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domingo, 27 de maio de 2012

“A peça está pronta! A peça está pronta! A peça está pronta”

Bom, de acordo com a inominável Adassa Martins, nosso espetáculo Vazio é o que não falta, Miranda realmente está de pé. Bom, há quem duvide. De qualquer forma, o início de nossa temporada está chegando. Já no sábado que vem, dia 02 de junho, às 20h na Cia. dos Atores (Rua Manoel Carneiro, 10-12, Lapa), o Inominável retorna aos palcos com o seu espetáculo xodó.

Em cena, as quatro atrizes da companhia (Adassa Martins, Caroline Helena, Flávia Naves e Natássia Vello) e o diretor e dramaturgo Diogo Liberano tentam a todo custo encenar a obra máxima de Samuel Beckett, Esperando Godot. A montagem estreou em 2010 e agora, a convite da Cia. dos Atores, retorna para a sua terceira temporada.

Muitas pessoas que já assistiram ao espetáculo, quando convidadas novamente, dizem o clássico “eu já assisti”. Bom, com toda sinceridade, MIRANDA não consegue ser a mesma por muito tempo. A pesquisa e o trabalho, desde 2010, modificou tudo o que tínhamos e aprofundou nossas buscas enquanto companhia. A dramaturgia é inédita e, naturalmente, o jogo cênico é também renovado. Vejam de novo!

Permaneceremos em cartaz de 02 a 18 de junho, aos sábados, domingos e segundas, sempre 20h. A entrada é franca, portanto, não deixem de vir. A lotação do espaço é de 60 lugares e - em breve - divulgaremos os três convidados que virão bater um papo antes de três apresentações.

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quarta-feira, 1 de junho de 2011

APRESENTAÇÃO. Princípio imanente: o desejo

 

Em mim cabe todo o mundo.

Não me peça, porém, que o reduza aos meus pés.

Deixe-me lançar ao impossível
E caso assim não seja,
Deixe-me, como a xícara suja sobre a mesa

Corpo usado
Esquecido
Mas borrado
a desejo.

Trecho de Borrado a desejo.

Em 2010, durante o processo de montagem do espetáculo ESPERANDO GODOT, para a disciplina Direção VI, entrei em contato com o livro O ANTI-ÉDIPO de Félix Guatarri e Gilles Deleuze. Por meio desta obra, toda uma estrutura familiar é posta em cheque com intuito de libertar a potência revolucionária que é o desejo. Para o presente projeto, eu parto deste livro visando endossar conceitualmente a minha busca.

Pois como validar seus desejos e aceitá-los sem restrição? Durante os meus seis anos de graduação, foram inúmeros os momentos em que me peguei pensando sobre como tornar um desejo algo estético, algo dramático, algo capaz de se estender de mim até você. Eu pensando sobre como estender a você aquilo que também me sensibilizava ou fazia doer. Eu pensando no desejo feito ponte e não como muro.

Para mim, versar sobre o desejo é também brincar com intuições, crendo em possibilidades outras que não somente a do saber. Diz respeito ao corpo, à descoberta feita em jogo, em movimento e flerte com o mundo. Num primeiro momento, O ANTI-ÉDIPO diz respeito justamente a isso, a esse libertar e desbravar do desejo não como sintoma de algo a ser entendido ou resolvido, mas como condição básica de existência.

Assim, da obra de Deleuze e Guattari, escolho apenas o capítulo inicial, intitulado AS MÁQUINAS DESEJANTES, por ser ele aquele que me descortinou a condição humana do ser que deseja. Utilizo-me deste capítulo para estimular a emergência de uma dramaturgia a ser construída em processo, tendo os atores também como autores desta construção.

Pois, ao mesmo tempo, persiste na obra de Deleuze e Guatarri uma validação do utópico não como sonho, mas feito possibilidade. Um olhar que não teme assegurar o impossível porque o impossível torna-se, ao lado de tudo, só mais uma opção. E é neste ponto que reside a minha principal questão: como tornar possível aquilo que não se tem como possibilidade?

A poesia vem então como meio de fuga para a cilada que se tornou o real. Para sair das linhas já marcadas, para colorir com outras cores e noutras intenções, pulam-se linhas e movem-se versos a fim de trazer ao corpo a sensação ainda não todo nomeada. Pois o corpo clama por indefinição. Clama por arrepio capaz de o aniquilar. O corpo clama por todo o mistério que nós matamos ao nomear.

E para além de alguma forma, para além da crise do conteúdo e da linguagem, eu agora paro para narrar uma fábula, um acontecimento dentro do qual as personagens espelham a vida. A nossa encenação, no final das contas, será este filtro capaz de transtornar a fidelidade deste espelho. Para que possamos, enfim, descobrir na complexidade da própria vida o real prazer de se estar vivo e operante: a sua poesia,

Ou tudo aquilo que não cabe (somente) em palavras.

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sábado, 8 de janeiro de 2011

nem tanto lá nem tanto cá

eu quero dizer, eu sonhei. acho que foi sonho. sabe quando você acorda e há algo te puxando a atenção, algo que você não sabe bem o que é e que chega a ti pela metade, meio que cifrado, meio que encantadoramente misterioso? pois então, quase sempre é uma imagem tornada real em sonho. e você amanhece assim louco querendo saber de onde veio tanta intensidade. é que eu fiquei em sonho entre. eu acordei com essa sensação. havia um pacto aqui entre quem nos via. e o chão era incapaz de ser furado. e o céu era incapaz de ser atingido. estávamos assumidamente neste espaço sem fundo nem teto. para além de chão e tetos, estávamos concretos ali naquela planície, naquele platô. naquele palco, ou na bandeja, beckett. sim, sendo oferecidos como janta e sobremesa para todos os que ali quisessem nos ver, consumir. resumo: nada abaixo, nada acima. tudo ali entre a gente acontecendo, uma ânsia profunda para perfurar o chão e para voar. mas não. calma. vamos com calma. para onde eu iria? me parece agradável ali permanecer, desde que frisando que há o chão, que há o teto e que há entre os dois todos nós. ansiosos ou não para perfurar e voar. ansiosos ou até mesmo capazes de ali durar. eu não sei se foi sonho. ou se eu estava acordado. não é nada demais. é uma intuição, mais com forma do que todas até então.

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Diogo Liberano

domingo, 26 de dezembro de 2010

"Deleuze e nós"

Publicado em 14 de março de 2010

Se há um nós no meio de certo filósofo é porque seu pensamento conceitual continua capaz de atrair interferências
Esse título é plágio da fórmula “Espinosa e nós”, presente em um pequeno texto escrito por Gilles Deleuze (1925-1995) em 1978, retomado em 1981, no final de seu Espinosa – Filosofia prática. A fórmula era assim entendida: “Nós no meio de Espinosa.” E se há um nós no meio de certo filósofo, no meio das vagas e labaredas de suas obras, é porque seu pensamento conceitual continua capaz de atrair nossas interferências, justamente por força de tudo que acontece em seu meio. Evidentemente, esse nós não sugere unanimidade intelectual ou de sentimentos. No mínimo, é um plural de convergências e divergências dos mais diversos matizes. E cada um desse nós, aventurando-se como pode, retoma a pergunta: que acontece no meio de Deleuze?
Acontecem afetos afirmativos, sente-se no rosto um novo frescor e novos ardores, nova maneira de termos encontros até inocentes com o pensamento, sem o cultivo da morte da metafísica ou do fim da Filosofia. Nesse meio, evitamos o hábito do obituário e a presunção dos transcendentes. Por que esse meio de Deleuze nos livra disso e mantém viva uma interessante possibilidade do pensamento filosófico? Não só pela perspicácia, pelo humor e até beleza de muitos dos seus textos, e nem apenas pelo aspecto saboroso de alianças que ele estabelece ao longo de uma quebradiça história da Filosofia. Sim, história quebradiça, porque, ao invés de condenada a blocos da monotonia cronológica, essa história pode ser aberta a viagens plenas de vigor, tão rigorosas quanto intensas. E quando ela se abre assim nesse meio? Quando o pensar se sente tomado por uma dramaturgia de idéias, por um problemático jogo de forças desterritorializantes, forças que se exercem como seleção e recriação de horizontes conceituais que pulsam nos grandes ou pequenos sistemas filosóficos. Sente-se isso no meio de Deleuze, seja por leve inspiração indireta, seja quando o acompanhamos diretamente em suas curtas ou longas estadas o obrigando a pensar. É que, em vez de pensar sobre isto ou aquilo, esse meio deleuzeano nos faz experimentar a necessidade de pensar com, postura que leva o conceito não à presunção de comandar, mas à tarefa de se determinar com aquilo que ele determina, postura que vai esculpindo as condições necessárias para que as idéias se sintam bem a serviço da expressividade do caso, do acontecimento, das questões, dos problemas, das frases alheias, desta ou daquela singularidade. É o que se pode notar até mesmo em um breve esboço dos grupos de escritos aí encontrados.
1. Com efeito, nesse meio, a escrita nos leva a passear com novos olhos por paisagens conceituais que julgávamos fixadas em estudos certamente relevantes, mas não únicos. E eis que ganhamos um novo Hume com Empirismo e subjetividade (1953), livro que nos remete à idéia de um empirismo superior, graças a relações exteriores aos termos relacionados. Ganhamos um novo Proust com Proust e os signos (1964; 1970), no qual, ao invés do apego ao passado empírico, o que se enreda em mundos de signos a serem desvendados é o aprendizado de um homem de letras.
2. E mais: ao lermos Nietzsche e a Filosofia (1962), e até o pequeno Nietzsche (1965), além do decisivoEspinosa e o problema da expressão (1968), assim como a retomada do pequeno Espinosa (1970) emEspinosa – Filosofia prática (1981), o que vemos conceitualmente justificado é a junção Nietzsche-Espinosa como guerreiros afirmativos, desses que combatem por uma vida eticamente valorizada e não moralmente depreciada. E não seria abuso juntarmos a essa dupla o nome de outro guerreiro, François Châtelet, a quem Deleuze, em Péricles e Verdi – A filosofia de François Châtelet (1988) presta uma digna homenagem ao ativar o conceito de combate na imanência.
3. Os incorporais dos estóicos ganham efervescente operatoriedade em Lógica do sentido (1969), dimensionam a idéia de acontecimento nesse livro, que também nos reanima quanto a Epicuro, a Lucrécio. Compreende-se a coloração bergsoniana desse meio com a leitura das linhas de diferenciação já armadas em O bergsonismo (1966). E como que aplicando uma crítica de Bergson a mistos mal compostos, encontramos importante desmontagem do misto denominado sado-masoquismo em Apresentação de Sacher-Masoch (1967).
4. Em outro cruzamento de latitudes e longitudes desse meio deleuzeano, uma nova explicitação conceitual da dobra barroca nos surpreende em A dobra – Leibniz e o barroco (1988). E boa surpresa reaparece nessa mesma obra, por força da idéia de acontecimento: reencontramo-nos com o conceito de ocasião atual, de Whitehead. Há toda uma variação de perspectivas que se acumulam nesse cruzamento. Com efeito, pouco antes, Deleuze publicara seu benquisto e conhecido Foucault (1986). Nesse cruzamento de atenções, está em pauta a questão das combinações das forças atuantes no homem e das forças do fora. Se, com Leibniz, nossas forças se combinam com aquelas de elevação ao infinito sob a forma-Deus, o problema que agora se coloca já não é esse, e nem mesmo aquele que consiste em submeter à forma-Homem as relações entre nossas forças e as que configuram nossa finitude na vida, no trabalho e na linguagem. O problema que se impõe a ambos é o da dissolução da forma-Homem por efeito de outra composição: as forças atuantes no homem combinam-se com forças de ilimitação do finito, aquelas que potencializam a produção de combinações praticamente ilimitadas de conglomerados finitos de componentes. É fácil notar uma das linhas favorecidas por esta combinação: a linha de proliferação dos controles na sociedade.
5. Mas nossas viagens por esse meio não param aí. Encontramos inovações na maneira pela qual, em Superposições (1979), são conceitualmente pensadas as operações com que Carmelo Bene cria seu teatro menor. Em O esgotado (1992), por sua vez, é com Samuel Beckett que nos encontramos, um Beckett que obriga Deleuze a distinguir conceitualmente o esgotado (que desliza por disjunções inclusivas) do fatigado (que pratica o jogo das disjunções exclusivas): enquanto o fatigado só esgotou a realização e já nada pode realizar, o fatigado esgota todo o possível e nada mais pode possibilitar, coisa que lhe ocorre de várias maneiras. Há uma intensidade no esgotamento, assim como, na pintura de Francis Bacon, há intensidade na dissipação da imagem. Essa pintura é acompanhada em Lógica da sensação (1984), obra que tematiza a passagem da matéria-forma à matéria-força.
6. Visitamos também o cinema e a literatura. Mas não para falar sobre este ou aquele filme, sobre este ou aquele romance. Com o socorro de filmes, de estudos dessa arte, dos que pensam a respeito do seu trabalho cinematográfico, trata-se de elaborar conceitos do cinema, isto é, de discriminar seus signos e de pensar relações constitutivas dessa arte em suas variações decisivas. É o que lemos em Cinema 1: imagem-movimento (1983) e em Cinema 2: imagem-tempo (1985). Além do cinema, há muita literatura conceitualmente pensada nesse meio deleuzeano. É o que ocorre no livro escrito por Deleuze em companhia de Félix Guattari, Kafka – por uma literatura menor (1975). Neste livro, certas noções ganham duradoura consistência, como a de agenciamento, a de devir imperceptível, de máquina social etc. E nele também aprendemos que fazer fugir é muito mais que criticar. Essa auto-exigência deleuzeana é praticada justamente em Crítica e clínica (1993), uma vasta reunião de textos, muitos dedicados à escrita literária: crítica, como traçado do plano de consistência da obra, e clínica como traçado de linhas sobre esse plano; o delineamento do bebê como combate, o de uma lógica extrema sem racionalidade, o da avaliação imanente, o dos cristais do inconsciente etc.
7. Esse meio ainda se abre à prodigiosa multiplicidade de outros recantos, como aqueles em que se reúnem os mais variados textos e entrevistas: Diálogos (1977; 1996), escrito com Claire Parnet;Conversações (1990), A ilha deserta (2002); e Dois regimes de loucos (2003), coletâneas extremamente importantes para quem se interessa pelas múltiplas facetas teóricas e práticas dos debates culturais e políticos contemporâneos.
8. Não apontamos ainda outros acontecimentos que duram nesse meio deleuzeano graças à colaboração havida entre -Deleuze e Guattari: uma nova teoria do desejo em O anti–Édipo (1972), desejo não mais marcado pela falta, mas por uma produtividade coextensiva ao meio natural-social-histórico; um vasto e complexo inconsciente espinosano distribuído em planos intensivos em Mil platôs (1980); e nova concepção do que seja ou deva ser a própria Filosofia. Sim, o meio deleuzeano é um convite para que estejamos atentos a relações de ressonâncias com outros domínios, relações não hierárquicas entre filosofias, ciências e artes, a respeito da Ética e dos combates na imanência pela dignificação do viver…
É claro que esses oito itinerários pelo meio Deleuze poderiam ser multiplicados. O que nos obriga a perguntar: seria esse meio o de uma dispersão de temas meramente justapostos ou, ao contrário, submetidos a um modelo interpretativo? Nada disso. Nele, qualquer coisa pode forçar o pensamento filosófico a cumprir sua única tarefa: a de sentir e pensar conceitualmente o jogo problemático constitutivo da coisa em seus encontros, o jogo que envolve a diferença e o problema em pauta a cada caso. Tarefa difícil e tematizada de modo exemplar em Diferença e repetição (1968). É que, a cada instante, o pensamento recai em um jogo antigo, o jogado entre quatro paredes da representação: a identidade do conceito, a analogia do juízo, a oposição dos predicados e a semelhança do percebido. Como subverter este jogo a cada instante? Tarefa difícil, para a qual o meio deleuzeano conta com uma proposição ontológica irredutível a receituários metodológicos: na experiência real dos encontros, todo e qualquer ente se diz univocamente como correspondências problemáticas entre diferenciações virtuais e diferenciações atuais. Assim, a problemática da diferença ganha uma nova imagem do pensamento filosófico.
Luiz B. L. Orlandi

é doutor em Filosofia pela Unicamp, mestre em poética pela Universidade de Besançon (França) e professor do Núcleo de Estudos da Subjetividade da PUC-SP. Autor de A voz do intervalo (Ática, 1980), organizador de A ilha deserta (Iluminuras, 2006) e tradutor de várias obras de Deleuze


Fonte: http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/deleuze-e-nos/

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

vazio é o que não falta

sim, falei anteriormente do meu redor. e o meu redor, inevitavelmente, me rodeia e me faz rodar. infelizmente, porém, sua dança por vezes é tão macabra que me faz querer desistir do passo, me faz querer parar no meio do caminho e solidificar. porém não fosse eu tão propenso ao impossível, eu já teria stopado de abrupto, já teria virado pedra e deixado de respirar. mas não, a força do meu redor é também sua fraqueza e é nela que eu encontro o aval necessário para combatê-lo e levá-lo ao encontro. sim, é perverso. eu sei.

no primeiro semestre de 2010, iniciei de forma prática um processo de direção dentro da universidade federal do rio de janeiro, no curso de direção teatral do qual sou graduando. o processo (que havia sido iniciado em outubro de 2009) resultou numa encenação da obra ESPERANDO GODOT de samuel beckett, que um mês depois das 2 apresentações curriculares na ufrj (em julho), cumpriu uma primeira temporada no teatro glaucio gill já como uma obra outra intitulada VAZIO É O QUE NÃO FALTA, MIRANDA (trabalho mais afinado do que aquele que havia estreado anteriormente na ufrj).

estava falando no redor para tocar na recepção acadêmica e universitária feita pela grande maioria dos professores em relação ao meu espetáculo. de uma cerimônia em que todos teceram seus comentários sobre os espetáculos integrantes da mostra universitária, infelizmente não tive muito o que retirar de suas opiniões em relação a minha peça, porque, assustadoramente, pouquíssimo foi falado sobre ela enquanto obra. o que era para ser um debate sobre o espetáculo virou um falatório incompreensível no qual se mesclaram discursos ultrapassados, demagógicos, preconceituosos e incoerentes. sobretudo, discursos pautados na tão famosa e démodé política da boa vizinhança, a partir da qual era necessário me rotular de excelente aluno para em seguida descerem-me o pau.

sim, isso me entristeceu profundamente. coloco uma reticências para ultrapassar o que não passou, de fato. [...] mas que o tempo leva, de qualquer forma. purguei meu horror das maneiras que pude, mas uma coisa não se purgou até agora: a exigência (que naturalmente não se assumiu enquanto tal) de que para me formar como um bom diretor teatral seria preciso concluir o curso apresentando uma encenação clássica.

santa incógnita que habita este céu sobre nós!, a que tempo pertencemos hoje? a que tempo eu pertenço neste agora? sim, mesmo que ninguém me responda, eu o faço, pois só há o agora tanto como resposta tanto como tempo para se responder toda e qualquer pergunta. não há outro tempo para a minha experiência enquanto aluno (e pessoa) que não seja está já, que acabou de passar, viste? eu vivo neste tempo como posso ser indicado a encenar nos moldes que não me pertencem, nos moldes que não me apetecem, nos moldes que fizeram já sua história, mas que - e isso me ensinaram - foram justamente moldes/respostas dados(as) ao terror do tempo contemporâneo ao de seus autores?

estou começando esse processo, eu acho, ainda acho, para tatuar sobre mim - neste tempo que me pertence e do qual sou partícula - a crença de que é preciso caminhar com os próprios pés. a crença de que assim como édipo (que já havia sido avisado de todo o seu destino antes mesmo d'ele começar), de que assim como édipo é preciso se perder por conta própria para poder se achar enquanto aquilo que se é.

acho que estou pronto para começar. como realizar uma encenação do maior clássico de todos? nunca foi feita uma encenação clássica de obra alguma. todas foram fruto de um determinado tempo e viraram clássicas nos corredores da história, no trotar das folhas, no escrever dos índices e nas salas de aula.

creio eu que testando a validade de toda a pompa de ÉDIPO REI sobre o nosso corpo de artistas é o que nos dará alguma coisa. testando se seus recalques ainda me seduzem. testando se suas rimas me seguram, se suas pausas me enrijecem. testando se todo o seu valor ainda me serve.

é este o desafio deste agora: tentar ser, de fato, ao invés de querer ser fato.

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Diogo Liberano