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quarta-feira, 18 de abril de 2012

“O teatro e o seu bom uso”

por Rodrigo Monteiro

“Sinfonia Sonho” é o quarto espetáculo do Grupo Teatro Inominável, uma companhia que nasceu em 2008 a partir do encontro de estudantes de teatro da UFRJ e da UNIRIO. Com dramaturgia construída ao longo do processo a partir de várias referências, a representação do massacre do Realengo, ocorrido em abril de 2011, é a ponte além da narrativa mais visível. Um homem, um dia, entra armado em uma escola pública e mata vários estudantes aleatoriamente, atirando em si próprio depois em um dos corredores. Incompreensão, dor. Mães que perdem seus filhos, a escola não mais como um lugar seguro, a criança como uma promessa de futuro agora inexistente. Eis aí o desafio: como tratar de um acontecimento de proporções tão graves, com conseqüências tão sérias e sentimentos tão profundos em uma cidade e em um país que parecem não gostar de lembrarem-se de coisas ruins? Com 24 anos, Diogo Liberano, que assina a dramaturgia e a direção, enfrenta aqui o desafio e vence. “Sinfonia Sonho” é um espetáculo teatral que emociona sem ser piegas, faz pensar sem ser moralista, entretém sendo bastante responsável.

Em cartaz no Teatro Sérgio Porto, “Sinfonia Sonho” se apresenta com elementos que remetem às peças didáticas de Bertolt Brecht, embora aqui a questão não seja politicamente ideológica, mas diga respeito à violência com que tratamos a nós mesmos, os nossos e aqueles que não conhecemos. Não há cortinas que abrem no início (gestão tão raro ultimamente) e o diretor entra em cena, participando da peça, lendo as rubricas previstas no texto. Não há também coxias e a encenação prevê a delimitação de um espaço em que os atores se sentam e assistem às cenas quando não estão nelas. Os ganhos da encenação se vêem na forma como a peça constroói a sua linguagem e, logo em seguida, a desconstrói. A divisão, por exemplo, entre espaço para atuar e espaço para esperar desaparece em alguns momentos. No mesmo sentido, a oratória pausada e irregular, que marca o teatro como não-realidade, se transforma por vezes em um tom absolutamente natural, bastante próprio do real além da narrativa. As expressões corporais e faciais agem no mesmo vai e vem do discurso oral, o que, e aí está o maior ganho estético da produção, não permite que as emoções se aprofundem além da consciência, que o espetáculo caia no melodrama e que a catarse perturbe a reflexão. Não há nenhuma gag de humor negro, mas o riso vêm mesmo assim quando a forma aparece mais do que o conteúdo, um sinal aparente de despertar o espectador para o que se está (vi)vendo. Se “Sinfonia Sonho” é uma produção cheia de méritos pelo conteúdo abordado, a forma escolhida é seu maior lucro.

Kevin e Célia são filhos do casal Eva (Virgínia Maria) e Frank (Dan Martins). A morte do pai de Frank e a transferência de trabalho de Eva, faz com que a família se mude de cidade no dia do aniversário de Célia. Na nova casa, a família é vizinha de Corley (Andrêas Gatto) e Moira (Laura Nielsen), que vivenciam uma estranha gravidez (Gunnar Borges). Os ambientes familiares e suas questões são ponto de partida para ser o contraponto do mundo exterior ou, talvez, o seu espelho. Com um elenco constituído somente por bons trabalhos de interpretação, Liberano providencia um espetáculo de grandes qualidades também nesse sentido. No entanto, os trabalhos de Márcio Machado (Kevin) e, sobretudo, de Adassa Martins (Célia) se destacam positivamente, talvez, porque estão mais tempo em cena e, por isso, têm mais oportunidades de mostrar um excelente uso da voz e do corpo em prol do todo cênico. Coerentes com a concepção que embasa uma produção cênica disposta a representar um tema pesado de forma não tanto, não há grandes aparatos técnico-visuais em cena. Discretos, figurinos, iluminação e trilha sonora, agem positivamente pouco, embora o último quesito chame, talvez, mais a atenção do que realmente poderia. Em termos de dramaturgia, o aspecto negativo é a fuga da hierarquia, essa expressa no esforço de fazer de todos os personagens, em algum momento, o protagonista. Duas horas de narrativa parece ser tempo demais para o trato dessas questões dessa forma e o cansaço prejudica a fruição, mesmo que não lhe tire valor.

Na escola, Kevin e Célia estão ensaiando, cada um com sua turma, uma peça de teatro. A peça de dentro faz metáfora para a peça de fora. O teatro, no seu conceito mais sublime de um ator que interpreta um personagem diante do público, aparece aqui de forma bastante elogiável.

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Ficha técnica:
Dramaturgia e direção: DIOGO LIBERANO
Orientação de direção: ELEONORA FABIÃO
Assistência de direção: THAÍS BARROS
Direção de Movimento: HELENA CANTIDIO
Elenco: ADASSA MARTINS + ANDRÊAS GATTO + DAN MARINS + FLÁVIA NAVES + GUNNAR BORGES + LAURA NIELSEN + MÁRCIO MACHADO + NATÁSSIA VELLO + VIRGÍNIA MARIA
Direção Musical: PHILIPPE BAPTISTE
Cenário: LEANDRO RIBEIRO
Orientação de Cenário: RONALD TEIXEIRA
Figurino e Visagismo: ISADHORA MÜLLER + MARINA DALGALARRONDO
Orientação de Indumentária: DESIRÉE BASTOS
Iluminação: DAVI PALMEIRA + THAÍS BARROS
Orientação de Iluminação: JOSÉ HENRIQUE MOREIRA
Registro Fotográfico: RAFAEL TURATTI
Registro Audiovisual: THAÍS GRECHI + PEDRO BENTO
Preparação Vocal: VERÔNICA MACHADO
Designer: DIOGO LIBERANO
Assessoria de Imprensa: CAROLINA CALCAVECCHIA
Marketing Cultural: DAVI PALMEIRA
Produção Executiva: ADASSA MARTINS + GUNNAR BORGES
Direção de Produção: ALINE RABELO + DIOGO LIBERANO
Realização: TEATRO INOMINÁVEL + UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO [UFRJ]

Fonte: http://teatrorj.blogspot.com.br/2012/04/sinfonia-sonho-rj.html

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

separação e cegueira

é o tom dos últimos atos. na verdade, a divisão deles não é assim pá e pronto, começou um novo ato e uma nova configuração de cena já se instala. as coisas tão mexidas e misturadas. uma cena do segundo antecipa algo do terceiro ato. as cadeiras se separam assim como as personagens.

paragens. uns numa ponta, outros na outra, um outro só. no canto. o centro da cena convida a todos e a todas, porém, para o desmontar-se. as repórteres entraram. tem personagem implorando pra sair. e sai.

o palco vai se esvaziando e o desamparo acontece pleno. que horrível tudo isso. beleza. é horrível mesmo. franklin pela primeira vez calça os sapatos e parte. parte mesmo. menos um. logo ele. partiu. as crianças congeladas frente ao televisor. as repórteres são mais família do que outra coisa. estão coladas. são invasivas e perniciosas.

joana bravo e carolina wellerson. eva segura a cadeira no alto. é o peso da sua faca. é o peso que nem ela consegue sustentar, coitada.

corley cria raíz sobre o túmulo de tomas. tomas perde, enfim, todo aquele movimento. não há vento, mas talvez exista um ventilador ali.

kevin perde o movimento também. a cabeça pesa e dói como nunca antes. o desejo de virar música começa a empalidecer o espírito. o consome.

o cara das rubricas fica sozinho. bem feito. ele merece. moira congela mesmo. vira estátua. mas é só para nos enganar. na hora precisa ela vai dar o bote e enfim, todos nós sabemos para onde a coisa vai.

o centro não é mais centro. porque ele atira para todos os lados. o centro virá o famoso furacão, dentro do qual e por conta do qual as coisas todas são obrigadas a bailar desespero.

o desenho disso tudo está aqui comigo. vamos juntos, montá-lo. juntos vamos vivê-lo.

ui. medo e delírio.

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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

verde limão

vetores. traços. fluxos. tiras. esparadrapos.

a cena é uma equação matemática. diz respeito a pontos de partida e de chegada. mas ali, sublinhado em verde radioativo, há o percurso, o processo, o meio do caminho.

seriam pedras? se dilatando e se confinando? seriam estas personagens essa dureza buscando mobilidade? será besteira tudo isso?

como faz para bancar o drama dessas personagens? começamos com esta pergunta. existe um drama? isto é um drama?

como faz para bancar essas personagens? começamos de novo. é preciso bancar? ter que bancar não é excessivo, não é demais?

como faz essas personagens? recomeço. são personagens? realmente? são personagens?

como faz? doing.

entra e faz. sai. volta. faz. sai. entra e faz. entra e traz. entra e fica. e corta. e pula. e salta. e adeus. nunca mais. simples desse jeito. o drama não somos nós quem fazemos. a personagem é uma leitura exterior. eu não ando pela rua dizendo que eu sou diogo liberano. eu ando. certas coisas não são ditas, certas coisas são leitura externa do acontecimento ali acontecendo.

vamos nos ausentar de algumas exigências. vamos ficar mais tranquilos. o drama do mundo não somos nós quem fazemos. o drama do mundo está no olhar de quem vê. não em quem faz. a gente estrutura uma situação – uma cena – uma composição – e quando o olhar do cara cair sobre aquilo, pronto, nasce poesia.

não nos preocupemos. não existe um problema. metade do mundo é pseudo-questão. sem conspiração. sem perseguição. é leve, seguro e divertido. é maldade porque te faz voltar-se contra si próprio. é maldade porque te exige o auto-sacrifício. porque te exige se ver e se analisar. é maldade porque abre em ti um silêncio que você não vai conseguir verbalizar.

parece bobeirinha. parece mentirinha. parece poesia, enfim.

tudo bem. deixemos parecer. o mundo comporta em si mais do que podemos comportar em nós.

por isso ele é grande. e foge. e assusta.

por que eu estou escrevendo isso?

“nem sei” dirá tomas.

nem sei, tomas. mas deu vontade. e isso é só o que importa.

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terça-feira, 18 de outubro de 2011

semana 3/7

CRONOGRAMA DE ENSAIOS

segunda_17.OUT_19h/22h_andrews
ausente: virgínia

andrêas + dan = CRIAÇÃO DO BLOCO 06
andrêas + laura = AJUSTES BLOCO 05 + 14
adassa + dan + márcio = AJUSTES BLOCO 07
adassa + márcio = AJUSTES BLOCO 09
márcio = AJUSTES BLOCO 08
dan = CRIAÇÃO DO BLOCO 04

terça_18.OUT_19h/22h_andrews
ausentes: diogo e virgínia

dan = AJUSTES BLOCO 04
dan = CRIAÇÃO DO BLOCO 12
andrêas + laura = AJUSTES BLOCO 05 + 14
andrêas + dan = CRIAÇÃO DO BLOCO 13
adassa + márcio = AJUSTES BLOCO 09
márcio = AJUSTES BLOCO 08
laura = CRIAÇÃO DA POSTURA SOBRE A CADEIRA PARA OS BLOCOS 01 + 02 + 03

quarta_19.OUT_19h/22h_andrews
ausente: adassa e diogo

andrêas + dan = AJUSTES BLOCOS 06 + 13
andrêas + laura = AJUSTES BLOCOS 05 + 14
dan + virgínia = AJUSTES BLOCO 10
márcio + virgínia = AJUSTES DIÁLOGO BLOCO 03
márcio = AJUSTES BLOCO 08

quinta_20.OUT_19h/22h_andrews

trama geral das três primeiras cenas (DECORAR RUBRICAS)
leitura das cenas três SINFONIA SONHO + quatro MASSACRE LOCAL + cinco NÃO-DIVISÃO CELULAR

sexta_21.OUT_19h/22h_andrews

continuação da trama geral das três primeiras cenas (DECORAR RUBRICAS)
estudo das cenas três SINFONIA SONHO + quatro MASSACRE LOCAL + cinco NÃO-DIVISÃO CELULAR

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seguem abaixo indicações para a criação dos blocos restantes:

BLOCO 04 > FRIO APODRECER

> sentados (frontalidade): adassa + andrêas + laura + márcio + virgínia
> de pé (livres no espaço): dan
> leitura das rubricas (ANDRÊAS)

BLOCO 08 > UM LEITMOTIV

> sentados (frontalidade): adassa + dan + virgínia + andrêas + laura
> de pé (livres no espaço): márcio
> leitura das rubricas (ANDRÊAS)

BLOCO 12 > CESSAR DÚVIDAS

> sentados (frontalidade): adassa + márcio + virgínia + andrêas + laura
> de pé (livres no espaço): dan
> leitura das rubricas (ANDRÊAS)

BLOCO 13 > SER PAI

> sentados (frontalidade): adassa + laura + márcio + virgínia
> de pé (livres no espaço): andrêas + dan
> leitura das rubricas (ANDRÊAS/DAN)

16 \\

07 de outubro, Colégio Andrews, 19h/22h.
Thaís, Andrêas, Laura, Adassa, Márcio, Dan, Virgínia, Diogo e Helena Cantídio.

helena puxou uma preparação com os meninos. levou um óleo e partiu de uma auto-massagem corporal. puxou um excelente trabalho sobre a musculatura do olho. sobre a inteligência da musculatura. em seguida, retomei alguns jogos que há tempos não fazíamos. alvo, cinto de segurança. pensamos o PV de cada personagem a partir de palavras que fui tirando do texto (recebido no dia anterior):

domingo + olho + amanhã + aniversário + cuidado + escuro + espera + cansado + dinossauro + raciocínio + surpresa + carro + ajustes. depois fizemos uma leitura das cenas. apostei que franklin leria as rubricas sobre a família de corley e corley aquelas que descrevessem as ações da família de franklin. foi super curioso. por último, fizemos uma improvisação do prólogo FESTA CÉLIA.

as figurinistas e o cenógrafo fizeram uma primeira apresentação das ideias. tudo simples, mas lugares que haviam sido intuídos e que pareceram a eles potentes de se desbravar. por último, apenas um pedido: decorar o texto.

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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

distanciamento

estou pensando em brecht. não que eu saiba de alguma coisa. sei apenas do que ele cavou em mim. sei da minha compreensão acerca de alguma fagulha de seu universo. penso em distanciamento. penso em não iludir, mas te fazer cair dentro por via outra, mais essencial, mais especial. afinal, é sabido que estamos fazendo uma peça. logo, o que pode haver de saldo maior a partir desta certeza? o que gostaríamos que você soubesse mas que é preciso decifrar?

quero dizer que a história ali sendo encenada não interessa exceto por aquilo que ela pode fazer brotar aqui em nós que a assistimos. é uma sensação quase inédita essa. eu aqui confundindo os diálogos e me vendo sentado ante aos atores. eu pensando como posso fazer para receber tudo aquilo como se fosse a primeira vez. eu me esforçando como nunca antes para ser espectador, de profissão.

as referências todas morreram. o que estamos construindo vem por pernas próprias. bem, pode ser que sejam semelhantes ao concreto que dá solidez ao mundo, mas são pernas autônomas e que respiram por si só. eu aqui escrevendo hipérboles quando dentro de mim uma hipérbole maior me consome. a forma, meu deus, a forma. ela está gritando, ela está dizendo e eu esperando?! como pode?

ponto parágrafo.

eu preciso escrever a cena massacre local. creio que nela reside o epicentro disso que me angustia. esta cena me faz estar frente a frente com aquilo que me aterroriza. com tudo o que me endoidece e machuca. tenho a sensação que tudo foi escrito para que se chegasse a este momento. imagina, cara, o seu filho sendo alvejado por um qualquer. imagina a sua criança, de banho tomado, cabelo penteado, indo feliz para mais um dia de aula e simplesmente ela não voltar. não pode. o mundo tá muito errado. alguém precisa falar disso.

eu não sei se sou eu quem deve falar. mas sem dúvida estarei tentando. é preciso. é menos mensagem e mais necessidade. é abrir o corpo sobre o jornal de cada dia e ver em qual manchete ele cola. sobre quais corpos ele se enrijece e depois chora. eu não sei. eu estou procurando algum distanciamento para colar sua atenção nesta coisa. pra colar sua dispersão na minha.

distanciamento para ver melhor, é? então tenta colar aqui. o que será que veremos? que o sangue escorre invisível e incolor.

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