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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

"Direção e elenco afinados para oferecer ao público um espetáculo embasado e emocionante"

Por Diego Ferreira

O espetáculo “Sinfonia Sonho” é nos apresentado como uma tragédia contemporânea, trazendo a tona uma narrativa que parte do massacre de crianças na Escola Tasso da Silveira, em Realengo e que também dialoga com outros referenciais para a construção da dramaturgia. Em cena, uma criança de nove anos, Kevin (interpretado magistralmente pelo ator Márcio Machado), é tomado pelo desejo de se tornar música, por conta de uma peça teatral que está ensaiando em sua escola. 

A narrativa que parte deste mote, teria muitos motivos para cair na obviedade, o que o Teatro Inominável consegue subverter através da proposta do espetáculo, em falar de uma tragédia brasileira recente, contemporânea, mas que se utiliza apenas como pano de fundo para recriar a história que já conhecemos. O espetáculo tem a sua disposição poucos elementos cênicos, contando apenas com algumas cadeiras e um linóleo verde-limão no chão (que por sua cor berrante e cítrica carrega a acidez e o estranho provocado em cena), e uma iluminação básica que tem alguns recortes para potencializar algumas cenas. A trilha sonora pontua a cena de modo a criar climas e tensões às cenas, assim como os figurinos, que são cotidianos, servindo para identificar os tipos presentes: pai, mãe/diretora, filho, filha, vizinho, grávida, ... 

A encenação tem muitos fatores que a tornem interessante, além do belíssimo texto e do elenco, mas penso que o que confere qualidade é o modo que o grupo empreendeu na realização, fugindo do teatro realista, construindo um espetáculo que se calca na fisicalidade e teatralidade, as ações partem de partituras físicas que leva o espectador para longe do realismo e pieguice que poderia ser “Sinfonia Sonho”, se fosse construído da forma tradicional. Além de ser um espetáculo físico, também se utiliza de outros mecanismos que provocam um estranhamento a primeira vista. E por falar em estranhamento, Diogo Liberano me leva a lembrar de Brecht, justamente através de sua ação de ler as rubricas da peça durante a sua realização, a sua figura materializada no palco e interferindo na ação, e essa interferência às vezes ou quase sempre é negada pelos personagens, o que torna toda a ação mais interessante ainda. Outra referencia que me lembra de Brecht é a questão do metateatro, da representação do teatro dentro do teatro, a representação de arquétipos, das peças didáticas, encharcando a encenação de méritos. O texto, assim como toda a encenação me fornecem uma série de códigos e signos que me levam a muitos e muitos significados e leituras, mas são signos palpáveis, nem tão subjetivos, nem tão literais, signos coerentes com a proposta. 

Outro destaque é o elenco jovem e disponível, que conseguem construir um espetáculo que é cômico ser cômico, um drama ser precisar mergulhar nos clichês melodramáticos, uma narrativa que emociona e surpreende pela forma como foi traduzida cenicamente. Direção e elenco afinados para oferecer ao público um espetáculo embasado e emocionante. O elenco é coeso, mas destaco o casal de irmãos, interpretados por Adassa Martins e Marcio Machado que conseguem fugir dos clichês em se interpretar uma criança, e passam uma verdade e coerência em suas construções. Os demais atores são muito competentes e estão a serviço da cena. 

quinta-feira, 16 de maio de 2013

SINFONIA SONHO no 8º Festival Palco Giratório (SESC/RS)

Serão apenas duas apresentações, sexta (17) e sábado (18 de maio), sempre às 20h, no SESC Centro, em Porto Alegre (RS). Após a apresentação do dia 17, sexta, haverá o "Discutindo a cena", com mediação de Camilo de Lélis, diretor do Rio Grande do Sul.
 

Informações completas no site do festival:
[https://www.sesc-rs.com.br/palcogiratoriohtml/index.html]
  

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

"Uma narrativa de horror"

Por Ida Vicenzia Flores
(da Associação Internacional de Críticos de Teatro - AICT)

Desde a simples apresentação dos atores no palco, frente a frente com a plateia, qual puros-sangues na pole position, sôfregos para disputarem um páreo - vamos nos preparando, nós, o público, para o que virá depois. Enquanto o autor e diretor Diogo Liberato lê as rubricas, gestos impacientes brotam no elenco, tentando avançar sobre a plateia, mas capturados a tempo. Tudo, no espetáculo, é preciso, medido. Há realmente, impaciência e sofreguidão. E nada do que acontece em cena é aleatório, tudo é sopesado, medido. Aliás, esse é um dos espetáculos mais limpos e precisos, em termos de ação cênica, a que me foi dado assistir, ultimamente.

Estou me referindo a "Sinfonia Sonho" – na qual cairia bem um subtítulo: "uma narrativa de horror". Na cena, nada é negado. Estamos assistindo a jogos infantis, realizados por crianças inteligentes e precoces. Há, no ar, um clima David Lynch. Mas não somos inocentes: só não podemos imaginar o golpe que vai nos ferir profundamente.

Como observei acima, tudo é operado de maneira sistemática, para atingir a perfeição narrativa: bons atores, cenas bem resolvidas, equilíbrio de emoções. O desfecho pega de surpresa? Não. Mas o final é operado por dois atores que representam crianças. E sentimos uma dor profunda. Não é bom relembrar essa dor. No entanto, é vida pulsante, e não devemos nos negar a ela. Quem quiser assistir a um dos melhores momentos teatrais que se apresentam no Rio de Janeiro, ainda há tempo. E a autoria é de um coletivo de atores, em um exercício estruturado por Diogo Liberano, e orientado por Eleonora Fabião. Diz David Lynch: "Se você quiser pegar um peixinho, pode ficar em águas rasas. Mas se quer um peixe grande, terá que entrar em águas profundas. Quanto mais fundo, mais poderosos e mais puros são os peixes". Parece o óbvio, mas é apenas o belo.

Estamos tratando de um ataque - massacre! - narrado ponto de vista infantil. (Desisti de me insurgir contra essa mania que temos de copiar a Matriz, e vou comentar, do ponto de vista bíblico... essa caça aos inocentes) Como é possível, em nosso país tropical, ficarem os jovens atirando com armas de fogo sobre seus iguais? Pura imitação! Só lá em cima mesmo, a quem Deus mandou o Dilúvio... e o comércio de armas! Por que será que o Brasil não tem imaginação? E logo nas escolas, onde se está ensaiando uma peça infantil? "Assim não vai sobrar coleguinha para o elenco", comenta um dos irmãos (não rigorosamente com essas palavras). "Vamos ter que ensaiar tudo de novo!" - reclama o filho Kevin, inteligente e precoce, que foi esperto - segundo a mãe maníaca - ao se livrar a tempo das balas! Há humor negro, também.

Não posso esquecer, de dentro de minha indignação, que se trata de uma tragédia moderna, e das boas. É teatro. E, sem saber quem é quem, neste coletivo (o programa não diz) destaco as interpretações dos dois irmãos, não sabendo qual é o mais genial - quase aposto no filho. Os pais - e o casal desejoso de ser pai - e aquele ator que ronda, sobrevoa, o espetáculo - lembrando, coincidentemente, o filho morto de "Quase Normal". É tudo muito bom. O filho narrando a própria morte, ultrapassa a todas as expectativas do horror. No elenco, atores oriundos da UFRJ, UniRio, UERJ (e, por ordem alfabética): Adassa Martins, Andréas Gatto, Dominique Arantes, Gunnar Borges, Laura Nielsen, Márcio Machado, Natássia Vello, Rodrigo Vrech, Virginia Maria/Marcéli Torquato. Eles já montaram vários espetáculos, e com sucesso. O nome do grupo é "Teatro Inominável". Destaque para Direção de Movimento de Caroline Helena, a quem posso encontrar nas trevas. O cenário de Leandro Ribeiro é despojado, facilitando as cenas através de sua  nudez. E elas, as cenas, posso garantir, são um nó na garganta. Mesmo assim, é bom ver bom teatro.

"O absurdo reconhecido no cotidiano"

Por Soraya Belusi

Foto de Daniel Protzner

“Sinfonia Sonho” (*), como descrito no programa do espetáculo, nasceu do trabalho de formação de um grupo de artistas, então estudantes da UFRJ, cujo processo partiu do estudo do livro “O Anti-Édipo”, de Gilles Deleuze e Félix Guattari, e da adaptação do romance “Precisamos Falar sobre Kevin”, de Lionel Shriver, que, em linhas gerais, tem como fio condutor a narração de uma mãe em busca de entendimento do que teria levado seu filho adolescente a cometer um massacre em sua escola. Casos que, até muito pouco tempo atrás, pareciam fazer parte de uma realidade distante, coisas que só existiriam em países cuja cultura do capitalismo e esquizofrenia (citando os próprios Deleuze e Guattari) chegou a tal ponto capaz de gerar tamanha tragédia.

Mas, no meio do caminho, o coletivo (formado pelo diretor e dramaturgo Diogo Liberano e pelos atores Adassa Martins, Andrêas Gatto, Dan Marins, Virginia Maria, Márcio Machado, Laura Nielsen e Gunnar Borges, além dos professores/supervisores) viu-se atravessado pela tragédia ocorrida em uma escola municipal do Rio de janeiro, no bairro de Realengo, tendo que modificar, assim, seu percurso dramatúrgico inicial. Esse entrecruzamento de camadas entre real e ficcional, de narrativas próximas e distantes, do individual e do coletivo, do comportamento adulto e do infantil, do absurdo e do cotidiano, impregnou toda a linguagem que alicerça o espetáculo – entre o que está longe e perto, entre o quase naturalismo e o total estranhamento, entre a crueza o objetiva das palavras e a existência da poesia.

O retrato antigo de uma família arquetípica é o ponto de partida de “Sinfonia Sonho”, cujo centro do quadro apresenta ao público quatro personagens vendados. Essa composição cênica harmoniosa é invadida e revelada pela entrada de um narrador, que irá nos apresentar, de maneira distanciada e objetiva, quem são aqueles personagens e o que os une ali. É justamente essa presença afastada, de fora de ação, que reforça a ideia tão presente na dramaturgia de quão complexa e impalpável é a tentativa de se explicar a violência e a dor, causa e consequência diretas do impacto de uma tragédia coletiva.  O que o grupo propõe é “uma possibilidade de expressar o impossível”, diz Diogo Liberano no programa da montagem.

A montagem não busca explicar a tragédia, apenas a apresenta, problematiza-a, numa espécie de composição quadro a quadro, em que cada personagem delineia sua melodia no espaço vazio delineado no chão. A economia nos recursos de cenário e figurino permitem uma neutralidade em que se ressalta o desenho corporal e rítmico do jogo dos atores e dos personagens – como na cena de ‘apresentação dos personagens’ em que, numa espécie de dança de mãos, eles se contém uns aos outros para que não possam sair de seus lugares ou realmente se revelarem. A sinfonia do título se reproduz na partitura corporal que cada personagem apresenta, aliado ao sonho marcado não só pelos momentos em que Kevin tenta se tornar música quanto pela permanente presença dos atores à margem da ação central.

A crueldade expressa no jogo infantil – referência que me lembrou muitas vezes recursos utilizados na dramaturgia do absurdo por mestres como Arrabal e Beckett – serve de base à relação entre os irmãos Célia e Kevin, numa alternância quase cúmplice, concedida, de proteção e submissão. Mesmo cega de um olho, Célia enxerga o delírio que seus vizinhos estão submetidos e é capaz de compreender o irmão ao vê-lo indignado quando sua mãe diz que o fato de ele querer se tornar música é metáfora. Os adultos é que se encontram em mundos imaginários, que insistem em não querer aceitar a realidade enquanto seus mundos interiores parecem desabar (Eva que insiste em fingir que está tudo bem enquanto corre cegamente em busca do seu sucesso profissional, e Moira, incapaz de aceitar a morte de seu filho Tomas, vivendo uma gravidez delirante).

Quando irrompido pela presença de duas jornalistas, o trabalho parece perder essa complexidade apresentada até então para a caricatura do sensacionalismo. É verdade que a mídia costuma se comportar de maneira ultrajante, superficial e desrespeitosa em fatos trágicos. Mas a impressão é que a entrada desse elemento no espetáculo não acrescenta camadas de problematização às questões abordadas muito bem até ali pela dramaturgia. A presença dessas personagens acrescenta dinâmica à ação, estabelece uma conexão com a realidade banalizada cotidiana, mas, como na mise-en-scène da TV da vida real, pode desfocar a atenção do espectador do que realmente interessa.

As banais discussões de Célia e Kevin escondem reflexões sobre temas como a incapacidade de nos enxergamos mesmo que debaixo de um mesmo teto, o fracasso das relações inter e extra-familiares, a necessidade revolucionária de libertar o desejo, ou, para Kevin, o direito de sonhar só com o que se quer e de virar música.

Tomas também cumpre essa função de representar a incapacidade de seus pais de lidar com o horror da vida real, optando pelo delírio. O personagem vaga pela cena durante todo o espetáculo, sempre presente na moldura, mas ausente na ação. Relação que rompe, num choque entre o onírico e o real, ao se dirigir ao público e narrar o dia em que resolveu tentar voar com balões cheios de ar amarrados aos pulsos e acabou virando comida de urubu.

Neste quadro, as crianças já perderam a inocência, a possibilidade de “não sonhar apenas dormindo”, foram atravessadas pela realidade da pior maneira. São elas que pontuam o quão absurdo pode ser o cotidiano.

(*) “Sinfonia Sonho” foi apresentado dentro da programação do Festival Estudantil de Teatro, no Galpão Cine Horto.

"Uma poética de incompreensão para o horror"

Por Luciana Romagnolli

Foto de Paulo Teotônio

No trabalho criativo de um grupo que se batiza como Teatro Inominável, cabe o espanto que se sabe incapaz de nomear o horror. Observa-o, encara-o, mas não tenta explicá-lo. Sem nome, não há definição nem familiaridade possíveis, só estranhamento. Esta é uma distinção essencial entre o espetáculo “Sinfonia Sonho” e o romance que nutriu sua dramaturgia, “Precisamos Falar sobre o Kevin”. Enquanto a literatura da norte-americana Lionel Shriver nos apresenta o ponto de vista parcial de uma mãe-narradora que revê as memórias familiares puxando algum fio de explicação para o massacre cometido pelo filho, a obra do diretor e dramaturgo Diogo Liberano desprende-se da ânsia por sentido, descrê da análise psicanalítica e da possibilidade de compreensão.

Outra divergência central está na ausência de culpa – ao menos individualizada. Kevin, o filho, era o autor das mortes e, portanto, o culpado inegável no livro. Sobre sua mãe também pairava o peso da responsabilidade que se confere aos progenitores. Nesse ponto, contudo, o espetáculo se desvia, seguindo a liberdade natural de confecção de uma nova dramaturgia já prevista pelo diretor desde o princípio, mas repentinamente atravessado pela notícia do massacre de alunos em uma escola carioca por um atirador de 23 anos. Os abalos da tragédia real foram sentidos e absorvidos pelo grupo, de modo que a violência que interrompe a infância se consolidou tematicamente, e a atribuição de culpa parece tão impossível quanto a tentativa de explicação.

Os personagens densamente delineados pela autora norte-americana sobrevivem na encenação despregados de grande parte do contexto original, mas um fato significativo se mantém: a cegueira de olho de Célia, irmã de Kevin. Alusão ao Édipo, cujos olhos foram furados, ao qual o diretor carioca se contrapõe tomando por referência o “Anti-Édipo” de Deleuze e Guattari, adicionando um vórtice de sonho, onde os desejos são livres, à estrutura familiar piramidal. Mais que isso, Liberano apresenta a família toda fantasiada com tapa-olhos, numa imagem pungente de um núcleo cegado, que recorda uma frase do “Ensaio sobre a Cegueira”, de Saramago – “a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”. 

O grupo carioca se coloca nessa posição de olhar de fora uma tragédia contemporânea, ciente de que não tem como acessá-la por dentro sem preencher falsamente vazios que desconhece. A arquitetura do espaço cênico funda esse distanciamento. Enfileirados em cadeiras, os atores, com seus personagens latentes, acompanham a leitura do texto pelo diretor-narrador, até que chegue sua hora de ir ao centro do palco representar. A apropriação da realidade é mediada tanto por essa narração quanto pela intervenção de duas jornalistas, que, tal como o narrador, chegam ao palco vindo da plateia e reafirmando, assim, a conexão do grupo com o real, com a população e a cidade – não apartados na coxia numa arte descolada do mundo.

Ao mesmo tempo, não há pretensão de realismo. A presença dos atores sentados enfrentando com gravidade a plateia contém a imobilidade da ausência de futuro, mas também uma postura de desafio antirrealista que ajuda a estabelecer a tensão latente em cena. A tragédia é exposta como encenação, como construção coletiva de uma poética que tente elaborar o horror – enquanto, para os personagens adultos, não ser capaz de enfrentar o horror deflagra novas tragédias.

A sinfonia que batiza o espetáculo se traduz em partituras físicas que fazem de cada personagem uma linha melódica distinta – o mais perto que podem chegar do sonho de Kevin de tornar-se música. A pesquisa corporal permitiu que esses seres se comunicassem por posturas e gestos, pelo modo de seus corpos se sustentarem no chão e se moverem no ar, expressando uma essência intangível. Kevin e Célia são as composições de personagens mais sólidos – as crianças despidas de ingenuidade. O pai delas e o casal de vizinhos vagueiam no ar etéreo do luto. A mãe se fixa na caricatura do automatismo apressado da vida adulta, como se nunca estivesse de fato ali. Ao contrário de Thomas, o filho dos vizinhos, tão presente em sua ausência.

Liberano recortou do romance trechos passageiros que no espetáculo se dilatam reescritos poeticamente, como o ensaio de Kevin para a peça da escola, do qual nasce seu desejo de ser música. Com isso, o dramaturgo problematiza não só a representação, mas a possibilidade de colocar-se no lugar do outro e compreender o que é diferente de si: uma experiência de alteridade. A música escapa do sistema racional, como outra forma de expressão fora da linguagem. O sonho – materializado em Thomas – exerce semelhante função no espetáculo, um espaço de manifestação do eu, do não-decodificável. 

A construção da infância, dos jogos de cúmplice provocação entre irmãos, faz pairar sobre o espetáculo uma peculiar lógica infantil, com sua dilatação da razão, que soa nonsense em um mundo regido por adultos, mas sublinha o absurdo desse mundo. O delírio da realidade não acomete só a mãe de ego inchado pela carreira ou a outra, de barriga inflada por uma falsa gravidez. É uma sociedade inteira que participa do delírio. Veem-se adultos com fraquezas infantis e crianças que precisam responder a demandas adultas: identidades e maturidades distorcidas. “Às vezes, o aniversário não funciona”, diz Kevin a Célia. A vida não direciona os desafios obedecendo faixa-etária.

As duas jornalistas que enfim irrompem em cena trabalham sobre o reforço de clichês do sensacionalismo midiático diante da tragédia. Em suas ações não há o espaço da dúvida. Nisso, entram em atrito com o espetáculo, pontuado de lacunas e incompreensões. É sintomático quando uma das jornalistas pega o roteiro das mãos do narrador: o efeito do microfone e da prosódia radiofônica empostada cria uma espetacularização que se contrapõe à crueza da leitura neutra do narrador, de seu respeito aos fatos e aos espaços de absorção. O espetáculo cumpre um tempo de sustentação essencial, sobretudo, à cena derradeira.

Crítica publicada em ocasião do XIX Festival Nacional de Teatro de Presidente Prudente/SP

sábado, 27 de outubro de 2012

Cia Teatro Inominável (RJ): A pesquisa universitária e o teatro profissional

tendo se apresentado no festival estudantil de teatro - feto 2012 - em belo horizonte/mg com SINFONIA SONHO --- o teatro inominável também foi entrevistado (no caso, dois de seus integrantes - adassa martins e diogo liberano) sobre a produção artística universitária carioca e a relação com o mercado de trabalho. confira no vídeo abaixo ou diretamente no portal primeiro sinal (do galpão cine horto --- http://www.primeirosinal.com.br/).

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

"Tempo morto, tempo posto. Metáfora morta, metáfora..."

Por Valmir Santos

Foto de Paulo Teotônio

O mundo está encolhendo. E os artistas da companhia Teatro Inominável, do Rio de Janeiro, revelam sua angústia diante do infantilismo adulto. A patologia se espraia, viral, notória, nas veias públicas e privadas. Daí o cometimento do antivírus “Sinfonia Sonho”, celebração e cerebração das artes cênicas com o frescor e a grata surpresa pespegados pelos jovens criadores cariocas.

Nesse espetáculo estranho, violento, trágico, corrosivo, a dramaturgia espreita um acontecimento real: o assassinato de dez crianças e o ferimento de outras colegas de uma escola do bairro de Realengo, em 2011, por um rapaz doente, um ex-aluno. O espetáculo tangencia o episódio midiático e vai pisar em outras sombras colaterais, como a família disfuncional e a terrível incomunicabilidade entre pessoas que moram sob o mesmo teto.

As referidas distâncias são apropriadas como um dos dispositivos de cena. O diretor e dramaturgo Diogo Liberano corrompe, colaborativamente, as pistas facilmente assimiláveis sobre duas famílias vizinhas. Não há caracterização de personagem entre os nove atores encarregados de dar a ver aos espectadores o núcleo pai/mãe/filho/filha e o núcleo do casal que perde o filho único, fantasma a vagar durante a sessão.

Um narrador-autor pontua rubricas, fragmentos e fraturas de um texto espargido pela partitura dos movimentos. Fieira de “quebras” radicam a noção de que o espectador é estimulado a construir a história sobre aquilo que o mobiliza. Ou rejeitar tal afluência, o que seria uma pena esquivar-se dos silêncios, ruídos e metáforas que encontram moradas em outros recônditos não-verbais desse campo fictício fértil em analogias.

O encaminhamento artístico é o da livre escolha, a mesma que fez a companhia estudar durante meses as obras “O Anti-Édipo”, dos filósofos Félix Guattari e Gilles Deleuze, e “Precisamos Falar sobre o Kevin”, do romancista norte-americano Lionel Shriver, até ser atalhada pelo noticiário de sua cidade. A realidade infiltrou-se no processo criativo que já tinha a crítica da representação em alta conta –, aliás, uma das bases aglutinadoras do Inominável desde 2008, com então graduandos da UFRJ e da UNIRIO (entre os orientadores de “Sinfonia Sonho” estão os professores e pesquisadores Eleonora Fabião, Ronald Teixeira, Desirée Bastos e José Henrique Moreira).

Ao contrário do que pode supor o espetáculo não abandona seu interlocutor à deriva, patinando no plano das teorias. Os códigos de comunicação estão acessíveis, organizados engenhosamente na economia do espaço cênico (cadeiras, uma mancha verde expandida no tablado). Na incisão do desenho de luz sobre os inconscientes em latência. Na música incidental nada óbvia se se levar em conta o título e o desejo do menino de 9 anos que, na peça, é resoluto ao eleger essa arte como ofício, qual música interior. E principalmente no preparo técnico dos atores capazes de cumprir rigorosamente as frações de tempo e lugar sem deixar de afetar o público com os rompantes emocionais das crianças e adultos focalizados sob a condição humana.

O contraditório fica por conta da meta representação, quando o espetáculo realça o telejornalismo sensacionalista com a caricatura de uma apresentadora e uma repórter, atrizes oriundas da plateia. Os microfones em punho e o coloquialismo frouxo da própria cultura televisiva desviam demasiado da organicidade genuína exercida com sagacidade até então, passado pouco mais da metade.

Em seus desafios vencidos, que não são poucos, “Sinfonia Sonho” é mais um exemplo recente de como os departamentos universitários de artes cênicas potencializam o teatro de pesquisa desde a sua cadeia genética, ou seja, o pensamento e a prática do artista em formação propenso e estimulado a ousar com causa, beleza e tutano.

Crítica publicada em ocasião do XIX Festival Nacional de Teatro de Presidente Prudente/SP
[http://www.fentepp.com.br/noticias/critica-teatral--tempo-morto-tempo-posto-metafora-morta-metafora-por-valmir-santos/41]

terça-feira, 23 de outubro de 2012

SINFONIA SONHO recebe destaques no FETO/BH

após se apresentar no festival estudantil de teatro - feto 2012 - em belo horizonte/mg e retornar ao rio de janeiro para início da nova temporada de sinfonia sonho, o teatro inominável recebeu 3 destaques dados pela comissão do festival (composta por josé simões, paulo celestino e paulo roberto santanna). foram eles:

paisagem sonorasinfonia sonho (teatro inominável – rio de janeiro/rj), não alimente os bichos (subsolo 59 – brasília/df) e malva rosa (casulo dramaturgia de atores – brasília/df)

corpo em cena: não alimente os bichos (subsolo 59/df), badenbaden (badenbaden – florianópolis/sc), horácio (grupo tarja – rio de janeiro/rj) e sinfonia sonho (teatro inominável – rio de janeiro/rj)

voz em cenasinfonia sonho (teatro inominável – rio de janeiro/rj)

foto de anna clara carvalho.
confira a postagem no site do festival [http://fetobh.art.br/2012/?p=1217].

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quarta-feira, 10 de outubro de 2012

SINFONIA SONHO no FETO 2012 em Belo Horizonte/MG

Nesta sexta-feira, 12 de outubro de 2012, comemorando o dia das crianças, SINFONIA SONHO se apresenta em Belo Horizonte/MG, dentro da programação do Festival Estudantil de Teatro FETO 2012. A única apresentação acontecerá às 20h no Glapão Cine Horto. Para maiores informações, acesse diretamente a página do festival fetobh.art.br.


Após a passagem por Belo Horizonte, o Teatro Inominável retorna ao Rio de Janeiro para a sua temporada no Teatro Glaucio Gill, em Copabanana. A temporada acontece de 19 de outubro a 05 de novembro, sempre sextas, sábados, domingos e segundas-feiras, às 21h.

Para a realização desta temporada, o Teatro Inominável recorreu ao financiamento coletivo, na plataforma Catarse. Para conseguir levantar o valor necessário à viabilização da temporada, a companhia oferece contrapartidas proporcionais aos valores investidos. Acesse o link catarse.me/sinfoniasonho, conheça o projeto e faça o seu investimento.

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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

SINFONIA SONHO no XIX Festival Nacional de Teatro de Presidente Prudente

SINFONIA SONHO realiza mais uma apresentação em um festival nacional de teatro. Desta vez, na décima nona edição do FENTEPP - Festival Nacional de Teatro de Presidente Prudente, cidade localizada no estado de São Paulo. A apresentação está marcada para esta sexta-feira 28 de setembro, às 20h no Teatro Municipal Procópio Ferreira.


Para maiores informações sobre o festival, basta acessar o site [http://www.fentepp.com.br/]. Depois deste festival, o espetáculo viaja para o próximo, o Festival Estudantil de Teatro - FETO - em Belo Horizonte, Minas Gerais. Em seguida, retornamos ao Rio de Janeiro para a nova temporada, em outubro no Teatro Estadual Glaucio Gill.

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segunda-feira, 3 de setembro de 2012

SINFONIA SONHO no 6º Festival Nacional de Teatro de Juiz de Fora

nesta segunda-feira, 03 de setembro, o teatro inominável embarca diretamente para juiz de fora, em minas gerais, para apresentar o espetáculo sinfonia sonho durante a programação convidada para a abertura do 6º festival nacional de teatro de juiz de fora. a apresentação está marcada para 20h no ccbm - centro cultural bernardo mascarenhas, no centro da cidade.


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terça-feira, 21 de agosto de 2012

SINFONIA SONHO no XII Festival de Teatro de Resende/RJ

dando continuidade às apresentações que estamos fazendo em festivais por todo o brasil, nesta sexta-feira, 24 de agosto 2012, o teatro inominável se apresenta dentro da programação oficial XII festival de teatro de resende. a apresentação acontecerá às 20h30 no cine vitória, que fica na praça oliveira botelho, número 292. segue abaixo o nosso flyer de divulgação.


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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

SINFONIA SONHO no deTrupe

nesta quarta, 15 de agosto 2012, o teatro inominável se apresenta dentro da programação oficial do deTrupe - encontro de grupos teatrais, realizado pelo grupo milongas no rio de janeiro. a apresentação acontecerá às 20h no parque das ruínas (em santa teresa). para mais informações, acessem o site do festival [http://www.grupomilongas.com/]. segue abaixo flyer de divulgação.


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terça-feira, 24 de julho de 2012

“Sinfonia corpo”

Texto sobre a peça Sinfonia Sonho, do Teatro Inominável, com direção de Diogo Liberano*
Por Mariana Barcelos

Peça de formatura de Diogo Liberano, no curso de Direção Teatral da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Sinfonia Sonho trata de temas inatingíveis. O processo começa com o estudo do livro O anti-Édipo, de Gilles Deluze e Félix Guatarri, e chega aos massacres escolares que marcaram a última década no mundo, principalmente nos EUA, mas que no Brasil temos um caso conhecido, numa escola municipal do Rio, em Realengo. Sobre os massacres a leitura do blockbuster Precisamos falar sobre Kevin – que narra a história de um americano de 16 anos que matou pessoas na escola, o pai e a irmã – norteou um tipo de estudo sobre esses acontecimentos. Além destes assuntos, memória e construções individuais deram à dramaturgia construída um teor pessoal.

A dramaturgia foi se criando durante o processo e o material fixado, enquanto texto falado, é rico em rubricas e diálogos que tomam distancia, propositalmente, do formato de uma conversa cotidiana. Neste sentido trata-se de diálogos impossíveis. A história que se estabelece chega ao espectador em zoom, como numa fotografia, que separa o olho do resto do corpo, e por alguns instantes aquele olho torna-se um elemento estranho do corpo inteiro. O corpo inteiro, neste caso, é o mundo, e a parte ressaltada, e por isso estranhada, é a história de uma família.


A família de Célia de 7 anos, e Kevin de 9 anos, estão de mudança porque a mãe Eva foi convidada para ser diretora de uma escola. O pai, Franklin, interrompe a profissão de médico para seguir viagem e cuidar das crianças. Célia usa um tapa olho porque foi furada pelo irmão aos seis anos com o espeto de Fondue. Seus novos vizinhos Corley e Moira sofrem a perda de um filho enquanto a mulher vive uma gravidez imaginada. Thomas, o filho deles, morreu após subir aos céus amarrado a balões de gás Hélio. Kevin quer aprender a virar música. Um massacre ocorre na nova escola.

A realidade de violência social e crueza de sentimentos se apresentam como conteúdo inesgotável, inalcançável, indominável. Os diálogos, como descrito anteriormente, tornam-se impossíveis uma vez que a história escapa da possibilidade de uma compreensão totalizante, de uma verdade sobre os fatos, de uma solução viável. A vida não tem caminhos certos, retos. A busca pelo sonho parece ser a saída para tirar aqueles personagens de um lugar de consciência banalizada, e Kevin é quem tem a passagem para este outro lado. Kevin quer ser música, e em meio aos horrores, ser música é o desejo mais racional. É uma criança que quer ser música, e para a realidade de uma criança isso faz sentido. Assim como voar com os balões. O que não faz sentido é quando a brutalidade do mundo adulto invade, sem dó, a dimensão onírica do mundo infantil. Kevin quer ser música e toda a incompletude deste desejo não cabe em palavras. O corpo fala.

O trabalho de corpo desempenhado pelo elenco é preciso e detalhado. A movimentação tão divergente da cotidiana ao encontrar um texto também fora desse contexto promove uma relação que causa uma sensação de coerência na leitura apresentada dos fatos. Mais do que isso, a estética corporal atinge os lugares nos quais o texto não chega. Como se preenchesse seus vazios, suas falhas e lacunas. O corpo é texto em estado carnal, dão materialidade ao estado de presença dos personagens. É o corpo, em cena, que cria o tom e o ritmo desta sinfonia.

O que ainda sobrar de lacunar na dramaturgia pós-texto, pós-corpo, é o espaço livre para a autoria do espectador, para a sua reflexidade ir ao encontro da criação final, à sua leitura sobre a obra. O zoom dado sobre o mundo paira em cima de uma parcela muito complexa, e que se acostumou ver vulgarizada nos noticiários dos jornais. A violência não é degustável, agradável de ver, mas tem que ser vista. Não é para se comover, é para se espantar, é pensar sobre ela.
* Em ocasião do Multifestival de Teatro de Três Rios. Espetáculo apresentado no dia 22 de julho de 2012, em Três Rios/RJ.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

SINFONIA SONHO no multifestival de teatro off rio

neste domingo, 22 de julho de 2012, o teatro inominável se apresenta dentro da programação oficial do multifestival de teatro off rio, na cidade de três rios (interior do estado do rio de janeiro). a apresentação acontecerá no teatro celso peçanha. para mais informações, acessem o site do festival [http://www.festivaloffrio.com.br/]. segue abaixo flyer de divulgação.

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terça-feira, 8 de maio de 2012

“as duas crianças […] assistem a tudo, só que eles sobrevivem”

Clique aqui para ouvir o podcast do QUARTO ATO, feito durante o Festival de Curitiba. Neste podcast, SINFONIA SONHO é um dos espetáculos que são comentados. Pra quem não sabe, o podcast é o nome dado a um arquivo de áudio digital. De acordo com a descrição no site, o Podcast QUARTO ATO é uma conversa descontraída sobre os espetáculos de teatro que acontecem em Curitiba. No link acima, ou clicando sobre a imagem abaixo, é possível ouvir uma linda análise de SINFONIA (que começa por volta dos 08 minutos e 40 segundos).

Não deixem de ouvir!

Fonte: http://www.podu.com.br/QA-013

terça-feira, 10 de abril de 2012

SINFONIA SONHO estreia nesta sexta 13 de abril no RJ

Após três apresentações integrando a Mostra Paralela Fringe, do Festival de Curitiba, o novo espetáculo do Teatro Inominável chega aos palcos do Rio de Janeiro para cumprir curtíssima temporada. De 13 a 22 de abril, sexta a domingo, o espetáculo com dramaturgia e direção de Diogo Liberano se apresenta no Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto. As apresentações são sempre as 21h (sextas e sábados) e 20h (nos domingos). O valor do ingresso inteira é r$ 20,00 e a meia-entrada, r$ 10,00.

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