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quarta-feira, 24 de outubro de 2012

NEGOCIAÇÃO INVISÍVEL_1/3

como perscrutar o invisível?
creio que o primeiro dia de oficina foi, ao mesmo tempo em que a busca pelo nome, a tentativa de se desvencilhar dele. afinal, o que pode haver num nome tão pomposo como NEGOCIAÇÃO INVISÍVEL? muita coisa.
o encontro de hoje me fez pensar sobre a tentativa - sobre a experiência - enquanto ferramenta trituradora dos clichês. sabe aquele mesmo gesto? aquela mesma vontade? aquele mesmo jeito de olhar e de condenar? pois então, quando convidados ao jogo - basta alguns minutos para ver cair por terra tudo e mais um pouco: as certezas, as rudezas - a falta de tato quando dança muito tempo fica nua e incontida. o jogo destrói as barreiras que a gente, por vezes, nem sabia que tinha.
mas sempre tem.
poesia pra lá e poesia pra cá. eu não saberia dizer de outra forma o que foi este encontro. mas vou tentar. reside no impossível a única busca que faz sentido (sem fazer). como definir o que escapa à definição?
foi um encontro curto (e longo). nesta quarta-feira 24 de outubro de 2012, de 15h30 às 19h. começamos um pouco depois do início e terminamos um pouco depois do fim. nos detivemos hoje nas discussões e práticas a partir da técnica viewpoints. algo óbvio, já dado, mas confesso: eu precisava compartilhar com novas pessoas - outras pessoas - o meu clichê sobre este fato. a minha forma viciada de ver a coisa e, nisso, eu vi, foi possível me atualizar e atualizar o outro (eu acho).
o ponto de vista - o view point - está na vista, não no bolso. não podemos sacá-lo para fora, como se fazem com as chaves e com os isqueiros. não tem matéria, tem afeto. atenção. tensão destinada ao fora (e ao dentro). perscrutação. vigília. talvez seja isso: brincar de viewpoints nada mais é do que se ver mais fundo. de fazer germinar o olhar. de dotar o tempo de cuidado. dar tempo ao ponto solto no espaço (e fazê-lo explodir, se multiplicar. da forma como se transmutam migalhas de pão em estrelas).
está no olho. não só no corpo. é jogo da consciência. esperteza cênica. presencial. jogo para estar. para entrar, sair, pular, correr, ficar. deixar restar.

 

muita discussão sobre a famosa resposta kinestética. afinal, como traduzir a KINESTHETIC RESPONSE? não quer dizer CINESTÉSICA. nem quer dizer SINESTÉSICA. apesar de que ambas traduções parecem fazer sentido, pois nos levam à ideia de movimento e de sentido (sensação). porém, a resposta correta é mesmo a relativa à KINESFERA. kinesfera é um conceito apresentado (?) por rudolf laban, coreógrafo e dançarino austro-húngaro, que diz respeito à esfera que delimita o limite natural do espaço pessoal, no entorno do corpo que se move.
outro aspecto importante da discussão sobre RESPOSTA KINESTÉTICA foi o equilíbrio - e escolha - entre o estado esquizofrênico de resposta aos estímulos externos e a possibilidade de seleção, de responder apenas ao que se escolhe responder. discutimos sobre os viewpoints de forma a entendê-los como um rol de ferramentas que tornam a presença do performer realmente mais sincera (presente, viva, ativa... não saberia dizer).



por fim, lançamo-nos um desafio: trabalhar nos próximos dois últimos dias de oficina sobre a criação de uma cena, uma composição coletiva a ser erguida a partir de um texto que escrevi (a partir das ideias iniciais do próximo espetáculo do teatro inominável, CONCRETO ARMADO).
tudo será registrado neste blog.
a cada participante da oficina foi também entregue uma cópia do texto TERROR, DESORIENTAÇÃO E DIFICULDADE, de anne bogart, texto que havia traduzido em 2010 durante o processo de VAZIO É O QUE NÃO FALTA, MIRANDA. 


amanhã tem mais. ainda bem.
participam da oficina: amina muniz + anna clara carvalho + arthur rozas + beta borges + bruno marcos + davi palmeira + eduardo cardoso + fabíola buzim + fabíola ribeiro + felipe marcondes + jéssica barbosa + rafael dellamora + tháis barros + júnior vieira,
além de diogo liberano, adassa martins e gunnar borges.
não custa informar: assim como nossa temporada de SINFONIA SONHO, esta oficina está sendo viabilizada pelo financiamento atingido no site Catarse!

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domingo, 27 de maio de 2012

“A peça está pronta! A peça está pronta! A peça está pronta”

Bom, de acordo com a inominável Adassa Martins, nosso espetáculo Vazio é o que não falta, Miranda realmente está de pé. Bom, há quem duvide. De qualquer forma, o início de nossa temporada está chegando. Já no sábado que vem, dia 02 de junho, às 20h na Cia. dos Atores (Rua Manoel Carneiro, 10-12, Lapa), o Inominável retorna aos palcos com o seu espetáculo xodó.

Em cena, as quatro atrizes da companhia (Adassa Martins, Caroline Helena, Flávia Naves e Natássia Vello) e o diretor e dramaturgo Diogo Liberano tentam a todo custo encenar a obra máxima de Samuel Beckett, Esperando Godot. A montagem estreou em 2010 e agora, a convite da Cia. dos Atores, retorna para a sua terceira temporada.

Muitas pessoas que já assistiram ao espetáculo, quando convidadas novamente, dizem o clássico “eu já assisti”. Bom, com toda sinceridade, MIRANDA não consegue ser a mesma por muito tempo. A pesquisa e o trabalho, desde 2010, modificou tudo o que tínhamos e aprofundou nossas buscas enquanto companhia. A dramaturgia é inédita e, naturalmente, o jogo cênico é também renovado. Vejam de novo!

Permaneceremos em cartaz de 02 a 18 de junho, aos sábados, domingos e segundas, sempre 20h. A entrada é franca, portanto, não deixem de vir. A lotação do espaço é de 60 lugares e - em breve - divulgaremos os três convidados que virão bater um papo antes de três apresentações.

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terça-feira, 15 de maio de 2012

“O que pode um corpo que sofre?”

Segue abaixo o vídeo teaser com a atriz Caroline Helena. A (re)estreia de Vazio é o que não falta, Miranda está confirmadíssima para o sábado, 02 de junho de 2012, às 20h na Cia. dos Atores. A entrada é franca, basta chegar com uma ligeira antecedência para retirar seu ingresso.

Fiquem ligados no blog do espetáculo (desesperandogodot.blogspot.com) e redes sociais. A qualquer momento, informaremos sobre as mesas de debate que acontecerão durante a temporada.

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quarta-feira, 9 de maio de 2012

“Eu não me sinto feliz”

De fato estamos ensaiando Vazio é o que não falta, Miranda. Mas, convenhamos, não é para tanto. Neste vídeo, a atriz Flávia Naves expõe um pouco do seu descontentamento com o nosso processo. Paciência, Miranda chega aos palcos no dia 02 de junho, permanecendo na Cia. dos Atores até 18 de junho, de sábado à segunda-feira, sempre às 20h.

Em breve, informações completas. Estamos planejando um ciclo com debates com convidados, sempre antes das apresentações que acontecem às segundas. Fiquem ligados aqui no blog ou em qualquer outra rede social do Inominável.

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terça-feira, 8 de maio de 2012

Após SINFONIA SONHO, Inominável retorna aos palcos com MIRANDA

Após a temporada de estreia de Sinfonia Sonho, novo espetáculo do Teatro Inominável, o segundo trabalho da companhia retorna aos palcos. Vazio é o que não falta, Miranda (2010) apresenta as quatro atrizes da companhia (Adassa Martins + Caroline Helena + Flávia Naves + Natássia Vello) e o dramaturgo-diretor (Diogo Liberano) tentando encenar a peça Esperando Godot de Samuel Beckett.

miranda teaser

O espetáculo estreou em 2010 e retorna agora em sua terceira temporada, integrando a programação anual da Cia. dos Atores, que acontece na Lapa, Rio de Janeiro. De 02 a 18 de junho, de sábado à segunda-feira, sempre às 20h, Miranda promete chegar com tudo (independente do que isso possa significar).

Fiquem ligados no blog do espetáculo: desesperandogodot.blogspot.com

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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

“Desejo e intuição”

No momento em que comecei a pensar neste projeto, eu havia acabado de apresentar, integrando a programação da Mostra Mais 2010, o meu segundo exercício de direção na Direção Teatral: uma montagem criada a partir da dramaturgia Esperando Godot de Samuel Beckett. Era julho de 2010, quando após duas apresentações alguma coisa detonou em mim a necessidade imediata de desbravar o projeto seguinte. Hoje, com uma boa distância temporal deste momento que descrevo, percebo com clareza que o tal projeto seguinte nasceu diretamente afetado pela recepção que a minha segunda montagem obteve em espaço acadêmico.

O curso de Direção Teatral, tal como estabelecido em sua grade curricular, prevê que o aluno-diretor cumpra nos seus três últimos períodos (de oito períodos que cursa no decorrer de no mínimo quatro anos de graduação), a criação de três exercícios de encenação (nas disciplinas Direção V, Direção VI e PET – Projeto Experimental em Teatro). O presente memorial é justamente um olhar sobre o meu último exercício, criado como conclusão da disciplina PET. O trabalho curricular anterior (estreado como Esperando Godot na Mostra Mais 2010, mas logo em seguida encenado como Vazio é o que não falta, Miranda em duas temporadas pela cidade do Rio de Janeiro) foi uma aposta muito sincera e vertiginosa por sobre meus desejos e intuições artísticas. Junto a quatro atrizes, montei um espetáculo no qual a noção de espera estabelecida pela dramaturgia de Beckett era problematizada pela lógica de consumo desenfreada de nossos tempos, abrindo a chegada da personagem Godot como uma real possibilidade, ao contrário da sinopse original que apresentava durante dois atos o incessante não-chegar de Godot. Durante o processo percebemos que nossos desejos poderiam florescer, ao invés de serem constantemente interrompidos. Fosse o desejo da atriz ou da personagem, quando em criação, todo desejo nos foi desde sempre possibilidade concreta e ponto de partida. Assim, para além da dramaturgia pós-guerra beckettiana, o que colocamos em cena foi o saldo do nosso encontro com a mesma: em cena, quatro atrizes e um diretor tentam, a todo e qualquer custo, encenar a obra clássica de Beckett, sem sucesso.

Miranda foi, de fato, o meu desejo concentrado, multiplicado e em busca por alguma divisão, mesmo sem saber como fazê-la. A recepção do espetáculo, por parte dos professores que estiveram presentes na banca avaliadora, foi extremamente delicada. A peça foi problematizada em inúmeras instâncias, sobretudo dramatúrgica e, para além de qualquer opinião, tal avaliação significou para mim uma problematização geral do desejo enquanto mote da criação. A questão que eu encontrei – tempos depois – foi: como transformar o meu desejo em algo que possa ser legível, em alguma coisa que possa ser sensível ao espectador que a assiste? Em algum momento eu também percebi que tudo isso talvez não passasse de uma grande ambição minha, um objetivo quase impossível. Mas, foi justamente durante o processo de Miranda que eu também percebi como estes lugares já dados quase sempre mais atrapalham do que orientam uma criação, porque estar em processo, por vezes, soa o mesmo que estar imerso num jogo ininterrupto com limites. Eu quero dizer: desde quando o que julgamos bom é bom num processo criativo e desde quando o que julgamos ruim é de fato ruim a criação? Era preciso atravessar as classificações (dentre outros limites) para permitir que a obra se manifestasse, sem pré-conceitos, sem tanta antecipação.

Durante vários meses até a finalização do projeto de Sinfonia Sonho, eu estive muito irascível com o meu curso de graduação. Sentia-me desrespeitado e a avaliação de Godot foi a responsável por toda essa exaltação. Senti que havia sido avaliado com pouca integridade, com pouca dedicação. Tive a péssima e real sensação de que meus professores não tinham o que falar sobre o meu exercício. Não porque fosse incrível ou iconoclasta – longe disso – mas apenas porque se chocava com limites inúmeros relativos as noções de dramaturgia e encenação (que, a meu ver, carecem sempre de uma revisão). Por tudo isso, em momento algum eu me senti avaliado por aquilo que havia posto em cena, por aquilo que eu – enquanto aluno-diretor – estava propondo. Pelo contrário, os comentários recebidos – em sua maioria – tenderam apenas ao que deveria ter sido feito e nunca ao que havia sido proposto. Falou-se de tudo, de exemplos inúmeros na história do teatro, dos grandes mestres da encenação, mas nunca da minha proposição estética, como se eu não tivesse condição de ser responsável por ela. Como se ela fosse, nas palavras de um dos professores, apenas uma glosa infantil.

E foi desse vácuo, dessa sensação de ausência de parâmetros avaliativos, que o sugestivo título O Anti-Édipo me capturou. Eu estava na cidade de São Bernardo do Campo, no estado de São Paulo, quando meu olhar foi seduzido pelo sugestivo título. Eu estava dentro de uma livraria e vagava a procura de alguma coisa na qual pudesse atracar. Naquele dia em que encontrei o livro, persistia em mim outra fala recebida durante a avaliação. Uma das professoras me foi categórica e disse algo como você só se formará como diretor teatral se se permitir passar pelo exercício de realizar uma encenação clássica. Que essa transcrição de sua fala não seja inteiramente verdadeira, a verdade é que foi bem isso o que me foi dito. Que eu precisaria passar pelo exercício de realizar uma encenação clássica caso quisesse me formar diretor teatral. E então eis que, semanas depois, me apareceu o Édipo. E tão colado a ele, eis que também o Anti se revelou. Mas não só isso. Entre os dois limites brilhava reluzente um hífen unificador. Ora, num só objeto havia tudo reunido: exatamente como eu me sentia – um “Anti” – e aquilo que me fora exigido – o “Édipo” – a encenação clássica. Obviamente que esse pensamento pequeno e, talvez, mesquinho, me consumiu durante um bom tempo. Eu fiquei certo tempo dividido entre a irritação provocada por essa sugestão e a real tentativa de dar conta da mesma. Eu não quis ceder à exigência da “encenação clássica” ao mesmo tempo que não quis ignorá-la, por intuir que nela houvesse algo importante a minha formação. Por conta desse curto-circuito, as primeiras intuições do meu projeto de formatura foram todas sinônimos de guerra.

Escrever sobre o que eu desejei para este projeto de encenação é desde já discorrer sobre o projeto em si, porque foi este o meu ponto de partida: o próprio desejo. E isso aconteceu alguns dias após apresentar meu segundo exercício de direção, época na qual eu estava justamente vivendo um momento de provação, buscando maneiras para validar meus desejos e aceitá-los sem restrição. Eu pensando sobre como tornar um desejo algo estético, algo dramático, algo capaz de se estender de mim a você, de lhe ser também sensível e capaz de fazer doer. Eu pensando no desejo como ponte e não feito muro. E então o tema me chegou no exato instante em que li na orelha do livro de Gilles Deleuze e Félix Guattari algo como a expressão “potência revolucionária do desejo”. O desejo enquanto uma potência que liberta e revoluciona, o desejo como qualidade inata do homem. Versar sobre o desejo foi para mim voltar a mover intuições, crendo na possibilidade não unicamente do saber, mas também do se descobrir em jogo, em processo, em movimento e flerte com o mundo e seu entorno.

Num primeiro momento, O Anti-Édipo me disse respeito a isso, a esse libertação e desbravar do desejo. E então eu decidi: ali estava a minha montagem de formatura. E, como de costume, defendi tal escolha como se tivesse algo muito concreto em mãos. Aos amigos mais próximos, eu defendia a obra mesmo sem ter lido um capítulo sequer. E foi nesse jogo, dizendo isso para um amigo que conhecia a tal obra fazia tempo, que ele me sugeriu trabalhar apenas sobre o capítulo inicial, intitulado As Máquinas Desejantes. Conversa vai, conversa vem, eu fui percebendo que, de acordo com a argumentação do meu amigo, o primeiro capítulo abria a “tese” dos autores, enquanto os seguintes agiam na demolição de alguns valores instituídos e na construção de uma nova lógica para se ler as mesmas questões. Depois de folhear o primeiro capítulo, percebi aquilo que para mim, muito rapidamente, pareceu bastar: a validação do desejo. Era isso. Não me importava para onde os autores pudessem levar essa primeira colocação. Eu não estava interessado no que ela viria a destruir em seu caminho nem naquilo que viria a ser construído. Apenas me importou reconhecer que o ser que deseja é o ser humano por excelência. Desejar é o estado natural e primeiro do ser humano. Estado inalienável, talvez. Eu me senti, de alguma forma, posto num divã e com a alma acariciada.

Eis então que Sinfonia Sonho começou a se anunciar como um forte concentrado de desejos, intuições e experimentações, mas si também como uma tremenda busca por identificação. Melhor: uma busca por legibilidade. O espetáculo quer chegar ao espectador e ali ficar, ponto. Não quer chegar para responder alguma coisa. Quer chegar como ponto final inflamado e elevado a interrogação. Sinfonia Sonho é uma grande pergunta. É uma pergunta que não deixa cessar algumas de minhas faltas. Não é um espetáculo que se pretende solução. É uma tentativa de tornar o meu desejo menos meu e mais do mundo. Dessa forma, em equipe, logo me vi rodeado por uma diferença muito maior e potente. A diferença não como movimento a ser domado e equalizado, mas como estímulo-catalisador da criação.

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Capítulo 2 do Memorial do Espetáculo, entregue como conclusão da disciplina Projeto Experimental em Teatro.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

como dramaturgia

o ponto de vista como dramaturgia. estive pensando, de que maneira acontecer o terceiro ato do espetáculo? é um ato decisivo, que intensifica e instaura de vez a batida violenta da tragédia. logo, como dar conta dessa agilidade, dessa voracidade que o trágico parece necessitar para acontecer?

pensei nas repórteres que aparecem no telejornal. pensei no verbo sensacionalizar. não sou repórter, sou sensacionalista. as palavras que digo não dependem da verdade, elas agem direta sobre a sua sensibilidade. são ficção e dramaturgia. nem tanto fato, quiçá retrato. as minhas palavras são a minha incapacidade plena de tocar no fato – por vezes, simples – como pedras.

então pensei: não seriam elas, essas vedetes da microfonia? não seriam elas aquelas que levariam a história adiante? até o ponto em que da ficção suspeitamos, por ser tão absurda, por ser tão dolorosa? não seriam elas, as repórteres, o filtro disso tudo?

pensei pelo olhar delas. que pelo ponto de vista delas, a dramaturgia escrita se reescreve em cena. pensei que será engraçado. depois achei ser mordaz. depois tive ódio por ser exatamente isso que me afeta. como há uma montagem sobre-fatos que torna os fatos acontecimentos, eventos, estreias e muito menos o acontecimento em si.

sobre como se perde a coisa contando a coisa com esse teor violento e enrubecido. eu gosto. acho que por enquanto só eu entendo tudo isso. na minha cabeça. mas vai rolar. são duas. são elas. joana bravo e carolina wellerson.

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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

sobre o título

queria saber qual vai ser. essa noite sonhei bastante com PEÇA DE FORMATURA. quer dizer, sonhei entre acordado e já dormindo. naquele meio do caminho onde as possibilidades, mesmo as impossíveis, se anunciam com força para acordar o amanhã seguinte.

eu não sei. penso em PEÇA DE FORMATURA e algum gesto delicado se anuncia. quer dizer, todo o drama, toda a coisa parte por conta disso. vamos por parte: célia se matricula numa nova escola e das coisas todas que mais chamam a sua atenção esta esta: qual peça de formatura faremos para encerrar o ano letivo? kevin da mesma forma aguarda ansioso, porém discreto, por saber qual teatro encerrará seu ano letivo. e o que fará nele? a presença do teatro como ferramenta de construção e criação não somente da ficção mas da própria vida. um mundo, país, comunidade na qual esta experiência tivesse força e mais que isso, já fizesse parte da ousadia que é o virar dos dias.

seguindo: eva e franklin também nisso tomados. sobre a educação dos filhos, sobre os seus anseios e vontades. sobre seus pequenos dramas escolares. sobre a possibilidade de fazerem da vida espaço de ensaio, espaço para tentativas (vãs?) e atos (vagos?).

não me convenci ainda. fiquei então pensando em tomas. filho de moira e corley que a princípio talvez fosse da mesma turma da qual kevin agora faz parte. será que tomas tinha um papel que agora será suprido pelo novo aluno (kevin)? será que isso importa? será que estou forçando a barra?

fico pensando em bricolagem. fico pensando nesse somatório que se permite fazer sentido (algum sentido) lá na frente, a posteriori. não sei ainda qual. mas me parece que o nome PEÇA DE FORMATURA se anuncia também como a minha peça de formatura. e não é isso. isso não importa. é pista falsa que engole em si essa pequena analogia (possível), mas pouco interessante. óbvia.

quero dizer: peça de formatura assinando a importância das peças na formação de nossas crianças. a importância da formação. o que damos ou suprimos da formação de tais crianças e que faz falta? podemos pensar que é só uma peça. um pedaço. e isso não é pouco.

peça de formatura. peça destinada à formação. quer dizer: sem ela não se formará por completo. sem esta peça a formação resta prejudicada. quer dizer que passar por isso, por essa etapa, é tido como importante, determinante, necessário. é preciso passar por essa etapa, por esse terror, por essa criação. é preciso passar por este espaço/tempo em que somos agentes criadores, em que criamos aquilo que a vida talvez não seja, mas que pode ser, em jogo, pela magia do jogar(-se).

não sei. sigo pensando. ainda não todo convencido. talvez seja este nome – PEÇA DE FORMATURA – um nome ruim. talvez não seja nada disso. mas me parece, ao mesmo tempo, um nome capaz de falar da situação das crianças. era só isso que estava em jogo. a possibilidade de criarem, por suas próprias mãos, alguma possibilidade outra para si próprias e para seus mundos.

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domingo, 19 de junho de 2011

Encontro Cinco

Café Doce Momento
19/06/11 - De 13h30 até 17h30
Diogo, Andrêas, Márcio, Daniel e Virgínia.

- trabalho intensivo e periódico em JULHO;
- 27 de junho às 20h > encontro para fechamento do cronograma de ensaios;
- contato da moça regina com o daniel;
- stand-by das máquinas desejantes;
- o que é essa questão do blog? será que a pessoa que escreve quer comunicar, quer aparecer?;
- perfil FAKE é como um vírus, diz virgínia;
- fragmentação;
- interlocução (se está sempre se dirigindo a alguém);
- relações amorosas;
- necessidade, busca (procurar sem parar);
- completar a forma original (aquilo que se completa deseja morrer);
- comunicar e solidão (para o artista);

FLUXOS + COLISÕES + PARAGENS

Para desautomatizar fluxos, relocar colisões e gerir paragens \\

- precisamos ler A MORTE DO AUTOR, do Barthes >>> cliquem aqui;
- aleautoria + bricolagem > METODOLOGIA;
- fizemos a separação das postagens do LENDO ÁRVORE do ano de 2009;

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quarta-feira, 1 de junho de 2011

APRESENTAÇÃO. Princípio imanente: o desejo

 

Em mim cabe todo o mundo.

Não me peça, porém, que o reduza aos meus pés.

Deixe-me lançar ao impossível
E caso assim não seja,
Deixe-me, como a xícara suja sobre a mesa

Corpo usado
Esquecido
Mas borrado
a desejo.

Trecho de Borrado a desejo.

Em 2010, durante o processo de montagem do espetáculo ESPERANDO GODOT, para a disciplina Direção VI, entrei em contato com o livro O ANTI-ÉDIPO de Félix Guatarri e Gilles Deleuze. Por meio desta obra, toda uma estrutura familiar é posta em cheque com intuito de libertar a potência revolucionária que é o desejo. Para o presente projeto, eu parto deste livro visando endossar conceitualmente a minha busca.

Pois como validar seus desejos e aceitá-los sem restrição? Durante os meus seis anos de graduação, foram inúmeros os momentos em que me peguei pensando sobre como tornar um desejo algo estético, algo dramático, algo capaz de se estender de mim até você. Eu pensando sobre como estender a você aquilo que também me sensibilizava ou fazia doer. Eu pensando no desejo feito ponte e não como muro.

Para mim, versar sobre o desejo é também brincar com intuições, crendo em possibilidades outras que não somente a do saber. Diz respeito ao corpo, à descoberta feita em jogo, em movimento e flerte com o mundo. Num primeiro momento, O ANTI-ÉDIPO diz respeito justamente a isso, a esse libertar e desbravar do desejo não como sintoma de algo a ser entendido ou resolvido, mas como condição básica de existência.

Assim, da obra de Deleuze e Guattari, escolho apenas o capítulo inicial, intitulado AS MÁQUINAS DESEJANTES, por ser ele aquele que me descortinou a condição humana do ser que deseja. Utilizo-me deste capítulo para estimular a emergência de uma dramaturgia a ser construída em processo, tendo os atores também como autores desta construção.

Pois, ao mesmo tempo, persiste na obra de Deleuze e Guatarri uma validação do utópico não como sonho, mas feito possibilidade. Um olhar que não teme assegurar o impossível porque o impossível torna-se, ao lado de tudo, só mais uma opção. E é neste ponto que reside a minha principal questão: como tornar possível aquilo que não se tem como possibilidade?

A poesia vem então como meio de fuga para a cilada que se tornou o real. Para sair das linhas já marcadas, para colorir com outras cores e noutras intenções, pulam-se linhas e movem-se versos a fim de trazer ao corpo a sensação ainda não todo nomeada. Pois o corpo clama por indefinição. Clama por arrepio capaz de o aniquilar. O corpo clama por todo o mistério que nós matamos ao nomear.

E para além de alguma forma, para além da crise do conteúdo e da linguagem, eu agora paro para narrar uma fábula, um acontecimento dentro do qual as personagens espelham a vida. A nossa encenação, no final das contas, será este filtro capaz de transtornar a fidelidade deste espelho. Para que possamos, enfim, descobrir na complexidade da própria vida o real prazer de se estar vivo e operante: a sua poesia,

Ou tudo aquilo que não cabe (somente) em palavras.

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domingo, 27 de março de 2011

Encontro Dois

Café Doce Momento - Copacabana

- sensorialidade;
- responder ao fluxo;
- somos diferentes uns dos outros da mesma forma que somos iguais;
- corte é quando você interrompe um fluxo?;
- corte como registro;
- o corte é uma extração de fluxos;
- interpretar o mundo a partir de seu próprio fluxo;
- “entrar em contato”;
- Lavoisier (“nada se cria tudo se transforma”);
- automatismo, alienação,
- o enorme objeto não identificado é o corpo sem órgãos?;

- […]

quinta-feira, 24 de março de 2011

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

irriquieto

oh, mais uma vez tudo mudou. mas mudou para algo que não se sabe ainda o que é. algo o qual não sei se será possível saber. algo que me sugere um abrir-se sem fim e constante, sem tentativa de formatação, sem possibilidade de contorno. mais uma vez, é um convite à perdição. e a crença nisso, a crença de que é possível estar aqui não para ser, mas para estar.

tudo mudou, tudo mudou. não quero mais o tal romance. meu deus, não o quero mais. como pode? depois de tanto trabalho em adaptá-lo a única coisa da qual me orgulho é o saber abandonar. é ter aprendido de vez que é preciso saber abandonar. não posso cair nessas armadilhas bobas e que acabam destruindo um projeto. eu escolhi um romance da mesma forma que o abandono. é que eu sei, no final das contas, eu intuo, que ele sempre estará comigo.

a questão que se coloca agora é a percepção deste projeto como um verdadeiro processo colaborativo de construção dramática. não é meramente uma dramaturgia que será alinhavada com os atores, durante os ensaios. é maior. é tudo. um processo no qual eu junto aos atores teceremos as palavras e teceremos seu corpo. é uma construção de texto e de encenação. é uma construção total, se assim posso dizer.

não quer dizer que tudo será responsabilidade de todos. jamais. eu sou o diretor do espetáculo, sou o dramaturgo. eu estou ali junto alinhavando nossos cruzamentos e tecendo alguma coisa que ainda não sei o que é. mas, os atores vão jogando, vão trazendo, levando, criando, mexendo, errando, testando, tentando. há um rumo, um tiro, uma seta, talvez algum alvo. porém, quero que exista, sobretudo, um meio do caminho. meio no qual a gente possa se reconhecer como quem somos. aqueles capazes de brincar com sentidos.

alguns temas ficam depois de tantas mudanças: família, criação, representação, crise, tragédia, tragicidade. talvez eu nunca mais vou conseguir me abster da metalinguagem. não importa. decidi abrir o jogo com meus atores e revelar a eles este nada trepidante sobre o qual repouso inquieto. podemos ser o que quisermos. e então? o que seremos? seremos alguma coisa? fingiremos? o que fazer então? foi nos dada uma oportunidade... eu queria ver se você estivesse no meu lugar o que você diria.

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Diogo Liberano

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

quantas mães cabem numa só?

é possível que eu tenha que ceder dessa vez. isso de, por ser homem, e usar a noção de paternidade está para mudar. sou também mãe. e estou aqui pensando - em paralelo aos personagens do romance - quantas mães podem haver dentro dessa peça de teatro?

em VAZIO É O QUE NÃO FALTA, MIRANDA, as atrizes estavam em cena tentando montar cenas e eu, diretor do espetáculo, também em cena estava, tentando junto a elas assinar a autoria, ser pai (ou mãe), enfim. mas agora, com esta montagem, tenho pensado em lançar tudo para o espaço da cena e me tirar dela. o que não quer dizer que não possa existir algo meu ali em cena, convertido num personagem.

eu estou pensando. temos a mãe de K. temos o narrador da história da mãe de K. e temos os atores que interpretam os personagens (como o próprio narrador, a própria mãe, o próprio K. e todos os demais). ou seja, a ficção se constrói aos poucos. temos primeiro os atores em cena. dali, um decide interpretar um personagem e nele se agarra, do início ao fim ele o será e ponto final. eis uma possibilidade. podemos ter outro ator que se agarre noutro personagem, que é justamente aquele que comenta todos os outros, mas não como um diretor o faz e sim como um autor. estamos contando uma história e o seu ator pode estar ali, revelando a relação paternal entre criador e criatura, entre artista e sua obra. eis outra opção. e há ainda aquela já tão desbravada em MIRANDA, do ator em relação com seu próprio personagem, sendo ele e sendo a si próprio e se confundindo e virando um híbrido sobre o qual já não sabe mais discernir nada. eis outra opção.

penso que possa ser interessante - a partir da confusa especulação feita no parágrafo anterior - multiplicar as mães possíveis dentro dessa obra. multiplicaremos assim, também, seus filhos. e o tal K. personagem, é também K. peça de teatro. é também K. personagem. ou seja, são mais pontos de vista que podemos traçar em cena. mais olhares que podem se cruzar e se problematizarem. ou seja, o que teremos enfim será um tiroteio em meio ao qual a verdade nasce toda flechada. talvez seja isso, não? o meu objetivo?

mas, no entanto, veja bem - não desejo especular dessa vez a linguagem teatral. não desejo falar do ser ator, desejo falar do ser autor - talvez por isso a predileção pela narrativa posta em cena. (ainda que saiba plenamente que nesse espetáculo o ator é autor, o diretor é autor, o autor é autor e a luz, cenário, trilha, figurino, ..., também o são). a reflexão que quero fazer saltar é sobre as relações de criação. tanto no sentido dos pais que criam um filho, como do artista que cria uma obra. e tudo isso para contar esta primeira história, que é a da criação de um filho por sua mãe. esta história é a primeira e sob a qual toda reflexão nascerá.

repito: a reflexão que quero fazer saltar é sobre as relações de criação. só que todas, nessa peça, são ficção. desde o narrador que conta a história. desde os personagens que vivenciam. desde a dúvida quanto ao seu papel - não por ter que interpretá-lo - mas por ser um dado papel algo que assuste, que seja de difícil compreensão ou aceitação. tudo serve para contar a história e para desbravá-la. nada para mostrar para nós, espectadores, como é difícil criar. não é isso. a dificuldade está, antes, em ser humano e em processar essa existência.

acho que começo a entender algumas coisas.

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Diogo Liberano

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

história-destino

caramba. é realmente uma criação sobre chão móvel. nada está seguro e não vejo segurança no horizonte. portanto, é patinar. dançar sobre o escorregadio e escorregar, fluir para dentro de certas covas que não se sabe para onde serão capazes de levar.

falo de dramaturgia. falo da tal história. sem mais delongas, ponho hoje em dúvida: é um novo texto que irei escrever?; é uma dramaturgia contemporânea que ainda não conheci?; é um texto mais clássico sobre o qual vou me lançar?; é um texto clássico que vou reescrever para este instante em que aqui estou especulando?...

pode ser muita coisa. a abertura é dez vezes maior. por isso, calma. calma para ir tramando com calma aquilo que não pode ser pressa, posto exija amor, sobretudo, amar. sendo assim, registro essa pequena angústia que serve. que pontua com clareza exata o porquê de seu aportar.

que história é essa se já estou decidido que se trata de uma história para contar? deleuze e guatarri me alimentam na busca. na forma pela qual consigo agora enxergar o mesmo e dele fazer saltar aquilo ali que estava adormecido, amortecido, fantasiado, incapaz de fuder, de magoar...

acabamos de fazer quatro apresentações de NÃO DOIS e em dezembro uma temporada de seis apresentações de VAZIO É O QUE NÃO FALTA, MIRANDA. a leitura de MEMÓRIAS DE UM DOENTE DOS NERVOS está acabando comigo. é incrível demais. preciso dizer, ainda que sem nem entender o porquê - mas sinto - estou começando a implicar com freud.

falo de concreto. não mais metáforas. desejo duro e preciso. não mais sonhos. o último sonho será por fim desenhado e terá por nome encenação. por hoje é isso. amanhã mudamos tudo outra vez.

por último, estou fechando um elenco para uma peça que não sei qual será. de repente eu deva me reunir com eles e aumentar, assim, nosso campo de especulação. será?

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Diogo Liberano

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

vazio é o que não falta

sim, falei anteriormente do meu redor. e o meu redor, inevitavelmente, me rodeia e me faz rodar. infelizmente, porém, sua dança por vezes é tão macabra que me faz querer desistir do passo, me faz querer parar no meio do caminho e solidificar. porém não fosse eu tão propenso ao impossível, eu já teria stopado de abrupto, já teria virado pedra e deixado de respirar. mas não, a força do meu redor é também sua fraqueza e é nela que eu encontro o aval necessário para combatê-lo e levá-lo ao encontro. sim, é perverso. eu sei.

no primeiro semestre de 2010, iniciei de forma prática um processo de direção dentro da universidade federal do rio de janeiro, no curso de direção teatral do qual sou graduando. o processo (que havia sido iniciado em outubro de 2009) resultou numa encenação da obra ESPERANDO GODOT de samuel beckett, que um mês depois das 2 apresentações curriculares na ufrj (em julho), cumpriu uma primeira temporada no teatro glaucio gill já como uma obra outra intitulada VAZIO É O QUE NÃO FALTA, MIRANDA (trabalho mais afinado do que aquele que havia estreado anteriormente na ufrj).

estava falando no redor para tocar na recepção acadêmica e universitária feita pela grande maioria dos professores em relação ao meu espetáculo. de uma cerimônia em que todos teceram seus comentários sobre os espetáculos integrantes da mostra universitária, infelizmente não tive muito o que retirar de suas opiniões em relação a minha peça, porque, assustadoramente, pouquíssimo foi falado sobre ela enquanto obra. o que era para ser um debate sobre o espetáculo virou um falatório incompreensível no qual se mesclaram discursos ultrapassados, demagógicos, preconceituosos e incoerentes. sobretudo, discursos pautados na tão famosa e démodé política da boa vizinhança, a partir da qual era necessário me rotular de excelente aluno para em seguida descerem-me o pau.

sim, isso me entristeceu profundamente. coloco uma reticências para ultrapassar o que não passou, de fato. [...] mas que o tempo leva, de qualquer forma. purguei meu horror das maneiras que pude, mas uma coisa não se purgou até agora: a exigência (que naturalmente não se assumiu enquanto tal) de que para me formar como um bom diretor teatral seria preciso concluir o curso apresentando uma encenação clássica.

santa incógnita que habita este céu sobre nós!, a que tempo pertencemos hoje? a que tempo eu pertenço neste agora? sim, mesmo que ninguém me responda, eu o faço, pois só há o agora tanto como resposta tanto como tempo para se responder toda e qualquer pergunta. não há outro tempo para a minha experiência enquanto aluno (e pessoa) que não seja está já, que acabou de passar, viste? eu vivo neste tempo como posso ser indicado a encenar nos moldes que não me pertencem, nos moldes que não me apetecem, nos moldes que fizeram já sua história, mas que - e isso me ensinaram - foram justamente moldes/respostas dados(as) ao terror do tempo contemporâneo ao de seus autores?

estou começando esse processo, eu acho, ainda acho, para tatuar sobre mim - neste tempo que me pertence e do qual sou partícula - a crença de que é preciso caminhar com os próprios pés. a crença de que assim como édipo (que já havia sido avisado de todo o seu destino antes mesmo d'ele começar), de que assim como édipo é preciso se perder por conta própria para poder se achar enquanto aquilo que se é.

acho que estou pronto para começar. como realizar uma encenação do maior clássico de todos? nunca foi feita uma encenação clássica de obra alguma. todas foram fruto de um determinado tempo e viraram clássicas nos corredores da história, no trotar das folhas, no escrever dos índices e nas salas de aula.

creio eu que testando a validade de toda a pompa de ÉDIPO REI sobre o nosso corpo de artistas é o que nos dará alguma coisa. testando se seus recalques ainda me seduzem. testando se suas rimas me seguram, se suas pausas me enrijecem. testando se todo o seu valor ainda me serve.

é este o desafio deste agora: tentar ser, de fato, ao invés de querer ser fato.

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Diogo Liberano

terça-feira, 12 de outubro de 2010

para fundar uma linguagem

continuo postergando algumas referências. tenho gostado de ficar bailando sobre o não-saber, sobre achismos, sobre especulações e verdades movediças. sim, pensando no que pode ser sem nem mesmo ter ponto de partida. pensando apenas, como quem sonha. eis que um dia, veremos, o sonho se fará encenação. é mais ou menos isso no final das contas.

engraçado. o fato de ter criado este blog já me faz entrar num movimento frenético de pensação sobre a peça. não é bem engraçado, mas é. enfim, eu hoje fiquei pensando: que dramaturgia será essa? hoje arrumando a prateleira de livros (fui juntando as poéticas, as coisas gregas, os eurípedes, sófocles, aristóteles, alguns platões aristófanes e por ai segue) eu me peguei pensando: com que palavras dizer tudo isso? com que palavras?

fundar uma linguagem. não quer dizer coisa inédita, não quer dizer nada grave. mas é um jogo que se desenha ali, estando já em jogo. não há nada prévio que assegure a diversão; caminho tortuoso. eu disse um pouco antes aquela coisa de começar do zero. veja bem, não é para tanto. há muito que se acumula aqui em mim. muito. passei por dois processos de direção na ufrj, onde sou aluno. e apesar de achar que sempre é um começar do zero, chego mais forte, mas não percebo isso, porque abuso da força e ouso ser ainda mais, ouse ser ainda mais grande.

sim. a linguagem vai falhando...
com que necessidade se faz uma nova linguagem? creio que isso venha por não se saber dizer. fundar uma linguagem não para se fazer compreender, mas para ver de outra forma aquilo que ali já se manifesta. daquele jeito. esquisito daquele jeito. tem a ver com mais ouvir do que falar. tem a ver com perceber e não escrever. ler e não gravar. com que necessidade se faz linguagem? sempre que se respira, por si próprio.
...quando nos dispomos a averiguar sua validade. nada dura tanto. nem a escrita, nem a cena. tudo convulsiona e começar do zero é desde já necessário. contradigo-me. paciência. assim vai ser. por onde começar? por aqui mesmo. por aqui. really.

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Diogo Liberano