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segunda-feira, 25 de junho de 2012

“Sinfonia Sonho”

A encenação deste espetáculo nasceu a partir de um jogo que foi praticado com os atores desde o primeiro ensaio. Chamado por mim de cinto de segurança, tal jogo consiste no posicionamento de todos os atores, cada qual sentado em sua cadeira, todos eles lado a lado. O olhar mirando a frente, sem quebrar a frontalidade. É um jogo de escuta, cujo objetivo é manter a inércia, individual e coletiva. Mas para isso, é preciso se mover, então os atores se levantam e vão adiante, porém, se um outro ator do seu lado o tocar (num simples toque), você precisa se sentar novamente, zerando o seu movimento que logo em seguida poderá reiniciar quando você quiser.

ELENCO - DIOGO LIBERANO

Ensaio – Jogo do cinto de segurança – Fotografia: Diogo Liberano

Começamos como num jogo de criança, onde as regras existem mas são burladas. Onde se quer trapacear para conseguir se mover sem ser pego. Descobrimos, porém, que o nosso jogo – cujo nome viria a ser Sinfonia Sonho – era um acordo das partes para tornar possível algo maior, no sentido de envolver a todos, no sentido de funcionar por meio da costura de cada uma das partes expressivas. Assim, logo o elenco descobriu que era um jogo que envolvia escuta e atenção, abertura e agilidade. Qualidades que se treinadas, acredito eu, colocam o ator num estado muito concentrado de presença e tônus. Presença. É o que o jogo do cinto de segurança deu ao elenco. A imagem dos atores sentados, ao fundo do palco, lado a lado, atentos para a frente, para o fora, me seduziu de imediato. Ali nascia a peça, independente do que viesse a seguir.

Foi uma encenação pensada em movimento. Não quis nem me senti muito capaz de ditar as ações e lógicas relacionais entre as personagens e as cenas. A cada nova cena trabalhada, os atores produziam a sua expressão daquele punhado de texto. O trabalho com viewpoints expandiu as maneiras de se mirar um dado objeto, por isso a criação do elenco ganhou contornos diversificados e expressivos e como, a princípio, o trabalho de criação da cena envolvia apenas os atores e o texto, não houve imposição alguma em relação a objetos, movimentos e intenções. As coisas vieram todas porque eram necessárias a execução, melhor, necessárias a expressão – dos atores – daquilo que se desejava expressar.

Naturalmente, houve um ensaio que os atores apresentaram uma primeira sequência de todas as cenas que haviam sido esboçadas. Utilizei-me dessa palavra para dizer a eles que eles estavam criando alguma coisa que em seguida eu iria finalizar. Não foi bem isso. A criação do elenco foi desde o início muito próxima a escritura final da encenação. Encontrei nessa jogada o que poderia haver de mais feliz enquanto diretor, que é justamente a sensação de, como atores, cada um deles também se sentir devidamente autor dos gestos, movimentos e intenções. Obviamente a minha direção se manifestou e em alguns casos coube a mim inventar toda uma nova configuração que desse conta, de maneira mais potente, daquilo que era necessário para o desenrolar da ação dramática. Mas acompanhá-los durante essa criação sem tanta interrupção minha, me fez entender um pouco mais das maneiras individuais de criação. Ao propor algo vindo de fora, no sentido de não ter sido criado diretamente por eles, tomei esse cuidado de trazer algo que já soubesse que eles eram capazes de brincar com.

Hoje analisando, Sinfonia Sonho é um jogo para atores. Estão eles sentados ao fundo do palco aguardando a hora de jogar sua cena em direção ao outro (seja o outro ator ou espectador). É um jogo de paciência e escuta, escrita e apagamento. São muitas relações que foram surgindo no decorrer, mas sem grandes pretensões. Havia uma história a ser contada. Antes de qualquer estilo, de qualquer rococó, sempre existiu algo muito simples que precisava chegar, cruzar o palco, e atingir a audiência. O trabalho com o andamento e a duração das cenas foi o mais importante. Naturalmente, foi por conta desse apuro que a dramaturgia se fez possível, afinal, quando a nossa fruição se perde, é de se esperar que a do espectador também se dissipe. Esse entendimento e busca, num primeiro momento não foi posto em questão. Mas logo virou um ponto de vista pelo qual eu pedia aos atores que olhassem suas próprias cenas, para que soubessem abrir mão de invenções e apostas que, mesmo interessantes e esteticamente inventivas, não serviam para o curso da peça como um todo.

Interesso-me pela sobriedade, pela limpeza e essencialidade. Tais lugares talvez tenham sido buscas desde o início. Mas aqui também ressalto pouca exigência quanto a isso. Num dado momento, a peça se revela com muita clareza e quando isso aconteceu – não saberia dizer exatamente quando – tais qualidades foram antes exigidas pela peça do que por nós intencionadas. Quero dizer que a sobriedade foi alimentando as ideias de cenografia e indumentária. A sobriedade foi limando os acordes e os momentos que haviam sido previstas utilização de trilha sonora. A sobriedade, de certa forma, limpou os momentos de luz, conferindo uma iluminação asséptica e saturada. Essa palavra, talvez, nos dê também muito sobre o espetáculo: saturação. Penso em saturação e chego a outra palavra: cegueira. Disse a orientadora de direção que são personagens tristes. São. Saturados. Vencidos. Falidos. Personagens desistidos. De alguma forma, essa sobriedade se borra com um ou outro excesso que, acredito, confere ao drama uma coloração mais abusada. Eu quero dizer, há alguma coisa que extrapola o limite tão intencionalmente limpo e preciso. Seja uma fala, um solilóquio, uma rubrica ou um gesto expressivo. Parece que a limpeza existiu apenas para que mostrássemos a nossa grande capacidade de ser ruído e destruição.

Como diretor e, sobretudo, como dramaturgo, acabei me somando a cena. Estou sentado em uma cadeira, assim como o elenco (com exceção do ator que interpreta Tomas, a criança morta já no início da peça). Sempre que escrevi novas cenas, eu e Eleonora líamos juntos folha a folha. E foi numa dessas leituras que ela me sugeriu que tais rubricas bem como os títulos das cenas precisavam ser ouvidos. Eleonora trouxe a tona a importância de sabermos, de vermos e sentirmos, quem era a pessoa que se destinava a falar de tais questões, a tocar em tais assuntos. Assim, depois de algumas especulações sobre como estar presente em cena e onde me posicionar, optei por estar da forma mais simples possível, da forma que amenizasse a minha presença e igualasse os lugares. Eu não podia me destacar e qualquer posicionamento diferenciado dos atores me daria um destaque. Assim, aceitei a sugestão de estar em cena optando por estar ali como o cara que lê as rubricas, que segue contando a história junto aos atores.

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Cenário de Leandro Ribeiro – Fotografia de Diogo Liberano

O cenário passou por muitas tentativas. Aliás, mais ideias do que tentativas. Ideias que não testadas, foram caindo rapidamente e perdendo o crédito. Para mim era muito claro a importância de não criar um problema, mas sim uma encenação. São muitos detalhes, muitas coisas, muitas relações em jogo (tanto ficcionais como profissionais) e é o meu papel zelar para que o diálogo sobrexista. Digo isso porque a cenografia teve que lidar desde o início com algumas circunstâncias dadas pelo texto. Eram muitos lugares onde as cenas aconteciam (escola, rua, quintal, sala, automóvel, cozinha, quarto, casas distintas, lugares indefinidos...). A dramaturgia não estava escrita, mas os espaços já haviam sido previstos. Optou-se logo por não criar uma cenografia que literalizasse tais lugares, mas um espaço de jogo. Eu costumava dizer que o texto nos dava o lugar com clareza e que não me interessava reproduzí-lo. Substituímos a reprodução fiel de um espaço, por exemplo um quarto, pelas cadeiras. Trocávamos a cenografia da ficção pela da atuação.

Num dado momento estivemos apenas com as cadeiras, um piso e uma série de eletrodomésticos. Os eletrodomésticos foram durante muitos meses uma busca sem expressão. Havia quase uma intuição de que os eletrodomésticos nos dariam a representação da casa, da família. Chamaríamos a atenção para as máquinas, para a sinfonia de seus barulhos. Mas tudo isso foi ficando muito grande quando, em sala de ensaio, a ação foi ficando muito aguda, muito precisa e pontual. Pouco antes da estreia, fechamos a cenografia: sete cadeiras (específicas para cada personagem, numa mistura de materiais e estilos) e um piso na cor verde limão (duas tiras compridas que sobrepostas marcam o chão do teatro com um “X” torto, que também consegue remeter a um “K”). Quanto ao uso dos objetos, é possível listá-los: um cigarro, um isqueiro; três tapa-olhos personalizados (um óculos, uma gravata e uma sola de sapato) e dois microfones. Por conta dessa, digamos, essencialidade, as cadeiras acabaram virando objetos quando não havia mais nada a ser usado como tal. A peça foi saindo de sua estabilidade ensaiada e evoluiu para uma desordem também ensaiada. A cena vai se desmanchando ante ao público. Ela precisa se desmanchar para que dentro dela, em seus desvãos, caiba de forma mais inteira o horror do outro (e também o nosso).

O diálogo com as figurinistas foi também longo e cheio de desdobramentos. Começamos a partir de uma análise da descrição de cada personagem, tentando identificar por tal sinopse quem era cada um. As primeiras propostas foram chegando e sendo imediatamente rebatidas, mas como num jogo, onde o meu questionamento visava apenas o aprofundar de cada proposta. Logo as figurinistas escolheram uma palheta de cores (entre o preto e o branco, passando por tons de cinza e chumbo). Especulamos conceitualmente o que seria virar música, especulamos sobre o caráter extremo da peça, sobre a violência, sobre a idade adulta e infância. Perguntamo-nos muito sobre como caracterizar um personagem que é criança, mas que é interpretado por um adulto. Assim como o diálogo com o cenógrafo, assimilamos que a dramaturgia nos dava o caráter da infância e que, inevitavelmente, a interpretação dos atores também o daria. Assim, a indumentária da peça sublinha muito pouco aquilo que a dramaturgia, em seu curso natural, acabará nos revelando de cada personagem.

São figurinos compostos por pouquíssimas roupas novas e criadas pelas figurinistas. Em sua quase totalidade, é um conjunto que foi sendo comprado em brechós pela cidade ou mesmo adquiridos por meio da doação dos atores e integrantes da equipe. Assim como as cadeiras eram cadeiras usadas, optamos por também agregar ao figurino certa espessura dada pelo tempo, pela vivência. São corpos marcados, riscados e já consumidos. Não são inéditos nem querem ser bonitos. São possíveis, “humanizados”. Nesse sentido, a encenação mais uma vez me soa sóbria, pouco chamativa no sentido mesmo de querer chamar atenção. As coisas todas estão ali, arranjadas numa composição. É o olhar do espectador que desdobra o que ali está presente. É o espectador que junta as partes e constrói sua lógica.

Para a criação tanto da cenografia quanto dos figurinos contei com uma equipe muito solícita e generosa. Criar um espetáculo é um trabalho que envolve escolhas, perdas e paciência. Nesse sentido, conseguimos administrar quereres e discernir aquilo que de fato era determinante ao espetáculo. Isso nos fortaleceu para lidar com eventuais exigências que a peça acabou por nos colocar. Por exemplo, duas semanas antes da estreia, trabalhando sobre o terceiro ato do espetáculo, surgiu a necessidade de agregar mais duas atrizes ao elenco, no papel de duas repórteres que apresentam o destino de cada personagem e da própria trama. Isso significou não apenas o trabalho dessas atrizes com o de todo o elenco, o trabalho para decorar o texto e interpretá-lo de forma proveitosa. Isso significou também novos figurinos, mais pessoas envolvidas e mais ânimos, inevitavelmente, exaltados por conta da estreia. Mas tudo corre bem quando cada par de pernas caminha querendo mover algo maior. E isso de fato aconteceu.

Sobre a trilha sonora, a composição de Philippe Baptiste me pareceu assustadoramente acertada. Conversamos muito, falei de muitas coisas, tentei apagar o peso da música num espetáculo chamado SINFONIA SONHO. A música seria mais um movimento nessa ação toda. Sobre a trilha não deveria pesar outra exigência que não fosse a de envolver e expressar aquilo ainda não dito. Sem sublinhar, mais uma vez. Acrescentando e desdobrando, conferindo a cena outro ponto de vista a partir do qual o espectador pudesse ver também aquilo que não está explícito em primeiro plano. Assim, o compositor foi se nutrindo de poucos ensaios e muitas conversas e, tão logo possível, enviou uma primeira música que me capturou pela sua diferença. Eu não conseguiria descrever tal composição, mas ela cheira a um profundo estranhamento. Ela é uma expressão que justamente não antecipa a tragédia. Ela é quase boba, sem deixar de ser composta e complexa. As faixas seguintes (outras duas) foram criadas a partir da primeira. Naturalmente, a utilização que fiz das faixas foi ligeiramente distinta daquela pensada a princípio. Optei por usar uma faixa em cada ato, livrando o espetáculo de certo excesso na trilha. Para que ficasse quase sugerido que tudo não passava de uma música de apresentação, transição e desfecho. Naturalmente, a música em SINFONIA SONHO me sugere muitos outros movimentos: penso em aproximação, penso em anti-ilusionismo, penso em drama e tragédia, sinto por fim que a trilha é quase um carinho na alma, mas que acaba sendo meio árido, acaba mais machucando do que apaziguando. Essa talvez seja a interpretação do som do espetáculo. É talvez o que eu desejo provocar com a música. Mas como falar do que a música abre ou encerra ao ser ouvida?

No meio do processo, uma integrante do Teatro Inominável acabou se somando a equipe para realizar a direção de movimento. Helena Cantidio, que mais tarde assumiu o papel da repórter Joana Bravo (apenas no terceiro ato), foi determinante para a limpeza e criação de certa lógica do movimento, por certo jogo entre atores e suas cadeiras. Seu olhar foi assistindo a cena como um quadro em movimento e junto aos atores, sobretudo individualmente, Cantidio foi assimilando a expressão corporal das personagens, propondo soluções para sua movimentação e organicidade. Este olhar de fora, também somado ao da assistente de direção, foi determinante quando me vi em cena, cumprindo a leitura das rubricas.

O trabalho dos atores foi muito solitário durante todo o processo. A eles foi exigido bastante no sentido de se reconhecerem como autores e menos como meros executores de algo por mim previsto. Nesse sentido, nas últimas semanas, com novas cenas e ajustes de inúmeros momentos do espetáculo, foi interessante observar como essa autonomia havia sido conquistada e como a dramaturgia individual de cada personagem era defendida por seus intérpretes. Havia a tal negociação invisível, havia um acordo que se efetuava nas coisas mais simples e nas mais complexas. O olhar, a escuta e a generosidade de um com outro. Nesse mesmo sentido, destaco todo o trabalho e diálogo com a assistente de direção. Convidei Thaís Barros no início de 2011 e estivemos juntos desde então, num diálogo ininterrupto sobre os conceitos, a dramaturgia, os atores e as proposições para cada ensaio realizado. Barros não se privou de expor suas opiniões e o encontro com sua maneira de olhar nosso trabalho foi determinante porque era sempre pautada numa busca incessante por maneiras mais eficientes e sensíveis de se expressar o que importava ser expressado ou de revelar o que precisava vir a tona. Barros esteve em sala de ensaio com os atores, guiando ensaios e propondo exercícios bem como esteve fora dos ensaios, junto a mim, desbravando possibilidades para a dramaturgia.

Desde o início, tive o cuidado de realizar reuniões coletivas com o cenógrafo (Leandro Ribeiro) e a dupla de figurinistas (Isadhora Müller e Marina Dalgalarrondo). Nestes encontros, conversávamos sobre O Anti-Édipo e trocávamos referências e impressões, especulando possibilidades e maneiras de expressar a dramaturgia ainda em criação. A orientação de cenografia e indumentária foi realizada sem a minha participação. Tanto cenógrafo quanto figurinistas levavam questões até seus orientadores e a partir desse diálogo realizavam novas apostas. Estiveram presentes em inúmeros ensaios e sempre trazendo consigo objetos e vestimentas que pudessem ser utilizadas pelo elenco. Para além da criação dos figurinos, Müller e Dalgalarrondo também se responsabilizaram pela criação e execução da caracterização das personagens. Naturalmente, todo o processo de concepção do visagismo começou a ser pensado depois que a dramaturgia começou a ser entregue.A seguir, teço alguns comentários sobre a caracterização (figurino e visagismo) de cada personagem:

CÉLIA [Adassa Martins]

Célia é uma criança com sete anos recém-completados. É também uma criança que perdeu o olho esquerdo, motivo pelo qual usa um tapa-olho. Todo o processo de criação desta personagem partiu do princípio de que ser criança não é imitar uma criança. Para nós, o importante era a atriz experienciar o jogo do ser criança, que realmente joga com o mundo e suas relações. Assim, não coube a indumentária – assim como não coube a atriz – imprimir uma lógica/visualidade infantil. Este dado, a saber, o de Célia ser uma criança, está presente desde o início do espetáculo. É uma informação defendida e desdobrada pelo própria discurso e ação da personagem no correr da história.

A aposta da indumentária foi um vestido inteiriço, longo e cinza. Tal proposta coloca a criança num lugar mais sóbrio e sem excessos, ao mesmo tempo que brinda a atriz com um caimento da vestimenta que ressalta o seu movimento (a base do vestido se abre quando a criança gira ao redor do próprio eixo). O cabelo da atriz estava maior durante o processo de criação. As figurinistas optaram por cortar uns dedos, revelando o rosto de Adassa por completo para, em seguida, marcar alguns fios, trazendo também ao cabelo um pouco de ondulação e movimento.

CORLEY [Andrêas Gatto]

A peça começa no exato instante em que Corley perde o seu filho, Tomas, também com sete anos. Corley sempre nos sugeriu um lugar muito asseado, sem barba ou com a mesma bem desenhada. As figurinistas trouxeram um figurino mais justo ao corpo, por interpretarem este personagem como um homem de família só porque cresceu, conservando um espírito infantil muito acentuado. Assim, a calça é bem justa ao corpo, como a camisa social. As meias aparecem quase por completo e nos joelhos, vemos marcas do ajoelhar ao chão (provavelmente para brincar com o falecido filho).

A barba grande traz a sensação de descuido, natural por ter perdido seu filho. É um dado explicitamente “exagerado” e que não faz sentido na cronologia do espetáculo. Toda a peça se desdobra em apenas sete dias. A barba do ator estar propositalmente muito grande é unicamente para instaurar – de imediato – certa desordem no estado desse pai. Ao fim do espetáculo, esta desordem é ainda maior, em virtude do jogo cênico com outros atores (sobretudo sua esposa – Moira – e o espírito de seu filho – Tomas).

EVA [Virgínia Maria]

Para compor Eva, recém-nomeada diretora de uma escola municipal, as figurinistas partiram do próprio ar que a personagem transpira. Eva é uma mulher ambiciosa e que pouco se importa com opiniões divergentes da sua. Ela está vivendo um momento de grande reconhecimento profissional, sendo ainda mais intolerável e autosuficiente.

Assim, o figurino é uma roupa social, com uma saia que no correr da peça vai sendo cada vez mais apertada ao corpo, limitando os movimentos da atriz. O cabelo recebeu um cuidado especial: há um aplique sobre a cabeça que cria um coque. Eva utiliza pequenos brincos e também sapatos mais altos (que marcam com o som cada um de seus passos).

FRANKLIN [Dan Marins]

Franklin é um oncologista, especializado no tratamento de tumores. Toda a criação desta personagem partiu certa assepsia, ou melhor, de um cuidado com o corpo (unhas, cabelos, pêlos...). O ator teve sua barba e cabelos completamente raspados. Sua cabeça recebe a luz dos refletores como uma página em branco e isso reflete bastante o espírito desta personagem que acabou de perder o pai, vítima de câncer.

A aposta do figurino foi para o branco. Aliás, toda a indumentária do espetáculo foi criada num entre preto e branco, com escalas de cinza, chumbo e gelo. O figurino de Franklin é justamente o contrário do outro pai da peça, Corley. Enquanto este possui uma vestimenta mais apertada, com Franklin vemos um homem de família, médico e pai, com um espírito cansado, querendo alforria de si mesmo. O figurino maior, quase frouxo – com mangas compridas para além das mãos – ressalta essa sensação de inadequação que Franklin parece estar sentindo em relação a si próprio e ao mundo.

KEVIN [Márcio Machado]

Protagonista desta tragédia, Kevin é uma criança de nove anos. Assim como o trabalho realizado na criação de Célia, também aqui o ser criança é fruto mais da experiência vivida pelo ator do que pela imitação de uma criança. Kevin é a personagem que é tomada por um desejo que a consome, tão logo a peça começa. Ele pede a mãe em poucos minutos de espetáculo: mãe, quero virar música. É a partir do seu desejo – por conta da peça teatral que começa a ensaiar na nova escola – que a ação da peça se desdobra e acontece plena.

No entanto, o destino de Kevin já está escrito. Ele não sabe, mas nós – criadores – sabemos que no término da peça Kevin será protagonista de um assassinato. Há aqui uma escolha muito diferenciada quanto a composição do seu figurino. Nos espetáculos anteriores, sempre me vi pensando como não antecipar aquilo que vai acontecer lá na frente. Mas aqui, neste, Kevin é desde os inícios essa criança já de luto. Seu figurino – o mais simples, na minha opinião – é todo preto. Uma camisa basica, uma calça com as pernas enroladas, formando uma bermuda somada a meias e sapatos pretos.

Caso a interpretação do ator, o discurso da personagem e suas ações sugerissem luto, introspecção e solidão, talvez a escolha do figurino se revelasse inadequada ou mesmo literal. A questão é que, ainda vestido dessa forma, Kevin é apenas uma criança e se move pelos diversos lugares que o ser criança costuma se mover. Há cenas em que está irritado, outras em que está feliz e mesmo engraçado. Há um gráfico dramatúrgico que lança a personagem em diversos lugares e que, por conta desse movimento, amenizam uma leitura que se completa apenas no fim do espetáculo: a de que, talvez, nós adultos estejamos expropriando a infância de nossas crianças, trazendo consternação a corpos que, a princípio, se destinam primeiro ao jogo.

MOIRA [Laura Nielsen]

Moira, como Corley, também acabou de perder o filho (levado aos céus por balões de gás). Sua caracterização é a mais complexa, recheada de camadas, assim como a personagem, movida por dissimulações e mentiras. Durante a criação, as figurinistas chegaram a propor uma espécie de sobretudo preto e feito com uma série de sobreposições de tecidos sintéticos, criando uma espécie de capa que insinuava certa maldade a personagem. Optamos, por fim, em não rotulá-la dessa maneira: Moira é apenas uma mãe desesperada, que acabou de perder o filho.

Assim, um simples vestido, cinza (mais escuro que o de Célia) e sapatos baixos. Porém dentro, uma barriga falsa, recheada com uma espécie de varal no qual se costuram roupas de criança (provavelmente roupas de Tomas, seu filho morto). Este simples figurino é, no entanto, espaço propício para que a atriz desdobre o horror da personagem. Nada em Moira se antecipa ou chega atrasado: desde o início ela é aquilo que vai ser até o fim, quando morre assassinada por Kevin.

Para o visagismo, uma elaboração maior foi feita a partir do que o texto nos fornecia: o fato de Moira estar parada sobre o telhado de sua casa, desde o segundo em que seu filho subiu aos céus. Por conta desta estagnação que consome a personagem, as figurinistas propuseram uma maquiagem que estivesse se perdendo no correr do tempo. Há na boca um resquício de batom, que sobrevive apenas como um contorno dos lábios. Há no olhar uma maquiagem preta borrada (pelo choro ou pela chuva) e Moira, como presente na dramaturgia, surge com os cabelos desgrenhados.

TOMAS [Gunnar Borges]

Tomas é a última criança da peça, que surge apenas para dar o seu relato de morte. Diferentemente do processo de criação das duas outras crianças (Célia e Kevin), aqui apostamos num lugar mais comum para a composição da criança: o ator usa um pijama de criança que, naturalmente, fica menor em seu corpo, expressando a possibilidade dessa criança ter crescido para além do permitido.

Em questão se coloca a educação dada aos nossos filhos. A mãe de Tomas, Moira, sem dúvida alguma é mãe cheia de paparicos e que excede a medida da educação, fazendo de seu filho uma criança que não se renova nem atualiza. As roupas todas que ela coloca em sua barriga para simular uma gravidez são também menores do que aquelas que poderíamos julgar caber numa criança de sete anos. A imposição de que o filho é sempre nosso filho, neste espetáculo, é visto como um agravante na relação familiar.

Para fechar o visagismo, encontramos no ar (ou no céu) o elemento capaz de expressar o horror desta situação de estar preso a balões vagando solitário e perdido. Assim, o penteado realizado no ator permite que vejamos o seu cabelo quase sempre num comportamento muito aéreo, se movendo quando o ator se move, em plena respiração.

Ao mantermos a barba e os pêlos do corpo sugerimos que as crianças estão crescendo. Também de forma explicitamente exagerada – ou seria expressiva? – os pelos traduzem o crescimento que os pais querem acreditar não ter chegado: pois depois que o filho cresce, é natural e inevitável que vá querer partir de casa.

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Capítulo 9 do Memorial do Espetáculo, entregue como conclusão da disciplina Projeto Experimental em Teatro

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

SINFONIA SONHO

Cosmogony

Björk

Heaven, heaven's bodies
Whirl around me
Make me wonder

And they say back then
Our universe was an empty sea
Until a silver fox and her cunning mate
Began to sing a song that became
The world we know

Heaven, heaven's bodies
Whirl around me
Make me wonder

And they say back then
Our universe was a coal-black egg
Until the god inside burst out
And from its shattered shell
He made what became
The world we know

Heaven, heaven's bodies
Whirl around me
Make me wonder

And they say back then
Our universe was an endless land
Until our ancestors woke up
And before they went back to sleep
They carved it up into
The world we know

Heaven, heaven's bodies
Whirl around me
Make me wonder

And they say back then
Our universe wasn't even there
Until a sudden bang
And then there was light, was sound
Was matter and it all became
The world we know

And heaven's bodies
Whirl around me
A dance eternal

 

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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

ref. cenografia


02holl-6006a00d8341c78bf53ef00e54f5610118833-640wi124ROBERT WILSONRobertWilson

leandro,

são fotos de montagens dirigidas pelo robert (bob) wilson. me chamam a atenção pela moldura. pela iluminação (sempre). sua cenografia (não sei quem assina, creio por vezes que seja ele) está sempre muito emaranhada à iluminação. gosto do uso das formas. gosto de como a luz cria formas com o próprio corpo (como na última foto).

são fotos quase que aleatórias. mas em todas é possível localizar uma maneira muito específica de se lidar com volume, forma e luz. enfim,

é seguir.

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domingo, 14 de agosto de 2011

2 \\

12 de agosto, Colégrio Andrews, 20h/22h
Adassa, Diogo, Thaís, Dan, Andrêas, Márcio, Virgínia e Laura

COMPOSIÇÕES 02
> tema específico
> é um ponto de vista da sua personagem
> duração máxima de cinco minutos
> referências: suas três postagens (dos meses de abril, maio e junho de 2008)

CÉLIA 02

dispositivos: tamborete pequeno, colar, cachecol preto, meias pretas, papel, ziploc com tangerinas peladinhas, casaco preto;

célia guarda coisas no corpo, papéis.

ela arruma cada uma das coisas que dispôs no chão. tudo tem cores pretas. quase tudo. ela coloca o bolerinho preto, depois o colar (gigante), ela se enrola num lenço preto. ela está se divertindo, sóbria, com tal jogo. ela coloca uma meia, ela coloca a outra. as meias, na verdade, são azul-marinho. a criança sabe que tem gente a assistindo. não tem quarta-parede quando é com as crianças?

ela segura o ziploc com a boca enquanto arruma o cabelo. tira um elástico do pulso. e começa a correr alegremente enquanto mastiga tangerinas, muita empolgada, engasga um pouco, dança, canta, não se entende, é uma lista, o que é?, ela tosse, quase engasga, quer dizer algo.

abre a porta e grita algo pra fora

bacon não, porque agora eu sou vegetariana. na movimentação frenética pelo espaço encontra um tamborete pequeno, de kevin, e sai correndo gritando kevin, para entregar ao irmão, ou para brigar com o irmão. já fora da sala, deixando a porta aberta, célia grita. grita muito. grito de dor. horror. pavor. aconteceu alguma coisa.

ela volta chorando, com uma venda preta nos olhos. chorando muito. soluçando. grita, enquanto move as mãos na altura dos olhos. como se tentasse ver e percebesse não haver mais essa possibilidade. desespero total. duração. a composição demora a acabar. como lidar com essa dor, com esse tipo de acontecimento, sem fazer dele videoclipe?

CORLEY 02

corley rodeia o semi-círculo, como um cachorro, de quatro. de costas, se vira, mirando laura, no semi-círculo, se aproxima lento com a mão erguida. ele nos dá aquilo que parecem ser indicações:

quando atravessar a rua, tome cuidado, os carros hoje em dia correm…
o sinaleiro, fica mais leve quando venta…

uso das postagens. eu gosto de sair com você pelas ruas, gosto de roçar o braço no seu casaco. é lã, é bom e aquece. nesses dias faz tanto frio. deve ser por isso que eu quero tanto te dar um abraço.

abraça a mão, de costas para laura. ele está falando do casamento. dá uma cambalhota, se recolhe no canto. deita. com a barriga pra cima, como se tivesse bêbado.

é o que eu digo. falo pro meu filho seja isso ai mesmo que tu quer ser, cara, até porque essas crianças inventam cada coisa que se eu for parar pra ficar pesquisando se é certo ou errado. é o que é. simples, não é? é que se me deixar eu esqueço de me lembrar que há amor entre dois amantes. não posso.

por que corley fala tanto “não posso”? tenha a sensação de que ele havia falado isso na composição primeira. especular.

EVA 02

franklin aguarda sentado numa cadeira. eva abre a porta. oi, tô interrompendo? só pra vc escutar, me fala o que vc pensa. imagina as crianças todas aqui na minha frente, tá bom? depois vc me fala o que vc pensa, tá bom?

é um bom jogo metalinguístico. para inserir o público e logo em seguida, tendo-o usado, supor que as personagens não estivessem de fato percebendo o público ali.

bom dia a todos, é uma alegria enorme estar aqui. eu sou miss eva e a partir de hoje eu sou a nova diretora de vocês. chegar a esse posto com 35 anos é algo… nesse desafio, eu não tô sozinha… célia, aquela menina de cordãozinho. kevin, o menino mais obstinado. e franklin, meu marido, frank, meu companheiro de todas as horas… EVA É QUASE DEMAGÓGICA. É? quando eu vejo o rosto de tantos jovens cheios de alegria… sim, eu já tive a idade de vocês… esse lugar que pode ser acolhedor e tão hostil, não é mesmo? eu gostaria de dizer que vcs não estão sozinhos… e eu acredito que juntos não temos nada a temer. obrigada mais uma vez por tornar esse sonho realidade.

por que é que tenho a sensação de que o casamento de franklin e eva também está em crise? rever essa possibilidade. não acho que precise ser. mas, é seguir escrevendo possibilidades.

FRANKLIN 02

dispositivo: cadeira, paletó verde, eva, papéis;

quadrado cênico cujas arestas somos nós.

eva está sentada numa cadeira, na qual resta o casaco.

quando eu… isso aconteceu umas vezes comigo. hoje não acontece muito. aconteceu muitas vezes, de eu estar dormindo e acordar meio dançando. um movimento meio espiralado. a pessoa dormindo. eu chamo de dança, né? de repente eu tô até fazendo mais, mas sempre como se eu estivesse dançando. ai a dança acaba e vira só aquela sonolência. aquele acordar mesmo.

ele no chão desenha com o corpo a coisa de estar dormindo e acordar dançando. é muito curioso que o pai de kevin acorde querendo dançar. talvez agora se perceba algo que seja genético. enfim, não sei.

temática dor desespero. tem uma postagem no mês de julho no lendo árvores que é “temática do desespero”. será que foi antecipada? ou já havia sido dita em composições anteriores?

senta no chão para colocar os tênis.

eu amo tanto os meus filhos que viveria eu e eles apenas. o mundo nos dá morada. do mundo retiro aquilo que me alimenta. amo tanto os meus filhos. que viveria eu e eles apenas. o mundo nos dá morada e do mundo retiro aquilo que me alimenta. amo tanto…

ele simula um abraço em eva, mas era só para pegar o casaco que resta na cadeira, atrás dela. ele agora de casaco, mexendo em papéis. tosse quase sem fim. é o ator ou a personagem?

temática dor desespero. novamente, duvido.

assiste ai, a gente fuma uma cigarrete, a gente toma uma parada de café, ah?

eu tô desempregado, você me emprega, oncologia, medicia na fuc, depois me especializei em oncologia cerebral apostólica romana. eu tô desempregado você me emprega? assiste ai, me convide pra passear, a gente fuma uma cigarrete…

o meu coração está partido em quatro partes. de dentro parte uma mangueira uma aorta que leva e traz desassossego.

querida, hoje foi um dia difícil, mas amanhã talvez eu possa encontrar… tem um primo meu que tem um posto de gasolina. talvez nesses primeiros momentos. vou dormir.

e, então, franklin dança. é curioso. é curioso. seguir desbravando.

MOIRA 02

dispositivos: bolsa, aparelho de som, vários porta-velas distintos, caixa de fósforo, caixa com incenso, porta-retrato com pai mãe e filho, vestido florido, uma plantinha de mentira também já usada, batom;

ela entra feliz e saculejante. deixa a bolsa. deixa o som. deixa a flor falsa. liga o som, tudo muito rapidinho. meio que dança. da bolsa, tira porta-vela, depois outro porta vela, depois outro. tem dúviidas sobre o posicinamento. mais uma vela. caixa de fósforo, incenso. a foto da mãe com o pai e com o filho.

cantarola durante todo o tempo. o jeito de encostar a bolsa na parede. aqui reside o jogo da duração. ela foi com tudo e parou de brusco, imprimindo à ação um gráfico imprevisto. que captura a nossa atenção e surpreende.

batom, passa batom, perfume. cantarola ainda quando passa o batom. passa batom nas bochechas e se estapeia levemente. acende uma vela, depois outra. troca o fósforo, acende mais uma.

ah!!! comemora quase silenciosa, é o incenso. passa o incenso por todo o espaço, meio descontrolada, quase dança

moira cheguei, ouve-se andrêas dizer

amor, espera ai um pouquinho.

fala tudo gemendo. isso é muito bom. moira geme de pavor ou desejo? ansiedade total. cara de sapeca enquanto seduz, ou tenta, o marido. dança quase sobre as velas. ela é daquelas que poderia pôr fogo na casa inteira só com velas de aniversário.

dança, dança e descobre que o marido não a tinha visto. ruína total.

JOGO DO CINTO DE SEGURANÇA

aqui se anuncia uma primeira tentativa de negociação invisível. ressalto que o objetivo não é rir. não é se divertir. como jogar o jogo ciente de que as regras são o caminho? como seguir o jogo confiante nos limites e dentro deles se jogando? apesar de a cena sugerir ser um lugar de divertimento, expansão, tranquilidade… não se trata disso neste projeto. a matemática, a precisão, precisam ser levadas à risca.

o jogo acontece pleno quando nenhum de vocês consegue se erguer, nem sequer se mover. é treinamento de escuta. de olhar periférico. de soft focus.

seguir tentando.

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sábado, 13 de agosto de 2011

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11 de agosto, Colégio Andrews, 20h/22h
Diogo, Andrêas, Laura, Márcio, Thaís, Virgínia, Dan e Adassa

COMPOSIÇÕES 01
> tema específico
> é um ponto de vista da sua personagem
> duração máxima de cinco minutos
> referências: três postagens (dos meses de janeiro, fevereiro e março de 2008)

CORLEY 01: "Os novos vizinhos"

dispositivos usados: remédio;

me chama atenção o uso das direções (ele pra frente, para um lado, para outro, de costas). o movimento em eixo que sugere um constante enrolar de si próprio. riso, choro, grito – medicação. para seguir fingindo ser possível isso que parece explícito ser quase impossível de tolerar.

o meu amor está fatigado. e o que eu faço: tomo um medicamento para encontrar nisso talvez algum entorpecimento, alguma anestesia, alguma solução. o meu amor está fatigado. sorriso forçado. pra onde ir?

EVA 01: "Acabei de ser nomeada Diretora da Escola Municipal Ensino Fundamental"

dispositivos: pequeno espelho, pequeno relógio, pequena tela (seria um televisor?), filme (THE BLACK SWAN), telegrama, cadeira, pequena mesa;

rugas, olhos, pescoço, as marcas, ainda estão por aqui?

o telegrama é entregue. obrigada. os olhos piscam muito. a respiração fica cada vez mais opressa. na carta, no telegrama, alguma frase de A LIMPEZA DAS HORAS. e também você acaba de ser nomeada…

ela se volta ao televisor. ela chora junto com o drama ali passando. como editar a duração da vida? ela desliga o televisor.

FRANKLIN 01: "Sobre tumores"

dispositivos: escuridão;

ele no canto da sala. retira a camisa. fica apenas de calça. é um improviso. não sabia meu nome. o que pode ter feito franklin falar sobre isso? que assunto é esse?

espanto, surpresa, orgulho, consternação? como você cresceu, filho. o pai aprova qualquer decisão do filho, qualquer coisa. ele é um oncologista, ele diz, desde criancinha quis ser isso e seu pai, já falecido, foi comido por um câncer.

a voz embarga. on-on-onco-oncologista. ele diz ao filho que ele tem liberdade para ser o que quiser. ele afirma sempre querer ter sido oncologista. a repetição ao invés de tornar a fala incontestável, só a torna ainda mais duvidosa.

ele gagueja. ela muda de assunto. ela fala a minha mulher é uma grande mestra. esboço dos horrores que estão por vir. às vezes eu sinto umas dores que se eu acreditasse em alma. diria ser uma dor em alma. a calça (elástica) estala sobre o corpo.

quais outros tumores existem soltos (e em proliferação) por ai?

KEVIN 01: “Eu tenho nove anos de idade”

dispositivos: pequeno bicho de pelúcia;

o andar de kevin. o olhar. o corpo imenso mas a alma de criança. alma encantável. cuja atenção ainda não foi expropriada. ele avança para ver se tá chovendo. é isso? estica as mãos, os olhos tateiam o céu.

de dentro deste corpo calmo e possível, saltam faíscas de curiosidades irrevogáveis. ele lambe a gota da chuva que não vemos cair. ele lambe a gota limpa a mão contra o peito e espia, brevemente, para ver se a sua ousadia possa ter virado encrenca.

ele chama a pelúcia, ainda ali quieta. paciente. imóvel. cristina, você me dá tanta coisa mas eu acho pouco. ainda assim eu acho pouco. mas, não desanima não, é só você me dar um pouco mais.

cristina, você me adula tanto que… mas não desanima, é só você me adular mais um pouquinho que ai fica gostoso. cristina, você é tão bonita, mas eu não te elogio, né, cristina? mas, não desanima não. é só você se enfeitar mais um pouquinho. uma vaidadezinha maior.

há um desânimo em kevin, apesar de seu corpo se esticar, se alongar, assumir as posições da sua impaciência. que que foi, cristina? fala o que você tá pensando. por um segundo ela na mão dele parece que vai falar. ele cola o ouvido no brinquedo e, de súbito, kevin fala como se fosse cristina.

eu sou assim e é desse assim que ele não gosta. CAFÉ AOS PEDAÇOS.

kevin desenha, com movimento e sonoplastia, o suicidar-se de cristina. que vai direta e reta ao chão (faz uma pausa no meio) e segue, quicando ao bater no chão, se ralando na parte final do percurso para, enfim, morrer.

MOIRA 01: "Os novos vizinhos"

dispositivos: lençol (ou toalha de mesa?), livro auto-ajuda, porta-retrato pai mãe e filho; bolsa florida de pano; luminária fria acesa; relógio, pipoca, lata de coca-cola zero, copo de vidro, binóculos;

moira deitada de barriga pra cima. a sua inspiração parece sugerir alguma gravidez que some ao se expirar. ela acorda de súbito, tinha dormido com o livro sobre a cabeça. moira ronca um pouco. parece ter dormido enquanto lia.

ao acordar, de súbito, retira da bolsa um binóculo. e passa a mirar o céu. estaria à procura do filho? erguida sobre a cama, mirando a janela? estaria sobre a mesa de jantar, persistente?

o barulho do lado de fora, sugere-se, atrai sua atenção. ela encosta-se à parede para escutar as crianças vizinhas. quase que se pode, via sua hesitação, sugerir que ela se pergunta são crianças, esses novos vizinhos?

fica feliz. tira a pipoca da bolsa. come. ri, quase levianamente. neste instante, em que ri e mastiga ao mesmo tempo, escrevo no caderno: ela é capaz de roubar uma criança. tira uma lata de coca zero, encosta-se mais à parede. comemora os vizinhos. curiosa, tira um copo de vidro e ausculta a parede inteira.

interrompe. volta a ler AINDA EXISTE ESPERANÇA, que pelo título parece ser algo de auto-ajuda, algo religioso. ela lê, em voz alta, sobre uma forma de encontrar a felicidade… seguindo as boas aventuranças de jesus…

moira se autosufoca com o livro na cara. o lençol sobre o chão resta mexido.

CÉLIA 01: "Eu sou irmã de Kevin"

dispositivos: papéis dobrados, fita crepe na parede, papéis escondidos nos bolsos;

arruma os cabelos, mãos calmas. “saúde” para o espirro fora da composição. célia é uma máquina desejante? ofegante. lê um poema, da rita pedreira. célia muda da água pro vinho, do oito ao oitenta. eu sou irmã do kevin. desenhos feitos em pedaços de papel já usados. rascunhos. traços fortes e a cor comendo solta. muita cor. muito sangue do olho saindo.

laura pergunta sobre o desenho: ela chora sangue?

pirraça maior do mundo: sumam todos daqui! bate os pés no chão. tenho a sensação de que as articulações do corpo todas se gastaram em um único segundo. muita força contra o chão. muito atrito. célia é insuportavelmente irredutível.

ada disse à pergunta de laura: é o olho.

o olho de célia é uma torrente e não uma peça sólida. ele escorre pelas coisas, ele pertence ao mundo.

COMPOSIÇÕES 02
> tema específico
> é um ponto de vista da sua personagem
> duração máxima de cinco minutos
> referências: suas três postagens (dos meses de abril, maio e junho de 2008)

KEVIN 02: "De súbito, de uma hora para outra, de repente..."

dispositivos: meia listrada vermelha, camisa listrada vermelha, bermuda preta,c adeira, mesa, jornal, banana, toddynho, canudinho do toddy;

acabou de acordar. mão no rosto. muchochos. kevin é calmo, paciente, lê jornal. cresce o interesse. com calma e atenção. horóscopo. ele lê escorpião. cada palavra parece nascer ali na nossa frente. as que ele não sabe, ela guarda ainda sim com ele. e ter diplomacia para não gerar conflitos. ele rasga com calma o horóscopo de escorpião, molha com toddy e cola à testa.

seu olhar por vezes busca para ver se há alguém espiando a sua brincadeira. ação de criança é sempre brincadeira? é sempre jogo? vejo um corpo sem órgãos. menos máquina desejante, neste momento.

de súbito, de repente, de uma hora pra outra, engole a banana toda – com casca – para dentro da própria boca. e como se tivesse uma manivela do lado esquerda da cabeça, ele vai girando-a e da boca dele vai saindo e caindo sobre o jornal na mesa o que restou da banana destruída.

ele se limpa. é asseado. ele enrola toda a sujeira dentro do jornal e grita já acabei. e volta a tomar o toddy.

LEITURA DO PROJETO

o projeto é uma busca de todos nós, peças dessa criação. não é só um roteiro que o diretor procura seguir, é também espaço no qual muitos pontos já estão dados, esperando por corpo e encaminhamento. sobretudo no tópico OBJETIVOS, sobretudo em se falando de METODOLOGIA (criação da dramaturgia e da cena): tudo isso é preciso que seja comprado desde já.

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quinta-feira, 24 de março de 2011

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

kilian rüthemann

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As obras acima são de Kilian Rüthemann
Fonte: 
http://acidolatte.blogspot.com/2009/10/kilian-ruthemann.html

sebastian wickeroth

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As obras acima são de Sebastian Wickeroth.
Fonte: 
http://acidolatte.blogspot.com/2009/10/sebastian-wickeroth.html

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

trilhas... sonoras

que engraçado. é sempre muito incrível a especificidade de cada obra. estou adaptando o romance e pela primeira vez, algum trabalho meu me solicitou de primeira: trilha sonora. a minha relação com trilha nunca foi muito direta, sempre fico esperando uma exigência pelo som, mas ela quase nunca vem. mas agora, lendo as coisas escritas, pensando nisso tudo, eu só consigo ver ouvindo. eu só consigo ver o que estou escrevendo como canto - dentro de uma longa partitura musical.

devo dizer, parece fútil, mas me vem em primeiro lugar a elegância. as notas precisas que criam o ambiente sem nada, quase sem nada. a elegância da iluminação que junto ao som harmoniza e transtorna a nossa percepção. eu tenho pensado, as descrições do romance são escritas em cena sim, mas talvez pela luz e pelo som. pela composição - em camadas - do espaço sonoro e visual. mas a princípio está tudo vazio. tudo vazio.

sim, posso também pensar em adorno. a trilha é aquilo que dá a costura, que dá o enfeite mais preciso e formal. não há problema nisso, é sim também uma composição que visa adicionar à cena camadas novas de informação e sentido. é hora de começar a ouvir as trilhas dos filmes. remexer os cds e achar outras trilhas já esquecidas. ir pensando nos instrumentos. nas composições. em quem poderá se unir a nós e embarcar nessa trilha...

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Diogo Liberano

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

banks violette

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As obras acima são de Banks Violette.
Fonte: http://acidolatte.blogspot.com/2009/05/banks-violette.html

alejandro almanza pereda

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Os trabalhos acima são do artista Alejandro Almanza Pereda.
Fonte: acidolatte.blogspot.com/2010/12/alejandro-almanza-pereda.html

quantas mães cabem numa só?

é possível que eu tenha que ceder dessa vez. isso de, por ser homem, e usar a noção de paternidade está para mudar. sou também mãe. e estou aqui pensando - em paralelo aos personagens do romance - quantas mães podem haver dentro dessa peça de teatro?

em VAZIO É O QUE NÃO FALTA, MIRANDA, as atrizes estavam em cena tentando montar cenas e eu, diretor do espetáculo, também em cena estava, tentando junto a elas assinar a autoria, ser pai (ou mãe), enfim. mas agora, com esta montagem, tenho pensado em lançar tudo para o espaço da cena e me tirar dela. o que não quer dizer que não possa existir algo meu ali em cena, convertido num personagem.

eu estou pensando. temos a mãe de K. temos o narrador da história da mãe de K. e temos os atores que interpretam os personagens (como o próprio narrador, a própria mãe, o próprio K. e todos os demais). ou seja, a ficção se constrói aos poucos. temos primeiro os atores em cena. dali, um decide interpretar um personagem e nele se agarra, do início ao fim ele o será e ponto final. eis uma possibilidade. podemos ter outro ator que se agarre noutro personagem, que é justamente aquele que comenta todos os outros, mas não como um diretor o faz e sim como um autor. estamos contando uma história e o seu ator pode estar ali, revelando a relação paternal entre criador e criatura, entre artista e sua obra. eis outra opção. e há ainda aquela já tão desbravada em MIRANDA, do ator em relação com seu próprio personagem, sendo ele e sendo a si próprio e se confundindo e virando um híbrido sobre o qual já não sabe mais discernir nada. eis outra opção.

penso que possa ser interessante - a partir da confusa especulação feita no parágrafo anterior - multiplicar as mães possíveis dentro dessa obra. multiplicaremos assim, também, seus filhos. e o tal K. personagem, é também K. peça de teatro. é também K. personagem. ou seja, são mais pontos de vista que podemos traçar em cena. mais olhares que podem se cruzar e se problematizarem. ou seja, o que teremos enfim será um tiroteio em meio ao qual a verdade nasce toda flechada. talvez seja isso, não? o meu objetivo?

mas, no entanto, veja bem - não desejo especular dessa vez a linguagem teatral. não desejo falar do ser ator, desejo falar do ser autor - talvez por isso a predileção pela narrativa posta em cena. (ainda que saiba plenamente que nesse espetáculo o ator é autor, o diretor é autor, o autor é autor e a luz, cenário, trilha, figurino, ..., também o são). a reflexão que quero fazer saltar é sobre as relações de criação. tanto no sentido dos pais que criam um filho, como do artista que cria uma obra. e tudo isso para contar esta primeira história, que é a da criação de um filho por sua mãe. esta história é a primeira e sob a qual toda reflexão nascerá.

repito: a reflexão que quero fazer saltar é sobre as relações de criação. só que todas, nessa peça, são ficção. desde o narrador que conta a história. desde os personagens que vivenciam. desde a dúvida quanto ao seu papel - não por ter que interpretá-lo - mas por ser um dado papel algo que assuste, que seja de difícil compreensão ou aceitação. tudo serve para contar a história e para desbravá-la. nada para mostrar para nós, espectadores, como é difícil criar. não é isso. a dificuldade está, antes, em ser humano e em processar essa existência.

acho que começo a entender algumas coisas.

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Diogo Liberano