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segunda-feira, 16 de abril de 2012

“Dramatorgia”

Foi no primeiro semestre de 2011 que aconteceu no Rio de Janeiro, em Realengo, o primeiro massacre de crianças em ambiente escolar. No romance Precisamos falar sobre Kevin, um dos principais motes dramáticos era justamente o fato do filho de Eva, Kevin, ter assassinado quase duas dezenas de colegas no colégio em que estudava. Por conta dessa coincidência, desisti rapidamente de encenar essa obra e comecei a refletir se aquilo que eu viria a colocar em cena não poderia ser justamente uma resposta ao real, ao invés de simplesmente uma reprodução de suas mazelas. Depois de alguma busca, percebi que eu deveria assumir a criação da dramaturgia, caso ela pretendesse fazer diferença ao que nossa sociedade havia estabelecido como possibilidade. Comecei a me nutrir das discussões junto aos atores e segui especulando a dramaturgia. No início de junho, assumidamente, a dramaturgia ganhou contornos mais precisos depois de tantas tentativas. Por meio de uma colagem de partes variadas das inúmeras referências que cruzaram nosso caminho, junto ao projeto anexei os seguintes materiais: 1) a descrição das personagens; 2) a sinopse do drama; e 3) uma escaleta com um planejamento da sequência das cenas. A seguir, coloco cada um desses materiais seguidos de uma análise com considerações que julgo relevantes de se pontuar.

Personagens

Célia (Adassa Martins) – Filha de Eva e Franklin, irmã de Kevin. Tem sete anos de idade e aos seis, durante um jantar, teve um dos olhos perfurados pelo irmão e, desde então, usa um tapa-olho. Na nova cidade, sofre com a quantidade imensa de cachorros e moradores de rua.

Corley (Andrêas Gatto) – Esposo de Moira e novo vizinho da família de Eva e Franklin. Ignorando por completo o fato de seu casamento estar em crise, Corley presenteia a esposa todos os dias e segue em busca de alguém para dar o presente mais especial de todos: um cão.

Eva (Virgínia Maria) – Esposa de Franklin, mãe de Kevin e Célia. Recém-nomeada diretora da Escola Municipal Ensino Fundamental, Eva acredita estar vivendo um dos momentos mais felizes de sua vida, por todo o reconhecimento profissional que está obtendo.

Franklin (Dan Marins) – Esposo de Eva, pai de Kevin e Célia. Oncologista, especializado no tratamento de tumores, está desempregado. Relutante, se muda com a família para outra cidade em virtude da promoção da esposa. Sofre o fato de seu pai ter sido comido por um câncer.

Kevin (Márcio Machado) – Filho de Eva e Franklin, irmão de Célia. Tem nove anos de idade e num dia, de súbito, acorda convencido de que é preciso virar música. Obstinado em sua busca, transtorna a relação familiar na concretização de seu desejo, que o consome.

Moira (Laura Nielsen) – Esposa de Corley e nova vizinha da família de Eva e Franklin. Vive a crise de seu matrimônio acreditando veementemente que é preciso ter um novo filho. Com a chegada dos novos vizinhos, desenvolve um apego desmedido por Célia e Kevin.

Começo pela escolha dos nomes. A família principal (Eva, Franklin, Kevin e Célia) teve seus nomes retirados diretamente do romance Precisamos falar sobre Kevin. Também do romance eu mantenho a situação do olho perfurado de Célia, algo que na dramaturgia acaba sendo recriado e colocado noutra situação. A família vizinha (Corley, Moira e Tomas) tem seus nomes de lugares mais diversos: Corley vem do sobrenome de uma personagem do romance; Moira surge dos estudos que fiz sobre as tragédias gregas e Tomas foi o primeiro nome que surgiu ao pensar sobre qual nome dar ao filho de Corley e Moira.

Sobre as idades, apenas me importou definir a faixa etária das crianças. De alguma forma são elas as protagonistas da história: Célia, Tomas e Kevin, respectivamente com seus oito, nove e dez anos de idade. Célia e Kevin tem as mesmas idades que dois dos meus quatro sobrinhos. Em processo, a orientadora de direção me pontuou coisas específicas sobre a idade de Célia (7 anos), sobretudo o fato de ser nesta idade – também a de Alice – que a dentição da criança começa a mudar vertiginosamente, mudando também seu comportamento. A partir dessa observação, tentei desenhar uma personagem que começa a se descobrir enquanto pessoa, num movimento de apropriação da linguagem e de seus próprios desejos.

Quanto a distribuição dos papéis, o critério foi também variado. Quanto as crianças e seus respectivos pais, de cara a diferença nas estaturas dos atores me pareceu um dado interessante a ser explorado, sobretudo no caso de Kevin (Márcio Machado) para com Eva (Virgínia Maria) e Franklin (Dan Marins). Márcio é o ator mais alto do elenco e foi a partir desde dado físico que comecei a pensar sobre uma possível engrenagem interessante para a dramaturgia: a de que as personagens infantis iam se adultizando e os adultos se infantilizando. Ao término do espetáculo, a altura de Kevin não me parece tão despropositada, bem como a de sua mãe, que por ser bem menor que ele, me dá por inteiro o caráter pusilânime de tal personagem. Sobre Tomas, ressalto o fato curioso de ter percebido a necessidade desta personagem somente após ter escrito a sinopse e escaleta das cenas.

TOMAS (Gunnar Borges) Filho de Corley e Moira. Tinha sete anos quando, durante os preparativos para seu aniversário, acabou subindo aos céus levado por balões. O corpo de Tomas é encontrado uma semana depois que os novos vizinhos chegam a sua nova casa, explodindo a realidade dentro da qual as duas famílias tentavam se equilibrar.

Tomas, a princípio, seria apenas citado como o filho morto de Corley e Moira. Em discussão com a orientadora, a infância foi se revelando o cerne do espetáculo. Por isso Tomas ganhou corpo físico e dramatúrgico, para que possibilitasse mais desdobramentos sobre a infância. Célia, Tomas e Kevin são alvos da violência e inconsequência humana. Mais que isso: não sofrem abusos diretos nem agressões premeditadas de algum assassino. Em cena, são três crianças arrasadas pela indiferença e pela inconsequência, pela falta de responsabilidade e humanidade. Mais do que temas como pedofilia, por exemplo, me interessou desbravar a criança como propagadora da violência. A criança como ser que é lançado em situações que não deveriam lhe ser dadas e que diante ao horror desse encontro, age a violência como forma de assegurar sua sobrevivência. Talvez pior que a violência sobre uma criança seja a violência realizada por ela mesma. Talvez pior do que uma criança que propaga inconscientemente a violência, é pensar que esta consciência possa estar sendo criada por ela e que o ato violento possa ser intencional e arquitetado.

Cada personagem tem uma ou outra característica retirada do e-mail resposta que cada ator me enviou quando solicitei a eles uma lista de seus desejos mais desejados. Exemplos: sofre com a quantidade imensa de cachorros e moradores de rua; e segue em busca de alguém para dar o presente mais especial de todos: um cão. Ao transitar entre as personagens tais buscas, acreditei ser possível humanizá-los ainda mais, dotando-os de desejos possíveis ou, ao menos, reconhecíveis. Os dois exemplos citados acima se perderam no decorrer do processo, porém, até serem abandonados serviram como mote para a criação das personagens. Volto ao cuidado de não intencionalizar excessivamente as vontades criativas. Essa foi a maneira encontrada para lidar com os desejos enviados pelos atores. Eles estão muito presentes no espetáculo, porém, de maneiras por vezes sugeridas, quase invisíveis. Uns viraram discurso direto das personagens, outros desejos viraram intenção ou mesmo tema de alguma cena.

Sinopse

Tudo acontece em uma semana. Da noite de um domingo à noite do domingo seguinte. Eva e Franklin acabam de chegar a sua nova casa, alugada. Eva foi promovida a diretoria da Escola Municipal Ensino Fundamental e no domingo em que chegam nesta nova casa, é aniversário de Célia, filha mais nova do casal.

No correr da semana, Eva mantém-se presa ao trabalho enquanto seu marido, Franklin, passa os dias levando os filhos à escola e os buscando, incapaz de abrir as caixas da mudança. É durante a semana que os vizinhos se conhecem. Corley e Moira, família vizinha, convidam Célia e Kevin para brincar em sua casa, no fim de semana.

Numa manhã de terça-feira, Kevin, o filho mais velho de Eva e Franklin, acorda convencido de que é preciso virar música. De noite, com a família reunida para o jantar, ele faz seu pronunciamento: mãe, quero ser música. Eva trata de pôr fim a sua brincadeira e naquela noite Kevin não consegue dormir, com olhos abertos, sonha em ser sinfonia.

Passamos, então, a acompanhar as tentativas de Kevin para efetivar o desejo que o consome. Nos dias posteriores, ele consegue convencer o próprio pai e a irmã de que é preciso ser música. Enquanto Eva trabalha desesperadamente na resolução do massacre que assolou sua Escola, as crianças cada vez mais adentram a casa dos vizinhos, entretidos com o quarto cheio de brinquedos do filho deles que nunca viram.

Final de semana. Todos em suas respectivas casas. Hora do noticiário. Descobre-se o paradeiro do filho de Moira e Corley que até então, imaginava-se, estar por vir. Moira não está grávida. E o desejo de Kevin não é mera brincadeira de criança. As paredes tremem e a intimidade se converte em sutura. Kevin, no meio do furacão, vira, enfim, música.

A sinopse entregue junto ao projeto tentava, de alguma forma, propor espaços que pudessem ser dinamitados no processo de criação textual. Foram muitos lugares mais sugeridos do que determinados. Por exemplo, por conta do estudo sobre as tragédias gregas (sobretudo a partir de Édipo Rei de Sófocles), optei que a dramaturgia sustentasse uma sucessão muito acelerada de acontecimentos. Por meio dessa vertiginosidade eu acreditava ser possível o trágico poderia emergir. Assim, desenhei uma sequência de cenas que aconteciam durante uma semana, ou seja, durante pouco tempo todas as mudanças de sorte aconteceriam. Ao mesmo tempo, alguns personagens tiverem seu percurso simplificado a uma única ação, por exemplo, Eva (sempre atarefada com as coisas de seu novo emprego) e Franklin (amortecido pela morte do pai). Detalhes como o aniversário de Célia serviram, sobretudo, para dar a dramaturgia espaço para construir jogos que evidenciassem melhor a relação entre as personagens. Pensei que não fazia sentido apresentar uma personagem, mas sim mostrá-la quando em situação, quando em ação dentro de um dado acontecimento.

O encontro das duas famílias foi construído de maneira muito diferente do que a sinopse sugeriu. Muito cedo, Andrêas e Laura (respectivamente, intérpretes de Corley e Moira) desdobraram o horror de suas personagens para um grau até então não previsto em nenhum planejamento do drama. Foi preciso acompanhar sua guinada, portanto, hoje analisando a peça escrita, percebe-se como esta família vizinha esteve mais fechada – quase de luto – e como sua abertura foi sendo aos poucos realizada. É Corley quem conhece o vizinho Franklin, enquanto Moira espia as crianças vizinhas indo para a escola. Eva e Franklin, por exemplo, nem chegam a conhecer Moira. Conforme escrito no capítulo Projeto de Encenação, muitas coisas foram abandonadas, porém outras serviram imensamente. Como exemplo deste aproveitamento, cito o pedido de Kevin (mãe, quero virar música) e a consequente bronca que Eva dá em seu filho. É por conta dessa reação da mãe que Kevin adormece e acaba, em seu sono, tendo um pesadelo. Neste pesadelo, eu pensei, por que não tornar possível algo que em vida Kevin parece não conseguir dar conta? Voltando ao projeto, o sonho de Kevin age como exemplo direto do quarto vértice no triângulo familiar e oxigena a sua existência.

Conforme escrito anteriormente, durante nosso processo aconteceu em Realengo um primeiro massacre de crianças em ambiente escolar. Na época eu tentei não dar muito atenção ao fato em virtude do horror que o mesmo fez emergir. Eu me lembro de ter recortado todos os jornais que pude, incapaz de assistir a vídeos e reportagens. Isso ficou durante um bom tempo dentro de um envelope, ao lado da minha cama. E ao escrever a sinopse, eu percebi que precisava de um bom motivo para que as crianças – Célia e Kevin – pudessem cada vez mais adentrar a casa dos vizinhos (já que intuia que Moira seria a detonadora de alguma tragédia final). Foi neste ponto em que o massacre me deu motivo para colocar as crianças de férias. Porém, eu descobriria adiante, mais que isso: o massacre deu toda a tônica da dramaturgia e a encenação (e isso tudo, apenas porque no princípio, o massacre pôde ser apenas um detalhe e não o centro das atenções).

De maneira diferente, o virar música de Kevin sempre foi um mote e um problema. No projeto eu digo algo como ser essa a busca não só da personagem como também de toda a equipe de criação. Durante os primeiros ensaios, fizemos seminários a partir do tema O que é virar música? Especulamos muitas possibilidades, das mais fantasiosas as mais científicas. Mas foi depois de um sonho que tive que a coisa amanhaceu esclarecida: não cabia tanto investir na metáfora do virar música. Isso deveria ser algum desdobramento e não a coisa em si. Quero dizer: é óbvio que virar música é um chamariz poético da peça, mas para Kevin – uma criança de nove anos – isso seria melhor enquanto jogo e não feito metáfora. Foi por conta do título Peça de Formatura, imaginado durante a feitura do projeto de encenação, que eu comecei a desbravar que, na verdade, todo esse desejo de Kevin – o de virar música – havia sido criado por conta de uma peça teatral que ele começou a ensaiar em sua nova escola. De acordo com a postagem sobre o título [1], destaco:

[...] eu não sei. penso em PEÇA DE FORMATURA e algum gesto delicado se anuncia. quer dizer, todo o drama, toda a coisa parte por conta disso. vamos por parte: célia se matricula numa nova escola e das coisas todas que mais chamam a sua atenção está esta: qual peça de formatura faremos para encerrar o ano letivo? kevin da mesma forma aguarda ansioso, porém discreto, por saber qual teatro encerrará seu ano letivo. e o que fará nele? a presença do teatro como ferramenta de construção e criação não somente da ficção mas da própria vida. um mundo, país, comunidade na qual esta experiência tivesse força e mais que isso, já fizesse parte da ousadia que é o virar dos dias. [...]

A escrita vai se escrevendo e por vezes só precisa das suas mãos para aparecer. Você digita e digita e as palavras vão saltando ansiosas por expressão. Engraçado que durante a escritura da sinopse, as palavras sinfonia e sonho apareceram e só mais tarde vieram a se transformar no título do espetáculo. Foram muitas tentativas: Mãe, quero ser música; Peça de formatura e, por fim, Sinfonia Sonho. Na sinopse, é previsto que a dramaturgia acompanhe o movimento de Kevin na tentativa de virar música, porém, tal como a dramaturgia se configurou, o que temos é uma espécie de refrão (conforme identificado pela orientadora de direção) – um leitmotiv – pelo qual Kevin, sempre trancado em seu quarto, se questiona sobre tudo aquilo que o atormenta e impede de contemplar seu desejo: o de virar música.

Escaleta Primária

Domingo – FESTA CÉLIA

Noite de domingo. Eva e Franklin acabam de chegar a sua nova casa, alugada. É aniversário de Célia, filha mais nova do casal. Eles improvisam uma festa para a filha, ainda enjoada da longa viagem que tiveram de carro. Todos colocam tapa-olho, como fosse o tapa-olha uma espécie de chapeuzinho. Mas a festa de Célia não dá certo mesmo assim. Recém-mudados para uma nova cidade, a família não tem a quem convidar, o aparelho musical não funciona e a festa acaba sem música. Célia faz pirraça enquanto Kevin a observa, atento e desolado.

Segunda – OS VIZINHOS

Manhã de segunda-feira. Eva foi promovida à diretoria da Escola Municipal Ensino Fundamental e por isso parte veloz para o trabalho. Franklin leva os filhos à mesma escola e os busca, horas depois, incapaz de abrir as caixas da mudança. Nesta tarde, Franklin, conhece os vizinhos, que convidam Célia e Kevin para brincar em sua casa, no fim de semana.

Terça – O PRONUNCIAMENTO

Manhã de terça-feira. Kevin, o filho mais velho de Eva e Franklin, acorda convencido de que é preciso virar música. Vaga o dia tramando sua ação. Sem rumo, já de noite, com a família reunida para o jantar, ele faz seu pronunciamento: mãe, quero ser música.

Quarta – SINFONIA SONHO

Noite de quarta-feira. Kevin segue sem compreender, mas caminha repleto do seu desejo. Ele nele persiste. Mas Eva, após o jantar, trata de pôr fim a brincadeira de seu filho e naquela noite Kevin não consegue dormir. Com olhos abertos, ele sonha em ser sinfonia. No sonho, o desejo de Kevin dança trepidante sobre a impossibilidade determinada pela mãe.

Quinta – MASSACRE LOCAL

Manhã de quinta-feira. Massacre na Escola Municipal Ensino Fundamental. Eva enlouquece. As aulas são interrompidas e Franklin volta para casa, com as crianças, sôfregas de horror. Certos impossíveis são mais possíveis do que imaginamos, Kevin talvez venha a pensar. Passamos então a acompanhar as tentativas de Kevin para efetivar o desejo que agora, ainda mais, o consome. Kevin convence Célia de que precisa virar música. Célia se empolga com a possibilidade do irmão ser famoso.

Sexta – NÃO-DIVISÃO CELULAR

Manhã de sexta-feira. Kevin convence o próprio pai de que é preciso virar música. Enquanto Eva trabalha desesperadamente na resolução da tragédia que assolou sua escola, as crianças cada vez mais adentram a casa dos vizinhos, entretidos com o quarto cheio de brinquedos do filho deles que nunca viram.

Sábado – O BALÃO

Noite de sábado. Todos em suas respectivas casas. Hora do noticiário. Para além da tragédia na Escola, outra criança é encontrada morta. É o filho de Moira e Corley que até então, imaginava-se, estar por vir. Moira não está grávida. E o desejo de Kevin se enerva até o limite.

Domingo – DEUS EX-MACHINA

EVA – É um desejo de morte, filho?

KEVIN – Não, mãe, é só de eternidade.

EVA – Mas não é possível ser eterno, eu já lhe falei. Nem é possível ser música.

KEVIN – Mas, veja: eu estou sendo. Olha, eu tô sendo música.

Kevin, no meio do furacão, vira, enfim, música.

A criação desta escaleta foi determinante para que a dramaturgia pudesse florescer. Eu, de fato, me guiei por essa estrutura primária. Naturalmente, a cada cena escrita as coisas se modificavam e desdobravam aquilo previsto no modelo acima. Algumas cenas foram completamente novas e pouco se serviram do que fora previsto. Isso nunca foi um problema porque o propósito da escaleta foi sobretudo o de criar um encadeamento dos acontecimentos, provocando analogias entre as partes do espetáculo e um desenho firme de cada personagem, de cada trajetória.

No início, a dramaturgia foi prevista para ser criada em processo colaborativo. Isso não chegou a acontecer. Comecei a escrever o texto após cerca de doze ensaios com o elenco. Nestes primeiros ensaios, tudo o que produzimos já foi a partir dessa primeira estruturação dramatúrgica entregue junto ao projeto. Nesses ensaios, fomos alargando as personagens e abandonando algumas características em troca de outras, novas. O corpo dos atores – de fato, a sua fisicalidade – foi essencial para tornar essas figuras mais humanas. Alguns dramas previstos no papel eram menores quando postos em cena, ou nem isso, alguns dramas eram mais cômicos do que trágicos. Todo esse movimento foi me afetando enormemente, mesmo que não houvesse uma consciência disso.

Sem saber ao certo explicar o porquê, o texto de Sinfonia Sonho foi escrito em apenas um mês, outubro de 2011. Entreguei as três primeiras cenas (Festa Célia + Os Vizinhos + O Pronunciamento) no ensaio da quinta-feira 06 de outubro e neste mesmo dia, agendei a data das próximas entregas de texto. Na quinta-feira 20 de outubro entreguei mais duas cenas (Sinfonia Sonho + Massacre Local), ao contrário das três que haviam sido planejadas. E no ensaio da quinta-feira 03 de outubro, terminei de entregar as cenas pendentes (Não-Divisão Celular + O Balão + Deus Ex-Machina). No meio dessas entregas, também entreguei páginas que organizavam as cenas em três atos (sugestão da orientadora de direção).

Creio ter sido importante estabelecer tais prazos para que toda a equipe pudesse se guiar. Assim como os atores tinham novos textos para decorar, todos tínhamos novas cenas para estruturar. Tais prazos me obrigaram a sentar e escrever e quase todas as cenas foram escritas com quase nenhuma antecedência. Sempre houve um medo meu de encarar a escritura, sobretudo quando as ideias daquilo que era preciso constar em cada cena iam se clareando de maneira irrevogável. Quer dizer: quanto mais eu demorava a escrever, mais a cena se escrevia sozinha em minha cabeça.

Alguns dogmas, se é que assim podem ser chamados, tornaram a criação da dramaturgia de fato um jogo a ser jogado. Destaco duas regras que me obriguei a seguir: 1) cada cena teria um título composto por duas palavras; e 2) as falas das personagens sempre que possível deveriam ter o tamanho máximo de uma linha quando digitadas. Tais regras, respectivamente, me deram um olhar mais amplo sobre as temáticas em jogo, sobre aquilo que de fato configurava o núcleo da cena e, por último, me permitiram certa fluidez do texto, certo andamento determinante a uma dramaturgia que se quisesse vertiginosa.

Em se falando de gênero, conforme já exposto, encaro Sinfonia Sonho como uma tragédia dita contemporânea. Há uma série de insinuações a certa lógica trágica que não tenho plena consciência, mas que se manifestam independente da minha vontade. Intencionalmente, assino a vertigem dos acontecimentos, numa sucessão muito rápida de eventos: a chegada na nova cidade, apresentação das personagens, os vizinhos, o pronunciamento de Kevin, o seu pesadelo, o massacre na escola, o encontro de Moira com as crianças, a pira de Eva, a morte de Tomas, a partida de Franklin, o sequestro de Célia e a morte de Moira. Ao mesmo tempo, é divertido brincar com a cegueira de Célia porque ela, inevitavelmente, sugere alguma ou qualquer relação com o mito de Édipo.

Sobre esta personagem, Célia, a irmã de Kevin, há um detalhe especial: desde o início me pareceu necessário provocar uma identificação imediata com o público. Talvez porque soubesse que o final da peça fosse explodir por sobre as crianças. Estas sim sairiam da peça destruídas, violadas. Assim, Célia se tornou uma personagem divertida e autêntica e quando vemos a peça engolir tal personagem para dentro de uma sequência de acontecimentos trágicos, o que sentimos tem a ver com a tal catarse desenhada por Aristóteles em sua Arte Poética. Por meio dessa personagem e da tragédia que a arrasta, sentimos terror e piedade, num movimento que purga em nós essas energias. Obviamente que isso não está dado. Aqui desenho em palavras apostas e buscas que ainda não cessaram de acontecer, de se testar e desdobrar em novas tentativas e possibilidades.

Pontuo estes vários pedaços porque foi por meio dessa bricolagem, eu digo, desse somatório de pequenas partes, pequenas tramas e desejos, que a dramaturgia pôde enfim nascer, marcada por uma riqueza de temas e discussões, uma dramaturgia que eu julgo marcada pela diferença. Durante o processo, recortei muitas notícias de jornais. Ao criar as cenas, retomei o estudo de algumas, tais como a notícia do tratamento de células cancerígenas com a frequência da sinfonia de Beethoveen e como os depoimentos obtidos após o massacre em Realengo. Essa diferença dos discursos, talvez, me faça acreditar num possível motivo que explique o grande alcance que o texto pareceu ter nas três apresentações dentro da XI Mostra de Teatro da UFRJ. Ao reunir os temas, as situações e questões vividas por cada personagem, damos conta de uma parcela muito grande de indagações que também, imagino, os mais diversos espectadores podem se questionar. Afinal, é de se esperar que nossos espectadores saibam o que é isso de filho, pai e mãe. O que é isso de infância e idade adulta. Eles sabem o que é isso de violência e morte. São temas universais tratados num contexto específico. A dramaturgia como encadeamento que nos traz de volta a nós mesmos, porém por caminhos ficcionais.

Em termos conceituais da dramaturgia, estive o tempo inteiro – quase em silêncio – flertando com o conceito de corpo sem órgãos, proposto em O Anti-Édipo. Durante o início de 2011, ainda quando em pesquisa junto aos atores, chegamos a um sério questionamento: seria a experiência teatral ela mesma um corpo sem órgãos? Se sim, apresentamos nesse sentido uma realidade inóspita e ligeiramente impraticável. Em cena, temos uma realidade improdutiva sem, no entanto, deixar de ser, de estar e existir. Uma realidade que funciona por si própria e esmaga a ação das personagens que nela tentam se mover. De forma sutil, acredito que o espetáculo proponha uma experiência que nos chama de volta ao absurdo da existência, no sentido de sua cegueira e automatização contínua, que retira de nós o controle e a vivência de nossos atos e relações. O exemplo maior de tal aposta talvez resida na presença das rubricas no último ato do espetáculo e, sem dúvida alguma, da forma construída para sua expressão. São rubricas que desenrolam a ação de forma violenta e vertiginosa, de forma quase cega e espetacularizada. Para isso, duas repórteres assumem as rubricas, narrando ao público a vertigem de eventos vividos pelas personagens que nem mesmo elas próprias parecem acompanhar. Cria-se algo impraticável, uma ação que nos devolve – de alguma forma – certa falência relacional das partes que componhem aquela realidade ali compartilhada. Assim creio, Sinfonia Sonho preocupa-se em abrir este reconhecimento trágico da realidade contemporânea, não para reproduzí-lo, mas para denunciá-lo, para trazer a discussão seus protagonistas e seus respectivos alvos. Esse improdutivo oferecido ao público, esse final desfórico do espetáculo, me parece querer afirmar que a absurdidão da nossa existência não somente existe como por vezes é fruto da nossa inconsequência.

Por fim, chamo de dramatorgia uma busca que se dá além do texto dramático. Neste neologismo, junto as palavras dramaturgia + ator + orgia para tentar dar conta de um jogo que se contrói a muitas mãos. Quero dizer: a dramaturgia – como a vejo – é um emaranhado de vozes, discursos e tentativas. É uma orgia no sentido caótico do encontro das diferenças. É também o ator, concentrado e multiplicado. Dramatorgia no sentido de tê-los – os atores – em mim reunidos, de pensar a cena para suas vozes e corpos, de querer colocá-los em situações que me pareçam interessantes de colocá-los, para multiplicar sua potência em expressão. A dramatorgia como percurso da fruição nossa e do espectador. Como materialidade feita de corpos e não somente de palavras.


[1] http://oantiedipo.blogspot.com/2011/09/sobre-o-titulo.html;

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Capítulo 7 do Memorial do Espetáculo, entregue como conclusão da disciplina Projeto Experimental em Teatro

quarta-feira, 4 de abril de 2012

“Paternidade devidamente dividida”

[...] está para acontecer. são 13h50 e marcamos para 15h. estou terminando de juntar papéis, vontades e sonhos embrulhados para abrir aos meninos do elenco algumas questões que me são essenciais e que por isso mesmo devem ser fatiadas e degustadas com prazer. não gente, sem prazer não dá nem para sair de casa (nesse calor). tem quer ser com muito tesão e vontade. vamos lá: referências, texto impresso, agenda para marcar próximos encontros. no caderno meu, aquele que fiz encadernando 100 folhas em branco, a última escrita foi no dia 17 de janeiro. eu de fato me dei férias quando percebi que quero ir junto mesmo, sem anteceder dentes. sem anteceder desejos e fomes minhas, solitárias por vezes. portanto, hoje tudo começa. hoje tudo ao mesmo tempo [...] [1]

O trecho acima está na postagem Encontro Um, publicada no domingo 13 de fevereiro de 2011. Já em fevereiro, comecei a realizar encontros periódicos com o elenco. O objetivo principal era se encontrar para discutir a filosofia de Deleuze e Guatarri. Cada ator recebeu por correio o capítulo As Máquinas Desejantes. Nossos encontros foram evoluindo lentamente por pequenos trechos deste capítulo. No blog, fichamentos dos encontros registravam opiniões e questões debatidas. Nesta época, cursando a disciplina de Projeto, eu acabava gastando com o elenco algumas questões que, porventura, estivessem se mostrando pouco sensíveis ao desdobramento criativo.

Uma questão que me procupou durante nossos encontros foi, justamente, não exceder o corpo de referências. A cada debate muitas referências surgiam, ma nunca houve a pretensão nem sequer o interesse em debatê-las. Já tínhamos uma referência base que era extremamente complexa, de forma que não me pareceu interessante somar outras mais a discussão. O que fiz foi trazer a cada ator um corpo narrativo contra o qual rebateríamos os conceitos estudados. Assim, sorteamos cerca de 100 postagens do blog Lendo Árvores e Escrevendo Filhos para cada ator. O que chamo de “corpo narrativo” seria justamente aquilo que um poema poderia trazer a cada ator: um contexto específico e autônomo, produzido de maneira dissociada do nosso espetáculo. Tal corpo seria um espaço sobre o qual lançaríamos questões e desdobraríamos nossas discussões. Um corpo narrativo ou, em outras palavras, uma espécie de exemplo (que servia de corpo as nossas indagações). Mais que isso, com o debate a partir das poesias, começamos a intuir personagens e situações dramáticas. Foi pela análise do blog que encontramos, por exemplo, o verso mãe, quero virar música, que acabaria sendo central a nossa ficção. A partir do blog – e dos sorteios aleatórios – cada ator encontrou desdobramentos possíveis para a trajetória de seu personagem, ainda pouco estruturada. Durante estes encontros, estive atento para colher tais fagulhas e seguir reunindo tais pedaços pois saberia que a qualquer momento eles seriam necessários.

A própria linguagem poética, repleta de figuras de linguagem muito específicas, começou a ser discorrida em nossos encontros. Como a dramaturgia seria escrita por mim, me pareceu também importante colocar os atores em contato com a minha maneira de escrever. Não que esta fosse única e imutável, mas sem dúvida alguma já se configurava como um dado tipo de escritura. Quais palavras? Quais tempos? Como os verbos se conjugam e com quais cores e intenções? Sempre tive receio de fazer dramaturgicamente uma peça intragável por conta de algum excesso poético. Com Sinfonia Sonho busquei tornar possível a poesia e com algum tempo de processo, fui percebendo que para tal “bastava” não fazer força nem exceder a minha intenção. Durante os encontros com os atores, fui testando possíveis sinopses apenas para sondar a recepção de cada um. Desde sempre, a opinião do elenco sobre o desenrolar da dramaturgia foi determinante. Em diálogo, fomos desdobrando inúmeros lugares juntos (sem que eu desse fim ao mistério que era justamente saber qual ficção colocaríamos em cena). Consta no projeto:

Este projeto deseja dar corpo às metáforas, somando teatralidade à realidade. Deseja-se olhar para o real por um ponto de vista que seja capaz de desprender do cotidiano certa poesia, alguma teatralidade. Interessa-me criar este espaço outro no qual eu, espectador, me veja sendo movido e talhado, refeito e aprimorado. Uma realidade frente a qual eu exija de mim certa auto-análise, uma realidade que me devolva a mim mesmo via diferenciação e não via espelhamento.

Em nosso primeiro encontro, eu deixei bem claro qual era o propósito de nosso encontro. Tratava-se de um caso de Paternidade devidamente dividida (PDD). Quer dizer: eu havia escolhido aquelas pessoas para dividir comigo a responsabilidade sobre um novo filho. Sinfonia Sonho (que ainda não tinha sexo nem corpo quiçá nome) era um filho de muitos pais. É sempre assim com as coisas que crio. Mas agora era ainda mais especial, porque a princípio o projeto se estruturava a partir dessa confusão criação e vida, artista e pai, filho e obra. Na postagem intitulada sonho, eu tento descrever um sonho que tive um pouco depois de nosso primeiro encontro:

Márcio, Virgínia, Daniel, Laura e Adassa,

O que eu tenho para contar a vocês é o meu sonho. Eu diria o meu filho. Eu acabei de acordar, é sério. É muito estranho. Eu estou diante do computador. Tem uma caneca com leite muito gelado. Um pote com biscoitos de damasco sem açúcar e três passatempos (eu comi já um) recheados. Estou hipoglicêmico (acabei de medir a minha glicemia, sou diabético, deu 46). Ou seja, estou trêmulo e nervoso, porque não sei se consigo acreditar em tudo o que aconteceu em menos de cinco minutos. E seria bom que eu conseguisse acreditar, porque aconteceu.

Aos poucos escrevendo, eu acho que vou perdendo o incrível da coisa. Mas é que eu sonhei com a gente. E estar hipoglicêmico faz com que as coisas não se distinguam muito. Por isso a sensação de ainda estar sonhando. Eu acordei com essa frase na cabeça "Márcio, Virgínia, Daniel, Laura e Adassa, o que eu tenho para contar pra vocês é o meu filho" [...].[2]

Com a frequência dos encontros, começamos a discutir outros assuntos para além da referência principal. Começamos a especular sobre os temas e fomos, juntos, tomando decisões. Por exemplo: decidimos que não iríamos colocar em cena uma peça que falasse sobre teatro. Não queríamos uma peça que falasse ela mesma de sua própria criação. Queríamos brincar de ficção, construir personagens e por meio disso narrar um acontecimento que se assentasse numa lógica familiar. O filho como filho e não como obra. Passado o processo, hoje percebo que a multiplicidade do tema “criação” se mantém em nosso espetáculo: em cena um drama familiar, ao mesmo tempo que criacional em termos artísticos. Kevin que é filho é também uma criança em movimento por conta da peça teatral que ensaia em sua escola. Há a criação artística, porém, é como se não tivéssemos consciência dela: ela é saldo de uma estrutura anterior, basal, familiar.

Aos poucos o processo foi desembocando no todo, mas tudo sem imposição nem força. Não foi o caso, em momento algum, de selecionar aquilo que aconteceria e que precisaria virar cena, dramaturgia ou intenção. As coisas vão e voltam num processo, estão em movimento e livre cruzamento. Não é preciso intencionar tanto assim. Após inúmeros encontros, tivemos cerca de um mês de intervalo até o início dos ensaios. Nesse tempo, finalizei o projeto e dei conta da produção necessária para a realização dos ensaios, além de também fechar o desenho “final” das personagens, sinopse e escaleta de cenas.

Cabe pontuar que o elenco que julgava fechado desde o fim de 2010 acabou sofrendo modificações. Logo no início dos encontros, o ator Daniel Carfa teve que se retirar do projeto por indisponibilidade de tempo. Em seu lugar, convidei Dan Marins, integrante do Teatro Inominável e com o qual eu havia trabalhado em Não Dois, minha montagem de Direção V. Com cinco atores (Adassa Martins, Dan Marins, Laura Nielsen, Márcio Machado e Virgínia Maria) achei que o elenco se completaria, mas após um encontro com o amigo Andrêas Gatto, acabei convidando-o também. Assim, o elenco principal estava composto por seis atores. Mas um processo é mesmo movimento. No decorrer, eu viria a perceber que uma personagem que a princípio era apenas mencionada, precisaria estar ali, em ação perante a audiência. Para tal, convidei o ator Gunnar Borges, que já havia manifestado interesse em participar do projeto e que assumiu também a produção da peça, como aluno da disciplina Legislação e Produção Teatral. Borges ensaiou bem menos que o restante do elenco (escolha feita por conta da própria constituição da sua personagem). Por último, duas semanas antes da estreia, precisei trazer outras duas atrizes do Inominável para a completar a cena: Flávia Naves e Helena Cantídio (atrizes da montagem Vazio é o que não falta, Miranda) interpretaram, respectivamente, as repórteres Carolina Wellerson e Joana Bravo. Ao todo, nove atores em cena.


[1] http://oantiedipo.blogspot.com/2011/02/o-primeiro-encontro.html;

[2] http://oantiedipo.blogspot.com/2011/02/sonho.html;

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Capítulo 6 do Memorial do Espetáculo, entregue como conclusão da disciplina Projeto Experimental em Teatro.

segunda-feira, 26 de março de 2012

“Honestidade Radical”

O meu ingresso no curso, no primeiro semestre de 2006, foi sem dúvida alguma um momento dos mais especiais da minha vida. De fato houve um encontro muito sensível entre os alunos que compunham a turma e a própria instituição de ensino (incluindo, naturalmente, os professores). Foi somente no primeiro semestre de 2007 que tivemos uma primeira disciplina ministrada pela professora Eleonora Fabião. No seu curso, intitulado Cena Experimental Pós-Guerra, entramos em contato com diversas referências que se tornaram determinantes nos anos seguintes da graduação. Para mim, aquele curso revelou de maneira impecável a imensidão do universo no qual eu estava me lançando. Ao mesmo tempo, exigiu de mim um constante vasculhar-se para dar conta de validar as minhas impressões sobre o mundo e suas engrenagens. Eu estava no terceiro período quando comecei a intuir que fazer teatro talvez tivesse mais a ver com a vida do que com qualquer outra coisa. Que tinha mais a ver com corpo do que com imitação. Performance. Um turbilhão de coisas. Uma maravilha e um desespero: num enovelamento constante. Em 2008, dois novos cursos com Fabião me trouxeram de novo ao aqui e agora: Espetáculo: Ator III e Dramaturgias do Corpo. Em ambos, as reflexões e criações foram sempre fortemente rebatidas por sobre o corpo, por sobre a sensibilidade e expressividade nele contida. Nessa época, o famoso Constantin Stanislavski veio a fazer sentido, veio a causar arrepio. Também nesse ano, eu experimentava a possibilidade de multiplicar até o outro as coisas e sentimentos que mantia guardado em mim. Nada escapava de uma aguda reflexão sobre os porquês, sobre os motivos e as escolhas. Eu desbravei um pouco mais da palavra-enigma: dramaturgia. E tudo isso de maneira límpida e precisa. Precisão. Necessidade. E a maior força de todas, chamada honestidade radical.

Assim, ao convidar Fabião para ser a orientadora de direção do meu projeto de formatura, na verdade, eu queria apenas convidá-la a assumir, oficialmente, a função que ela desempenhou durante esse tempo todo. Foi quando Fabião se ausentou por alguns anos do Brasil (durante os anos de 2009 e 2010), que eu me percebi tentando me guiar da maneira como intuia que ela me guiaria. Eu passei a pensar, criticar e produzir dramaturgia. Em relação ao trabalho com atores, era sempre seus corpos que primeiro algo diziam. Um apuro visual, uma clareza irrevogável e intencional sobre o exercício da encenação. Um bom time de referências. Organização e estudo. Disciplina. Algumas dessas coisas, em sua maioria, ganharam consistência e importância depois que cursei as tais disciplinas citadas acima.

Movido por algumas dessas preocupações, comecei o ano de 2011 pensando em como guiar o elenco. Como estimular sua pesquisa e dinamitar sua dedicação? São tarefas que competem a mim. O meu trabalho como diretor é trabalho de pura sedução. Sem maldades. Sem cinismo. Mas com devoção e jogo. Com jogo e movimento, eu preciso guiar meus atores para que ajam, indiretamente, na inteireza de sua criação. Mas não basta se exigir resultados. É preciso conhecer cada um dos corpos, para não solicitar aquilo que não se pode ter. É um jogo sensível e de extrema confiança. Em janeiro, enviei a cada um dos atores um e-mail intitulado “desejo”. Neste, eu pedia que cada um me respondesse, com toda sinceridade, quais eram os seus desejos mais intensos. Aquela vontade que, como nenhuma outra, era capaz de consumí-los. Em alguns dias eu recebi suas respostas e cruzando-as fui, aos poucos, percebendo que o nosso espetáculo precisaria, minimamente, girar em torno de tais desejos. Ou nem isso. Eu juntei suas respostas ciente de que, assim que possível, eu as colocaria em jogo para que a nossa obra desde o início fosse catalisada por nossa própria vida e pelo corpo – nosso – de cada um.

Era o segundo dia do ano 2011 quando também enviei a professora Eleonora Fabião um e-mail, convidando-a para ser a orientadora de direção do meu projeto de formatura. Neste e-mail, eu dizia aquilo que durante muito tempo foi o projeto: um espetáculo a ser criado a partir do capítulo inicial da obra O Anti-Édipo. Em poucos dias, Fabião já havia me respondido, sugerindo uma reunião para meados de março, quando as atividades acadêmicas já teriam começado. Era isso. O convite havia sido feito. Mas, para mim, era nítida a certeza de que seria necessário, até o primeiro encontro, estudar bastante visando clarear e aprofundar ainda mais os meus desejos e intuições quanto ao projeto.

É difícil escrever sobre esta orientação de direção sem soar meloso ou desmedidamente apaixonado. Não sem querer intitulei este trecho do memorial de Honestidade radical, porque é bem isso. O encontro com Eleonora me formou um diretor teatral. Não tivemos dúvidas nem certezas, tivemos ação e diálogo mútuo, linha cruzada e fala simultânea (como ela mesma comentou durante a banca de avaliação de Sinfonia Sonho). Eleonora, bem como as professoras orientadoras de Esperando Godot, Gabriela Lírio e Livia Flores, esteve atenta durante todo o tempo aos meus anseios criativos. Não quer dizer que não tenha me oferecido uma série de contrapontos e questionamentos. Sempre que necessário ela o fez. Quer dizer apenas que foi parceira. Essa é a palavra chave de sua postura enquanto orientadora de direção: parceria. Sinfonia Sonho é tão de Fabião quanto de Liberano. Ela também assina a dramaturgia. Dela também é a encenação, bem como o detalhe quase imperceptível do corte da barra do vestido de uma das personagens. Falo da preocupação com minúcias e grandes questões. Registro aqui a importância que foi ouvir dela que para alguns assuntos e questões, era ela quem estava ali para resolver. Quer dizer: a essa postura eu hoje retorno pensando se terei condição de seguir me orientando depois dessa orientação. Afinal, se estou numa escola de direção e o professor orientador visa me instruir no meu ofício, é de fato determinante pensar neste depois.

Portanto, gasto aqui neste memorial o caminho percorrido e escrevo sobre ele para clarear a potência do que até então foi-me plena satisfação. Tento traduzir em outras falas a força do olhar, do toque e da palavra. Meu arsenal como profissional tende a tudo isso, portanto ouso levar comigo a exigência de não se furtar de certas questões; o olhar atento e generoso ao outro que me alimenta; a obstinação da busca; o valor dos sonhos; o saber abandonar; o saber deter; e, sobretudo, a elegância feroz de alguma irredutibilidade. Em um dado momento, achei que Eleonora sabia exatamente o que era o espetáculo que eu ainda não tinha a consciência. A ela, sou grato pela espera. Por ter me permitido buscar “sozinho” quais caminhos tomar, quais ações escrever e quais palavras usar.

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Capítulo 5 do Memorial do Espetáculo, entregue como conclusão da disciplina Projeto Experimental em Teatro.

quarta-feira, 14 de março de 2012

“Projeto de encenação”

Nesse percurso acadêmico, o que diferencia enormemente a progressão criativa dos exercícios de encenação montados, é o momento em que se realiza a disciplina Projeto de Encenação. Geralmente cursada no semestre anterior a montagem do Projeto Experimental em Teatro, nesta disciplina o aluno é orientado na criação de um projeto de encenação que, na maioria dos casos, será o seu projeto de formatura. De alguma forma, em um dado momento da pesquisa é muito fácil se perder, em virtude das inúmeras referências e ideias. Como a presença do orientador de direção surge apenas após a entrega dos projetos e a definição de orientação, durante bom tempo o aluno está sozinho, dentro da própria dinâmica criada por si próprio. Mas nesta última montagem, estar inscrito – um semestre antes – na disciplina Projeto tornou tudo mais proveitoso. A periodicidade – uma aula por semana – me fez cumprir tarefas curriculares ao mesmo tempo em que estudei o meu projeto constantemente, ganhando com isso maior entendimento e domínio sobre as, até então chamadas, intuições.

Eu cursei a disciplina Projeto de Encenação no primeiro semestre de 2011 com a professora Gabriela Lírio, que havia sido a orientadora de direção de Esperando Godot. Tenho a sensação de que tudo passou rápido demais até o momento em que me vi esboçando objetivos, justificativas e propostas de encenação. O diálogo com Lírio partia sempre de uma busca por algum contorno mais preciso, sobretudo em se tratando dos projetos que flertavam mais com filosofia do que com dramaturgia – como o meu. Travei um grande e proveitoso embate em sala de aula porque costumava dizer que estava naquele curso para inventar “mentiras”. Mentiras que eu precisava não somente criar, mas também acreditar. Era brincando de dizer aquilo que seria a peça, com a maior precisão que me fosse possível, que eu começava a vislumbrar lugares de fato interessantes para a criação. Eu dizia mentira porque não havia nada de antemão. Alguns lugares – como a própria encenação, eu imaginava – viriam de forma muito natural, seriam desdobrados e não inventados. Assim, alguns esboços durante a aula de Projeto foram pura invenção, pura “mentira”, que me fizeram ganhar o projeto em inúmeros sentidos.

Nesta disciplina, seguindo as solicitações da professora, busquei terminar o semestre não somente com um projeto que fosse expressão dos meus interesses, mas sobretudo com um bom desenho da dramaturgia (que viria a ser criada). Mesmo que as ideias postas no papel viessem a ser abandonadas, esse próprio movimento de abandono só aconteceria caso houvesse um desenho anterior que pudesse ser abandonado em processo. Cursar a disciplina foi um ato propulsor na criação de Sinfonia Sonho. Ainda que muitas ideias tenham sido potencialmente distintas, hoje percebo que a peça criada é fruto direto dos anseios descritos no projeto. A seguir, destaco algumas anotações feitas em meu computador durante as aulas:

Projeto: Quais questões me interessam em As Máquinas Desejantes? Que recorte é esse? Que desejo é esse?

Apresentação ou Aquilo que solicita atenção em mim.

Muitas perguntas. Gabi me disse que eu precico aprender a desconfiar das minhas intuições.

Estou acumulando muitos rascunhos de projeto. Seriam muitas peças distintas querendo nascer?

Objetivos – Justificativa (como relevância acadêmica)

Não se assentar tanto sobre Deleuze e Guattari para não ter que cair profundamente em sua obra (?).

Metodologia: o autor do projeto gesticula e gesticula como se pudesse traduzir seu íntimo por meio de idas e voltas das mãos tensas cortando o ar.

Cronograma de Atividades (elas já começaram)

Referências Visuais: Alejandro Almanza Pereda + Banks Violette + Chema Madoz + Kilian Rüthemann + Sebastian Wickeroth

Referências Filmográficas: ELEFANTE (Gus van Sant) + FELICIDADE (Todd Solondz) + FESTA DE FAMÍLIA (Thomas Vintenberg) + OS IDIOTAS (Lars von Trier)

Why referências?

Importância das referências para nivelar um chão sobre o qual construiremos algo ou a partir do qual se dará alguma criação. Novas referências sugeridas por parte da Gabi.

É chegado o momento da formatura. E ao contrário do previsto, eis que o aluno a redigir este projeto sente-se imensamente despreparado para tal ato.

Uma intuição amorfa que cresceu dentro e virou peste. Assim, com certo tempo, é o artista também algum lampejo de sua obra? Seria a sua obra também certa confissão de seu íntimo lacrado e febril?

Seria, então, esta peça de formatura a expressão nua e crua de sua própria criação? É cedo para dizer. Porque este projeto nasce e morre a cada dia. E isso já faz meses. Este projeto é pura poesia que corre o risco de passar despercebida. É jóia rara carente por lapidação. Matéria bruta e improdutiva clamando por tradução. Monstro alado a procura de cavaleiro capaz de domá-lo. Ou seja: tem tudo para dar errado.

Logo adiante, será preciso esclarecer exatamente o que possa ser esta encenação. E mesmo que para isso ele precise mentir, a fim de conseguir sua aprovação, caro leitor, ele o fará. Porque ao mentir para ti, ele cria também para si a ilusão que alimentará todo o seu sonho, até que este possa, enfim, vir a ter contigo.

Frente a exigência de escrever o projeto, me incomodou bastante ter que pensar em “invenção”. Sempre busquei identificar na minha própria vida e trajetória aquilo que pudesse justificar uma criação artística. Assim, num dado momento, foi inevitável não buscar na minha própria vida algum contraponto real para as invenções da dramaturgia. Isso aconteceu quando me percebi vasculhando a minha produção poética (registrada desde 2008 no blog Lendo Árvores e Escrevendo Filhos[1]). Tal busca nasceu por conta de uma leitura mais clara que comecei a conquistar sobre O Anti-Édipo. Era como se compreendendo as questões abordadas pelos dois autores, eu pudesse buscar sua ressonância sobre fatos reais, sobre a vida. Segue um trecho da introdução do projeto:

Escrita sob o fervor dos eventos ocorridos em maio de 1968 na França e lançada em 1972, tal obra visa liberar a potência revolucionária do desejo ao problematizar a forma pela qual a psiquiatria e a psicanálise o enquadra. O mito de Édipo, por sua vez, apenas evidencia como é possível atravancar o fluxo produtivo do inconsciente quando se tenta remetê-lo unicamente a uma lógica familiar: toda a produção desejante é então esmagada, submetida às imagens familiares, (...). O inconsciente desconhece as pessoas. Os objetos parciais não são representantes das personagens familiares, nem suportes de relações familiares (...).

Foi a partir de tais reflexões que eu comecei a me indagar sobre contra quais parâmetros meus desejos se rebatiam. Por meio de discussões com os atores e estudos sobre a produção poética realizada por mim nos últimos anos, a poesia começou a se anunciar como uma potente ferramenta capaz de efetuar essa liberação do desejo, tal como defendida pelos autores de O ANTI-ÉDIPO. Será que o registro do desejo passa pelos termos edipianos? (...) Não será o Édipo uma experiência ou uma consequência da reprodução social, enquanto esta pretende domesticar uma matéria e uma forma genealógicas, que lhe escapa completamente?

Ao ser referir à estrutura familiar edipiana, os autores sugerem uma formação triangular estabelecida pelos vértices pai, mãe e filho (eu). É imprescindível reconhecer que tal figuração da família, nos dias de hoje, já se encontra profundamente abalada. No entanto, foi por dialogar sobre a asfixia dessa primeira estrutura, que remete o filho obrigatoriamente a seus pais, que eu pude vislumbrar maneiras outras para revigorar tais relações (unicamente familiares, a princípio).

Assim, a dramaturgia deste projeto visa somar um novo vértice a essa estrutura triangular da família. Por meio deste quarto vértice, acredita-se, a estrutura edipiana que lacra dentro de si tudo aquilo que também almeja abrir-se para um fora encontra um ponto de fuga para a saída e o distanciamento, encontra possibilidades outras para reinvenção e existência. Do triângulo evolui-se, então, a uma pirâmide triangular, um corpo tridimensional com quatro faces triangulares. Este último ponto, inventado, passa a ser justamente o vértice da imaginação, do sonho, da poesia e do movimento. Por meio dele, os desejos são convidados a bailar livres dentro do espaço da casa.

Foi essa a contribuição maior da obra escolhida como referência principal do projeto. De alguma forma, encontrando uma nova estrutura para o triângulo edipiano, me pareceu também possível desdobrar por meio da poesia alguns desenhos para uma encenação. É neste ponto que o meu blog se revelou como “contraponto” a criação, no sentido de que nele eu escrevo a minha vida e nisso a refaço, especulando possibilidades e reinventando suas tramas. O título do blog desenha essa ação: Lendo Árvores e Escrevendo Filhos como uma analogia entre artista e obra que se prolonga também para a relação pai e filho, explodindo outras acepções para a criação a partir das quais vida e arte se entrecruzam e produzem possibilidades inúmeras de significação. É pela poesia, sem dúvida alguma, que a minha existência se oxigena e refaz. É pela poesia que a vida continua. Foi essa a percepção explodida com O Anti-Édipo: a de que a falta suprema diz respeito a incapacidade do jogo com a própria existência.

Por fim, foi cursando Projeto que eu cheguei a uma pequena lista dos temas que vinham se mostrando recorrentes nas referências e discussões. São eles: criação, desejo, família, tragicidade e metalinguagem. Seria a partir destes temas que Sinfonia Sonho nasceria.


[1] http://lendoarvoreseescrevendofilhos.blogspot.com

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Capítulo 4 do Memorial do Espetáculo, entregue como conclusão da disciplina Projeto Experimental em Teatro.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

separação e cegueira

é o tom dos últimos atos. na verdade, a divisão deles não é assim pá e pronto, começou um novo ato e uma nova configuração de cena já se instala. as coisas tão mexidas e misturadas. uma cena do segundo antecipa algo do terceiro ato. as cadeiras se separam assim como as personagens.

paragens. uns numa ponta, outros na outra, um outro só. no canto. o centro da cena convida a todos e a todas, porém, para o desmontar-se. as repórteres entraram. tem personagem implorando pra sair. e sai.

o palco vai se esvaziando e o desamparo acontece pleno. que horrível tudo isso. beleza. é horrível mesmo. franklin pela primeira vez calça os sapatos e parte. parte mesmo. menos um. logo ele. partiu. as crianças congeladas frente ao televisor. as repórteres são mais família do que outra coisa. estão coladas. são invasivas e perniciosas.

joana bravo e carolina wellerson. eva segura a cadeira no alto. é o peso da sua faca. é o peso que nem ela consegue sustentar, coitada.

corley cria raíz sobre o túmulo de tomas. tomas perde, enfim, todo aquele movimento. não há vento, mas talvez exista um ventilador ali.

kevin perde o movimento também. a cabeça pesa e dói como nunca antes. o desejo de virar música começa a empalidecer o espírito. o consome.

o cara das rubricas fica sozinho. bem feito. ele merece. moira congela mesmo. vira estátua. mas é só para nos enganar. na hora precisa ela vai dar o bote e enfim, todos nós sabemos para onde a coisa vai.

o centro não é mais centro. porque ele atira para todos os lados. o centro virá o famoso furacão, dentro do qual e por conta do qual as coisas todas são obrigadas a bailar desespero.

o desenho disso tudo está aqui comigo. vamos juntos, montá-lo. juntos vamos vivê-lo.

ui. medo e delírio.

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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

33 \\

30 de outubro, UNIRIO, 13h/18h.
Thaís, Andrêas, Laura, Adassa, Márcio, Dan, Virgínia, Gunnar e Diogo.

Comentários sobre o Ensaio + Passadão

tomas observa ao mesmo tempo em que segura a mãe.

ele respira e moira o intercepta.

ele dá um passo e moira o intercepta.

talvez o movimento dele seja para cima. ou seria para baixo?

ELES ALI NAS CADEIRAS [CINTO DE SEGURANÇA]

tomas anda com o peito adiante. é quase rarefeito (seja lá o que isso significa).

célia parece uma mulher entediada com o fato de ter virado mulher.

kevin está longe, distante, pensando sempre no futuro.

corley vencido.

moira na espreita.

franklin regusrgitando pequenas iras.

eva sentada a espera de um exame qualquer.

PASSADÃO 15H37

SINFONIA SONHO

FESTA CÉLIA

dan – atenção as falas da primeira cena.

kevin! de eva chamando atenção pode ser mais por causa do shopping center e menos pela bronca.

então pode tirar o enfeitinho… entrada mais imediata.

tomas é uma [escultura viva]

tempo da cena FESTA CÉLIA é mais ágil, as respostas são mais imediatas.

OS VIZINHOS

eles se olham, moira e tomas.

a mão de moira quase toca o cabelo de tomas.

VENTILADOR LIGADO?

atenção ao texto – fechar injúrias moira e corley (é mentira, estou grávida, é mentira…)

tomas chora enquanto moira fala do estar grávida, tomas é quase um móbile de berço

moira você precisa descansar é mais imediato

a cinza do cigarro de franklin ainda se produz, intacta e de pé

a mão de moira bate na cabeça de tomas? eles se encostam? tenho a sensação de que se ela esbarrar nele, nunca mais vai largá-lo por medo de perdê-lo novamente

franklin não precisa fumar o restinho do cigarro. franklin não é fumante, está apenas ocioso.

ótima posição de moira com as duas pernas sobre a cadeira. (que se desmanchou no exato instante em que escrevi isso)

texto de corley e frank é mais batidão. animado. divertido. jovial – tá pesado e não precisa – jogar a conversa fora, papo de maridos, de homens…

não acredito no puxa, que delícia de frank sobre o filho de corley

corley – assim que soube da gravidez, moira comprou mesmo o shopping? o que corley está querendo dizer? que ela foi ao shopping comprar brinquedos para o filho ou que a casa tá cheia de brinquedo (do filho sumido) ou que…?

kevin olha tomas. bastante. talvez ele tenha nojo. talvez inveja. kevin já sabe que um tal de tomas não virá mais a escola porque sumiu, fugiu, se mudou com sua família. quando é que kevin realiza tudo isso? quando ouve o nome de tomas?…

mamãe não vai chegar para o jantar…

tomas toca a barriga de moira. bizarro.

kevin, acrescentar “ais” _ ai, a minha cabeça tá doendo… ai, a célia tem razão…

o liquidificador de célia só começa depois que a rubrica termina com acende um abajur

O PRONUNCIAMENTO

célia acorda kevin.

o diálogo todo é muito mais ágil.

kevin confere se fez a irmã chorar. isso é bom.

não há tanto balançar de cabeça. entre os dois.

ótima cara de kevin ao ter o pé pisado por célia.

corley assiste a cena de célia e kevin, mas tem a atenção também movida para tomas.

eva está muito mais calma com a fala e isso é ótimo.

o diálogo entre eva e frank é também super mais ágil, flui, um fala e o outro devolve e vice-e-versa – não há tanto respirar entre as palavras de uma mesma fala.

eva dizer apenas “sinto falta de seus beijos”, com estas palavras

kevin estranha tomas se aproximando da mãe

célia observa kevin vendo tomas

o kevin pôs aquelas vitaminas… começa logo depois da rubrica, como fosse fofoca de célia

kevin reversão sensível em quase toda essa cena que antecede o pronunciamento do virar música.

ótimo, frank – silencia o choro de célia para que a cena continue

célia pode entrar logo com o que é mertáfora?

obrigado, pai, eu não sei o que seria de mim sem você > REVERSÃO SENSÍVEL AQUI!

franklin com as falas muito sonolentas os vizinhos estão comemorando que vão ter um filho…

meninos (corley e frank), deixem o diálogo acontecer, não o prendam, deixem as palavras sair e deixem também que elas levem vocês adiante

precisamos ir ao médico de corley – é uma decisão

não hesitar com o tapa, moira, já falamos sobre isso

eva – p.29 – e ao mesmo tempo diferentes? ao invés de completamente diferentes

SINFONIA SONHO

frank e eva falando sobre o jantar pode ser mais ágil também

eva pode super sofrer com a fala do mesmo assim eu gostaria muitíssimo de oferecer – efeito pêra caramelada

franklin resmunga inteiro, sem pausas para lasanha isso ou aquilo é inteiro

tomas abaixa e se ergue de novo (foi um balão que estourou). tomas responde fisicamente a tudo o que lhe acontece lá no céu? tomas está no céu durante estes minutos de peça? tomas ainda está consciente? quando isso acaba? ele morre ao bater no chão ou morre lá em cima?

as crianças voltam da aula de teatro – gosto do caminhar que é quase uma brincadeira

moira - se chama tomas ao invés de vai se chamar tomas (já se chama, não vai se chamar, é o tomas que sumiu)

tomas é movido para baixo e para cima com os balões, vertiginoso

eva, no jantar, pode ser minimamente mais ágil na explicação de suas teorias – é mais do mesmo!

frank, suas caras de reprovação no jantar são incríveis (pois sutis)

genial eva sentar e mirar corley (quase acho que eles vão se pegar!)

célia se senta de costas, também ótimo, assim como tomas, com a cabeça para o céu

MASSACRE LOCAL

o texto de corley foi bastante automático, cansado, ausente

tomas sopra os cabelos da mãe e faz música. tomas faz música, kevin. ele também sabe o que é isso do espírito da música.

ótimo o tom de célia – aquela barriga é falsa? eu sabia – sem grandes exaltações, mais certa do que surpresa – mulher!

respiração de tomas super aparente.

17h03 >>>

o nosso passadão durou uma hora e vinte e quatro minutos. conforme eu disse, não há preocupação quanto a isso. o importante é haver jogo. precisamos otimizar o jogo, não o tempo. isso será consequência. peguem essas considerações acima e aquelas já feitas ontem e vamos trabalhar sobre elas.

estudo do texto. estudo do texto. finjam que o dramaturgo não sou eu. tenham certa devoção ao texto. justamente para descobrirmos algo para além dele, para sairmos da superfície e para descobrirmos nossa intenção, nossa leitura dessa coisa toda.

muito trabalho adiante.

vamos juntos.

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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

sobre a importância de mudar o ponto de vista

este processo de criação está sendo único. nunca antes eu tinha trabalhado dessa maneira e ao mesmo tempo em que ela tem nos rendido grandes descobertas, por vezes é nítido que chegamos a um ponto em que ela perde a graça e nos faz ter vontade de ir pra outro lugar.

eu quero dizer: temos algumas cenas, que foram divididas em blocos. vocês, atores, partem pro trabalho de levantamento de tais blocos, começam a montar um esboço, um primeiro chegar, algum corpo para uma dada sequência de acontecimentos. isso tem nos gerado quase sempre blocos muito distintos, alimentando a noção de bricolagem que permeia nosso espetáculo – ou seja – o nosso espetáculo virá a ser de fato uma colcha com muitos pedaços, muitas linguagens e formas. isso é ótimo. mas,

o que acontece quando dois atores que já fizeram um dado bloco se dão por satisfeitos?

isso está acontecendo porque dentro do nosso planejamento de ensaios vocês estão em pleno curso, sem atraso ou adiantamento. eu pergunto isso porque vários de vocês já terminaram seus blocos e mesmo assim seguem sendo exigidos em sala de ensaio. eu não posso me incomodar com essa exigência. eu não posso solicitar menos a vocês. há vários motivos: vocês estão em cena o tempo todo. não estando ali, em pleno diálogo ou ação, então se posicionem nas cadeiras. vocês não vão ficar parados assistindo a peça quando estiverem nas cadeiras. há muito a ser feito e vocês precisam ser completamente íntimos de tudo isso. ao solicitar a vocês que permaneçam, o que significa isso, uma mera exigência do diretor do espetáculo?

não, obviamente. isso significa que vocês esgotaram uma forma de ver o tal bloco já erguido. mas existem outras. poxa, estamos trabalhando com pontos de vista. se vocês pararem para analisar os blocos pelos mais variados pontos de vistas que temos, cada hora descobrirão uma nova coisa. e é essa a questão: o que a mudança do olhar traz para a cena? se pensarmos que cada espectador lança ao nosso trabalho um ponto de vista diferente… talvez tenhamos desejo e preocupação de fazer uma grande vistoria em nossa peça, filtrando-a por inúmeros pontos de vista.

escrevo estas palavras por saber o que vocês estão passando. mas não é nada excepcional, é o seu ofício. sobretudo, quando eu não estou em sala de ensaio, eu os convido a percorrer outro olhar sobre o mesmo. mas essa guinada no olhar cabe a vocês também. não dá pra ficar no mesmo e se chatear porque tá no mesmo. muda. redescobre. refaz.

o que acontece quando dois atores já fizeram um dado bloco e se dão por satisfeitos?

creio que eles descobrem uma maneira para assegurar a sua constante insatisfação com o trabalho. vocês não estão aqui/ai pra ficarem confortáveis e seguros. não vamos buscar por essas coisas. elas são de mentira. e o nosso trabalho, vale mais que isso.

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terça-feira, 18 de outubro de 2011

semana 3/7

CRONOGRAMA DE ENSAIOS

segunda_17.OUT_19h/22h_andrews
ausente: virgínia

andrêas + dan = CRIAÇÃO DO BLOCO 06
andrêas + laura = AJUSTES BLOCO 05 + 14
adassa + dan + márcio = AJUSTES BLOCO 07
adassa + márcio = AJUSTES BLOCO 09
márcio = AJUSTES BLOCO 08
dan = CRIAÇÃO DO BLOCO 04

terça_18.OUT_19h/22h_andrews
ausentes: diogo e virgínia

dan = AJUSTES BLOCO 04
dan = CRIAÇÃO DO BLOCO 12
andrêas + laura = AJUSTES BLOCO 05 + 14
andrêas + dan = CRIAÇÃO DO BLOCO 13
adassa + márcio = AJUSTES BLOCO 09
márcio = AJUSTES BLOCO 08
laura = CRIAÇÃO DA POSTURA SOBRE A CADEIRA PARA OS BLOCOS 01 + 02 + 03

quarta_19.OUT_19h/22h_andrews
ausente: adassa e diogo

andrêas + dan = AJUSTES BLOCOS 06 + 13
andrêas + laura = AJUSTES BLOCOS 05 + 14
dan + virgínia = AJUSTES BLOCO 10
márcio + virgínia = AJUSTES DIÁLOGO BLOCO 03
márcio = AJUSTES BLOCO 08

quinta_20.OUT_19h/22h_andrews

trama geral das três primeiras cenas (DECORAR RUBRICAS)
leitura das cenas três SINFONIA SONHO + quatro MASSACRE LOCAL + cinco NÃO-DIVISÃO CELULAR

sexta_21.OUT_19h/22h_andrews

continuação da trama geral das três primeiras cenas (DECORAR RUBRICAS)
estudo das cenas três SINFONIA SONHO + quatro MASSACRE LOCAL + cinco NÃO-DIVISÃO CELULAR

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seguem abaixo indicações para a criação dos blocos restantes:

BLOCO 04 > FRIO APODRECER

> sentados (frontalidade): adassa + andrêas + laura + márcio + virgínia
> de pé (livres no espaço): dan
> leitura das rubricas (ANDRÊAS)

BLOCO 08 > UM LEITMOTIV

> sentados (frontalidade): adassa + dan + virgínia + andrêas + laura
> de pé (livres no espaço): márcio
> leitura das rubricas (ANDRÊAS)

BLOCO 12 > CESSAR DÚVIDAS

> sentados (frontalidade): adassa + márcio + virgínia + andrêas + laura
> de pé (livres no espaço): dan
> leitura das rubricas (ANDRÊAS)

BLOCO 13 > SER PAI

> sentados (frontalidade): adassa + laura + márcio + virgínia
> de pé (livres no espaço): andrêas + dan
> leitura das rubricas (ANDRÊAS/DAN)

16 \\

07 de outubro, Colégio Andrews, 19h/22h.
Thaís, Andrêas, Laura, Adassa, Márcio, Dan, Virgínia, Diogo e Helena Cantídio.

helena puxou uma preparação com os meninos. levou um óleo e partiu de uma auto-massagem corporal. puxou um excelente trabalho sobre a musculatura do olho. sobre a inteligência da musculatura. em seguida, retomei alguns jogos que há tempos não fazíamos. alvo, cinto de segurança. pensamos o PV de cada personagem a partir de palavras que fui tirando do texto (recebido no dia anterior):

domingo + olho + amanhã + aniversário + cuidado + escuro + espera + cansado + dinossauro + raciocínio + surpresa + carro + ajustes. depois fizemos uma leitura das cenas. apostei que franklin leria as rubricas sobre a família de corley e corley aquelas que descrevessem as ações da família de franklin. foi super curioso. por último, fizemos uma improvisação do prólogo FESTA CÉLIA.

as figurinistas e o cenógrafo fizeram uma primeira apresentação das ideias. tudo simples, mas lugares que haviam sido intuídos e que pareceram a eles potentes de se desbravar. por último, apenas um pedido: decorar o texto.

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15 \\

06 de outubro, Colégio Andrews, 19h/22h.
Thaís, Andrêas, Laura, Adassa, Márcio, Dan, Virgínia, Diogo, Helena Cantídio, Philippe Baptiste, Gunnar Borges, Isadhora Müller, Leandro Ribeiro e Marina Dalgalarrondo.

ensaio com todos do elenco e mais figurinistas (isadhora e marina), cenógrafo (leandro), diretor musical (philippe), produtor/ator (gunnar) e diretora de movimento (helena cantídio).

entreguei as primeiras cenas. prólogo FESTA CÉLIA + cena um OS VIZINHOS + cena dois O PRONUNCIAMENTO. fizemos uma leitura e conversamos um pouco. na verdade, não falamos muito. tenho a sensação de que o texto chegou e deu uma silenciada ao invés de promover o diálogo. nesse mesmo dia, antes do ensaio, estive numa reunião de quase quatro horas com a eleonora, orientadora de direção.

nesta reunião, lemos as cenas e fomos tramando possibilidades. eleonora me falou da simultaneidade, do refrão de kevin (que na mesma hora eu nomeei de leitmotiv). focou sua fala no uso das rubricas, o que me fez pensar que os vizinhos dão as rubricas da família ao lado da sua. me indicou que lesse novamente senhora dos afogados, do nelson rodrigues. e tocou no assunto inversão de valores. algo como infantilização e adultização. sobre educação.

butoh. psicofísico.

a possibilidade da rubrica, a lista de personagens (descrição de cada um). tudo isso é texto e serve apenas para deslocar o leitor do centro da história, para fazê-lo ver tudo de fora. analisar. refletir. pensar sobre e não se extasiar com aquilo ali contado, encenado. passei a ela tudo que havia recebido das figurinistas e do cenógrafo. o preto e branco do figurino, o uso das cadeiras e eletrodomésticos. eleonora disse que o nosso chão era verde. e eu fiquei semanas pensando nisso. chegamos ao malevich, enfim…

tocamos no assunto esquizofrenia. desmedida e ambiguidade. disse que era nesse ponto onde o trágico emergia. ela me falou da idade de alice – os sete anos – também de célia. a mudança da dentição. a sensação de amadurecimento que o aniversário provoca. trouxe indagações sobre o furar do olho de célia. me perguntou se tinha sido realmente um acidente. falou da selvageria natural das crianças. e que tal ato – o furar do olho da irmã – deveria ter custado ao kevin alguma coisa.

muitas coisas que desde então estão se movendo e testando. um flerte sem fim entre muitos lugares, ou seja, pura pura pura bricolagem. não há sentido prévio. estamos construindo no passar dos dias.

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14 \\

05 de outubro, Colégio Andrews, 19h/22h.
Thaís, Andrêas, Laura e Diogo

ensaio apenas com corley e moira.

assim como nos anteriores, entreguei um capítulo do livro O PENSAMENTO SELVAGEM, do Claude Lévi-Strauss, sobre bricolagem. discutimos sobre o título do espetáculo: sinfonia sonho. também conversamos sobre calendário, datas, prazos. informei a nossa data de estreia e marquei datas na agenda quando realizaria a entrega das cenas do texto (em três momentos).

sugeri uma improvisação dificílima. queria que eles criassem a situação imediatamente anterior a primeira cena do espetáculo. ou seja, eles deveriam estar presentes segundos após o filho ter sido levado por um balão. semanas depois eu descobriria se tratar de balões de gás hélio e não de um balão conforme acreditávamos. me preocupou bastante pedir essa improvisação porque desde o início ela me sugeria encrenca. como dar conta disso? os meninos deram.

laura abriu a porta e gritava com andrêas vai buscar nosso filho, batendo nele e ele completamente parado, sem saber como dar conta daquela exigência. a improvisação teve cerca de quarenta minutos, nos quais pouco foi dito, mas muito foi dito sem palavra, escorrendo pelos olhares e gestos. precisão versus imprecisão, um desespero lento consumindo os dois. batidas de cabeça de corley contra a parede. moira parada durante minutos a espera de um ruído para esbravejar seu horror. foi intenso. foi sério. ali descobrimos muito sobre os dois.

descobrimos essa agilidade de moira capaz de descongelar só com o olhar um iceberg inteiro. descobrimos como corley para além do afeto e amor sabe também ser violento e impositor. ficamos nesse entre onde a dor de perder um filho justifica ações que não se justificam. o tempo passa de fato em pouco tempo. o filho voou e não deu tempo de retroceder. não deu tempo de segurá-lo. ele se foi. era final de noite, ele partiu e acabou. muito silêncio. muita pausa. muita coisa, ao mesmo tempo, NADA.

excelente ponto de partida, que os meninos estão desbravando mais a cada ensaio.

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13 \\

04 de outubro, Colégio Andrews, 19h/22h.
Thaís, Dan, Virgínia e Diogo

ensaio apenas com eva e franklin.

assim como no anterior, entreguei a eles um capítulo do livro O PENSAMENTO SELVAGEM, do Claude Lévi-Strauss, no qual há um bom apanhado sobre bricolagem. sugeri que fizessem uma improvisação de uma situação imediatamente anterior a primeira cena do espetáculo (que viria dali a alguns dias).

na improvisação. uma conversa franca entre os dois. eva se msotrando como aquela a frente de tudo, somente a espera do resultado do concurso para colocar as coisas na mala e partir. franklin, talvez por conta da morte do paz, letárgico, nem isso, lento apenas, sem grandes vontades nem grandes desejos. maleável, capaz de fazer tudo o que lhe for pedido, mas no seu tempo.

discutimos sobre o título do espetáculo: peça de formatura ou sinfonia sonho? ficamos com o segundo. conversamos – assim como no ensaio anterior - sobre calendário, datas, prazos. informei a nossa data de estreia e marquei datas na agenda quando realizaria a entrega das cenas do texto (em três momentos).

eva e franklin são personagens difíceis. não pelos atores, não isso, mas por sua constitução mesmo. como escrevê-los? quem são eles? neste ensaio, observei que eva talvez estivesse um grau descolada da realidade. tão tomada pelo desejo de sucesso, tão movido a isso que acabava por se fazer meio out, meio fora de órbita. franklin, talvez – mais uma vez – pelo luto do pai, não seria alguém depressivo, mas apenas alguém meio ao meio, semo vigor completo. alguém que já se aproxima da consciência da própria morte por conta da proximidade com a morte do outro.

descobrimos fisicamente um jogo interessante para eva. ela talvez mova mais as pernas do que os braços. talvez ande e fale sem parar. mas apenas ande e fale, sem gesticular muito. semanas depois, as duas figurinistas viriam a propor um figurino que num dado momento justamente corta os movimentos da perna, exigindo de eva quase uma imobilidade. ao passo que o figurino de franklin, totalmente solto e flamejante, como se ele tivesse encolhido dentro de si mesmo, como se tivesse se resguardado.

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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

distanciamento

estou pensando em brecht. não que eu saiba de alguma coisa. sei apenas do que ele cavou em mim. sei da minha compreensão acerca de alguma fagulha de seu universo. penso em distanciamento. penso em não iludir, mas te fazer cair dentro por via outra, mais essencial, mais especial. afinal, é sabido que estamos fazendo uma peça. logo, o que pode haver de saldo maior a partir desta certeza? o que gostaríamos que você soubesse mas que é preciso decifrar?

quero dizer que a história ali sendo encenada não interessa exceto por aquilo que ela pode fazer brotar aqui em nós que a assistimos. é uma sensação quase inédita essa. eu aqui confundindo os diálogos e me vendo sentado ante aos atores. eu pensando como posso fazer para receber tudo aquilo como se fosse a primeira vez. eu me esforçando como nunca antes para ser espectador, de profissão.

as referências todas morreram. o que estamos construindo vem por pernas próprias. bem, pode ser que sejam semelhantes ao concreto que dá solidez ao mundo, mas são pernas autônomas e que respiram por si só. eu aqui escrevendo hipérboles quando dentro de mim uma hipérbole maior me consome. a forma, meu deus, a forma. ela está gritando, ela está dizendo e eu esperando?! como pode?

ponto parágrafo.

eu preciso escrever a cena massacre local. creio que nela reside o epicentro disso que me angustia. esta cena me faz estar frente a frente com aquilo que me aterroriza. com tudo o que me endoidece e machuca. tenho a sensação que tudo foi escrito para que se chegasse a este momento. imagina, cara, o seu filho sendo alvejado por um qualquer. imagina a sua criança, de banho tomado, cabelo penteado, indo feliz para mais um dia de aula e simplesmente ela não voltar. não pode. o mundo tá muito errado. alguém precisa falar disso.

eu não sei se sou eu quem deve falar. mas sem dúvida estarei tentando. é preciso. é menos mensagem e mais necessidade. é abrir o corpo sobre o jornal de cada dia e ver em qual manchete ele cola. sobre quais corpos ele se enrijece e depois chora. eu não sei. eu estou procurando algum distanciamento para colar sua atenção nesta coisa. pra colar sua dispersão na minha.

distanciamento para ver melhor, é? então tenta colar aqui. o que será que veremos? que o sangue escorre invisível e incolor.

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sexta-feira, 23 de setembro de 2011

SINFONIA SONHO

Cosmogony

Björk

Heaven, heaven's bodies
Whirl around me
Make me wonder

And they say back then
Our universe was an empty sea
Until a silver fox and her cunning mate
Began to sing a song that became
The world we know

Heaven, heaven's bodies
Whirl around me
Make me wonder

And they say back then
Our universe was a coal-black egg
Until the god inside burst out
And from its shattered shell
He made what became
The world we know

Heaven, heaven's bodies
Whirl around me
Make me wonder

And they say back then
Our universe was an endless land
Until our ancestors woke up
And before they went back to sleep
They carved it up into
The world we know

Heaven, heaven's bodies
Whirl around me
Make me wonder

And they say back then
Our universe wasn't even there
Until a sudden bang
And then there was light, was sound
Was matter and it all became
The world we know

And heaven's bodies
Whirl around me
A dance eternal

 

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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

sobre o título

queria saber qual vai ser. essa noite sonhei bastante com PEÇA DE FORMATURA. quer dizer, sonhei entre acordado e já dormindo. naquele meio do caminho onde as possibilidades, mesmo as impossíveis, se anunciam com força para acordar o amanhã seguinte.

eu não sei. penso em PEÇA DE FORMATURA e algum gesto delicado se anuncia. quer dizer, todo o drama, toda a coisa parte por conta disso. vamos por parte: célia se matricula numa nova escola e das coisas todas que mais chamam a sua atenção esta esta: qual peça de formatura faremos para encerrar o ano letivo? kevin da mesma forma aguarda ansioso, porém discreto, por saber qual teatro encerrará seu ano letivo. e o que fará nele? a presença do teatro como ferramenta de construção e criação não somente da ficção mas da própria vida. um mundo, país, comunidade na qual esta experiência tivesse força e mais que isso, já fizesse parte da ousadia que é o virar dos dias.

seguindo: eva e franklin também nisso tomados. sobre a educação dos filhos, sobre os seus anseios e vontades. sobre seus pequenos dramas escolares. sobre a possibilidade de fazerem da vida espaço de ensaio, espaço para tentativas (vãs?) e atos (vagos?).

não me convenci ainda. fiquei então pensando em tomas. filho de moira e corley que a princípio talvez fosse da mesma turma da qual kevin agora faz parte. será que tomas tinha um papel que agora será suprido pelo novo aluno (kevin)? será que isso importa? será que estou forçando a barra?

fico pensando em bricolagem. fico pensando nesse somatório que se permite fazer sentido (algum sentido) lá na frente, a posteriori. não sei ainda qual. mas me parece que o nome PEÇA DE FORMATURA se anuncia também como a minha peça de formatura. e não é isso. isso não importa. é pista falsa que engole em si essa pequena analogia (possível), mas pouco interessante. óbvia.

quero dizer: peça de formatura assinando a importância das peças na formação de nossas crianças. a importância da formação. o que damos ou suprimos da formação de tais crianças e que faz falta? podemos pensar que é só uma peça. um pedaço. e isso não é pouco.

peça de formatura. peça destinada à formação. quer dizer: sem ela não se formará por completo. sem esta peça a formação resta prejudicada. quer dizer que passar por isso, por essa etapa, é tido como importante, determinante, necessário. é preciso passar por essa etapa, por esse terror, por essa criação. é preciso passar por este espaço/tempo em que somos agentes criadores, em que criamos aquilo que a vida talvez não seja, mas que pode ser, em jogo, pela magia do jogar(-se).

não sei. sigo pensando. ainda não todo convencido. talvez seja este nome – PEÇA DE FORMATURA – um nome ruim. talvez não seja nada disso. mas me parece, ao mesmo tempo, um nome capaz de falar da situação das crianças. era só isso que estava em jogo. a possibilidade de criarem, por suas próprias mãos, alguma possibilidade outra para si próprias e para seus mundos.

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sábado, 3 de setembro de 2011

8 \\

30 de agosto, Colégio Andrews, 18h/22h
Diogo, Thaís, Andrêas, Adassa, Dan, Márcio, Laura e Virgínia

ANDAMENTO ESPAÇO
a forma nem sempre tem a ver com a batida. pode-se ter várias maneiras de andar em que o batimento é o mesmo;
é incrível ver os corpos parados esperando pelo andamento da música que começa lentamente e em fade in;
próxima etapa: descobrir maneiras distintas de marcar um mesmo andamento;

ALVO
como ocupar o espaço do outro e não um espaço próximo ao do outro?;
o jogo precisa restar com um “nicho” vazio, que pode ser preenchido a qualquer momento se quisermos;
dizer ao alvo o nome do alvo;
dizer ao alvo o seu nome próprio;
dizer ao alvo o nome de outro personagem (que não o seu, que não o do alvo);
de que maneira tornar o jogo possível? os atores não ousaram mudar o andamento para uma batida menos intenso (que permitiria que tivessem mais tempo para entenderem o próximo alvo);

PROPORÇÃO KINESTÉTICA
1 no cabelo: 4 andando
1 no cabelo: 1 na camisa: 3 andando
1 no cabelo: 1 na camisa: 1 na calça: 2 andando
1 no cabelo: 1 na camisa: 1 na calça: 1 no braço: 1 andando
que estratégias usar para deixar claro sua ação?
como não dar pistas falsas?

CINTO
moira rabo de cavalo alto;
eva cansada;
célia dispersa e em todos concentrada;
kevin olhando de lado, pés tortos;
célia é grossa com a mãe;
célia sibila coisas;
célia e kevin se divertem;
corley assiste tv;
kevin rói as unhas diante da tv;

NOTÍCIA DE JORNAL + INTERLOCUTOR + VP

CÉLIA >>> KEVIN (relação espacial)

célia - uma coisa: jornal. o globo. quinta-feira. eles não sabem escrever nenhuma palavra. só porque a palavra é russa.

kevin – você sabe russo?

célia – a primeira vez que ela aparece

samba orkut

samokutiaievi

é um nome russo. ele aparece algumas vezes, entendeu?

kevin – célia, eu não tô entendendo nada que ce tá falando.

célia não pode não ter acento, porque tem. sendo que no final da reportagem não dá pra saber o nome da pessoa. cosmonauta. astronauto.

tchau! (e sai)

KEVIN >>> EVA (repetição)

kevin apaga a luz sem querer, vem esfregando a mão na parede

kevin – que que é molécula, mãe?
eva – molécula é uma forma celular.
kevin – celular?
eva – não.
kevin – sabia que essa caixa que a gente trouxe tá cheia de poluente? cheia de poluição?
eva – folhinha moída, poeira das coisas, tem a poeira que pegou na estrada, mofo da roupa, tem coisa. pára. mãe, sabia que na roça pode ter mais poluente que na cidade. quando queima canaviaval. fuligem.

GESTO > entraentraentra…pulmão.

vc tá chata! SAI CHAMANDO POR CÉLIA.

EVA > FRANKLIN (resposta kinestética)

franklin - que foi, amor?
eva - vc viu a noticinha de jornal que tava aqui?
franklin – uma tirinha de papel
eva – eu recortei, eu ri, eu gostei, eu tô ficando louca, não foi você
franklin – tô dizendo
eva – eu tô ficando louca?
franklin – louca louca louca louca não!

FRANKLIN > MOIRA (duração)

franklin – tá frio, né? o que realmente mais me impressionou foi o tratamento que a imprensa deu.
moira – como é que a gente sabe desse negócio
franklin – eu tô rindo porque é engraçado, é trágico.
moira – eu tava com uma tosse. será que eu tô com esse negócio?
franklin – alguns casos de linfoma começam com tosse.

MOIRA > CORLEY (arquitetura)

pela portinhola, moira olha corley
moira (entrando) – oi. que foi? posso te fazer uma pergunta? você vai responder mesmo? posso? posso perguntar? mas só vale se você responder mesmo. se você quisesse muito mesmo, se você quisesse muito uma coisa, mesmo muito, o que que você seria capaz de fazer pra conseguir aquilo que você quer?
corley – não sei. responde.
moira – responde você.
corley – o máximo que eu puder. desde que ue não mate ninguém.
moira – eu tô te perguntando, eu li, no jornal, que tem um indiano, que resolveu fazer greve de fome, ele resolveu parar de comer pra conseguir que, era pra, pra acabar a corrupção no país dele
corley – bonito. um monte de gente passou fome pra conseguir
moira – ele diz inclusive na reportagem que ele é capaz de morrer. e ele só vai comer quando ele, sei lá, porque tem uma multidão, centenas de pessoas que estão paradas no lugar que ele tá, ele não come há dez dias
corley – mas por que você perguntou? eu passaria fome sim.
moira – pra quê?

silêncio.

moira - mentira não acredito. também não.

CORLEY > CÉLIA (gesto)

meu filho tá viajando.
pra onde?
gesto expressivo
tomas. 7.
27?
7.
que que você gosta de fazer pra se divertir?
gesto expressivo
eu gosto de brincar de mímica.
jogando o pêlo pra trás é pelo contrário
você precisa saber comparar as coisas.
e esse daqui é muito pelo contrário.
eu trabalho num lugar, trabalhava, que tinha muito assaltante
na delegacia?
no senado. adivinha.
num banco?
eu trabalho num lugar, trabalhava, a gente emmpresta dinheiro mas pede coisa em troca.
numa venda.
mais ou menos. é um banco, mas não é um banco. a gente empresta dinheiro
qual é o seu nome?
corley!
ah! corley?!
tchau! estridente!

FLUXO TEXTUAL + DEPOIMENTO + VP

CÉLIA

tem um quê de desafiadora. gesto. chora. nem sei. o que dizer. deus. imerso, kevin impressiona a irmã com o seu relato sobre virar música. ela mistura os assuntos. do professor mais bonito. do que sente. do que kevin sente. depois fala de como dormiu.

KEVIN

entra lento e desconfiado. tem um quê de auto-desafiador. repetição, talvez. cabeça que marca os movimentos. sublinhar de palavras. mãos ao longo do corpo. enfim. dormiu pesadamente.

EVA

lenta, olha a porta. a fecha com calma. eu gosto dessa voz mais grave. eu lembro. arquitetura. sons da sala ao lado, ou acima, tornam a coisa ainda mais interessante. acoada. rastejante.

FRANKLIN

mais ágil. fecha a porta de costas. duração. é disso que eu me lembro, desse dia. estático, no centro. gestos largos, para fora do corpo. coça o nariz. torna-se quase um suspeito ao falar que não se lembra da esposa, de ter apenas saído da escola com as crianças.

MOIRA

desejo nenhum pelo presente. queda no chão. riso. silêncio. dedos. mãos. gestos expressivos. mudança de plano. agilidade com que troca de um espaço sutil e evolui para um brusco. meu filho. repetição. dos gestos. não há dor escorrendo. tá concentrada. eu queria entender o que tava acontecendo de verdade. eu acho.

CORLEY

estático. mãos no centro do corpo, fechadas em si. silêncio, longas pausas, longa duração entre tudo. não me lembro mais, ele afirma. narra o acontecimento com total controle e calma. mas nos silêncios algo se esconde. como fazer esse algo escorrer para fora?

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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

7 \\

25/08, Colégio Andrews, 20h/22h
Andrêas, Dan, Adassa, Márcio, Laura, Virgínia, Diogo e Thaís

ANDAMENTO.

andamento pessoal
andamento equalizado
andamento da música
jogo entre estes andamentos

PROPORÇÃO.

5 andando no andamento da música:1 parado(a)
como negociar em invisível?
5 andando no andamento da música: 1 parado(a) + 1 fora do andamento da música

COMPOSIÇÕES.

KNOW HOW

EVA (discurso verbal) + MOIRA (discurso físico)

eu lembro do som do sucrilhos, do cheiro do cabelo do kevin, do toque aveludado do tapa olho da célia + moira andando pra frente olhando para cima

seis e meio chego à escola e toma café com a vice na cantina, o dia tava lindo + moira girando ao redor de si e cai deitada no chão

eu não escutei o primeiro tiro, nem o segundo, sangue, nossa, eles realmente gostam de halloween por aqui, kelly (e os olhos) e a minha inocência se acabou ali + mãos que batem no chão

KEVIN (discurso verbal) + EVA (discurso físico)

acordei as duas e quarenta da manhã, na verdade não pensava, adormeci e acordei as seis novamente, a casa estava escura e em silêncio + rasga folha

deixei a agua cair sobre meu corpo por muito tempo, as oite e meia o café sobre a mesa, as nove e vinte o pai me levou na escola + rasgos

ouvi os tiros, a professora se sentiu sem ar, o professor de educação física chegou, vi muito sangue + rasgar em pedaços menores

lá fora minha mãe me aguardou com violência, em casa tudo esteve diferente, o dia inteiro escuro o jantar não foi servido, dormi as sete da noite, pesadamente + olha os pedaços sobre o chão

MOIRA (discurso verbal) + KEVIN (discurso físico)

era domingo, dia de passar junto com a família, fazia uma semana que meu filho tinha partido + deitado no chão, se senta, se deita, se ergue, bebe o café

desejo nenhum pelo presente, um dia suspenso que não passava + abre as janelas

acordei as sete e quarenta e sete, tentei acordar o corley, fui á varanda, subi no telhado + retorna, abaixa, olha, se ergue

frio, vento, queria voar, corley gritava moira, gritava tomas! + se vira, cambaleia, abre e olha

GOZO

CÉLIA (discurso verbal) + FRANKLIN (discurso físico)

segundo dia de aula e eu conheci o homem mais lindo do mundo, os planetas e o sol, pai frank buscou eu e kevin com rock no carro kevin se fala de se ver ausente de si + deitado, dormindo, acordando, levantado, girando, andando, andando, se erguendo

depois escovei os dentes, tudo bem, depois não falamos nada + quedas, movimentos de arrastar, levar, voar, correr, girar e mãos na cabeça

CORLEY (discurso verbal) + CÉLIA (discurso físico)

sábado, acordado, eu saí pra ver se a célia tava brincando no quintal, só okevin tava girando + virou, dedo no céu, olha o céu

ai eu entrei fiz alguma coisa de origami e deixei em cima da mesa de moira + batidas nas pernas

eu e moira fizemos amor, foi muito bom, acordei na hora da janta + se desloca, até o canto, cabeça baixa, inconstante

e descobrimos que o tomas foi encontrado morto no balão que a gente tinha brincado com ele na última semana, não lembro o resto

FRANKLIN (discurso verbal) + CORLEY (discurso físico)

ontem eu acordei com meu sonho, ao invés do despertador, um pouco atrasado, não comi nada, fui levá-los pra escola como todos os dias + ajoelhado, vai se erguendo, via coluna, como um dinossauro, falta ar e respira fundo

quando eu tava voltando ouvi disparo, barulhos, de tiro, peguei eles pelo braço porque eu vi umas crianças mortas e umas agonizando sofrendo chorando gritando muito + esvaziar e se arrastar, com a cabeça escondida no braço

voltei pra casa, correndo, não consegui falar com a minha mulher parece que ela teve que dar depoimentos, eu não consegui dormir naquele dia, não consegui me acalmar tão tensa eram crianças mortas sangrando pelo chão + gira e se senta, ajoelhado, se ergue gira e pára

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