, por vezes, teria um tempo muito próprio. E que caberia a mim entender seu movimento para decidir qual seria o momento mais apropriado para agir.

 
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Capítulo 3 do Memorial do Espetáculo, entregue como conclusão da disciplina Projeto Experimental em Teatro.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

“Células tumorais expostas à ‘Quinta Sinfonia’, de Beethoven, perderam tamanho ou morreram”

RIO - Mesmo quem não costuma escutar música clássica já ouviu, numerosas vezes, o primeiro movimento da "Quinta Sinfonia" de Ludwig van Beethoven. O "pam-pam-pam-pam" que abre uma das mais famosas composições da História, descobriu-se agora, seria capaz de matar células tumorais - em testes de laboratório. Uma pesquisa do Programa de Oncobiologia da UFRJ expôs uma cultura de células MCF-7, ligadas ao câncer de mama, à meia hora da obra. Um em cada cinco delas morreu, numa experiência que abre um nova frente contra a doença, por meio de timbres e frequências.

A estratégia, que parece estranha à primeira vista, busca encontrar formas mais eficientes e menos tóxicas de combater o câncer: em vez de radioterapia, um dia seria possível pensar no uso de frequências sonoras. O estudo inovou ao usar a musicoterapia fora do tratamento de distúrbios emocionais.

- Esta terapia costuma ser adotada em doenças ligadas a problemas psicológicos, situações que envolvam um componente emocional. Mostramos que, além disso, a música produz um efeito direto sobre as células do nosso organismo - ressalta Márcia Capella, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, coordenadora do estudo.

Clique aqui para ouvir a Quinta Sinfonia

Como as MCF-7 duplicam-se a cada 30 horas, Márcia esperou dois dias entre a sessão musical e o teste dos seus efeitos. Neste prazo, 20% da amostragem morreu. Entre as células sobreviventes, muitas perderam tamanho e granulosidade.

O resultado da pesquisa é enigmático até mesmo para Márcia. A composição "Atmosphères", do húngaro György Ligeti, provocou efeitos semelhantes àqueles registrados com Beethoven. Mas a "Sonata para 2 pianos em ré maior", de Wolfgang Amadeus Mozart, uma das mais populares em musicoterapia, não teve efeito.

- Foi estranho, porque esta sonata provoca algo conhecido como o "efeito Mozart", um aumento temporário do raciocínio espaço-temporal - pondera a pesquisadora. - Mas ficamos felizes com o resultado. Acreditávamos que as sinfonias provocariam apenas alterações metabólicas, não a morte de células cancerígenas.

"Atmosphères", diferentemente da "Quinta Sinfonia", é uma composição contemporânea, caracterizada pela ausência de uma linha melódica. Por que, então, duas músicas tão diferentes provocaram o mesmo efeito?

Aliada a uma equipe que inclui um professor da Escola de Música Villa-Lobos, Márcia, agora, procura esta resposta dividindo as músicas em partes. Pode ser que o efeito tenha vindo não do conjunto da obra, mas especificamente de um ritmo, um timbre ou intensidade.

Em abril, exposição a samba e funk

Quando conseguir identificar o que matou as células, o passo seguinte será a construção de uma sequência sonora especial para o tratamento de tumores. O caminho até esta melodia passará por outros gêneros musicais. A partir do mês que vem, os pesquisadores testarão o efeito do samba e do funk sobre as células tumorais.

- Ainda não sabemos que música e qual compositor vamos usar. A quantidade de combinações sonoras que podemos estudar é imensa - diz a pesquisadora.

Outra via de pesquisa é investigar se as sinfonias provocaram outro tipo de efeito no organismo. Por enquanto, apenas células renais e tumorais foram expostas à música. Só no segundo grupo foi registrada alguma alteração.

A pesquisa também possibilitou uma conclusão alheia às culturas de células. Como ficou provado que o efeito das músicas extrapola o componente emocional, é possível que haja uma diferença entre ouví-la com som ambiente ou fone de ouvido.

- Os resultados parciais sugerem que, com o fone de ouvido, estamos nos beneficiando dos efeitos emocionais e desprezando as consequências diretas, como estas observadas com o experimento - revela Márcia.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/ciencia/mat/2011/03/29/celulas-tumorais-expostas-quinta-sinfonia-de-beethoven-perderam-tamanho-ou-morreram-924114082.asp#ixzz1blwOxpvH

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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

distanciamento

estou pensando em brecht. não que eu saiba de alguma coisa. sei apenas do que ele cavou em mim. sei da minha compreensão acerca de alguma fagulha de seu universo. penso em distanciamento. penso em não iludir, mas te fazer cair dentro por via outra, mais essencial, mais especial. afinal, é sabido que estamos fazendo uma peça. logo, o que pode haver de saldo maior a partir desta certeza? o que gostaríamos que você soubesse mas que é preciso decifrar?

quero dizer que a história ali sendo encenada não interessa exceto por aquilo que ela pode fazer brotar aqui em nós que a assistimos. é uma sensação quase inédita essa. eu aqui confundindo os diálogos e me vendo sentado ante aos atores. eu pensando como posso fazer para receber tudo aquilo como se fosse a primeira vez. eu me esforçando como nunca antes para ser espectador, de profissão.

as referências todas morreram. o que estamos construindo vem por pernas próprias. bem, pode ser que sejam semelhantes ao concreto que dá solidez ao mundo, mas são pernas autônomas e que respiram por si só. eu aqui escrevendo hipérboles quando dentro de mim uma hipérbole maior me consome. a forma, meu deus, a forma. ela está gritando, ela está dizendo e eu esperando?! como pode?

ponto parágrafo.

eu preciso escrever a cena massacre local. creio que nela reside o epicentro disso que me angustia. esta cena me faz estar frente a frente com aquilo que me aterroriza. com tudo o que me endoidece e machuca. tenho a sensação que tudo foi escrito para que se chegasse a este momento. imagina, cara, o seu filho sendo alvejado por um qualquer. imagina a sua criança, de banho tomado, cabelo penteado, indo feliz para mais um dia de aula e simplesmente ela não voltar. não pode. o mundo tá muito errado. alguém precisa falar disso.

eu não sei se sou eu quem deve falar. mas sem dúvida estarei tentando. é preciso. é menos mensagem e mais necessidade. é abrir o corpo sobre o jornal de cada dia e ver em qual manchete ele cola. sobre quais corpos ele se enrijece e depois chora. eu não sei. eu estou procurando algum distanciamento para colar sua atenção nesta coisa. pra colar sua dispersão na minha.

distanciamento para ver melhor, é? então tenta colar aqui. o que será que veremos? que o sangue escorre invisível e incolor.

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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

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23 de agosto, Colégio Andrews, 19h/22h
Diogo, Thaís, Márcio, Adassa, Virgínia, Andrêas, Laura, Dan e Isadhora

Apresentação de seminários a partir do tema: COMO VIRAR MÚSICA.

Foi criada uma unidade, UPP - UNIDADE PRÓ-POSSIBILIDADE (de 0 a 9) que indicaria o grau de possibilidade das hipóteses apresentadas pelos palestrantes. Ao término de cada palestra, cada um dos presentes escrevia no papel a UPP do palestrante. Esta Unidade indicaria se a proposta apresentada teria um maior ou menor grau de efetivação prática.

Seguem anotações realizadas durante a apresentação de cada um dos palestrantes:

19h32/19h39 > LAURA NIELSEN
Virar música é o primeiro orgasmo de Kevin, primeira experiência muita intensa onde ele conseguiria um prazer intenso, máximo. Virar música: algo extraordinário, numa intensidade muito grande. Descoberta da sexualidade;
Virar música seria morrer, morte, outra dimensão, outro mundo;
Virar música é escapar da realidade do cotidiano. O que provocaria esse surto (poderia ser uma droga, algo de ordem externa, um trauma que emocionalmente transtorna a pessoa e a leva) poderia ser algo capaz de tirá-lo de tirar de uma realidade e lançá-la em outra. Alucinação. Mundo criado. Outro mundo;
Virar música seria algo como, inspirado por Tomas, ter liberdade. Ele então entraria dentro de um balão e voaria. Na cabeça de Kevin, seria se libertar e voar.
A opção defendida não é nenhuma das outras. Virar música, para Laura, diz respeito a se transformar num artista e se sentir capaz de criar uma obra de arte, tendo um prazer imenso nessa criação.
A ideia é que ele é um personagem muito apaixonado pela música. A coisa que mais atrai ele seria a música, a coisa que mais atinge a sensibilidade dele. Ao realmente conseguir fazer música ele consegue se sentir tão identificado com a obra que ele cria, que por isso mesmo ele diz que tá virando música, sua própria obra.
É como se construísse algo que parte do íntimo, mas que se confunde com o objeto artístico. Pensou-se que ele poderia a todo instante tentar tirar algum som de algum instrumento. E, após ter conseguido, ficar maravilhado com isso.
Ele pode ser um menino que tem muita dificuldade de comunicação e como ele entende que a música é algo que comunica muito diretamente, ele perceber querer virar música para poder se comunicar. Querer trocar. A música seria a linguagem que ele acredita ser a mais potente.

19h43/19h57 > ADASSA MARTINS
Como ou o que é virar música a partir de um processo lógico?
Lógica dialética, que transita entre a tese e a antítese, entre sua afirmação e sua negação.
A primeira coisa são as duas definições: 1) música humana que tem a ver com microcosmo; 2) música mundana que tem a ver com macrocosmo. O que será defendido diz respeito ao trânsito entre o homem e o mundo, entre o micro e o macro.
A música é criada pelo homem e vai para o mundo. Ela vai para o externo.
DEFINIÇÃO DA PALAVRA “MÚSICA” = combinação de som + silêncio – assim como a FALA (que também uma combinação de som e silêncio).
A origem da música diz-se ser o primeiro som do universo, o mantra “om”... A origem da fala é no sentido de comunicação. A fala está diretamente ligada ao homem, tendo brotado da necessidade de comunicação entre os homens. FALA é micro. MÚSICA é macro.

PLANOS DE ATUAÇÃO
Música                                                                               Fala
Om                                                                                       Comunicação
Universo                                                                            Homem
Transcendental                                                                              Concreta
Desconhecido, incertezas                                          Conhecido, certezas
Aleatório                                                                           Possibilidades determinadas


MÚSICA ALEATÓRIA, tipo de música vanguardista do século vinte, o resultado final foge do controle compositor.
De acordo com a palestrante, VIRAR MÚSICA é VIRAR SONHO.
Possibilidade que mora entre. O certo e o incerto, entre o impossível e o possível. Momento em que sonhamos possibilidades que não necessariamente são concretas. Como esse sonho se daria quando acordado? SER SONHO É UMA ESFERA DE SINGULARIDADE. NÃO É SONHO NO SENTIDO DE DESEJO, É NO SENTIDO DE VIAGEM. SONHO PRA MIM É UMA LACUNA ENTRE MORTE E VIDA. NO SENTIDO DE QUE MORTE É UMA PASSAGEM EM OUTRA DIMENSÃO. VIDA É O MUNDO CONCRETO. E SONHO, É O MEIO DO CAMINHO. É ESPAÇO DE ALUCINAÇÃO.
Ser sonho é o passo que a pessoa dá ao querer reger a própria vida. A regência não tá ligada a controle de tudo. Reger não é controlar, é se colocar como ser que é criador da sua própria vida.
Ser música é a criação de um sentido de viver próprio. É de certa forma um autismo, uma alucinação permanente, ela usa o material que ela quiser usar e materializa o material que deseja materializar.

20h00/20h09 > MÁRCIO MACHADO
Ler trechos de dois livros do SWAMI MUKTANANDA (SIGNIFICA O ÊXTASE DA LIBERAÇÃO).
esse corpo pequeno é a vastidão do corpo inteiro <
coração = centro do conhecimento
todas as maravilhas que você vê num mundo externo, podem ser encontrado numa proporção muito maior em seu interior

sons divinos, impossíveis descrevê-los
dentro desses espaços interiores, ressoam sons divinos, néctares, nada nesse mundo pode ser comparado a sua doçura
DICIONÁRIO “MÚSICA”
Harmonia, paz, ausência de lutas, violência, perturbações, reestabelecimento de relações, sossego, amizade, transcendental, serenidade, quem experimentaria esse espaço?
Lembrou-se dos grandes santos. Da filosofia oriental, a gente é consciência, é deus, tem tudo isso dentro da gente e esses santos vivem nesse espaço o tempo inteiro. A gente pode chegar lá: estado de graça! A consciência se amplia de uma forma (leitura de um livro, por exemplo... dura pouco tempo, mas a gente toca nesse espaço).
Qual dessas coisas fazem você entrar nesse estado onde você escuta você cria onde você é tudo? O gozo, a morte, a arte, a criação e a tragédia (uma coisa muito trágica!). Uma experiência de quase-morte, algo de ordem muito trágica (presenciar a morte dos coleguinhas) a partir do qual a consciência dele tem que se expandir para que seja possível viver com aquela informação.
Exemplo: compreensão, se ele consegue ver isso tudo e compreender isso tudo. Moira sequestra Célia, matou a Célia e ele ainda conseguir ver aquilo e se colocar num espaço muito além e sentir compaixão pela Moira. COMPLEXIDADE.
Adassa diz: ou entender a morte de outra maneira.

20h10/20h35 > DIOGO LIBERANO

20h40/20h47 > THAÍS BARROS
Eu tentei me policiar e seguir uma lógica. Música é um conjunto de sons e pausas. O que que torna um conjunto de sons uma música? A música precisa ter uma duração? É necessário esse fechamento – isso ser música e isso não ser música? Qualquer coisa pode se tornar música.
Pensei na música como linguagem universal, alcançar várias pessoas de diversas culturas, alcançando todas elas de variadas formas. Pensei também na vontade de ouvir e de ser ouvido. Se a pausa faz parte da música ela pode não ter fim.
O que é preciso fazer pra ser música?
MÚSICA TEM CORPO? Pensei no corpo de uma criança, pensando no corpo de ingenuidade, de ser no espaço de criação sem limites, sem maldade, mas sem pretensão a querer ser e não querer ser. POR QUE SER MÚSICA? E NÃO TORNAR O MUNDO MÚSICA? Pensando que música não se comunica com música. É possível viver sem música?
Música imprime ritmo e esse ritmo pode oscilar. A capacidade da música de ecoar sem ser necessário a sua presença. Querer ecoar na cabeça das pessoas e ter esse poder.
SER MÚSICA NÃO É SER ARTISTA, MAS SIM SE TORNAR A OBRA DE UM ARTISTA. Não significa ser uma música, é ser música nesse sentido. Não seria suficiente, escolher uma música.
Pensando em tudo isso, eu cheguei à conclusão de que QUERER SER MÚSICA É QUERER SER TUDO QUE NÃO SE PODE SER. POR ISSO É PRECISO SE TORNAR. QUERER SER. É TORNAR O IMPOSSÍVEL POSSÍVEL.

20h50/21h13 > ANDRÊAS GATTO
COMO SE TORNAR MÚSICA?
É impossível. Buscar analogias. Virar música tem a ver com algo no sentido de ser bom, de se libertar.
MÚSICA // Qualquer composição musical, arte e ciência de combinar sons de modo agradável, orquestra, execução de qualquer peça musical.
Verbo ser>>> SEMPRE EM CAMINHO RUMO A ALGO. Me interessa estado (Andrêas). Quando eu pensei em virar música eu pensei em meditação. Meditação não como chegada, mas como caminho. Em que lugar há música? Não tem como mensurar a quantidade de locais onde a palavra música pode existir.
Pensar música como libertação.
OSHO – meditação ativa.
MÚSICA E MEDITAÇÃO (reflexão, processos mentais, que se opõem à contemplação). Estamos fazendo teatro: edifício, arte de representar, coleção das obras dramáticas de um autor, época, nação...
MÚSICA
SER
MEDITAÇÃO
TEATRO

Tudo que diz respeito ao concreto. Eu queria que a gente se ausentasse da responsabilidade de dar resposta a essa questão. Da mesma maneira que eu entendo que a meditação é um processo. Finalidade. Não acredito na finalidade. Se fosse pra bancar a finalidade, a nossa finalidade é morrer.
Esse mesmo cara, o OSHO, fala que a iluminação é apenas um expansão da consciência. Não há nada a ser conquistada, já está tudo aqui.
Quando a gente faz teatro, dentro de uma mostra de teatro, a gente faz o mesmo processo de teatro. A gente corrobora com o que tá acontecendo ali politicamente. Quando a gente materializa a música e diz aquilo que ela é, a gente prende ela num mesmo lugar. Quando a gente entende a meditação, fazemos a mesma coisa.
Como a gente faz teatro negando que a gente tá fazendo teatro o tempo inteiro?
RUPTURA. Ponto. SE VOCÊ NÃO PROPÕE NADA, VOCÊ ENGENDRA UMA CRISE. A CRISE É UM PROCESSO. EU NÃO SEI O QUE É VIRAR MÚSICA, EU NÃO SEI SE EU QUERO SABER.
É UMA TENTATIVA PORQUE NÃO É UMA FINALIDADE. EU DISCORDA DA FINALIDADE.
CRISE ENVOLVE TENTATIVA.
A NÃO SER POR ANALOGIA. Música, ser, meditação, teatro.
Música e meditação: o meu insconsciente chega antes.

Negar a ferramente usando a ferramenta.

21h17/21h30 >VIRGÍNIA MARIA
Eu trouxe duas hipóteses.
Não fugir do impossível. Eu tentei uma busca mais metafísica. Para que aos poucos essa ideia vá se clarificando de alguma maneira.
SOBRE A MÚSICA
Música é uma forma de arte que se constitui de uma organização de sons e silência. Prática cultural e humana. Pode ser considerada como uma forma de arte. A criação, a performance, o significado. Música militar. Música terapêutica. Festas. Funerais.
TORNAR-SE MÚSICA
Definir-se música torna-se assim mais complexo. A música contém e manipula o som e o organiza no tempo. Ao buscá-lo, a música já se modificou, já evoluiu (?). Jogo físico e emocional. Tornar-se música torna-se uma ação de infinitas possibilidades.
Definição negativa / não é um discurso verbal, é uma linguagem peculiar. Semiótica da música. Ruído pode ser um componente da música.
Não tem o mesmo sentido para aqueles que a ouvem. Certos aspectos da música tem efeitos semelhantes em populações muito diferentes. A música não é sua representação gráfica. Uma partitura só se torna música quando executada ouvida ou percebida.
A música consiste numa combinação de sons e silêncio. Simultâneas e sucessivas, as sequências. Ritmo, horizontal, tempo, intensidade. Contorno básico. Ritmo como sons e silêncios que se sucedem.
VIRAR MÚSICA - Rompimento com dinâmicas pré-estabelecidas para podermos, enfim, nos tornar algo melhor do que nós mesmos. Quatro triângulos, choques, que quebram a estrutura estabelecida. E instauram os fluxos. Que abalam a estrutura. Poderíamos chamar esse fluxo de sexo, de arte.
FLUXO: ALGO ASSIM MELHOR DO QUE EU.
SEGUNDA HIPÓTESE: A MÚSICA É FEITA COM O SIGNIFICADO DE QUEM VÊ.
NÃO É KEVIN QUE SE TORNA MÚSICA, MAS SIM SEUS OBSERVADORES.
CONCLUSÃO
Ser música é ser algo melhor do que você mesmo?

21h31/21h45 > DAN MARINS
Certo orientalismo na explicação. Eu vou começar falando do budismo tibetano. Relatos de pessoas que entraram em estados de transe meditativo tão elevados. Pode-se vislumbrar tocar essas dimensões mais invisíveis. Alguns textos falam de seres que alcançaram níveis tão sutis e densos, ao mesmo tempo, que o corpo sucumbiu à experiência e tais seres se descorporializaram.
Seria como se os limites externos sucumbissem aos internos. PRESENÇA QUE SE DIISSOLVE NUM TIPO DE ENERGIA QUE NÃO É MAIS PALPÁVEL, QUE NÃO É MAIS FÍSICA. Nesse sentido, tornar-se música se relaciona ao deixar de existir.
TIBET – lagos, montanhas, campos. O arco-íris compõe essa paisagem. Pode ser que na urbanidade, um arco-íris nem seja percebido.
É possível que essa música seja um estrondo, um trovão original, um som muito violento que é justamente quando algum indivíduo chega nessa estado do dissolver-se enquanto presença física e passar a existir enquanto presença sonora.
Ciência. Provas. Física Quântica: uma partícula se comporta tanto como matéria como em energia. O papel do observador é muitas vezes relevante.
Assassinato de um homem, por cinco homens, na frente dos filhos. Acusado de pedofilia. GRITO DE MORTE.
QUE TIPO DE INVASÃO
VOCÊ TOLERA????????
AS CRIANÇAS ELAS TÃO MAIS PRÓXIMAS DESSAS REALIDADES VISÍVEIS E NÃO-VISÍVEIS. ELAS ESTÃO MAIS PRÓXIMAS DO TORNAR-SE AROMA.
PERFEITAMENTE, EU ACHO QUE KEVIN PODE VISLUMBRAR ESSA TRANSFORMAÇÃO. NÃO ACREDITO QUE SEJA PSICOSE, ALUCINAÇÃO, NADA. É PURA PUREZA INFANTIL.
Debby_prova.

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sábado, 13 de agosto de 2011

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11 de agosto, Colégio Andrews, 20h/22h
Diogo, Andrêas, Laura, Márcio, Thaís, Virgínia, Dan e Adassa

COMPOSIÇÕES 01
> tema específico
> é um ponto de vista da sua personagem
> duração máxima de cinco minutos
> referências: três postagens (dos meses de janeiro, fevereiro e março de 2008)

CORLEY 01: "Os novos vizinhos"

dispositivos usados: remédio;

me chama atenção o uso das direções (ele pra frente, para um lado, para outro, de costas). o movimento em eixo que sugere um constante enrolar de si próprio. riso, choro, grito – medicação. para seguir fingindo ser possível isso que parece explícito ser quase impossível de tolerar.

o meu amor está fatigado. e o que eu faço: tomo um medicamento para encontrar nisso talvez algum entorpecimento, alguma anestesia, alguma solução. o meu amor está fatigado. sorriso forçado. pra onde ir?

EVA 01: "Acabei de ser nomeada Diretora da Escola Municipal Ensino Fundamental"

dispositivos: pequeno espelho, pequeno relógio, pequena tela (seria um televisor?), filme (THE BLACK SWAN), telegrama, cadeira, pequena mesa;

rugas, olhos, pescoço, as marcas, ainda estão por aqui?

o telegrama é entregue. obrigada. os olhos piscam muito. a respiração fica cada vez mais opressa. na carta, no telegrama, alguma frase de A LIMPEZA DAS HORAS. e também você acaba de ser nomeada…

ela se volta ao televisor. ela chora junto com o drama ali passando. como editar a duração da vida? ela desliga o televisor.

FRANKLIN 01: "Sobre tumores"

dispositivos: escuridão;

ele no canto da sala. retira a camisa. fica apenas de calça. é um improviso. não sabia meu nome. o que pode ter feito franklin falar sobre isso? que assunto é esse?

espanto, surpresa, orgulho, consternação? como você cresceu, filho. o pai aprova qualquer decisão do filho, qualquer coisa. ele é um oncologista, ele diz, desde criancinha quis ser isso e seu pai, já falecido, foi comido por um câncer.

a voz embarga. on-on-onco-oncologista. ele diz ao filho que ele tem liberdade para ser o que quiser. ele afirma sempre querer ter sido oncologista. a repetição ao invés de tornar a fala incontestável, só a torna ainda mais duvidosa.

ele gagueja. ela muda de assunto. ela fala a minha mulher é uma grande mestra. esboço dos horrores que estão por vir. às vezes eu sinto umas dores que se eu acreditasse em alma. diria ser uma dor em alma. a calça (elástica) estala sobre o corpo.

quais outros tumores existem soltos (e em proliferação) por ai?

KEVIN 01: “Eu tenho nove anos de idade”

dispositivos: pequeno bicho de pelúcia;

o andar de kevin. o olhar. o corpo imenso mas a alma de criança. alma encantável. cuja atenção ainda não foi expropriada. ele avança para ver se tá chovendo. é isso? estica as mãos, os olhos tateiam o céu.

de dentro deste corpo calmo e possível, saltam faíscas de curiosidades irrevogáveis. ele lambe a gota da chuva que não vemos cair. ele lambe a gota limpa a mão contra o peito e espia, brevemente, para ver se a sua ousadia possa ter virado encrenca.

ele chama a pelúcia, ainda ali quieta. paciente. imóvel. cristina, você me dá tanta coisa mas eu acho pouco. ainda assim eu acho pouco. mas, não desanima não, é só você me dar um pouco mais.

cristina, você me adula tanto que… mas não desanima, é só você me adular mais um pouquinho que ai fica gostoso. cristina, você é tão bonita, mas eu não te elogio, né, cristina? mas, não desanima não. é só você se enfeitar mais um pouquinho. uma vaidadezinha maior.

há um desânimo em kevin, apesar de seu corpo se esticar, se alongar, assumir as posições da sua impaciência. que que foi, cristina? fala o que você tá pensando. por um segundo ela na mão dele parece que vai falar. ele cola o ouvido no brinquedo e, de súbito, kevin fala como se fosse cristina.

eu sou assim e é desse assim que ele não gosta. CAFÉ AOS PEDAÇOS.

kevin desenha, com movimento e sonoplastia, o suicidar-se de cristina. que vai direta e reta ao chão (faz uma pausa no meio) e segue, quicando ao bater no chão, se ralando na parte final do percurso para, enfim, morrer.

MOIRA 01: "Os novos vizinhos"

dispositivos: lençol (ou toalha de mesa?), livro auto-ajuda, porta-retrato pai mãe e filho; bolsa florida de pano; luminária fria acesa; relógio, pipoca, lata de coca-cola zero, copo de vidro, binóculos;

moira deitada de barriga pra cima. a sua inspiração parece sugerir alguma gravidez que some ao se expirar. ela acorda de súbito, tinha dormido com o livro sobre a cabeça. moira ronca um pouco. parece ter dormido enquanto lia.

ao acordar, de súbito, retira da bolsa um binóculo. e passa a mirar o céu. estaria à procura do filho? erguida sobre a cama, mirando a janela? estaria sobre a mesa de jantar, persistente?

o barulho do lado de fora, sugere-se, atrai sua atenção. ela encosta-se à parede para escutar as crianças vizinhas. quase que se pode, via sua hesitação, sugerir que ela se pergunta são crianças, esses novos vizinhos?

fica feliz. tira a pipoca da bolsa. come. ri, quase levianamente. neste instante, em que ri e mastiga ao mesmo tempo, escrevo no caderno: ela é capaz de roubar uma criança. tira uma lata de coca zero, encosta-se mais à parede. comemora os vizinhos. curiosa, tira um copo de vidro e ausculta a parede inteira.

interrompe. volta a ler AINDA EXISTE ESPERANÇA, que pelo título parece ser algo de auto-ajuda, algo religioso. ela lê, em voz alta, sobre uma forma de encontrar a felicidade… seguindo as boas aventuranças de jesus…

moira se autosufoca com o livro na cara. o lençol sobre o chão resta mexido.

CÉLIA 01: "Eu sou irmã de Kevin"

dispositivos: papéis dobrados, fita crepe na parede, papéis escondidos nos bolsos;

arruma os cabelos, mãos calmas. “saúde” para o espirro fora da composição. célia é uma máquina desejante? ofegante. lê um poema, da rita pedreira. célia muda da água pro vinho, do oito ao oitenta. eu sou irmã do kevin. desenhos feitos em pedaços de papel já usados. rascunhos. traços fortes e a cor comendo solta. muita cor. muito sangue do olho saindo.

laura pergunta sobre o desenho: ela chora sangue?

pirraça maior do mundo: sumam todos daqui! bate os pés no chão. tenho a sensação de que as articulações do corpo todas se gastaram em um único segundo. muita força contra o chão. muito atrito. célia é insuportavelmente irredutível.

ada disse à pergunta de laura: é o olho.

o olho de célia é uma torrente e não uma peça sólida. ele escorre pelas coisas, ele pertence ao mundo.

COMPOSIÇÕES 02
> tema específico
> é um ponto de vista da sua personagem
> duração máxima de cinco minutos
> referências: suas três postagens (dos meses de abril, maio e junho de 2008)

KEVIN 02: "De súbito, de uma hora para outra, de repente..."

dispositivos: meia listrada vermelha, camisa listrada vermelha, bermuda preta,c adeira, mesa, jornal, banana, toddynho, canudinho do toddy;

acabou de acordar. mão no rosto. muchochos. kevin é calmo, paciente, lê jornal. cresce o interesse. com calma e atenção. horóscopo. ele lê escorpião. cada palavra parece nascer ali na nossa frente. as que ele não sabe, ela guarda ainda sim com ele. e ter diplomacia para não gerar conflitos. ele rasga com calma o horóscopo de escorpião, molha com toddy e cola à testa.

seu olhar por vezes busca para ver se há alguém espiando a sua brincadeira. ação de criança é sempre brincadeira? é sempre jogo? vejo um corpo sem órgãos. menos máquina desejante, neste momento.

de súbito, de repente, de uma hora pra outra, engole a banana toda – com casca – para dentro da própria boca. e como se tivesse uma manivela do lado esquerda da cabeça, ele vai girando-a e da boca dele vai saindo e caindo sobre o jornal na mesa o que restou da banana destruída.

ele se limpa. é asseado. ele enrola toda a sujeira dentro do jornal e grita já acabei. e volta a tomar o toddy.

LEITURA DO PROJETO

o projeto é uma busca de todos nós, peças dessa criação. não é só um roteiro que o diretor procura seguir, é também espaço no qual muitos pontos já estão dados, esperando por corpo e encaminhamento. sobretudo no tópico OBJETIVOS, sobretudo em se falando de METODOLOGIA (criação da dramaturgia e da cena): tudo isso é preciso que seja comprado desde já.

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segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O transformador de Duchamp


referência enviada pela professora Livia Flores:

Transformador destinado a utilizar as pequenas energias desperdiçadas como: o excesso de pressão sobre um botão elétrico
a exalação da fumaça de tabaco
o crescimento dos cabelos, dos pêlos e das unhas.
a queda da urina e dos excrementos
os movimentos impulsivos de medo de espanto, de tédio, de cólera
o riso
a queda das lágrimas
os gestos demonstrativos das mãos, dos pés, os tiques.
os olhares duros.
os braços que pendem do corpo.
o estiramento, o bocejo, o espirro
o cuspe ordinário ou de sangue
os vômitos
a ejaculação
os cabelos rebarbativos, a espiga.
o ruído de assoar o nariz. o ronco
o desmaio
o assobio o canto
os suspiros etc.


[1] Marcel Duchamp. “Projets ”. NotesParis: Flammarion, 1999, p. 115. Tradução Livia Flores
            

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Inferência

Recentemente eu entendi o porquê da minha ligeira (e evidente) irritação com as tais referências. Hoje em dia, sobretudo dentro de um universo universitário (mais não somente nele), o trabalho com referências no momento da criação de um projeto é algo extremamente importante. Quer dizer: ao esboçar ideias e desejos junto ao seu projeto, é natural que também se queira saber quais outras obras atiram numa direção que a sua também parece (querer) atirar.

Dessa forma, antes mesmo de saber o que se quer, você já consegue reunir numa listinha aqueles filmes, quadros, livros, materiais diversos que conseguem (sob algum ponto de vista) dar uma espécie de tom ou teor daquela sua obra que ainda não passa de um projeto, por vezes, de uma intuição.

Certo. Isso é importante. Te faz buscar aquilo que você não tem mas que precisa encontrar. Ao mesmo tempo, te clareia, pela análise de obras distintas, aquilo que você busca por vezes sem saber ao certo o que é. Em suma, o trabalho com referências serve para clarear aquilo que se deseja.

No entanto, tenho estado incomodado com tal movimento. Tenho cansado rápido das referências e meu desinteresse sobre elas está cada vez maior. Tenho pensado como as referências por vezes parecem antecipar o meu contato com a coisa. Tenho pensado como é importante não saber aquilo que virá, como é importante eu estar preso somente no meu não-saber exato sobre o que estou buscando.

Assim, viram as referências neblina nessa busca. E eu fico com a vista cansada. E eu começo a me perguntar se interessa mesmo saber o que foi que fulano achou sobre isto que eu estou fazendo agora (e que pode, ali na frente, ser o mesmo que trocentos outros já descobriram), mas não é questão de originalidade. A questão aqui em jogo é justamente a de se permitir se encontrar com seu desejo e dar a ele (e a si próprio) a possibilidade real do encontro (sem muitas interferências).

Quer dizer: eu posso ser um ignorante sobre ÉDIPO REI de Sófocles, mas nada me importa mais neste instante do que o meu encontro com a obra. Do que o contágio mútuo que um ao outro é capaz de provocar. Eu não ligo se a minha opinião é velha ou pouco original ou fora de moda. Eu me importo apenas que ela seja sincera e deseje de mim se despregar.

Cada vez mais as referências me cansam e pode ser que elas venham a fazer sentido sim, porém, só lá na frente, quando aquilo ainda frágil aqui comigo venha a se fortalecer e a se manifestar.

Não é indiferença. É apenas cuidado. Depois de nove meses, a gente vê o resultado.
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domingo, 19 de junho de 2011

Encontro Cinco

Café Doce Momento
19/06/11 - De 13h30 até 17h30
Diogo, Andrêas, Márcio, Daniel e Virgínia.

- trabalho intensivo e periódico em JULHO;
- 27 de junho às 20h > encontro para fechamento do cronograma de ensaios;
- contato da moça regina com o daniel;
- stand-by das máquinas desejantes;
- o que é essa questão do blog? será que a pessoa que escreve quer comunicar, quer aparecer?;
- perfil FAKE é como um vírus, diz virgínia;
- fragmentação;
- interlocução (se está sempre se dirigindo a alguém);
- relações amorosas;
- necessidade, busca (procurar sem parar);
- completar a forma original (aquilo que se completa deseja morrer);
- comunicar e solidão (para o artista);

FLUXOS + COLISÕES + PARAGENS

Para desautomatizar fluxos, relocar colisões e gerir paragens \\

- precisamos ler A MORTE DO AUTOR, do Barthes >>> cliquem aqui;
- aleautoria + bricolagem > METODOLOGIA;
- fizemos a separação das postagens do LENDO ÁRVORE do ano de 2009;

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terça-feira, 7 de junho de 2011

“A essência da literatura segundo Blanchot”

Trechos de uma matéria de Karl Erik Schollhammer, publicada no caderno PROSA & VERSO do jornal O GLOBO no dia 4 de junho de 2010.

“A escrita literária não é resultado da vontade do autor, da sua intenção ou da sua sensibilidade. Pelo contrário, a dinâmica neutra da escrita conduz ao apagamento da figura do autor, do anonimato necessário, à solidão essencial e ao estranhamento anti-lírico diante do mundo. Neste sentido, Blanchot é um precursor do anti-humanismo de Foucault e da ideia da ‘morte do autor’ desenvolvida por Roland Barthes que, até os últimos cursos de 1978 e 1979, persegua a determinação neutra que se impõe na emergência da literatura”.

“Para Blanchot, a poesia é um movimento de transgressão que subverte as fronteiras da linguagem comum e referencial bem como das formas convencionais sustentadas pela instituição literária, ou pela lei do gênero, na formulação de Derrida no livro de ensaio - ‘Parages’ (1986) – dedicado a Blanchot”.

“Blanchot não se interessa por um tipo de literatura narrativa e imaginosa que discute os problemas do mundo ou cria uma ficção de fantasia alternativa para ele. Não se satisfaz com a negação dialética do mundo e sua substituição pela ficção. Sempre procura uma literatura que interrompe o movimento da negação na afirmação de sua própria existência fora desse mundo”.

“Encontramos aqui um elemento fundamental na reflexão de Blanchot: por um lado registra o poder mortal da linguagem, que reduz o ser da coisa falada ao não-ser abstrato do seu conceito na palavra, e, por outro lado, articula à literatura a procura da realidade que foi perdida. Sua possibilidade está na materialidade da palavra, no seu aspecto físico: ‘o ritmo, o peso, a massa, a figura e, depois, o papel sobre o qual escrevemos o traço de tinta, o livro’”.

“A literatura emerge em sua independência, não mais uma expressão do escritor, não mais uma representação do mundo, mas um ‘bolo concreto de existência’, no espaço entre a linguagem e o mundo, o que ele denomina o ‘espaço literário’”.

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sexta-feira, 3 de junho de 2011

Semceito

É mais ou menos o que eu sinto que vai acontecer. Aliás, é bem minha busca, algo que já está indo, sem freio. Digerindo conceitos e fazendo escolhas, tomando ações. Concretizando vontades e nada assim fica velado em fórmulas nem em nomes, tudo retorna de maneira possível ao corpo.

Então, nisso, as três postagens anteriores ruíram. Não sobrevivem, pois de fato os conceitos estão morrendo. Daqui a pouco eu hei de postar uma nova apresentação do projeto e nesse jogo de tentativas a coisa toda vai ficando bem mais clara, e não mais teorizada.

Descobri que a justificativa está em mim, na minha própria vida, na minha história (sim, eu a tenho em mim). Descobri que não é preciso teórico ou artigo, que basta refletir e rememorar sobre aquilo que tenho aqui: meus desejos, enfim, minhas intuições.

O caminho fica nebuloso e depois de estar nisso investido, a coisa começa a se anunciar. Os conceitos muitas vezes viram frases prontas que a gente não consegue acessar. Conceitos para os quais não temos corpo. Não dá. Não deveriam servir para isso.

O que fazer então? Quebrar o conceito.

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sábado, 28 de maio de 2011

Análise das Máquinas > 03/06

CAPÍTULO 1
AS MÁQUINAS DESEJANTES

O gozo e o sujeito

Máquina Celibatária. A terceira síntese: síntese conjuntiva ou produção de consumo. Afinal... <

A produção de registro é produzida pela produção de produção. A produção de consumo (produzida pela produção de registro e na produção de registro) segue ao registro. Há na superfície de inscrição algo da ordem de um sujeito que nasce e renasce dos estados que ele próprio consome: “Afinal sou eu, afinal pertenço-me...”.

Toda a produção desejante é imediatamente consumo e destruição, logo “volúpia”. Tal como parte da libido como energia de produção se transformou em energia de registro (Numen), há uma parte desta que se transforma em energia de consumo (Voluptas). Esta energia residual anima a terceira síntese do inconsciente: a produção de consumo ou síntese conjuntiva do “afinal...”.

A repulsão do corpo sem órgãos às máquinas desejantes, tal como na máquina paranóica do recalcamento originário, deu lugar a uma atração na máquina miraculante. Mas entre atração e repulsão a oposição persiste fazendo necessária nova máquina à reconciliação (ao “retorno do recalcado”). Freud sublinha a viragem de Schreber que após sua transformação em mulher envereda para uma auto-cura que o leva à identidade Natureza = Produção (produção de uma humanidade nova).

Chamemos “máquina celibatária” a que sucede à paranóica e à miraculante. Como nova aliança entre as máquinas desejantes e o corpo sem órgãos. O sujeito é produzido como resto, ao lado das máquinas desejantes, ou ele próprio se confunde com esta terceira máquina e com a reconciliação residual que ela opera: síntese conjuntiva de consumo, sob a forma maravilhosa de um “Afinal era isto!”. A máquina celibatária manifesta um poder solar, um prazer auto-erótico onde se celebra uma nova aliança como se o erotismo maquinal libertasse outros poderes ilimitados.

Matéria, ovo e intensidades: sinto <<

O que se produz através da máquina celibatária? Quantidades intensivas em estado puro a um ponto quase insuportável (numa experiência esquizofrênica). Fala-se de alucinações e delírio, mas o alucinatório (vejo, ouço) e o delirante (penso...) pressupõem um Sinto mais profundo.

Estas intensidades vêm da repulsão e atração e da sua oposição. São positivas a partir da intensidade = 0 (que designa o CSO), produzindo uma série de elementos intensivos que exprimem um número ilimitado de estados estacionários por que passa um sujeito. Essas quantidades preenchem a matéria sem vazio em graus diversos.

O CSO é um ovo atravessado por eixos e limiares, latitudes, longitudes, geodésicas r gradientes que marcam transformações, passagens e destinos do que nele se desenvolve. Nada nele é representativo, tudo é vida e vivido. Experiência dilacerante, demasiado comovente, que torna o esquizo o ser mais próximo de um centro intenso e vivo da matéria.

Como foi possível dar ao esquizo a figura desse estado de um CSO morto? O esquizo (que se instala nesse ponto insuportável em que o espírito toca a matéria, e vive, consome cada uma das suas intensidades) foi reduzido pela psicanálise a um neurótico que consome eternamente o papá-mamã.

Os nomes da história <<<

O consumo de intensidades puras é estranho às figuras familiares. Podemos dizer que sobre o CSO os pontos de disjunção formam círculos de convergência em torno das máquinas desejantes; então o sujeito (produzido como resíduo ao lado da máquina, apêndice ou peça adjacente à máquina) passa por todos os estados do círculo e de um círculo ao outro.

O próprio sujeito não está no centro, ocupado pela máquina, mas nos contornos, sem identidade fixa. Ou mais complexo: através da máquina paranóica e da máquina miraculante, as proporções de repulsão e de atração sobre o CSO produzem na máquina celibatária uma série de estados a partir de 0; e o sujeito nasce e renasce (o estado vivido é o primeiro em relação ao sujeito que o vive).

O sujeito, cujo eu desertou do centro, estende-se por todo o contorno do círculo. No centro a máquina celibatária (do desejo) do eterno retorno. Não a identificação com pessoas, mas a identificação dos nomes da história com zonas de intensidade sobre o CSO; e o sujeito grita sempre “Afinal sou eu!”. Nunca ninguém fez tanta história como o esquizo que consome de uma só vez a história universal. Começamos por defini-lo como Homo natura, e ei-lo, agora, Homo historia.

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Diogo Liberano

sábado, 16 de abril de 2011

Análise das Máquinas > 02/06

CAPÍTULO 1
AS MÁQUINAS DESEJANTES
O corpo sem órgãos

A anti-produção <

O respirar das máquinas desejantes é insuportável ao corpo sem órgãos. É como se a ação primeira das máquinas fosse organizar o corpo. Por isso, o corpo sem órgãos oferece às máquinas desejantes um forte contraponto. A elas, ele oferece sua indiferença, a sua inarticulação, sua improdutividade.

Repulsão e máquina paranóica <<

Talvez seja esse o sentido do recalcamento dito originário: a repulsão que o corpo sem órgãos tem em relação às máquinas desejantes, o movimento de não responder às solicitações desejantes.

Assim, a máquina paranóica nasce justamente dessa reação repulsiva do corpo sem órgãos às máquinas desejantes (tidas como aparelho de perseguição). A máquina paranóica nasce na oposição ao processo de produção das máquinas desejantes. A máquina paranóica é portanto uma transformação das máquinas desejantes resultante da impossibilidade de o corpo sem órgãos suportar as máquinas.

Produção desejante e produção social: como é que a anti-produção se apropria das forças produtivas <<<

A produção social também gera seu corpo sem órgãos, seu improdutivo, um elemento de anti-produção ligado ao processo, um corpo pleno denominado como socius. Pode ser o corpo da terra, o corpo despótico ou o próprio capital. (Marx afirma que o capital não é o produto do trabalho, mas se revela como se fosse seu pressuposto natural e divino). O capital se constitui como uma superfície sobre a qual todos os agentes de produção são rebatidos, de modo que se apropria do sobreproduto e atribui a si próprio o conjunto e as partes do processo, que parecem emanar dele. Forças e agentes (de produção) parecem ser miraculados pelo capital.

No mesmo sentido, o socius se articula como corpo pleno no qual toda a produção é registrada e do qual toda a produção parece emanar. A sociedade constrói o seu próprio delírio. O capital é o corpo sem órgãos do ser capitalista. E é no capital que se engatam as máquinas e agentes de produção, de modo que seu funcionamento é miraculado por ele. Tudo enquanto quase-causa ­do capital. O uso do capital como corpo pleno para formar a superfície de inscrição ou de registro... um movimento objetivo aparente, um mundo perverso enfeitiçado fetichista, pertencem a todos os tipos de sociedade como constante da reprodução social.

Apropriação ou atração, e máquina miraculante <<<

Uma máquina de atração pode suceder uma máquina repulsiva. Ou seja, do conflito repulsivo entre máquinas desejantes e corpo sem órgãos, pode haver uma atração. Uma máquina de atração (máquina miraculante) depois da máquina repulsiva (máquina paranóica).

As duas coexistem, porque o corpo sem órgãos serve de superfície para o registro de qualquer processo de produção do desejo. O corpo sem órgãos como superfície encantada de inscrição ou de registro que se atribui a si próprio todas as forças produtivas e os órgãos de produção.

A segunda síntese: síntese disjuntiva ou produção de registro. Quer... quer. Genealogia esquizofrênica <<<<<

Quando as conexões produtivas passam das máquinas ao corpo sem órgãos (como do trabalho ao capital), elas são submetidas a uma lei que exprime uma distribuição em relação ao elemento não produtivo enquanto “pressuposto natural ou divino”. O “quer... quer” esquizofrênico transformar-se no “e depois”. A maneira como os órgãos estão engatados ao corpo sem órgãos deve ser tal que todas as sínteses disjuntivas entre os dois conduzam ao mesmo sobre a superfície deslizante.

A síntese disjuntiva de registro oculta, portanto, as sínteses conectivas de produção. Se chamamos libido ao conectivo da produção desejante, devemos dizer que uma parte dessa energia se transforma em energia de inscrição disjuntiva (Numen). Transformação energética. Freud acentua a importância dessas sínteses disjuntivas nos delírios gerais e nos de Schreber: “Tal divisão é característica das psicoses paranóicas. Estas dividem, enquanto que a histeria condensa. Ou antes, estas psicoses resolvem de novo, nos seus elementos, as condensações e as identificações realizadas na imaginação inconsciente”.

As disjunções são a forma da genealogia desejante; mas será esta genealogia edipiana, deverá esta genealogia se inscrever na triangulação de Édipo? Não será o Édipo uma exigência ou uma consequência da reprodução social, enquanto esta pretende domesticar uma matéria e uma forma genealógicas, que lhe escapa completamente?

A produção desejante forma um sistema linear-binário. O corpo pleno sem órgãos entra nesta série como um terceiro termo (produzido como anti-produção e em constante recusa a qualquer tentativa de triangulação que implique uma produção familiar). É sobre o corpo sem órgãos que o Numen se distribui e onde se estabelecem disjunções independentemente de qualquer projeção.

É certo que o esquizofrênico é um interpelado nos códigos vigentes. O esquizofrênico por vezes entra no jogo psicanalítico e o faz estourar por dentro (sim, é minha mãe, mas a minha mãe é precisamente a Virgem). O esquizo dispõe de modos muito próprios de referência, dispõe de um código de registro particular que não coincide com o código social ou que só coincide com ele para parodiá-lo. O código delirante ou desejante apresenta uma fluidez extraordinária. Dir-se-ia que o esquizofrênico passa de um código a outro, que baralha todos os códigos, num deslizar veloz, conforme as questões que lhe são postas, não dando nunca duas vezes seguidas a mesma explicação, não invocando nunca a mesma genealogia, não registrando nunca do mesmo modo o mesmo acontecimento.

É assim que os agentes de produção se colocam sobre o corpo de Schreber, se suspendem nele, tal como os raios do céu que ele atrai e que contêm milhares de pequenos espermatozóides. Raios, aves, vozes, nervos, estabelecem relações permutáveis de genealogia complexa com Deus, com as formas divididas de Deus. Mas é no corpo sem órgãos que tudo se passa e se registra como os piolhos na juba do leão.

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Diogo Liberano