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sábado, 19 de março de 2011

desejo amorfo

eu me provoco tanto quando começo um novo projeto. quando eu estou criando eu me vejo apontando para mim mesmo as armas mais poderosas. eu de fato me lanço em meio ao fogo e sem muitas chances de escapar. eu me faço o pior. talvez para não doer tanto quando alguém me fizer o pior. mas não é verdade. eu me lanço no pior porque o pior me chegou como nome e não feito toque. o pior me chegou pronto e quem sabe de fato o que é o pior? eu quero saber. eu não quero me privar.

este projeto nasce da necessidade extrema de contemplar desejos. de ir inteiro e direto rumo ao centro de cada furacão que nos rodeia e desorienta. é um projeto que visa a destruição do aprisionamento. um projeto que fala, não de liberdade, mas de tudo aquilo que vem quando a liberdade nós já temos. então, há um nível zero que precisa se estabelecer. é preciso estar livre, ser livre, para se permitir ser outra coisa que não sabemos ainda qual vai ser.

como eu disse anteriormente, as aulas começaram e eu aqui - ainda bem - começo a escrever mais e mais em virtude das exigências curriculares. para a próxima quinta estou estudando as referências. listando tudo e voltando lá nos inícios para ver o que talvez já esteja esquecido.

calma.

essa palavra resolve alguns minutos. porque eu me vejo indo sem freio e dessa vez eu me digo: calma. assim, sem exclamação. é só porque com a calma eu tenho tempo para ver as coisas acontecendo. sem tanto furor. olhar clínico e atencioso sobre as coisas. olhar paciente que vai direto, mas só depois de ter recebido. não há desespero, há comunhão. este projeto que não se sabe ainda o que será, reside bem na sua incompreensão. ele sabe que de incompreensão não há só a dele no mundo. ele sabe que incompreender é antes de tudo, sentido.

também para esta semana eu devo escrever um texto sobre os meus desejos em relação ao projeto. estou já aqui especulando que neste texto haverá o desejo, que se manifestará por meio de muitos outros, por meio de vários tipos e gêneros. há os de ordem estética, os de ordem ética, os de ordem curriculares, de ordem pessoal e os de ordem ficcional. há inúmeros e sem fim. mas eu devo encontrar todos eles olhando para trás e vendo o que já saiu de mim. listar os desejos para encontrar os temas.

encontrar os temas para especular a dramaturgia.

navegar é preciso.

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Diogo Liberano

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

"Aniversário"

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais       copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


15/10/1929


Fonte: http://www.releituras.com/fpessoa_aniversario.asp

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

do mito

O mito é o nada que é tudo. 
O mesmo sol que abre os céus 
É um mito brilhante e mudo - 
O corpo morto de Deus, 
Vivo e desnudo.



Este, que aqui aportou, 
Foi por não ser existindo. 
Sem existir nos bastou. 
Por não ter vindo foi vindo 
E nos criou.



Assim a lenda se escorre 
A entrar na realidade, 
E a fecundá-la decorre. 
Em baixo, a vida, metade 
De nada, morre.



Fernando Pessoa, Mensagem (1934)

terça-feira, 12 de outubro de 2010

desejo intuição

hoje é dia das crianças. que curioso perceber isso logo no exato instante em que penso sobre como começar isto que já estou escrevendo. mas deixo a curiosidade protegida. são todas as coisas que eu não sei e tentar explicar é desde já forçar rubor sobre a potência desse desejo que me faz estar aqui, a especular a própria existência. meus desejos existem para além de suas definições. meus desejos sobrevivem aos limites às regras e são faz tempo meus desejos minhas intuições.

não quero falar sobre o que é. não quero prever o que possa ser. contento-me em começar a esboçar tentativas a estudar descobrir e se engasgar, para ir flertando com o desconhecido, ir juntando pessoas, ir amando a escuridão enquanto corpo já ido, corpo já startado. sim, a sensação é a de começar do zero novamente.

não sei nada, posso até querer saber tudo, mas para além disso, desenho aqui todos os meus sonhos de mundo.

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Diogo Liberano